2006: um convidado inusitado aterra no Médio Oriente. Gerry Adams, líder do partido irlandês Sinn Féin (ligado ao movimento terrorista IRA), aceita um convite da Autoridade Palestiniana e chega para visitar Israel e a Cisjordânia. Em Jerusalém, explica como espera poder trazer lições do processo de paz entre Reino Unido e Irlanda do Norte para o conflito israelo-palestiniano: “O conflito anglo-irlandês foi durante muito tempo rotulado de incontrolável. Conversas sobre paz e processo de paz eram vistas como disparates, como uma fantasia. Mas provámos aos pessimistas e aos cínicos que estavam errados.”
A visita foi particularmente relevante pela decisão de Adams de se encontrar não apenas com os líderes da Autoridade Palestiniana, mas também com responsáveis do Hamas. Em Ramallah, o líder do Sinn Féin sentou-se à mesa com o deputado Ayman Daragmeh, do grupo palestiniano que sempre preferiu a luta armada. O Governo israelita recusou, por isso, encontrar-se com Adams.

Nesse mesmo ano, responsáveis do Hamas também visitaram a Irlanda do Norte para se encontrarem com antigos líderes do IRA. O objetivo era o de aprender como é que um movimento terrorista tinha conseguido ser parte de um acordo de paz bem-sucedido; e, em concreto, como é que o grupo tinha lidado com a questão da entrega do seu armamento.
Vinte anos depois, o caso irlandês apresenta-se como uma possível solução para resolver a questão do armamento do Hamas na Faixa de Gaza: entrega das armas para ficarem trancadas, com verificação de um órgão independente, e sua posterior destruição. Foi esta a fórmula que vingou no acordo anunciado pelo Presidente Donald Trump na semana passada, quando revelou, com pompa e circunstância, que o seu Conselho para a Paz alcançou um “acordo HISTÓRICO para o DESARMAMENTO TOTAL do Hamas”.
https://twitter.com/WhiteHouse/status/2082971225949638708
O problema? Horas depois, Israel dava conta de que não tinha sido informado de tal acordo e mostrava desagrado. E esse é um problema fulcral, já que o entendimento prevê que o Hamas apenas irá depor as armas se os israelitas se retirarem da Faixa de Gaza. Subitamente, o “acordo histórico” caía como um baralho de cartas.
“Trump precipitou-se”, declara sem margem para dúvidas Nathan Brown, professor especialista em Médio Oriente da Universidade George Washington, ao Observador. “O que é interessante é que ele usou isto como uma forma de pressão muito clara sobre Israel. Eles chegaram a um acordo com o Hamas que Israel não tinha aceitado. Mas agora estão a recuar. E, portanto, agora a pressão está também sobre o Hamas.” Pelo meio, milhares de pessoas continuam em Gaza à mercê da fome, da doença e das bombas israelitas que ainda vão caindo em alguns dias.
Quem guarda as armas, que tipo de armamento é entregue e como coordenar isso com Israel?
O acordo alcançado pelo Conselho para a Paz e pelo Hamas, a que a Associated Press teve acesso, prevê o seguinte: o Hamas irá entregar o seu armamento ao Comité Nacional de Administração de Gaza (CNAG), um órgão gerido por tecnocratas palestinianos, sob a supervisão de um Comité de Supervisão Internacional e de uma Força de Estabilização Internacional (militar). O CNAG fica responsável por armazenar esse armamento e impedir que o Hamas tenha acesso a ele. Nenhum destes organismos está ainda criado e a funcionar. E todo este processo avançará de forma gradual, passo a passo, sempre com uma contrapartida: por cada avanço na entrega de armamento, Israel recuará na sua ocupação militar de Gaza.
O entendimento, porém, está cheio de armadilhas e dúvidas não clarificadas. A primeira: o que acontece a esse armamento depois de ser armazenado? Bishara Bahbah, americano-palestiniano que fez parte das negociações entre os EUA e o Hamas, avançou uma hipótese ao Middle East Eye: “Provavelmente vão entregá-lo a terceiros, muito provavelmente os egípcios. E os egípcios, assim que tiverem essas armas, vão fazê-las desaparecer. O que significa que o Hamas nunca mais as vai ver.” É uma solução possível, mas não está ainda fechada — e Israel não veria com bons olhos que esse papel coubesse ao Egito.

