Chega agora a Portugal, com selo da Quetzal e tradução de Telma Costa, Hipócrita, romance de Jo Hamya (1997), vencedor do prémio Somerset Maugham do ano passado. À medida que se lê, percebe-se o talento da autora, assim como a sua capacidade para calibrar estruturas: afinal, a arquitectura narrativa não é, ao longo do livro, um mero exercício formal, mas uma forma ampla de mostrar os conflitos internos que marcam as personagens.
Toda a narrativa decorre durante o tempo de duração de uma peça de teatro. Enquanto esta é apresentada em Londres, a autora vai abrindo janelas para outros tempos, que ali confluem, que explicam o momento e ali reverberam. Sophia, a dramaturga da peça, almoça com a mãe, tentando antecipar a reacção do pai, que está a vê-la – e que antes de a ver não fazia ideia de que tanto da acção se debruçava sobre si. À medida que isto se desenrola, o leitor regressa com as personagens às férias que pai e filha passaram numa ilha siciliana, logo após o divórcio.
A estrutura é ambiciosa, mas Hamya doma-a bem. Temos teatro, romance, memórias e diferentes tempos narrativos, que, além disso, ainda contam com sucessivas mudanças de perspectiva. Seria fácil perder o controlo, ou mesmo desencaixar os planos de forma a que a narrativa não soasse de forma natural. Ainda assim, o resultado da leitura é um leitor encaminhado pela mão, nunca se desorientando entre a prosa. E o romance lá se vai encaixando, alternando entre Londres e a Sicília, entre o palco e a memória, entre o presente e o passado, entre o que se passou e o que cada personagem julgou sobre o assunto.
A peça, convém dizer, inspira-se nas referidas férias que Sophia passou com o pai. Este pouco tempo lhe dedicou. Em vez disso, fez dela sua dactilógrafa e meteu-se a ditar-lhe o romance em que estava a tratar, ele que entretanto virara escritor em desuso. Durante semanas, a menina ali fica perante assuntos desadequados à idade: não só o livro é sobre um escritor que vive aventuras sexuais durante umas férias naquela mesma ilha como, à noite, ainda tem de ouvir o pai no quarto ao lado com mulheres desconhecidas. A adolescência parece ficar-lhe ali suspensa, e Sophia enfrenta sozinha uma experiência sexual com o filho adolescente da empregada. Nunca conta ao pai o que se passou e o que salta à vista é o desfasamento entre a ideia idílica das férias e o desconforto de Sophie. Ora, anos mais tarde, tudo isto é transformado na tal peça. Nessa altura, já o pai não publica um romance há muito e já pouco é citado. A peça da filha, no entanto, recebe óptimas críticas por todo o lado, que o pai evita ler. Ainda assim, lá se predispõe a ir vê-la. Julgando que está prestes a assistir ao triunfo de Sophia – triunfo que ele nunca teve –, só depois percebe que tudo aquilo se centra em si. A experiência de visualização acaba por transformar-se numa coisa desconfortável e humilhante – é a vida dele vista por outros olhos, olhos que não são abonatórios. Escritor, deixa ali de controlar a narrativa; em vez disso, é pela primeira vez personagem, dominada por rédeas postas noutras mãos.

Claro que, dito assim, tudo isto parece vingança, ou um ajuste de contas. Mas a subtileza de Hamya impressiona. Não só não há, ao longo do texto, acusações unilaterais, como o romance ganha densidade ao sair de qualquer formulação maniqueísta. Com a filha a virar autora, parece que o leitor assiste a uma disputa da propriedade da memória: quem terá o direito de contar uma história familiar? Onde paira a versão legítima dos acontecimentos? É nessas dúvidas que são colocadas perante as personagens que o romance mostra que é mais do que a história de um pai narcisista e de uma filha ressentida. E, invariavelmente, o acto da escrita – ou da criação – mostra-se como apropriação da vida de quem está à volta.
A própria autora disse numa entrevista que queria que o romance fosse uma “zona cinzenta”. E todo o livro é cinzentismo, já que o leitor não se depara com respostas fáceis, absolutas. O pai, que facilmente seria um vilão, é, na narrativa, mais do que o pai misógino e negligente. A filha está longe de ser vítima. E o teatro também não é a solução perfeita para se recuperar uma voz que foi calada – a voz daquela miúda que, no romance alheio, foi tratada como assistente de um processo criativo. Em vez disso, tudo converge, mostrando que qualquer acto vira fórmula complexa. E, se é bem verdade que a própria escrita da peça parece uma acusação (as férias feitas em quase solidão, o pai desinteressado de si, o romance que já na altura lhe parecia datado, anacrónico, uma sexualidade que lhe era atirada sem que o quisesse), também não deixa de o ser que Hamya abra a narrativa para as questões que se debruçam sobre as próprias raízes de qualquer narrativa: não só o pai fez com que o romance que escreveu naquele Verão fosse beber àquele Verão, como aquele Verão veio a ser a matéria em bruto para a criação posterior da filha. O que vai tendo graça nisto — e pelos vistos justifica o título — é que Sophia condena, e até despreza, a forma como a literatura do pai vai beber à própria vida. Numa espécie de acto moral, mas que lhe revela os mesmos traços, o mesmo impulso, utiliza-se da arte para a exposição do outro, seleccionando e reorganizando elementos para criar um fio narrativo.
O romance abre a janela para o debate sobre o próprio romance, sobre a própria arte. Pai e filha fazem o que fazem todos os artistas: recorrem à ficção para organizarem o mundo. E os dois vivem sob a ideia de que a criação literária justifica quase tudo, seja o conspurcar da vida alheia, seja a sua instrumentalização, seja o seu roubo. Em suma, justifica o vampirismo segundo o qual a arte está acima das consequências emocionais, pessoais ou sociais que recaem sobre os outros, que podem, em nome dela, ser utilizados como matéria-prima.
O leitor lá se pergunta se toda a literatura, ou toda a arte, é uma forma de apropriação da intimidade alheia, mas acaba por não ter tempo para responder, porque está a ver um pai, escritor, a ver uma peça sobre si escrita pela filha, argumentista. Literariamente ambicioso, Hipócrita mostra que Jo Hamya não brinca em serviço: além da ambição formal, ainda consegue uma prosa intensa e cristalina no mesmo movimento.
A autora escreve de acordo com a antiga ortografia.