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(A) :: A casa e a rotina de Gifford Miller, o americano à frente do Atlético: "É possível o progresso em Lisboa sem deixar ninguém para trás"

A casa e a rotina de Gifford Miller, o americano à frente do Atlético: "É possível o progresso em Lisboa sem deixar ninguém para trás"

Depois de décadas entre a política e o setor imobiliário em Nova Iorque, comprou casa em Lisboa e investiu no Atlético Clube de Portugal. Valoriza viver entre os locais, e "adora" o seu estendal.

Sâmia Fiates
text
Diogo Ventura
photography

O estendal do lado de fora da janela foi um dos pré-requisitos para Gifford Miller escolher este apartamento em particular, em Alcântara. “Esse foi um fator importante. Queria poder estender a minha roupa, porque me faz sentir português“, diz o norte-americano que vive há cerca de cinco anos na capital e é o principal investidor da atual SAD do Atlético Clube de Portugal. Foi ao fim de 36 horas como turista que tomou a decisão de comprar casa em Lisboa — e depois de ver 26 apartamentos em menos de três dias, escolheu este T2+1 duplex ao fim de uma visita de 10 minutos. Além do estendal, influenciaram a escolha as portadas de madeira originais nas janelas e a localização, numa zona que considera mais habitada pela comunidade local. As aulas de português começaram no dia seguinte à mudança.

Divide o tempo entre Lisboa e Nova Iorque, onde ainda é sócio num grupo que administra cerca de duas mil unidades de moradias acessíveis. Foi na cidade americana que fez carreira. Primeiro na política, como porta-voz da autarquia na gestão de Michael Bloomberg, quando também foi um dos principais impulsionadores da criação da High Line, o parque linear que aproveitou os trilhos desativados da linha de comboio suspensa que atravessa Manhattan de norte a sul. Depois de uma tentativa frustrada de chegar ao lugar de mayor, em 2005, transitou para o setor imobiliário. Mas foi só depois da pandemia, e impulsionados por uma espécie de “síndrome do ninho vazio”, que Miller e a mulher decidiram arriscar uma mudança em Lisboa. Assume as diferenças entre os nova-iorquinos e os lisboetas, mas confessa que não foi propriamente o ritmo mais calmo que o atraiu. Diz que queriam “construir uma comunidade diferente e compreender realmente um espaço e uma cultura em particular”. A primeira ideia era criar um fundo de investimento para Vistos Gold — mas as mudanças na regulamentação em 2023 provocaram uma alteração na rota. Numa caminhada pela zona mais alta de Alcântara, cruzaram-se com a Tapadinha.

Miller cresceu em Inglaterra e tornou-se adepto dedicado do Liverpool. A paixão é tamanha que o primeiro cão que teve chamava-se Shankly, uma homenagem ao antigo jogador escocês e lendário treinador do clube, Bill Shankly. O nome virou uma espécie de tradição familiar. Foi do animal de estimação ao carro e, mais recentemente, ao peixe que faz as vezes de anfitrião no apartamento de Lisboa. A peça, que é também uma lanterna, foi comprada numa loja de arte na Comporta, e é um dos elementos decorativos adicionados à casa, que já estava remodelada e mobilada antes da compra.

Miller e a mulher colecionam esculturas de vidro de Veneza, mas não trouxeram nenhuma peça para a residência lisboeta — em alternativa, escolheram um quadro com vidro para decorar a escada. Na estante, revela-nos outra das tradições familiares: sempre que recebem um convidado, pedem que traga um livro com uma dedicatória. Entre obras de literatura internacional, há títulos de Vhils, Joana Vasconcelos (artistas que integram a atual parceria do Atlético com o MAAT) e do chef Vítor Sobral. “Achei interessante um livro com 500 receitas de bacalhau. É impressionante”, diz o norte-americano, que assume não ser tão obcecado com este peixe em específico, preferindo sardinhas ou jaquinzinhos. Na estante há espaço também para uma luva de boxe, presente de amigo secreto do jantar de Natal do Atlético, ou para um vaso de ananás de Caldas da Rainha. “O meu primeiro jogo como administrador foi nas Caldas da Rainha. Falaram-me: ‘Are you excited to go to the land of the dicks?‘” A seguir mostra-nos a chávena que lhe foi oferecida — e que traz, lá dentro, uma “surpresa”.

