As praias estão cheias, os supermercados “batem recordes” de vendas, os bares e os restaurantes não se queixam. Mas os números da hotelaria no Algarve contam mais do que uma história. E mostram um verão um pouco diferente do habitual. A guerra a Oriente e o aumento do preço dos combustíveis transformaram o destino ‘de sempre’ dos portugueses (e de muitos ingleses) numa decisão de última hora. Nos areais, o português continua a ser a língua mais falada, mas este ano nota-se uma quebra de turistas nacionais. O setor reconhece que os preços têm contribuído para afastar os portugueses, que uns quilómetros mais ao lado encontram opções mais baratas. Mas não vê nisso um problema. No meio da incerteza, os empresários têm uma convicção: não querem o Algarve a competir com o turismo do ‘tudo incluído’ do sul de Espanha.
“Pode sempre correr melhor mas não está muito fora do normal. Eventualmente 1% ou 1,5% abaixo [do ano passado], não é daí que vem o drama”, adianta ao Observador Hélder Martins, presidente da Associação de Hotéis e Empreendimentos Turísticos do Algarve (AHETA). A expressão é replicada por Eduardo Miranda. “Não há drama”, garante o presidente da Associação do Alojamento Local em Portugal (ALEP). Para ambos, os rumores sobre a ‘morte’ do turismo no Algarve são manifestamente exagerados. “No contexto geral do Algarve andamos com números muito próximos do ano passado, que foi o melhor ano turístico de sempre”, sublinha Hélder Martins.
Ainda não é possível fazer um balanço do verão, por falta de valores oficiais. Os dados mais recentes do INE (Instituto Nacional de Estatística) indicam que em junho o número de hóspedes e de dormidas quebrou ligeiramente face ao mesmo mês do ano passado (-0,2% e -0,4%, respetivamente) — ao contrário dos valores totais nacionais –, bem como as taxas de ocupação por cama e por quarto. Já os proveitos totais aumentaram, bem como o rendimento médio por quarto disponível.
“Na generalidade o Algarve tem corrido razoavelmente bem”, começa por dizer ao Observador Cristina Siza Vieira, vice-presidente executiva da AHP. “Alguns operadores até dizem que vão ficar acima das expectativas em receitas, e que não é mau não terem tanta ocupação porque um Algarve menos cheio permite um melhor serviço”.
“Há sítios onde o alojamento e a oferta têm mais qualidade, e esses sítios estão, indiscutivelmente, a trabalhar melhor”, destaca, por sua vez, Hélder Martins. “Há mercados a reagir muito bem e a crescer, continuamos a ter hotéis de cinco estrelas onde o principal cliente é americano, o que é extraordinario”, revela. Também o tempo de espera nos aeroportos por causa do novo sistema de controlo de fronteiras deixou de ser uma preocupação tão grande. “Tirando focos pontuais está a correr bem, não tem nada a ver com o que acontecia há dois ou três meses, quando as pessoas esperavam mais para sair do aeroporto do que o tempo que tinha durado o voo”.
Porém, “há outros sítios dirigidos a um público com um envelope financeiro mais pequeno que não estarão tão bem”, ressalva o líder da AHETA. “Estamos a trabalhar bem a comparar com o resto do país e até com outros destinos turísticos concorrenciais. Não temos razões de queixa, diria que o verão está a correr dentro do previsto”, remata.
Também no alojamento local não parece haver grandes razões para alarme. Lembrando que o Algarve, como outras zonas de Portugal, é hoje “um mercado mais maduro, já sem aquela coisa da novidade e de crescimento exponencial”, Eduardo Miranda revela que este ano nota-se “uma pequena diminuição de preços e um pequeno aumento de reservas”.
No geral, e em média, “a expectativa parece ser semelhante à do ano passado” em agosto, diz Eduardo Miranda. O presidente da ALEP chama, no entanto, à atenção para o facto de as médias “esconderem muita coisa”, e que há municípios e segmentos mais afetados que outros. Em Loulé, Tavira e Lagos os números são mais “favoráveis” do que há um ano. Já em Albufeira “a expectativa é bastante menor” no que toca ao crescimento. “Diria que está a tentar manter-se igual ao ano passado”.