Segunda dúvida: o armamento entregue é apenas armamento pesado ou inclui aquilo a que o Hamas chama “armamento defensivo”, como metralhadoras e pistolas? Não está fechado. E, como nota o The Times, a maioria do armamento de que o grupo hoje dispõe é, precisamente, AK-47s, metralhadoras automáticas, granadas e engenhos explosivos improvisados — e não os rockets ou sistemas de mísseis que constituiriam o tal armamento pesado.
Mas a grande incógnita que complica tudo está num último ponto: esse processo está dependente de um bailado coordenado com Israel, que deve ir retirando tropas à medida que as armas são entregues. “Tudo na proposta está interligado, com cada uma das partes a dar um passo e depois a parar para que o outro lado dê outro passo”, resumiu uma fonte presente nas negociações ao jornal emirati The National. E Benjamin Netanyahu não quer dançar.
Hamas pode ter cedido à pressão. Mas também pode estar a fazer bluff
Antes de aprofundar as motivações do primeiro-ministro israelita, é preciso responder a uma pergunta: por que razão o Hamas aceitou depor armas, uma linha vermelha que até aqui se tinha recusado a ultrapassar?
Vários fatores podem ter contribuído para isso. Fontes da negociação avançaram ao The Telegraph nos últimos dias que os mediadores terão ficado fartos do arrastar das conversações e os países árabes decidiram encostar os palestinianos à parede: “Os egípcios [disseram]: ‘Ou nos dão um sim ou não voltam’”, contou um dos presentes ao jornal britânico. O Qatar e a Turquia terão também pressionado o Hamas e, potencialmente, oferecido promessas de apoio no futuro para os líderes, caso decidam sair de Gaza, notou Alan Pino, antigo analista da CIA, num artigo publicado pelo Atlantic Council.
O especialista no Médio Oriente aponta ainda outras duas razões: a diminuição do apoio do Irão, preso na sua própria guerra com os EUA, ao Hamas; e a pressão interna dos habitantes de Gaza, exaustos e esfomeados. A BBC destaca ainda outro ponto: recentemente, o Hamas abdicou do seu conselho de cinco membros que até aqui participara nas negociações e substituiu-o por um único negociador, Khalil al-Hayya.
Mas como se explica então que tenham surgido declarações de membros do grupo aparentemente desafiadoras do acordo? “O Hamas não vai desarmar. Ponto final”, disse uma fonte palestiniana ao canal israelita Kan. “Não falámos em desarmamento, não falámos em entregar armas e não concordámos com nenhum envolvimento israelita”, acrescentou Ghazi Hamad, que faz parte da delegação negocial do Hamas, ao Wall Street Journal.
Como é habitual na diplomacia, tudo pode explicar-se com semântica, nota ao Observador Ahron Bregman, investigador do King’s College especializado no conflito israelo-palestiniano. “O Hamas não diz ‘desarmamento’ no sentido em que os israelitas o interpretam”, diz. Telavive gostaria que as armas fossem entregues para serem destruídas de imediato — mas não foi com isso que os palestinianos e o Conselho para a Paz se comprometeram. “Acredito que o máximo que o Hamas está disponível é para armazenar o seu armamento dentro da Faixa de Gaza em vez de o abandonar totalmente. Para o Hamas, abdicar das suas armas significa abandonar a sua missão principal, que é resistir à ocupação israelita.”
Deixar o armamento sair de Gaza, ficando completamente fora do seu alcance num possível futuro, seria um total contrassenso face à essência do Hamas, que sempre se definiu pela “resistência armada” — não por acaso, Hamas é um acrónimo para “Movimento de Resistência Islâmica” em árabe. No seu documento fundador, o Hamas afirma claramente que “não há uma solução para a questão palestiniana sem ser através da Jihad. Iniciativas, propostas e conferências internacionais são todas uma perda de tempo e tentativas fúteis.” Entregar as armas seria “o fim do Hamas como o conhecemos”, resumiu ao New York Times o colunista palestiniano Akram Atallah.
