Quando Thomas William Backhouse chegou a Lisboa, esperavam-no os jornalistas do Diário de Notícias. O experiente astrónomo britânico era um dos vários peritos de visita a Portugal e fizera a longa viagem a bordo do “vapor” Hillary para assistir a “apenas um segundo, quando muito” de eclipse total a 17 de abril de 1912. Representante do Observatório Astronómico de Sunderland, atracou em Lisboa no dia 6 e ainda ficou uns dias hospedado no Hotel Inglaterra, na zona do Estoril. Prometeu, depois de o eclipse terminar, que passaria ainda pela Serra do Buçaco e pela cidade do Porto.
Para ele, como para os astrónomos russos, franceses e de muitos outros países que chegavam a Portugal, o destino principal era outro: Ovar. Os peritos precisavam de montar os seus aparelhos de observação em espaços desimpedidos a tempo do eclipse e, por isso, vieram mais cedo. Sabia-se que o Sol ia ficar coberto pela Lua numa longa faixa que passava por Portugal, desde Ovar até Cambedo, e que seguia pelas Astúrias, por Paris, também pela Sibéria e pelo norte do atual território da Guiana Holandesa (atual Suriname). O eclipse percorreu quase o mundo inteiro, mas foi em Portugal que a maioria quis estar. Na imprensa da altura, descrevem-se “forasteiros aos centenares”, desde alemães, ingleses e franceses que se reuniram no Jardim dos Campos, em Ovar, para olhar para o Sol. À semelhança do que acontece agora em Bragança, a elevada procura por alojamento já excedia a capacidade da cidade, onde as poucas hospedarias albergavam simultaneamente os turistas curiosos e os observadores profissionais.
A 3 de abril de 1912, foi anunciada a vinda de uma “comissão de sábios ingleses” que vinham a Portugal assistir ao eclipse do Sol. Em representação da British Astronomical Association, o presidente Edward Knobel teria de ser recebido com pompa e circunstância. Numa peça da Propaganda de Portugal, é feita a recomendação ao governo para “facilitar os desembarques das pessoas que vierem observar o fenómeno e bem assim proporcionar aos sábios visitantes os transportes gratuitos nos caminhos de ferro do Estado”.


A revista Illustração Portugueza captou a descrição do eclipse solar de um dos maiores astrónomos da época, o francês Camille Flammarion: “Diâmetro da lua ligeiramente inferior ao do sol. Montanhas lunares projetadas sobre o anel solar produzindo os grãos de Baily em volta do disco. Vénus visível durante 20 minutos, Mercúrio somente um instante.” Além de todos os prémios e títulos que recebeu em vida, Camille Flammarion foi honrado com a designação de duas crateras em seu nome — uma em Marte e outra na Lua.
Mesmo com progressos significativos na área da previsão dos eclipses, os cálculos estavam ainda muito longe de serem tão precisos como no ano de 2026, o que causou “muita ansiedade” na véspera. Se hoje sabemos que o eclipse solar total desta quarta-feira, 12 de agosto, vai durar exatamente 26 segundos em Rio de Onor, Bragança, naquela altura sabiam apenas que ia acontecer uma ocultação do Sol naquela faixa de território, sem saber se seria total — e durante quanto tempo. Muitos viajaram durante dias para chegar a Ovar sem a garantia de um grande evento astronómico.
https://observador.pt/interativo/mapa-interativo-do-eclipse-saiba-o-que-vai-ver-onde-estiver-e-leia-14-perguntas-e-respostas-sobre-o-que-precisa-de-saber-para-quarta-feira/
Na edição de 29 de abril de 1912 da revista Illustração Portugueza, repetem-se imagens do momento em que a população saiu à rua para olhar para o céu. Desde vidros fumados como lente protetora dos raios solares, ao recurso às propriedades refletoras da água — olhando para o reflexo de uma fonte no Rossio, em Lisboa — para registar a ocultação do Sol, não faltaram métodos. Outros colocavam apenas as mãos sobre a testa, para tentar limitar a quantidade de luz que lhes chegava à retina (e que pode causar lesões irreversíveis). Já naquela altura havia questões sobre a segurança do vidro fumado para a observação do eclipse — pelo que, para esta quarta-feira, deve recorrer a óculos e filtros certificados, que naquele tempo ainda não existiam.
