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Grupo EDP deixa cair central solar flutuante no Alqueva por questões de rentabilidade e após "chumbo" de estudo ambiental

Atribuída por concurso em 2022, a central híbrida do Grande Lago juntava painéis solares na água com aerogeradores em terra. "Conjugação de vários fatores impedem viabilização do projeto", diz EDP.

Ana Suspiro
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O grupo EDP decidiu não avançar com a instalação de uma central solar flutuante no Alqueva que combinava com um parque eólico. A central híbrida Grande Lago foi o maior dos projetos adjudicados no concurso de 2022 e juntava a produção solar no espelho de água, à data classificado como a maior central solar flutuante do mundo, a um parque eólico. O projeto promovido pela EDP Renewables (EDPR) tinha ainda a particularidade de propor preços negativos para a geração solar.

A decisão surge na sequência de um “chumbo” da Agência Portuguesa do Ambiente (APA) ao estudo de impacte ambiental para o projeto que foi considerado desconforme depois de dois anos de interações entre o promotor e a APA. Uma das dificuldades foi o impacte no habitat dos abutres da linha elétrica de ligação do parque eólico à rede que obrigaria a rever o corredor inicialmente estudado.

Fonte oficial da EDP confirma ao Observador que, “após uma análise detalhada, a EDP entende que não estão reunidas as condições para avançar com o projeto da Central Híbrida do Grande Lago, que envolve as tecnologias solar flutuante e eólica”. A elétrica remete para uma “conjugação de vários fatores que impedem a viabilização do projeto de forma sustentável, previsível e compatível com os elevados padrões”.

Mas reafirma que a renúncia ao projeto “não coloca em causa a aposta nas energias renováveis e no país, nomeadamente através do desenvolvimento de novos projetos e da hibridização, modernização e reequipamento de ativos.”

O motivo central, sabe o Observador, tem a ver com a falta de rentabilidade do investimento devido à mudança dos pressupostos que foram assumidos quando a proposta foi a concurso há cinco anos.

O aumento dos custos da instalação destas tecnologias e dos equipamentos no período pós-pandemia, associado à descida dos preços no mercado grossista em períodos diários de muita oferta renovável, foi um fator de peso num projeto que contava com a venda de energia eólica para assegurar a remuneração.

Também do ponto de vista técnico, o desenvolvimento do projeto revelou-se mais complexo do que o inicialmente previsto, até devido às contingências ambientais. As alterações, que teriam de ser introduzidas para resolver os impactes ambientais negativos assinalados e que obrigavam a uma maior dispersão do projeto, agravaram mais os custos e fizeram parte da equação que levou a empresa a deixá-lo cair.

O projeto previa a instalação total de 154 megawatts, dos quais 70 megawatts no espelho de água da maior albufeira do país. O investimento foi na altura estimado em mais de 100 milhões de euros e previa-se que entrasse em operação no ano de 2025. Mas atualizado o valor ascendia já aos 169 milhões de euros, incluindo a geração e as linhas elétricas.

https://observador.pt/especiais/solar-flutuante-com-escala-ainda-e-uma-miragem-porque-estao-a-ser-chumbadas-as-centrais-em-cima-de-barragens/

A desistência da EDP significa que apenas uma das seis centrais adjudicadas em 2022 obteve luz verde ambiental para avançar. As outras foram chumbadas, principalmente por razões ambientais. Os projetos da Finerge para as barragens da Paredela e Salamonde tiveram parecer negativo do Instituto da Conservação da Natureza e Florestas, sobretudo por estarem localizados no Parque Natural da Peneda-Gerês. A central para a barragem do Cabril adjudicada à Voltalia também teve avaliação negativa, neste caso muito sustentada na forte contestação local.

Até agora, só a Endesa conseguiu ter uma avaliação de impacte ambiental favorável para a central solar flutuante do Alto Rabagão.

Há outro projeto adjudicado à Finerge em Tabuaço que não chegou ainda à fase de avaliação de impacte ambiental.

O Governo aprovou recentemente um despacho a permitir aos promotores trocarem a potência solar prevista para as albufeiras por projetos alternativos de produção renovável e baterias em terra, prolongando ainda os prazos fixados no procedimento lançado em 2021, mas esta via não deverá ser seguida pela EDP Renováveis.

Uma das razões prende-se com o elevado número de projetos de geração que existem já para a região do Alqueva, alguns só foram autorizados após alterações significativas às propostas iniciais de forma a acautelar os interesses da biodiversidade. Um novo projeto iria ainda exigir uma avaliação dos impactes cumulativos com as centrais já autorizadas, o que dificultaria ainda mais a sua aprovação.

Nesta adjudicação, a EDP obteve ponto de ligação à rede com 70 MW para produzir energia solar no espelho de água da albufeira do Alqueva onde existe já um projeto piloto que é explorado pela elétrica. Para esta energia, propôs uma tarifa feed-in (garantida) negativa para os primeiros 15 anos de uma concessão de 30 anos. A rentabilidade durante o período da concessão assentava na energia eólica associada (cujo período de maior produção pode ser complementar ao do solar) no que foi então descrito como um “exemplo raro da criação de valor através da hibridização (mistura) de tecnologias renováveis e da otimização da capacidade de ligação à rede”.