Sono, agora publicado pela Quetzal, com tradução de Maria do Carmo Figueira, é o romance de estreia de Honor Jones, editora sénior da revista The Atlantic. Através de uma prosa limpa, acedemos à história de Margaret, que, agora com 35 anos, acaba de se divorciar e se vê forçada a confrontar a própria infância ao regressar com as filhas à casa onde cresceu. Ao longo da leitura, quem lê tem a ideia de que uma mãe, ou pai, é o resumo de duas famílias, ou o seu encontro – a de partida e a de chegada, ou seja, a que a produziu e a que ela mesma produz.
Logo de início, vemos Margaret em plena infância. Tudo parece idílico: as piscinas, o quintal, as panquecas ao fim-de-semana. O amor da mãe parece evidente, embora a própria seja exigente e frágil. Nos traços panorâmicos da narrativa, a parte inicial parece solta, espécie de registo bucólico, como bucólica é parte da infância, que contrastará com a vida com mais experiência – com mais manha, portanto. Este início importa porque dá ao leitor a ideia da infância como tempo sem rugas e sem pó, e porque faz com que esse tempo venha a contrastar com o que virá.
A sensação utópica do cenário desfaz-se abruptamente, tanto na narrativa quanto na vida de Margaret. No fim do Verão, desvanece-se o prazer da infância. E isto acontece em grande, com a menina a ser abusada pelo irmão mais velho, e a mãe a ignorar. Jones mostra a violação como uma experiência confusa, com mais nuances do que certezas – como uma espécie de névoa a ocorrer numa paisagem. Ao tratá-la, tudo é subtileza, incluindo as cogitações posteriores sobre o assunto.
A quebra da inocência irá servir para moldar a forma de Margaret estar no mundo. Em criança, Margaret é uma miúda normal, e, ao longo da leitura, percebe-se que tem em si não só uma capacidade de se controlar, doseando as próprias emoções, mas também um aparente instinto de sobrevivência que lhe deixa às costas o peso da própria vida, uma vez que se percebe que tem a sensação de que tem de resolver tudo a sós. Ora, 25 anos depois, Margaret é mãe de Jo e Helen, e ei-la escondida debaixo da cama dos pais, a jogar ao esconde com as filhas. Permanentemente, a personagem convoca dois papéis em simultâneo, e tudo é um, tudo é ela: é mãe das filhas e filha da mãe. Tem de curar os ecos do passado e garantir o futuro para as filhas, uma das quais com uma idade já próxima da idade que ela tinha na altura do abuso.

Vemos a personagem perseguida pelo trauma de infância, que lhe fica permanentemente atado, e Sono acaba por nos mostrar um olhar panorâmico sobre a vida, com a adulta a tomar decisões baseando-se na criança que foi. Ou seja, muito da sua acção presente vai beber a um passado distante, passado esse em que tinha uma identidade única – a de filha. Para mais, como Margaret trabalha como editora de artigos escritos por mulheres que sobreviveram a episódios de abuso, vê-se permanentemente perante as próprias feridas e pensa nos perigos que as filhas pequenas enfrentam ou enfrentarão.
As analepses, bem doseadas, vão revelando as dinâmicas familiares daquele núcleo que, logo à cabeça do romance, tinha o seu quê de quimérico. Mas, à medida que o enredo se desenrola, as partes idílicas do passado, como a procura pela cabra-anã perdida de um vizinho, as noites em casa de Biddy, melhor amiga de Margaret e até confidente, sucumbem perante uma família disfuncional como tantas outras. O contraste entre infância idílica e abuso funciona bem, assim como entre a vida inocente e a idade adulta, em que cabe a Margaret o papel de defender agora a inocência – a infância, portanto – das filhas. As interacções de Margaret com Helen e Jo vão mostrando ao leitor não apenas o quotidiano banal, mas também momentos comoventes, numa tentativa quase permanente de lhes preservar a candura, tentativa essa que é sublinhada pela sua própria perda em idade demasiado tenra.
À medida que a narrativa avança, o ajuste de contas torna-se inevitável. Vemos o confronto de Margaret com a mãe em relação ao que esta ignorou por ter decidido ignorar. O romance ata uma série de pontos, resolve conversas e emoções que ficaram a saber a coisa pouca. Sono incide sobre os ciclos – sobre o que se repete, o que fica a arder, e até a própria família como fardo cujo peso dificilmente ameniza. O final existe sem um baque, mas até isso parece coincidir com a proposta original, que gira em torno do que não é dito e do que não é resolvido. Sem redenção.
A autora escreve de acordo com a antiga ortografia.