Em alguns hospitais do Serviço Nacional de Saúde (SNS), mais de 60% das primeiras consultas de especialidade hospitalar são realizadas fora do tempo clinicamente adequado. Num dos casos, o da Unidade Local de Saúde do Tâmega e Sousa (com sede em Penafiel), a percentagem de primeiras consultas feitas fora do tempo adequado, entre janeiro e maio de 2026, foi superior a 70%. Segundo os dados do Portal da Transparência do SNS, consultados pelo Observador, no extremo oposto está o Hospital de Cascais (a única Parceria Público-Privada do país), em que pouco mais de 10% do total de primeiras consultas ultrapassam os Tempos Máximos de Resposta Garantidos (TMRG).
Entre janeiro e maio de 2026, cerca de metade do total de primeiras consultas de especialidade realizadas no SNS foram realizadas fora dos TMRG. Foram 50,2% do total, uma ligeira melhoria em relação ao mesmo período de 2025 — no qual 51,5% não cumpriram os prazos máximos estipulados na lei.
O presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares (APAH), Xavier Barreto, defende que os hospitais poderiam reforçar a realização de primeiras consultas em tempo útil se parte das consultas de seguimento de doença fossem feitas por enfermeiros — o que permitiria libertar os médicos para as primeiras consultas de especialidade e faria diminuir as listas de espera.
Segundo a Entidade Reguladora da Saúde, uma consulta de prioridade normal (nível 1) tem de ser realizada até 120 dias depois da referenciação para o hospital; no caso das consultas prioritárias (nível 2), o prazo máximo é de 60 dias; já as consultas consideradas muito prioritárias (nível 3) devem ser realizadas até 30 dias depois da referenciação. O Portal da Transparência do SNS não faz, contudo, desagregação dos dados por prioridade de consultas.
A lei estabelece ainda outros prazos — mais céleres — para consultas de Cardiologia em situação de doença cardíaca suspeita ou confirmada: 30 dias para doentes eletivos (nível 1) e 15 dias para doentes prioritários (nível 2). E também para as consultas de Oncologia em situação de doença oncológica suspeita ou confirmada: 30 dias para prioridade normal (nível 1); 15 dias para doentes prioritários (nível 2); 7 dias para doentes muito prioritários (nível 3).
https://observador.pt/2026/05/11/numero-de-utentes-a-aguardar-cirurgia-cardiaca-dispara-40-lista-de-espera-para-cirurgia-oncologica-tambem-aumenta/
Primeiras consultas no SNS com ligeira quebra de janeiro a maio
Nos primeiros cinco meses de 2026, foram realizadas no SNS 892.445 primeiras consultas de especialidade, o que representa uma ligeira diminuição (de 0,8%) em relação ao mesmo período de 2025.
Embora, na globalidade do SNS, cerca de 50% das primeiras consultas sejam realizadas fora dos tempos clinicamente recomendados (uma percentagem já elevada), há casos de ULS em que essas percentagens ultrapassam os 65% e mesmo os 70%.
A ULS com piores resultados na resposta atempada aos pedidos de primeiras consultas é a ULS do Tâmega e Sousa (que abarca os hospitais de Penafiel e Amarante), em que, entre janeiro e maio, 73,6% destas consultas foram realizadas fora dos prazos máximos. Segue-se a ULS de Matosinhos (que engloba o hospital Pedro Hispano), também na região norte, onde 67% destas consultas foram realizadas para lá dos prazos máximos. Já na região Centro, na ULS da Região de Leiria, que abarca o hospital de Santo André, os tempos máximos de resposta não foram cumpridos em 65,5% das primeiras consultas. No top cinco, surgem ainda a ULS do Médio Tejo (que engloba os hospitais de Tomar, Abrantes e Torres Novas), onde 64,5% das primeiras consultas foram realizadas para lá dos tempos máximos; a ULS do Oeste (hospitais de Torres Vedras, Caldas da Rainha e Peniche), com uma percentagem muito semelhante: 64,2%.
O Observador questionou as cinco ULS com piores resultados no cumprimento dos tempos máximos para primeiras consultas.
Hospitais justificam resultados com falta de médicos e avançam com reforço de consultas de seguimento (até aos sábados, para libertar vagas)
A ULS do Médio Tejo justifica os números com o crescimento da procura dos pedidos de consultas hospitalares (que subiram 9% no primeiro trimestre) e à falta de profissionais. “Este crescimento da procura, associado à disponibilidade de recursos, tem condicionado os tempos de resposta”, sublinha a ULS, acrescentando que “a esta realidade acresce a ocorrência de um número significativo de cancelamentos nos meses de janeiro e fevereiro, devido às intempéries que afetaram os concelhos do Médio Tejo”. Apesar do aumento da procura e dos constrangimentos registados no início do ano, “a atividade assistencial da ULS Médio Tejo neste domínio tem vindo a recuperar progressivamente ao longo do segundo trimestre”, garante a instituição.
Já a ULS do Oeste diz que as dificuldades no cumprimento dos tempos máximos de resposta nas primeiras consultas decorrem da falta de médicos. Deve-se aos “desafios estruturais transversais ao setor da saúde, com particular impacto na disponibilidade de recursos humanos em determinadas especialidades”. O Conselho de Administração desta ULS tem em curso um plano de modernização para responder ao problema, que passa pelo “recrutamento estratégico de médicos para as áreas mais carenciadas”, pelo “alargamento de consultas não presenciais para situações de seguimento clínico, renovação de terapêutica crónica ou triagem”, o que permite a libertação de vagas presenciais. E também pelo reforço da articulação com os centros de saúde, “gestão dinâmica de agendas para evitar desperdício de vagas por faltas” e “incentivo à produção clínica adicional”.
