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"Eu, Giorgia". A autobiografia de Meloni antes de chegar ao poder

Antes de ser PM, Meloni elogiava Trump e queria aproximação à Rússia (mas antes da Ucrânia). Criticava o "eixo franco-alemão", com quem se tem entendido. O Observador publica excertos de "Eu, Giorgia"

Observador
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Giorgia Meloni tornou-se primeira-ministra de Itália em 2022 e, desde então, tem feito um percurso muito diferente do que as suas origens pareciam indiciar. Membro dos Fratelli d’Italia (Irmãos de Itália), tem mantido no poder o conservadorismo das suas ideias, mas não adoptou um registo de confrontação face a Bruxelas; depois da invasão da Ucrânia deixou de defender a aproximação à Rússia e as relações com Donald Trump têm tido altos e baixos. 

Em 2021, ainda antes de chegar ao poder, Meloni publicou um livro de memórias intitulado “Eu, Georgia”. Nele explanava a sua história de vida e as suas ideias políticas, numa espécie de longa confissão para se dar a conhecer aos italianos. O livro, que chegou agora a Portugal pelas mãos da D. Quixote, dá a conhecer as convicções da mulher que conseguiu liderar um dos governos italianos mais estáveis dos últimos anos. Mas também ilustra como Meloni adaptou algumas das suas propostas ao exercício do poder. O Observador publica excertos da autobiografia em que a primeira-ministra italiana se debruça sobre as suas ideias patrióticas e as suas propostas para a política externa de Itália.

Penso que o único “governo dos melhores” em que a Itália deve ter esperanças é um governo de patriotas. De pessoas tão corajosas e enamoradas desta nação, que não estejam dispostas a trocá-la por nada ou por ninguém. Eis a verdadeira revolução de que precisaria a nossa nação. Eis a missão dos Fratelli d’Italia e, como eu o vejo, de todo o centro-direita.

Porque, no fim de contas, a dinâmica política e histórica daquilo que está a acontecer em Itália é, na realidade, bastante simples se, também aqui, for olhado com distanciamento, como poderia fazer um observador externo. Quando uma nação de dimensão média vive uma fase de fraqueza – e é bem o caso da Itália de 2011 até hoje –, está por força sujeita às ingerências dos Estados vizinhos. Isto cria, no interior dessa nação em dificuldades, um confronto político entre quem reputa que seja melhor colaborar com o vizinho incómodo e pôr-se numa prudente posição de subordinação e quem, pelo contrário, reivindica a plena soberania e independência da nação. Nalguns contextos, esta contraposição degenera em recontros sangrentos, noutros permanece, felizmente, no âmbito da dialética política. Em Itália, este confronto manifesta-se entre quem reivindica “mais Europa” e quem se identifica como patriota. De um lado, quem está convencido, embora até de boa-fé, de que a posição certa da Itália seja a de Estado subalterno a uma UE em mãos do eixo franco-alemão; do outro quem, pelo contrário, reivindica para Itália um papel de igual dignidade à dos outros Estados fundadores da UE. Simplificando: de um lado o Partido Democrático, partido “colaboracionista” das ingerências estrangeiras, do outro os Fratelli d’Italia, o partido dos patriotas. E estou convencida de que será sempre mais nisto que reside a bipolaridade dos próximos anos em Itália. Porque, no fundo, a esquerda, mas não só ela, pensa que os italianos não são capazes de “andar na linha” sozinhos e que, por isso, é preciso uma espécie de acionista oculto com direito de veto sobre as opções nacionais que nos ensine como redimir-nos dos nossos pecados atávicos.

E eu não estou de acordo. Creio que os nossos vizinhos são por demais ciosos em ocupar-se dos seus interesses nacionais para nos dar uma ajuda sincera, e não viciada pelo seu egoísmo, nas nossas dificuldades. Creio que os únicos que podem tirar Itália da sua situação difícil somos nós, italianos, com um pouco de renovada coragem e amor-próprio.