Desde que investiu no clube e assumiu a presidência da SAD que o Atlético tem ocupado cada vez mais espaço na sua vida. Depois de mostrar a própria casa, fez questão de levar-nos para conhecer o estádio. “Gil!”, grita Miller ao chegar ao portão da Tapadinha. “Amigo!”, ouvimos como resposta. “Tudo bem?”, devolve, com um sotaque bastante próximo ao do português europeu. Entra na sala de troféus e mostra-nos a Taça de Portugal de 1927-1928. Fala sobre a história do clube, que resulta da junção do Carcavelinhos com o União Lisboa, em 1942. Assume o desejo de criar um museu para expor todas as centenas de taças ali guardadas. “Estou a mostrar-vos esta sala, mas quero que fique claro que não tenho nada a ver com isso. É a história do clube muito antes de eu cá chegar”, ressalta. Na saída, pede para que olhemos para o rosto do senhor que trabalha na sala ao lado. É Vítor Domingues, um dos dois funcionários que já está há mais de 40 anos no clube, e que foi homenageado no painel de Vhils — como também foi o jogador Germano Figueiredo, que jogou pelo Atlético antes de defender o Benfica na década de 1960. Miller sabe a história de cada pessoa de cor. Quando sobe os degraus da arquibancada, deixa à mostra as meias amarelas e azuis — não pode, por contrato, usar equipamentos de outros clubes. Mas a julgar pela sua casa, não tem mais interesse em o fazer. Nem mesmo o Liverpool ganhou a honra de ser marcado na pele, como Miller fez com o Atlético. E aquelas meias, já as tínhamos visto horas antes, como que a decorar o seu tão desejado estendal.

Dada a sua experiência em desenvolvimento urbano em Nova Iorque, qual foi a sua primeira impressão quando chegou a Lisboa?
Do ponto de vista do desenvolvimento, achei fascinante como existem estes bolsos de coisas que estão totalmente desenvolvidas e, depois, um edifício ao lado está totalmente em ruínas. Já não tanto agora como há cinco anos, porque as coisas estão a compor-se. Mas, para mim, a minha primeira impressão foi que — a minha mulher é de São Francisco e acho que muita gente diz isto, e não é apenas pela ponte — há algo na luz, no ar do mar, no porto, nas colinas e no tipo, tamanho e escala da maioria dos edifícios que parece muito com “São Francisco Plus”, mas muito mais agradável.

Porque considera mais agradável?
Bem, o tempo é melhor. Eu sei que as pessoas acham que as coisas estão muito mais caras do que estavam há cinco anos, mas ainda são muito menos caras do que em São Francisco. A comida, as pessoas são muito mais hospitaleiras. E tem um estilo de vida completamente diferente.

E era esse estilo de vida que buscava quando decidiu comprar uma casa em Lisboa?
Estávamos aqui de férias porque os nossos dois filhos tinham acabado de ir para a universidade com sucesso. Já tinham ido no ano anterior, mas aconteceu a Covid e, por isso, voltaram logo. Isto foi em março.Estavam finalmente felizes, a ver onde iam ficar. E isso é uma grande mudança para nós, obviamente, como pais, porque… não sei qual é o termo português, mas em inglês chamamos-lhe empty nest.

A síndrome do ninho vazio.
Exatamente. Então, estávamos a pensar que poderíamos fazer uma de duas coisas. Poderíamos viajar para muitos lugares diferentes, agora que não temos os miúdos em casa. Ou teríamos o tempo e a capacidade de investir num lugar e construir uma comunidade diferente e compreender realmente um espaço e uma cultura em particular. Optámos pela porta número dois.

É verdade que se decidiram pela compra do apartamento onde vivem em 36 horas?
Bem, o que aconteceu foi que decidimos comprar um apartamento enquanto estávamos de férias. Por isso, voámos de volta numa segunda-feira e depois eu voei de volta cerca de quatro dias depois, na sexta-feira. E durante a sexta, sábado e domingo, vi 26 apartamentos. Fizemos propostas para dois. Mas só estive no nosso apartamento atual durante, digamos… 10 minutos. Quando o meu advogado me deu a chave depois de termos fechado o negócio, uns meses mais tarde, vim aqui e entrei no prédio errado.

"Gosto do estendal. Adoro estender a minha roupa. É como se alguém de fora olhasse e pensasse: 'Estas pessoas são muito portuguesas'. Por isso, gostei do estendal. Esse foi um fator importante. Queria poder estender a minha roupa, porque me faz sentir português."