Mas os tempos mudam. Os três anos da ofensiva israelita contra Gaza deixaram Gaza arrasada e provocaram dezenas de milhares de mortos. Junto da população da Faixa, o apoio ao modus operandi do Hamas vai-se erodindo, como mostram os dados regulares do Centro Palestiniano para a Pesquisa em Política e Sondagem, citados pela Foreign Affairs: em setembro de 2023 (antes do 7 de Outubro), 51% dos habitantes de Gaza diziam que a resistência armada era a melhor forma de chegar a um Estado palestiniano; em outubro de 2025, o número tinha caído para 34%.

O Hamas pode estar a adaptar-se à situação em que se encontra, mas os analistas acham estranho que o grupo terrorista tenha avançado para esta decisão. “Desarmar totalmente seria uma mudança existencial para eles. E, em segundo lugar, muitos membros do Hamas deixariam de ter forma de se defender e ficariam expostos”, aponta Nathan Brown. “Por isso não consigo imaginar, seja por razões ideológicas ou práticas, que eles queiram desarmar-se totalmente.”
O professor Ahron Bregman aponta uma outra hipótese: a de que o Hamas esteja apenas a fazer bluff. “O objetivo é colocar a culpa em Israel por não cumprir com os passos exigidos, como retirar da Faixa de Gaza. Acreditam que, se o acordo cair, Israel irá arcar com as culpas.” A estratégia ganhou ainda mais fôlego com a decisão israelita de bombardear fortemente Gaza depois de ser anunciado o acordo. Brown concorda que esta é uma hipótese plausível: “A ideia de que o Hamas iria entregar armas antes de Israel sair completamente de Gaza parece-me muito, muito improvável.”
O grupo continua a ser uma estrutura impenetrável, cujas correntes internas são desconhecidas. Em abril, a Economist vaticinava que o Hamas continua tão radical como antes e que se sentiu galvanizado pela resistência do Irão aos ataques norte-americanos e israelitas. Outros notam que achar que os líderes de um movimento urbano de guerrilha conseguem controlar todos os seus membros é uma ilusão: “Algumas células podem entregar as armas, outras escondê-las e algumas, simplesmente, podem rejeitar o acordo”, declarou um analista ao El País.
Netanyahu não tem interesse em retirar de Gaza à beira de eleições. Só Trump pode resolver
Do lado de Israel, primeiro veio o silêncio. Quando Trump anunciou o acordo, não houve qualquer reação oficial por parte de Telavive. Fontes não identificadas começaram a falar entretanto aos jornais, dizendo que o país foi apanhado de surpresa. Até que Orit Strouk, ministra dos Colonatos (e membro do Partido Sionista Religioso), o assumiu publicamente: “Esta negociação foi feita por cima das nossas cabeças, em completa contradição com a nossa posição e está a ser assinada com um cerimonial estranho, enquanto esperam vincular-nos a ela”, escreveu no Facebook o governante. Membros das delegações de negociação, porém, disseram a jornais como o Haaretz que o tema estava a ser discutido há meses, com o conhecimento de Israel. A proposta final, contudo, não terá sido apresentada ao Governo de Netanyahu antes do anúncio.

Esta terça-feira, por fim, o primeiro-ministro israelita quebrou o silêncio. “O Presidente Trump pensa — ou a equipa dele pensa — que consegue fazer com que o Hamas se desarme e assim desmilitarizar Gaza. Estamos a olhar para isto, enviaram-nos um rascunho. Não concordámos, não é o nosso rascunho. Enviámos de volta os nossos comentários”, afirmou num vídeo.