"Há uma América profunda representada por setenta e cinco milhões de eleitores que votaram em Donald Trump e que não podem ser ignorados como se fossem todos uns exaltados com os cornos e a pele de bisonte. Muitos dos seus argumentos são também os nossos"

Reconstituir a relação entre o povo e o Estado é a tarefa histórica que nos cabe. É preciso um movimento de patriotas que interpretem autenticamente o espírito da nação, que defendam os seus interesses culturais, estratégicos e económicos. E, numa nação dividida e fragmentada, o dever dos patriotas é antes de mais o de recoser as muitas feridas que herdámos. Recordo que as teses fundadoras da Alleanza Nazionale afirmavam com coragem que era necessário recompor uma memória histórica partilhada que superasse as grandes fraturas da história italiana recente. E, todavia, isso hoje já não chega: um movimento de patriotas deve ter sobretudo uma visão de longo prazo, defender a identidade italiana como casa segura onde criar os nossos filhos e dar-lhes um futuro de serenidade, segurança, justiça e prosperidade. A pessoa individual está demasiado sozinha neste grande mundo, e o mundo inteiro é demasiado vasto e maravilhosamente rico de diversidade para nos servir de morada. O “cidadão do mundo” não é senão aquele que, incorrendo na ilusão de que pode fazer do mundo inteiro a sua casa, descobre a certa altura ser um “sem-abrigo”. Por isso temos ainda necessidade de pátrias. Sobretudo na nossa época.

(…)

Ocuparmo-nos de política externa significa para mim, em primeiro lugar, promover e proteger os nossos interesses nacionais. Para muitos outros quer dizer, pelo contrário, armar-se em fãs desta ou daquela potência económica. Nós, dos Fratelli d’Italia, não somos “filo” de nada e de ninguém, os fios quem os tem são as marionetas. Nós olhamos sempre para todas as questões de política externa na perspetiva de Itália. E eu tive oportunidade de verificar que essa nossa característica é muito apreciada no estrangeiro, muito mais do que a de quem se arma em cheerleader com pompons coloridos, crachás e camisolas, tipo a nossa esquerda com Obama, Macron, Merkel ou Biden. Vem-me à memória um aforismo de um rei espartano citado por Plutarco: “Falando com um estrangeiro que se gabava de ser considerado pelos seus concidadãos um filoespartano, disse-lhe o rei: ‘Seria melhor para ti gozar fama de patriota do que de filoespartano.'” Em síntese, portemo-nos como patriotas e seremos tratados com respeito, portemo-nos como lacaios e seremos tratados como lacaios.

"Devemos cuidar das nossas relações com a Rússia para evitar entregá-la com armas e bagagens a um eixo com a China. Seria devastador para os interesses europeus e ocidentais. É verdade que para o querer é preciso sermos dois, e também Moscovo tem de dar sérios passos em frente em relação à comunidade internacional"

Durante demasiado tempo a política italiana centrou-se só sobre factos nacionais. Subavaliou a importância de influir sobre aquilo que acontece fora das nossas fronteiras para mudar os destinos da nossa pátria.

Sempre me atraíram os povos briosos e orgulhosos do seu passado e da sua cultura. Também por esse motivo fascina-me o patriotismo dos norte-americanos e o seu apego visceral à bandeira nacional. Já não é questão de ser pró ou anti-EUA, mas de reconhecer que Europa e Estados Unidos estão irmanados por um laço indissolúvel e devem procurar juntamente vencer os desafios do futuro. É verdade que a América é complexa, e para nós não será sempre fácil confrontar-nos com a de Biden, que, bem depressa, já deu provas de como é desestabilizadora uma visão ideológica dos supostos “direitos humanos”, usados um pouco aqui e um pouco acolá para atacar novos inimigos. Mas há uma América profunda representada por setenta e cinco milhões de eleitores que votaram em Donald Trump e que não podem ser ignorados como se fossem todos uns exaltados com os cornos e a pele de bisonte. Muitos dos seus argumentos são também os nossos. Com essa América profunda nós, conservadores europeus, continuaremos a relacionar-nos de modo cada vez mais estável e profícuo.

Esta aliança servirá em primeiro lugar para conter a ascensão da China e o seu expansionismo. Pequim parece já não ter limites. Os seus interesses vão das matérias-primas africanas e da América Latina às infraestruturas estratégicas europeias, como portos e ferrovias. Em fundo está a Belt and Road Initiative, a chamada “nova rota da seda”, anunciada com grande pompa pelo presidente Xi Jinping. Uma iniciativa colossal que envolve sessenta e oito Estados no mundo inteiro. Estou convencida de que foi um gravíssimo erro permitir a deslocalização em massa de inteiros setores produtivos europeus para a China, mas que será ainda pior perseverar em querer lidar em pé de igualdade com uma potência que não joga com as nossas regras.