O que o fez decidir por este apartamento em particular?
Adoro a localização [na zona de Alcântara] porque gosto de estar numa comunidade que ainda é portuguesa. É como se isto fosse uma linha: se andarmos 100 metros naquela direção, já não é tão português. Claro que há pessoas aqui que não são portuguesas. Mas maioritariamente ouve-se português. Além disso, a casa tem portadas de madeira nas janelas. Não gosto de estores de metal. As portadas de madeira são muito mais bonitas. E gosto do estendal. Adoro estender a minha roupa. É como se alguém de fora olhasse e pensasse: ‘Estas pessoas são muito portuguesas’. Esse foi um fator importante. Queria poder estender a minha roupa, porque me faz sentir português. E no fim, é um apartamento agradável, tem um bom tamanho e foi a um bom preço.

Tem peças aqui que refletem a sua ligação com Lisboa?
Adoro a arte. E tenho aqui uma história muito portuguesa. Existe uma galeria no Rato que se chama São Mamede. Eu e a minha mulher fomos lá logo quando nos mudámos e comprámos os três quadros que decoram a sala de estar e de jantar. E depois, quando decidimos começar com a equipa de futebol, uma das primeiras coisas que fizemos foi um vídeo de cerca de três minutos sobre a história da equipa. E o tipo que fez o vídeo foi diretor criativo no clube durante algum tempo. Depois ele deixou-nos porque o pai dele era dono desta mesma galeria. E agora trabalha na galeria. Então comprámos os quadros na galeria da família dele e nem sabíamos. É uma história muito portuguesa, toda a gente está ligada.

Esteve envolvido na construção do High Line em Nova Iorque, que é um bom exemplo sobre como a cidade pode crescer e se transformar sem necessariamente aumentar de tamanho. Sente que o mesmo poderia ser feito em Lisboa?
Consigo ver muitos lugares que ainda são passíveis de sofrer um redesenho significativo, mas está tanta coisa a acontecer aqui o tempo todo, e é interessante por causa disso também. Por exemplo, a Tapada das Necessidades, não sei se houve controvérsia sobre como redesenhá-la exatamente, mas aquilo é incrível. E a forma como abordamos as coisas nos Estados Unidos é tão diferente que não se pode simplesmente reproduzir. Por vezes, ouço: “Diga-nos como fazer habitação a preços acessíveis”. OK, digo-vos como fazer habitação a preços acessíveis: gasta-se uma quantidade enorme de dinheiro. Basicamente, a diferença entre habitação e habitação a preços acessíveis é muito dinheiro. Se não fosse, haveria mais habitação a preços acessíveis. E este país não tem o tipo de capital disponível que os Estados Unidos podem injetar — lá constroem cerca de mil milhões de dólares em habitação a preços acessíveis, e uma enorme parte disso foi financiada pelo Estado, pela cidade e pelo Governo nacional. Mas há outras oportunidades e algumas podem ser aplicáveis aqui. Para revitalizar os parques em Nova Iorque, por exemplo, costumamos criar organizações de conservação público-privadas. Para conseguir que empresas e indivíduos doem quantias enormes de dinheiro, eles recebem grandes deduções fiscais. O Central Park e o High Line são bons exemplos disso, nunca teriam acontecido sem o envolvimento privado. Mas aqui não há o mesmo tipo de código tributário, não existe uma cultura semelhante de doações, simplesmente porque aqui o conceito é diferente. “Por que razão indivíduos privados doariam dinheiro para construir escolas? O Governo deve construir as escolas!” Como assim, a assistência médica não é responsabilidade do Governo? Isso é impensável aqui, mas nos Estados Unidos é algo que acontece todos os dias.

Tem algum contacto com a câmara municipal, por exemplo, no sentido de partilhar ideias?
Cheguei a conhecer o presidente da câmara num evento do Atlético. Mas não, ninguém me telefona e diz: “Gifford, o que é que achas sobre isto?”. E isso provavelmente é bom, porque estou ocupado.

Sente que há muita burocracia?
Claro. Mas acho a burocracia menos louca do que por vezes os portugueses acham. Nova Iorque também tem muita burocracia. O que acho que há é um pouco menos de urgência. Quero dizer, em Nova Iorque, se a burocracia está a bloquear algo que é realmente uma ótima ideia, e as pessoas acham que é uma ótima ideia, é possível de certa forma envergonhar a burocracia para que se mova mais depressa. Tenho a sensação de que isso é um pouco mais difícil aqui.