Os últimos quatro eclipses solares em Portugal
1984 – Eclipse parcial
1999 – Eclipse parcial
2005 – Eclipse anular
2015 – Eclipse parcial
O eclipse “híbrido” que abafou o naufrágio do Titanic na imprensa
No início da segunda quinzena de abril de 1912, o foco de toda a imprensa nacional é o eclipse. As notícias sobre o fenómeno astronómico têm maior destaque do que o naufrágio do Titanic, a 15 de abril. Aliás, tamanha era a importância deste evento que o Governo português dispensou das aulas os alunos de todos os estabelecimentos de ensino.
Nos jornais, surge o pedido de autorização que estudantes tanto da Universidade de Coimbra como do Instituto Superior Técnico endereçaram ao então ministro do Fomento, Estêvão de Vasconcelos, para ir em “missão de estudo” a Ovar. Francisco Miranda da Costa Lobo, um dos maiores astrónomos da história portuguesa, fez estabelecer 11 estações de observação no local, com a ajuda de jovens que estudavam astronomia em Coimbra. Estavam separadas cerca de 500 metros entre si, numa linha perpendicular à faixa da sombra, descreveu o astrofísico pioneiro ao Diário de Notícias.
Um dos equipamentos utilizados naquele momento foi, para além de todos os utensílios de fotografia que existiam à época, um “aparelho cinematográfico”. Esta operação conduzida pelo professor da Universidade de Coimbra terá resultado no “primeiro eclipse filmado extensivamente”, de acordo com o astrónomo historiador de ciência Luís Tirapicos, no artigo “Eclipses totais do Sol em Portugal: de 1900 a 1919”. Estas filmagens permitiram a Costa Lobo perceber que se tratou, na verdade, de um eclipse “híbrido”, com seis das suas 11 estações a captarem um eclipse anular.
Os que se deslocaram de propósito até Ovar encheram as carruagens da Companhia de Caminhos de Ferro Portugueses — que ofereceu “um serviço especial” para mobilizar portugueses e estrangeiros até à pequena cidade que, durante aqueles dias, se tornou num autêntico centro astronómico. A empresa transportadora procurou facilitar o acesso até Ovar por acreditar que “um eclipse total do sol é o espetáculo mais empolgante que é dado imaginar-se”. Acompanhada por uma breve e detalhada descrição da experiência de observação do anterior eclipse solar total, a Gazeta dos Caminhos de Ferro, a revista oficial d’A Companhia, anunciou, na véspera, “bilhetes a preços reduzidos para os pontos onde melhor se pode observar o fenómeno”.
Lisboa, Porto e vários outros locais do país onde houvesse uma estação ferroviária passariam a ter um reforço das rotas com destino a Ovar, com preços que começavam nos três mil réis para um lugar na carruagem de terceira classe, ou o dobro para primeira. “Por tão pouco dinheiro quem deixará de presenciar um espectáculo que talvez não torne a ter ocasião de observar no resto da vida?”, escrevem também na gazeta.
Muitos astrónomos nacionais e internacionais foram até Ovar para observar o eclipse por motivos, como referiu Costa Lobo, “de carácter propriamente científico e não simplesmente do carácter pedagógico”, mas vários foram também os ovarenses que saíram de casa para ver a Lua lentamente sobrepor-se ao Sol. Ovar era “muito pitoresca”, mas “infelizmente bastante pobre” na altura em que a República dava ainda os primeiros passos. Nas ruas erguiam-se “edificações de todos os feitios e tamanhos”, “da maneira mais irregularmente caprichosa que se possa imaginar”.
Nem todos saíram de casa. “Às janelas das habitações surgem gentis observadoras; as ruas, os largos e o adro da igreja principal pejam-se de espetadores, indivíduos de todas as classes, senhoras, crianças, em pé e em trens, carroças e automóveis”, lê-se na reportagem do Diário de Notícias, publicada no dia seguinte.
Nos curtos momentos em que o Sol ficou oculto, relatam-se as movimentações abruptas das aves que, “espavoridas”, procuravam os seus ninhos, tal como o aparecimento de estrelas no céu — apesar de os relógios marcarem, apenas, 11h38. “Os espectadores interessados discutem com calor a probabilidade de o eclipse ser total”, descrevem. A “concorrência de forasteiros” que foi até Ovar para ver o fenómeno foi “enorme”, continuam, mas ainda assim inferior à do eclipse de 1900 — cujos relatos indicam ter recebido mais de duas mil pessoas. Nessa altura, foram pouco mais de dois minutos de escuridão naquela mesma cidade e não houve margem para dúvidas relativamente à tipologia do eclipse.