A resistência de Telavive assenta em vários pontos. O primeiro e mais óbvio é a exigência de retirada das tropas israelitas que, desde que o acordo de cessar-fogo foi assinado, estenderam a sua “Linha Amarela” de 53% para 60% de todo o território de Gaza. Israel diz que não confia no Hamas e que só retira os militares da Faixa depois de o Hamas entregar todas as armas. O segundo é o facto de o armamento ir ser entregue a um órgão gerido por palestinianos. “Só um Governo israelita diferente poderia ter interesse em levar a cabo um acordo destes”, resume Nathan Brown.
Mas não se pense que um outro Governo sem Netanyahu e os seus parceiros que possa emergir das eleições de outubro vá naturalmente aceitar a proposta. O general Eisenkot, que lidera as sondagens, deixou-o claro: “O teste é se as capacidades militares e de governação do Hamas são desmanteladas”, escreveu no X. “Qualquer solução que não atinja este objetivo é um falhanço total.”
“Um Governo mais centrista talvez venha a estar interessado em restaurar um pouco a reputação internacional de Israel e em reparar as relações com os Estados Unidos”, nota o professor da Universidade George Washington. “Mas não terá uma política alternativa para Gaza. Uma retirada total de Israel de Gaza só acontecerá se houver uma pressão internacional tremenda, em particular dos EUA.”
A isso soma-se o descontentamento de Telavive com a possibilidade de o armamento ser entregue a países como o Qatar ou a Turquia, que atualmente vê como ameaças. De acordo com a Associated Press, Netanyahu terá levantado essa objeção junto do Conselho para a Paz, bem como a exigência de que as armas sejam destruídas em vez de armazenadas.

E Israel estará a conseguir exercer alguma da sua influência junto do Conselho. Não por acaso, depois de um encontro na segunda-feira entre o primeiro-ministro e o líder do processo negocial, Nickolay Mladenov, o Conselho emitiu um primeiro comunicado onde clarificava que “a retirada total das IDF para lá da Linha Amarela irá acontecer assim que o processo de desativação [das armas] esteja concluído” — e não de forma gradual de parte a parte. Minutos depois, o texto era corrigido e a linguagem tornava-se ainda mais favorável a Israel, falando apenas numa “retirada” e não numa saída “total”.
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Adivinha-se por isso um impasse no futuro: Israel recusa retirar as tropas e, portanto, o mais certo é o Hamas recuar na disponibilidade para depor as armas. Ninguém quer dar o primeiro passo.
Sobra o raio de ação de Donald Trump, que pode investir ainda mais no tema e pressionar as partes, em particular Telavive, sobre quem tem maior ascendente. “Não estamos a pedir a Israel que faça algo para lá do plano de 20 pontos com que concordou inicialmente, por isso estamos muito confiantes de que o vão cumprir”, disse um responsável da Casa Branca ao Financial Times esta quinta-feira. “Se não o fizerem, é óbvio que o Presidente Trump vai ficar muito, muito desiludido.”
Convencer Netanyahu a mudar toda a sua estratégia em vésperas de eleições, contudo, exigiria uma força nunca vista pelos norte-americanos nas últimas décadas face a Israel. “Seria um confronto total”, diz Brown. “Nenhum Presidente desde Eisenhower esteve pronto para aplicar esse tipo de pressão.”
Perante o que está em cima da mesa, é pouco provável que o “acordo histórico” venha a concretizar-se. “Israel fica contente em manter as coisas como estão. O Hamas não tanto, mas não tem capacidade de mudar nada”, acrescenta o professor. O que não significa que o grupo vá ceder: “Qualquer movimento deles em direção a um desarmamento da forma que Israel quer é impensável para eles.”
[A investigação ao espião português suspeito de vender segredos à Rússia é inesperadamente confrontada com uma vida dupla. Tem relações com várias mulheres do leste, é frequentador de bares de alterne e striptease e é ainda presença habitual em reuniões da maçonaria. Ao mesmo tempo, os serviços secretos norte-americanos querem montar uma armadilha à “toupeira” no interior do SIS. Já pode ouvir o segundo episódio do novo Podcast Plus “A Vida Dupla do Espião Traidor” no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube.]