Já fez críticas à remoção da opção de investimento imobiliário dos critérios de elegibilidade para o Visto Gold.
A ideia de que se pode comprar um apartamento e obter um Visto Gold não faz muito sentido, a forma era errada. Nós fizemo-lo, mas somos uma anomalia no sentido em que não o “armazenámos”, nós usamo-lo. E, na verdade, acho que se poderia argumentar que trouxemos dezenas de milhões de euros em investimento para este país. Por isso, sou, espero, o bom exemplo. Mas no geral não faz sentido num país que tem falta de habitação dar incentivos a pessoas para comprarem casas e não viverem nelas. Parece-me é que poderiam usar os Vistos Gold como programa para gerar o tipo de capital necessário para criar habitação a preços acessíveis — ou apenas mais desenvolvimento de mercado. Há uma falta geral de capital neste país. E por isso parece-me que, com este tipo de coisa, é como se tivessem “deitado fora o bebé com a água do banho”. Acho que se poderia ter travado completamente a compra de apartamentos como forma de qualificação para um Visto Gold, mas ainda assim permitir que fundos que estão a fazer desenvolvimento imobiliário angariem dinheiro. Ou poderiam fazê-lo apenas para habitação acessível. Este país precisa, tal como Nova Iorque, de mais habitação acessível, mas também precisa de mais habitação de mercado.

"Espero que Alcântara consiga alcançar a mistura certa, numa zona que teve uma série de melhorias construídas, mas que ainda se sente como uma comunidade autêntica e significativa da classe trabalhadora. É isso que se quer. Ver progresso sem deixar toda a gente para trás."

É uma decisão que foi tomada após muitas críticas sobre o facto de os investimentos estrangeiros poderem estar a agravar a crise habitacional. Como olha para estas críticas?
Não sou especialista nessa área. Quero dizer, vi os números — em termos de números de Vistos Gold que estão a ser atribuídos — e na verdade não creio que, numa cidade metropolitana com o tamanho e alcance de Lisboa, esteja a ter o impacto que a maioria das pessoas pensa que está a ter. Acho que a migração interna aqui na UE está a ter um impacto muito maior do que a de fora da UE. Isto é o que acontece quando os lugares se tornam mais populares. Ser popular é o que se quer, mas também não se quer afetar negativamente quem já aqui vivia, quem é de cá. Espero que Alcântara consiga alcançar a mistura certa, numa zona que teve uma série de melhorias construídas, mas que ainda se sente como uma comunidade autêntica e significativa da classe trabalhadora. É isso que se quer. É possível o progresso em Lisboa sem deixar ninguém para trás. Não é fácil, mas é possível. E Portugal não está sozinho. Temos exatamente estas conversas nos Estados Unidos, particularmente em Nova Iorque, mas também em todas as capitais da Europa.

O seu envolvimento no Atlético também tem este propósito?
Durante o primeiro ano do nosso envolvimento com o clube, tivemos um acordo de cogestão. Portanto, nós gerimos o clube juntos, e basicamente nós financiámos as perdas. O que foi um excelente acordo, muito inteligente por parte do presidente. Temos um clube que é histórico, tem uma história incrível. Mas tinha passado por tempos difíceis, e o atual presidente fez um trabalho notável ao levar o clube da divisão mais baixa — porque eles tinham um viciador de resultados chinês que era o dono da SAD anteriormente — e ele trouxe-os de volta até à terceira divisão. E por isso, acho que todos tiveram de se certificar de que éramos um bom par antes de haver a votação final. Mantivemos a maior parte da equipa e certamente apoiamo-nos nos ombros das suas conquistas. Mas acho que o que somos capazes de fazer é tentar construir uma estrutura mais estável.

Nunca teve uma experiência com algo semelhante?
Bem, depende da sua definição de semelhante. O que fiz basicamente na minha carreira profissional foi organizar, gerir e impulsionar projetos complicados que envolvem muitos tipos diferentes de pessoas e necessidades e que são muitas vezes o que a maioria das pessoas pensa ser impossível de alcançar. É isso que faço.

Já conhecia artistas como Vhils ou Joana Vasconcelos antes da parceria do Atlético com o MAAT?
Sabia sobre ambos antes de começarmos o projeto “MAAT + Atlético”. São provavelmente os dois artistas mais famosos de Portugal. Tinha estado na instalação da Joana no MAAT e conhecia o Vhils.

