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Crianças em perigo

Em vez de tentar evitar tudo o que pode acontecer às suas crianças, os adultos deviam ocupar-se mais com aquilo que lhes acontece.

Miguel Tamen
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A ideia de crianças em perigo pode ser satisfatória.   Os jardins públicos onde saltitam pela trela entre colchões e avisos fazem suspirar por um mundo onde lhes seja facultado um acesso mais livre a fósforos, fritos e machados.  Os desportos infantis, que poderiam substituir essas liberdades, não ajudam: é neles obrigatório participar, e proibido ganhar. São muito diferentes dos espectáculos de sobrevivência sem regras em que entravam as crianças rancorosas da Pré-História.

É verdade que os próprios adultos preferem que a vida infantil não inclua grandes sustos ou desejos.   Mas sabe-se também que enquanto os pequenos desportistas jogam para o empate os crescidos se costumam agredir nas bancadas como vikings.  Fazem-no em nome dos direitos dos seres que lhes couberam em sorte, como das paisagens conhecidas ou dos recursos naturais.   Os adultos são quase sempre activistas das crianças; e as crianças são sempre objectos inertes dos seus activistas.

Será o perigo um jogo de soma nula?  Quando poupamos crianças a perigos não irão reaparecer noutros lados (viz. nas bancadas) as quantidades de perigos desse modo eliminadas?   É consensual que nunca nos países ricos as crianças tenham estado tão seguras; mas nos países ricos é também consensual que nunca o mundo foi tão perigoso.   Não é impossível que as porções de perigo à superfície da terra sejam realocadas periodicamente sem que a quantidade total de perigos se altere.

Pode perguntar-se assim se não será escusado facultar às crianças machados, fósforos e fritos, temendo-se além do mais que, providos de machadinhos, os petizes se dediquem a cortar a raiz ao pensamento.  Mas por outro lado é possível que a experiência de ir pela floresta fora, de apanhar sozinhas autocarros à chuva, e de perder às cartas, dê às crianças uma certa familiaridade com emoções causadas por perigos, que quando se voltarem a verificar na vida lhes causarão menos estupor.

Quase ninguém advoga dolo ou maldade em relação aos colegas de espécie mais pequenos; acreditar nas virtudes formativas da violência é só uma fantasia diferente sobre a eliminação preventiva dos perigos.  Não é portanto útil o fim da cordialidade entre os adultos e as crianças.  Mas talvez nas matérias da vida se possam usar doses menores de intervenção externa.   Em vez de tentar evitar tudo o que pode acontecer às suas crianças, os adultos deviam ocupar-se mais com aquilo que lhes acontece.

O facto é que as crianças não reagem se não lhes tiverem dado ocasiões para isso.  A supressão dos perigos reduz o repertório das emoções e encoraja a iliteracia moral; faz adivinhar que a maior parte dos adultos são no fundo crianças moralmente iletradas a que acontece calçar 42.  Uma das razões por que os desgostos da vida são vividos por tantos desses adultos de modo tão intenso e tão público é terem-nos tido relativamente tarde; foram também provavelmente em pequenos poupados aos perigos.