A ULS de Matosinhos lembra que a baixa taxa de cumprimento dos tempos máximos nas primeiras consultas se trata de “constrangimento de caráter continuado, que exige intervenções estruturais” e adianta que o atual Conselho de Administração — que iniciou funções há três meses — tem em curso um conjunto de medidas, como o reforço da “oferta assistencial”, incluindo a disponibilização de consultas em período adicional e aos sábados, “com o objetivo de aumentar o número de vagas para primeiras consultas e melhorar os tempos de resposta aos utentes”. Por outro lado, a ULS está a preparar um novo Regulamento de Produção Adicional, que “atribuirá especial prioridade à recuperação da atividade assistencial nas áreas com maiores constrangimentos de acesso e listas de espera”, estando também em curso uma “contratualização interna com os serviços clínicos, estabelecendo objetivos específicos de acessibilidade e produção”.
Já a ULS da Região de Leiria sublinha que tem sido confrontada, ao longo do último ano, com um aumento dos pedidos de consultas (decorrentes de um aumento da referenciação por parte dos centros de saúde), recebendo ainda “um volume muito significativo de referenciações provenientes de outras ULS”. “Esta realidade contribui para que a procura cresça acima da evolução da população residente”, justifica a ULS, adiantando que, para responder a esta pressão assistencial, o atual Conselho de Administração está a “implementar um conjunto de medidas destinadas a aumentar a capacidade de resposta, nomeadamente o reforço da produção de primeiras consultas nas especialidades com maior procura, a reorganização da oferta assistencial, a monitorização sistemática dos tempos de resposta e a otimização dos processos de triagem e referenciação”.
A ULS do Tâmega e Sousa recusou responder às questões enviadas.
Hospital de Cascais e IPO de Coimbra e do Porto têm melhores desempenhos
Continuando numa análise por ULS, mas do lado oposto, surge o Hospital de Cascais (a única Parceria Público-Privada do país), onde apenas 11,9% das primeiras consultas foram realizadas fora dos TMRG entre janeiro e maio de 2026. Segue-se depois o IPO de Coimbra, com apenas 13,6% de incumprimento dos tempos máximos. Já no IPO do Porto, 16,4% das primeiras consultas foram realizadas fora do prazo máximo entre janeiro e maio. Na ULS do Litoral Alentejano (que abarca o hospital de Santiago do Cacém), a percentagem foi de 17,9%; e na ULS da Póvoa de Varzim/Vila do Conde, de 18,5%. Estes números, comparados com as duas ULS com maior nível de cumprimento, demonstram as grandes disparidades que existem entre os hospitais do SNS.
No IPO de Lisboa, a percentagem de primeiras consultas oncológicas feitas para lá do prazo máximo foi de 46,5% nos primeiros cinco meses de 2026, muito acima dos outros dois IPO do país.
Segundo os últimos dados revelados pela Entidade Reguladora da Saúde, no final de 2025, havia 1.056.223 utentes em espera para primeira consulta, o que representa um aumento de 17% em relação a 2024. Embora ainda não tenham sido divulgados dados relativos à lista de espera em 2026, o aumento da procura (somado à ligeira diminuição do número de consultas realizadas) deixa antever que a situação se esteja a deteriorar ainda mais.
Para o presidente da APAH, o seguimento de doentes crónicos com doença controlada em consultas de enfermagem poderia ajudar a libertar os médicos para as primeiras consultas, fazendo diminuir as listas de espera. “Cerca de 3/4 do tempo dos médicos é dedicado a consultas de seguimento. Podemos distribuir melhor este tempo, e colocar os doentes crónicos (controlados e sem agudizações) em consultas de enfermagem e até nas farmácias”, defende Xavier Barreto, dando o exemplo de doentes diabéticos, hipertensos, com asma ou insuficiência cardíaca. “Podem ser seguidos por outros profissionais sem perda de qualidade”, acrescenta.
Ressalvando que a ideia “não é colocar enfermeiros a fazer consultas médicas”, Xavier Barreto diz que a medida — prevista no Plano de Emergência para a Saúde, mas que não avançou — “poderia permitir eliminar as listas de espera em poucos meses ou anos”. O presidente da associação que representa os administradores hospitalares lamenta que a medida seja usada “como arma de arremesso”, principalmente devido à oposição dos médicos. “Isto pode acontecer já amanhã, e os médicos deixariam de gastar tempo com estes doentes controlados, cujas consultas têm pouco valor acrescentado”, defende, dando o exemplo do Reino Unido, onde os doentes com patologia musculoesquelética (nomeadamente dor lombar) são vistos primeiro por um fisioterapeuta, que depois decide ou não se é necessário um encaminhamento para um médico de família ou para um especialista hospitalar.
Relativamente à estagnação das primeiras consultas, Xavier Barreto considera que o cenário atual “é preocupante, porque a procura continua a aumentar”, o que tem vindo a agravar significativamente as listas de espera. “A estagnação das primeiras consultas não é suficiente, temos de crescer”, sublinha o presidente da APAH, vincando que, perante as limitações nos recursos médicos, é necessário “utilizar mais enfermeiros no percurso dos doentes”.
[O espião português suspeito de vender segredos à Rússia voa para Roma e as autoridades estão determinadas a apanhá-lo em flagrante a passar informações a um agente de Moscovo. “A vida dupla do espião traidor” é o novo Podcast Plus do Observador. Uma série em seis episódios, narrada pelo ator Ivo Canelas, com banda sonora original de Júlio Resende. Pode ouvir aqui, no site do Observador, o terceiro episódio, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no YouTube. E pode ouvir aqui o primeiro episódio e aqui o segundo.]