Como começou esta parceria com o MAAT?
Tive a ideia porque estava de pé no canto sul do estádio e, como mencionou, estive envolvido com o High Line durante muito tempo. E o High Line tem um plinto, como em Trafalgar Square. Colocámos uma escultura lá, e é um grande acontecimento — toda a gente compete para conseguir estar lá, milhões de pessoas vêm vê-la. Então foi isso que pensei ao olhar para aquele lugar no estádio, diante da ponte 25 de Abril: ‘Oh meu Deus. Este é o lugar para o Plinto de Lisboa’. É provavelmente um dos lugares mais vistos da cidade, 55 milhões de pessoas atravessam a ponte todos os anos. E por isso tive esta ideia. Mas depois pensei bem, olhei em volta, e vi outros espaços que seriam bons sítios para mais algumas obras.

"A ideia por trás do High Line e por trás do que estamos a tentar fazer com a Tapadinha é pegar numa peça de infraestrutura urbana que tem menos utilidade do que tinha quando foi originalmente construída e transformá-la em algo positivo."

E como escolheu o parceiro?
Poderíamos simplesmente tê-lo feito, mas embora ache que foi uma boa ideia, não sou um curador. Não tenho ligações à cena artística nesse sentido. E a primeira coisa que pensei foi que “MAAT-lético” é um nome porreiro. Mas em segundo lugar, sobretudo, foi que o MAAT tinha meio que feito isto com a central elétrica. A ideia por trás do High Line e por trás do que estamos a tentar fazer com a Tapadinha é pegar numa peça de infraestrutura urbana que tem menos utilidade do que tinha quando foi originalmente construída e transformá-la em algo positivo. E foi isso que eles fizeram com a central elétrica. Estas são pessoas que sabem como fazer isto. Fui ter com eles e fiquei muito surpreendido quando eles disseram: “OK, ótimo”.

Foi além do que imaginava?
Acho que o que fizeram foi para além da minha visão, elevou o nível. Nunca me teria ocorrido que teria a Joana Vasconcelos, a Bela Silva e o Vhils como os nossos artistas inaugurais. E trouxeram a ideia do open call para novos artistas.

É uma parceria para ficar?
É para ficar e para crescer. Por isso já temos planos para fazer mais quatro espaços ao longo dos próximos meses. E na medida em que consigamos angariar o dinheiro, continuaremos. Sinto-me muito bem com isso porque acho que as pessoas até agora reagiram extraordinariamente bem à ideia. É como quando tivemos a ideia para o High Line, toda a gente achou que éramos loucos. E depois, quando caminharam sobre ele, ficaram tipo, “oh, isto é óbvio”. Por isso, esperemos que seja assim.

Fala nesta ideia de investimento com o objetivo de construir e devolver à comunidade. Os investidores que representa têm as mesmas opiniões?
Acho que o que estamos a tentar fazer no Atlético é torná-lo um espaço que seja um ativo para a comunidade durante toda a semana. E isso é bom para o negócio, além de ser bom para o bairro. Quando temos mais pessoas a vir à Tapadinha, é bom para todos. É obviamente um negócio que precisamos que tenha receita. E, em última análise, é assim que investimos na equipa de futebol. Queremos ganhar jogos de futebol. Por isso, acho que conseguimos encontrar uma sobreposição feliz. Queremos tentar fazer do Atlético a equipa de Lisboa, de toda a gente. Compreendendo que não vamos convencer as pessoas a deixar o Sporting e o Benfica. Mas proporcionar um tipo de experiência completamente diferente. Isto reflete o que faz de Lisboa Lisboa. Cultura, arte, música, futebol, comida, bebidas, um espaço onde as pessoas se sentam juntas. E isto é o que estamos a tentar construir no Atlético.

Disse que também quer ganhar jogos. Têm como objetivo subir de divisão?
Sim, o nosso objetivo todos os anos é sermos promovidos. Começámos o ano com o objetivo de sermos promovidos. Se não formos promovidos este ano, é o nosso objetivo no próximo ano. Queremos ganhar o maior número de jogos de futebol que conseguirmos e subir para a Liga 2. E estamos a fazer as renovações da Tapadinha, em parte, porque precisava de ser renovada para torná-la uma experiência mais agradável para os nossos adeptos, mas também porque quando terminarmos seremos capazes de jogar na Liga 2.