Exatamente por esta razão devemos cuidar das nossas relações com a Rússia para evitar entregá-la com armas e bagagens a um eixo com a China. Seria devastador para os interesses europeus e ocidentais. É verdade que para o querer é preciso sermos dois, e também Moscovo tem de dar sérios passos em frente em relação à comunidade internacional. Recordo muitas vezes com um sorriso quando Berlusconi vinha ao Atreju contar-nos os momentos em que, como presidente do Conselho, se tinha arranjado para evitar a guerra entre a Rússia e a Geórgia. Não sei se foi efetivamente assim, mas lembro-me bem do que foi alcunhado de “espírito de Pratica di Mare”, quando às portas de Roma se realizou uma cimeira da NATO alargada à Rússia, num espírito de cooperação cordial e positivo. Esses tempos vão bem longe, mas a Rússia é parte do nosso sistema de valores europeus, defende a identidade cristã e combate o fundamentalismo islâmico. Deve fazê-lo em paz com as nações vizinhas, e os Estados europeus que confinam com o grande urso russo devem poder olhar o futuro com serenidade, sem o temor de ver voltar a agressiva política imperial de Moscovo. Precisamos de um equilíbrio que assegure uma paz secular, definitiva, entre a Europa e a Rússia, e isto não se obterá com a política míope da contraposição musculada tão cara a Obama, primeiro, e agora a Biden. Se conseguirmos fazê-lo com inteligência, Ocidente e Rússia serão ambos mais fortes e seguros. E o dragão chinês estará um pouco mais só.

(…)

Ao sul das nossas costas encontra-se o grande continente esquecido, África, de que já falei. Com afeto, ainda primeiro do que com respeito. Como se sabe, o combate às causas profundas da emigração depende estreitamente e diretamente da sua estabilidade e do seu desenvolvimento económico. Enquanto não restituirmos a esses povos a estabilidade política e a soberania económica, estarão expostos a turbulências de toda a espécie e à fúria das milícias islamistas.

É assim porque o fundamentalismo islâmico é outra praga do nosso tempo. A derrota militar do Estado Islâmico na Síria e no Iraque não o debelou para sempre. Vive nas células terroristas adormecidas na Europa, nas milícias do Boko Haram, do Al-Shabab e muitas outras em África, na pregação de imãs perigosíssimos em todo o mundo e em muitas nações ocidentais. Penso nos cristãos perseguidos no mundo inteiro, que são muitas vezes esquecidos por uma Europa que parece já não ter alma, onde o relativismo cultural põe tudo e todos no mesmo plano. Da Ásia ao Médio Oriente, passando por países como o Egito e a Nigéria, o Congo e a Somália, até às notícias horríveis das crianças decapitadas em Moçambique. Milhares de pessoas arriscam a vida todos os dias pelo simples facto de professarem uma fé. Não podemos olhar para o lado e temos de usar todas as formas de pressão a fim de que deixe de acontecer. Penso em todas as mulheres que lutam contra o obscurantismo do islamismo salafita que as quer submissas. Também neste caso não podemos fazer de conta que nada se passa, e não é por acaso que os Fratelli d’Italia continuam a travar tais batalhas, com Daniela Santanchè à cabeça. Sobretudo quando isto acontece não apenas em países como a Arábia Saudita, mas também em Londres ou em Paris, em Bruxelas ou em Berlim, onde bairros inteiros são governados segundo a lei do Alcorão.

(…)

De resto, muitas das batalhas que conduzo garantem-me inimigos poderosos e perigosos. Mas eu, do alto da minha diminuta estatura, tenho algumas vantagens. Primeiro, não tenho medo de nada e de ninguém, e a única coisa que me apavora, como terão ficado a saber por estas páginas, é desiludir-me a mim própria e desiludir quem acredita em mim. Segundo, não sou chantageável, porque não faço coisas das quais tenha de envergonhar-me e não aceito ajuda de quem possa pedir-me alguma coisa em troca. Terceiro, não estou sozinha e, em geral, quem decidiu acompanhar-me nesta batalha é muito parecido comigo. Quarto, e último, sempre fui subavaliada, e essa, no fim de contas, é uma grande sorte.

É certo que é possível que um dia as coisas mudem. Muito provavelmente, se houvesse de chegar a poder mudar coisas que demasiada gente quer que fiquem na mesma, descobrirei então quão verdadeiramente determinados podem ser certos poderes. Tive isso em conta e decidi alinhar na mesma no campo de batalha. Como na Idade Média fazia quem combatia na primeira fila sabendo que podia ser o primeiro a cair, ferido por um dardo, ou como fazia quem na Grande Guerra avançava rezando a Deus para que os canhões o falhassem. Hoje já não se usam dardos nem canhões, os métodos de atingir-nos são muito mais sub-reptícios e sofisticados. Também tive isso em conta, mas não desertarei. É a guerra do nosso tempo e eu sou um soldado.