Os “forasteiros” em Penafiel, Vénus em Rio Maior e os vidros fumados no Palácio da Pena: o eclipse visto no resto do país
Mesmo com um aumento da oferta de transportes, houve quem optasse por ver o eclipse — ainda que apenas parcial — nas suas localidades. O segundo ponto que mais gente atraiu foi Penafiel. A aldeia de Rande, mais especificamente. Aqui, de acordo com astrónomos britânicos que prestaram declarações à imprensa nacional, foi onde o eclipse durou mais tempo e, por ser “num monte elevadíssimo”, configurava um local de observação mais que adequado. “Houve grande entusiasmo ao dar-se o eclipse, correndo uma forte vibração fria. Vieram jornalistas estrangeiros e do Porto e outros mecenas científicos”, lê-se na reportagem de um correspondente do Diário de Notícias.
As descrições dos ambientes são pormenorizadas, com repórteres em diferentes cidades e localidades. Há, por exemplo, o caso da missão científica protagonizada por “quintanistas de medicina de Lisboa” que foram até ao Castelo de Palmela, equipados de “telescópios de alcance” para ver o eclipse. Em Sintra, a população deslocou-se para o centro da vila, para o Castelo dos Mouros e para o Palácio da Pena, levando os seus vidros fumados ou até “vasilhas com água onde se refletisse o Sol”, para observar as diferentes fases do fenómeno.
Nestes locais onde o eclipse foi apenas parcial — como acontecerá no de 12 de agosto em grande parte do território nacional —, há atenção a outros detalhes, como a deteção de determinados planetas ou estrelas. Em Rio Maior, os observadores relatam ter avistado “distintamente” uma “estrela” que julgavam ser Vénus. Na cidade de Santarém, a observação “nítida” na vanguarda do “grande astro” foi Júpiter, segundo as testemunhas no local. No Porto, Mercúrio foi avistado “durante minutos”.
“Quase toda a população” saiu à rua para ver o eclipse. Segundo A Capital, os portuenses concentraram os seus vidros fumados nos jardins do Palácio de Cristal e no miradouro da serra do Pilar. “A maior parte da gente apresentava o nariz e a testa enfarruscados devido aos vidros estarem mal fumados”, lê-se no jornal lisboeta, que descreve o eclipse, na sua edição de 17 de abril de 1912, como “o caso do dia” — acima do naufrágio do Titanic, o rescaldo da renúncia de Egas Moniz ao seu mandato de deputado ou ainda a descoberta de uma suposta cura para a malária. “Algumas fábricas suspenderam o trabalho durante uma hora, mas a luz não faltou tanto quanto se esperava”, relatam ainda.


Em Lisboa, o trabalho científico esteve centralizado no Observatório Astronómico de D. Luiz e na Tapada da Ajuda, onde se fizeram as medições e qualificações mais técnicas sobre o eclipse. No primeiro, instalado no jardim da Escola Politécnica, foram tiradas “inúmeras” fotografias à deslocação da Lua sobre o Sol, com as quais depois se reconstituiu o fenómeno em todas as suas fases.
Mediram, também, com recurso a equipamento especializado, um outro fenómeno conhecido como “vento do eclipse”, que advém da descida acentuada das temperaturas. E ainda fenómenos biológicos, como o cantar dos galos naqueles instantes de maior escuridão — não total na capital —, mas que terá sido suficiente para trocar os horários naturais dos animais. Deu-se especial atenção à temperatura. As descobertas foram publicadas nos jornais.
Na estação meteorológica, pelas 11h, os termómetros registavam temperaturas de 29ºC. 39 minutos mais tarde, quando foi atingido o pico da ocultação, baixaram para 15,8ºC. Já pelas 13h, quando a Lua já estava mesmo a abandonar o espaço do Sol, as temperaturas tornaram a subir. Naquela manhã, o diretor do Observatório Astronómico de Lisboa, o vice-almirante Campos Rodrigues, tirou perto de 137 “chapas” para acompanhar a ocultação gradual do Sol.