Quão envolvido está nas decisões do clube?
Sou o presidente da SAD, e tenho dois subordinados diretos. Tenho um subordinado direto que é o nosso CEO e está encarregado de basicamente tudo o que não é futebol. E depois tenho um diretor de futebol que está encarregado de basicamente tudo o que é futebol. Mas, sim, estou fortemente envolvido. Este é o meu único trabalho.

"Queremos tentar fazer do Atlético a equipa de Lisboa, de toda a gente. Compreendendo que não vamos convencer as pessoas a deixar o Sporting e o Benfica. Mas proporcionar um tipo de experiência completamente diferente. Reflete, para mim, o que faz de Lisboa Lisboa. Cultura, arte, música, futebol, comida, bebidas, um espaço onde as pessoas se sentam juntas."

Já investiu noutros negócios em Portugal antes.
Investi no setor imobiliário, numa cadeia de gestão hoteleira chamada Independente. Não sou um investidor importante, mas acho que é uma excelente marca. Temos 126 investidores na nossa equipa de futebol. E parte do aspeto excitante disto é que há um grupo deles que veio e ficou surpreendido: ‘Este país é mesmo porreiro’. E por isso tento ajudar onde acho que há uma boa oportunidade de ligar pessoas que são investidores a pessoas com investimentos aqui.

Mas ainda tem negócios em Nova Iorque, certo?
Ainda sou dono de uma parte de um grupo que gere duas mil unidades de habitação a preços acessíveis, e nós gerimos essas unidades, sim. Portanto, passo cerca de dois terços do tempo lá. Também porque a minha mulher vive em Nova Iorque.

Ela nunca vem consigo?
Vem quando pode. Mas ela é a chefe de contencioso de uma firma de advogados internacional muito grande, maioritariamente dos EUA mas internacional. Trabalha muito mais arduamente e também viaja bastante por causa disso, porque eles têm uma série de escritórios diferentes pela cidade, pelo país e pelo mundo. E isso torna as coisas um pouco mais fáceis porque, pelo menos parte do tempo em que estou aqui, ela não está sentada em casa. E depois o meu filho trabalha para o clube, o que é simpático.

O Atlético acaba por ser também um projeto familiar?
Um bocadinho. O meu filho mais velho veio e fez um estágio logo quando fechámos o negócio, e ele fez de tudo durante uns três meses. Ele estava a montar camas para os jogadores na habitação, a montar as prateleiras ou a trabalhar com o merchandising. Agora, o meu filho mais novo trabalha connosco.

E quando está em Portugal, costuma viajar pelo país?
Viajo muito com a equipa. Por exemplo, estive nos Açores, mas apenas por uma noite, porque estávamos a jogar contra o Lusitânia, na ilha Terceira. É lindo e foi um dos melhores almoços que já tive. O peixe era incrível. E antes do clube, viajei algumas vezes com a minha mulher. Estivemos na Madeira, no Algarve, no Porto, no Douro. Definitivamente viajámos. Mas não viajo tanto quanto gostaria porque quando estou aqui, tendo a estar com a equipa.

Como é a sua rotina?
A minha rotina é: levanto-me, vou a pé para o trabalho, paro num pequeno lugar chamado Lila, que é uma pastelaria clássica, e tomo um expresso servido pelo Marco. E depois caminho para o estádio, o que é talvez um pouco menos de 15 minutos a pé no total, por isso é espetacular. E depois depende. Normalmente, se houver treino, costumo ver uma parte do treino, mas também me reúno com a minha equipa e tento tomar decisões, temos muitas reuniões. E depois depende. Normalmente, a maior parte do tempo estou aqui sozinho, por isso vou a restaurantes.

A que restaurantes gosta de ir?
O Pigmeu, em Campo de Ourique, é incrível. É só porco, um daqueles tipos de sítios “do focinho à cauda”. Gosto de ir a um italiano chamado Ruvida, na Praça da Armada, onde conheço os donos. Também vou muito à tasca perto da minha casa, chamada Mascote, onde como os secretos de porco, mas o peixe também é muito bom, às vezes peço o robalo. É tão bom, é uma tasca muito boa. E gosto de ir ao restaurante O Mercado, em Alcântara. Poderia comer jaquinzinhos o dia inteiro.

Já falou antes que prefere a cerveja portuguesa.
Sim, é verdade.

Vai aos Santos Populares?
Sim. Alcântara ganhou as marchas populares no ano passado. Vou aos ensaios — um segurança do clube é porta-bandeiras.

Diria que tem amigos portugueses? 
Sim. Convivo maioritariamente com as pessoas com quem trabalho e eles são todos tão mais novos do que eu que, têm filhos pequenos. Tenho 56 anos e o meu CEO tem 31 ou 32, tem três filhos com menos de quatro anos. E o meu diretor de futebol tem 42, tem dois filhos com menos de cinco. Mas sim, tenho alguns amigos portugueses e tenho alguns amigos estrangeiros. Não é como se estivesse tão inserido na comunidade de expatriados como algumas pessoas estão. Sobretudo porque estou sempre num vai e vem. Passo muito tempo na TAP. Muito tempo.

Mas está a ter aulas de português. Quando começou a aprender?
Cerca de um dia depois de me mudar. É uma língua difícil de aprender, para começar. Era fluente em francês quando tinha uns 20 anos, isso ajuda, mas não totalmente porque é como se continuasse a pronunciar tudo mal. Por isso muitas vezes eu falava português e as pessoas pensavam que eu era francês. Mas maioritariamente é porque para mim os portugueses falam super rápido, engolem as palavras, e acho particularmente difícil perceber os chiados. No geral também é desafiante porque para um país pequeno há uma quantidade enorme de dialetos. É uma loucura. E por fim, a maioria das pessoas fala um inglês excelente — ou pelo menos um inglês melhor do que o português que eu falo. E por isso é difícil encontrar pessoas que falem português comigo. Nos primeiros três anos, era assim: eu entrava num restaurante e dizia: ‘Queria…’, e eles respondiam logo: ‘Oh, okay, great, yes, please come this way to your table’. Mas lá está, eu sou um pouco diferente porque a comunidade do futebol é uma das pouquíssimas comunidades onde há um grande número de pessoas que não fala inglês de todo. Alguns dos nossos jogadores falam algum, mas muitos dos nossos jogadores não falam nada.

É capaz de ter uma conversa em português?
Sim. Fiz uma conferência de imprensa em português. Para mim, é muito mais fácil dizer-lhe o que penso do que compreender o que as pessoas me estão a dizer, particularmente se mudarem de assunto. O meu vocabulário não é tão extenso que eu consiga acompanhar tudo e também sou velho, não absorvo as coisas tão depressa. O meu afilhado está a trabalhar numa série documental, veio para cá depois de se licenciar, é o diretor de fotografia, um jovem, e fala um português ótimo. Consegue ouvir, falar, e está aqui há c deoisa um ano. Eu, depois de um ano, era inútil.

Pratica desporto?
Apenas padel. Consigo jogar um pouco de ténis, e jogo um bocadinho de golfe. Mas, acima de tudo, caminho.

Foi a caminhar que “descobriu” o Atlético…
Originalmente, sim. Estava apenas a caminhar com a minha mulher, e vimos a Tapadinha, e ficámos tipo: ‘uau, isso é incrível’. O que de facto é.

Tem sido conhecido na cidade como “o americano que comprou o Atlético”. Já se sente parte desta comunidade?
Bem, em primeiro lugar, sou o investidor principal e sou o presidente da SAD. Ninguém compra realmente equipas de futebol, porque as equipas de futebol pertencem aos adeptos e à sua comunidade, e por isso penso nisso mais como se fôssemos uma espécie de guardiões dos interesses do clube, na medida do possível. Mas nós não somos donos da equipa, e certamente não somos donos do clube. Estou incrivelmente grato pela forma como a comunidade nos abraçou e por terem tido a mente aberta para muitas ideias novas. Mas não sou eu que tenho de dizer se sou parte da comunidade, é a comunidade que o deve dizer.

Mas está presente na maioria das decisões e frequenta os jogos. 
É o meu clube. Vivo em Alcântara. Lidero o Atlético. Tenho uma tatuagem do Atlético — e nunca tinha feito uma tatuagem antes.

O Atlético já é maior do que o Liverpool?
Definitivamente. Não está nem perto.

Parece que é mesmo para sempre.
Acho que sim. Quero dizer, mesmo que em algum momento decidamos que alguém melhor pode cuidar do clube, o que espero que não seja em breve, não consigo imaginar-me a partir.