Isto para fazerem, posteriormente, um “cálculo rigoroso das efemérides”, para além da reconstituição, o que tinha sido um tema muito debatido entre os astrónomos americanos, ingleses, franceses ou espanhóis que se deslocaram até Ovar para observar o fenómeno. Todos queriam saber o instante exato em que a Lua “mordeu pela primeira vez o disco solar” e aquele em que “o largou”. Segundo o astrónomo Manuel Soares de Melo e Simas, em declarações ao jornal A Capital, foram os norte-americanos quem mais se aproximou dos valores apurados pelos portugueses. Começou às 10h16 e terminou às 13h04.


O primeiro grande evento num regime novo e o apelo à propaganda contra “notícias de má fé”
A República ainda era recém-nascida quando em 1912 a Lua decidiu bloquear o Sol. Nem dois anos tinham passado desde a revolução de dia 5 de outubro e a consequente implantação de um novo regime e, por isso, vigorava uma grande instabilidade governativa no país. Naquele mesmo ano, um par de meses antes, fundaram-se oficialmente três partidos que antes eram apenas fações do Partido Republicano Português: o Partido da União Republicana, o Partido Republicano Evolucionista e o Partido Democrático. O governante era Augusto de Vasconcelos, que tomou posse após o curto interregno de João Chagas (três meses) enquanto chefe do Governo, mas mesmo assim nem ficou um ano inteiro no poder legislativo — mesmo que tenha voltado durante uma semana em setembro enquanto interino.
Na peça da Propaganda de Portugal em que era recomendado ao governo que facilitasse os desembarques de quem quisesse ver o eclipse, são mencionadas as “referências elogiosas” a Portugal e aos seus habitantes nas comunicações internacionais, “considerando as questões políticas perfeitamente alheias às maneiras gentis e cavalheirescas com que os portugueses sempre recebem os ingleses, salientando o facto de não ter diminuído, antes pelo contrário aumentado, depois da implantação da República, a simpatia que Portugal consagra à sua velha aliada a Inglaterra”.
Apesar de reconhecerem a importância da observação astronómica do eclipse, deixam uma recomendação aos visitantes: “Aproveitem a sua vinda a Portugal para admirar não só as belezas naturais do nosso país, que são muitas, mas também os grandiosos monumentos da Batalha, Jerónimos, Alcobaça, Sintra e a formosa e surpreendente mata do Buçaco”. Nesta pequena coluna publicada nas páginas finais do Diário de Notícias, a Propaganda de Portugal admite utilizar esta primeira grande oportunidade de um evento internacional em solo português para tornar os visitantes nos “melhores propagandistas das belezas” e os “mais verdadeiros informadores do sossego e ordem” do país, “desmentindo”, assim, “as notícias de má fé que se exportam ou que se engendram no estrangeiro para o desacreditar”.
O efeito do eclipse (poema)
Houve grande gritaria
Na rua de Santo Antão,
Correrias e desmaios,
Uma grande confusão.
Na hora do eclipse
Não se podia passar
Pelo Brito das carteiras
Pois era tudo a berrar:
“Oh brito quero uma mala,
Das melhores das que tu vires,
Que são as mais resistentes,
Pago-te o que tu pedires.”
Lá estava o Brito à janela
Da Fábrica das Carteiras,
A distribuir ao povo
Malinhas e cigarreiras.
O grande Brito afamado
Não tinha mãos a medir…
Quando disse: “Não há mais”,
Desata tudo a fugir.
Que desgraça! Eles diziam
A correr a bom correr:
“Sem os artigos do Brito
Nós vamos todos morrer”.
Com medo do eclipse
Tudo queria obter
Uma mala, uma carteira
P’ra lá dentro se meter.
E ainda ontem à noite
Um homem todo assustado
Perguntava abrindo a mala
“O perigo já está passado!…”
Poema publicado no Diário de Notícias a 18 de abril de 1912 (autor desconhecido)
[O espião português suspeito de vender segredos à Rússia voa para Roma e as autoridades estão determinadas a não o deixar escapar. Na capital italiana, Carvalhão Gil é seguido pelos inspetores e vai mostrar que todos os anos passados ao serviço do SIS o tornaram mestre na arte da contravigilância. Quando recebem a confirmação de que o espião russo também acaba de aterrar em Roma, as autoridades têm a certeza de que vai acontecer um novo encontro entre os dois. A grande questão é: onde? Já pode ouvir o terceiro episódio do novo Podcast Plus “A Vida Dupla do Espião Traidor” no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no YouTube.]