Por segmentos, o das famílias que procuram casas “com três a quatro quartos e para cima” é o que “está a puxar as médias um pouco para baixo em termos de expectativas, e que parece que foi um pouco mais atingido pela incerteza”. A tendência verifica-se em “apartamentos de meios mais urbanos” e não no segmento de luxo.
Reservas na véspera e espaço para a toalha
Ainda antes do arranque da época alta, a hotelaria aguardava com expectativa o efeito possível e provisório que a guerra entre os EUA e o Irão poderia ter no turismo algarvio. Mas o eventual desvio para Portugal de turistas que costumavam procurar resorts em países como o Egito, Chipre ou Turquia não se verificou. O que a guerra trouxe foi o receio de não haver combustível suficiente para os aviões, o que levou muitos estrangeiros a adiar o momento de fazer a reserva. “Hoje em dia chegamos a agosto e temos a primeira quinzena cheia, enquanto a segunda quinzena não está a esse nível. Só mais em cima da hora é que começam a surgir as reservas”, explica o presidente da AHETA.
“Não sei se o cliente está à espera que haja saldos ou da confirmação de que vai ter o seu voo. A verdade é que hoje não temos um hotel cheio com um mês de antecedência. Isto mudou e se calhar para o futuro temos de nos habituar a que seja assim”, constata Hélder Martins.
No último inquérito de conjuntura da Associação da Hotelaria de Portugal (AHP), divulgado no início de junho, já havia essa indicação. “Já tínhamos dado o sinal de que o last minute poderia deixar-nos algumas surpresas e, de facto, o Algarve arrancou um pouco tarde nas reservas para agosto, mas está com reservas consolidadas bastante interessantes”, diz Cristina Siza Vieira.
A experiência na hotelaria repete-se no alojamento local. “Há reservas que são feitas dias antes da chegada, o que não era normal. O last minute está com um peso muito grande”, diz Eduardo Miranda. “O que significa que todas as estimativas são mais complicadas e têm uma margem maior para erro. Nos últimos um ou dois anos foi notícia que o Algarve estava muito mal e no final do mês acabava por se atingir, ou até ultrapassar, os valores do ano anterior. E isso deveu-se, em grande parte, ao peso crescente do last minute”, explica o líder da ALEP.
O número de reservas de última hora está a ser “muito significativo”, tanto por parte de turistas estrangeiros como de portugueses, segundo a AHETA. Por cá, foi esse um dos efeitos da guerra a Oriente, pela subida que provocou no preço dos combustíveis que “afeta muito o cliente de proximidade”. Mas não é de hoje que os portugueses se queixam do que custa passar férias no Algarve.
“Desde que me lembro que existe esta questão de Espanha ser mais barata. Mas por vezes comparamos o que não é comparável”, vinca Hélder Martins, lembrando uma análise feita há dois anos pela associação que revelava que os “hotéis de primeira qualidade no sul de Espanha eram cinco ou seis vezes mais caros” do que no Algarve. “Há um modelo que o Algarve não tem em quantidade, e que eu espero que não venha a ter, que é o ‘tudo incluído’, e que em Espanha é significativamente mais barato, tal como na Turquia e em Marrocos”.
O debate sobre se o Algarve deve ter ‘mais ou melhor’ turismo parece estar arrumado para os hoteleiros. “Nós não temos de andar apenas à procura de mais turistas, e essa foi uma decisão que os empresários tomaram”, sublinha o responsável da AHETA. “Temos de procurar melhores turistas. O empresário faz o preço que acha que é justo para o seu negócio, consciente de que se o negócio estiver muito em alta pode crescer, mas também pode baixar. A carteira dos portugueses é que, em muitos casos, não consegue esticar”.
Segundo o presidente da associação dos hotéis do Algarve, tem-se notado nos últimos anos que os portugueses têm optado por reduzir o tempo de permanência. “Antes vinham duas semanas, passou para uma e agora, se calhar, vêm quatro dias. Nota-se que há dificuldade e que há uma redução”, admite. Que se vê também no consumo. “No fim de semana passado os supermercados bateram recordes”, porque as pessoas comem mais em casa para controlar gastos, acrescenta. Ainda assim, o primeiro mercado da época alta no Algarve continua a ser o português. “Hoje andamos pelas ruas e estão cheias de portugueses. Não há uma avalanche tão grande mas, há três ou quatro anos, a crítica que nos faziam é que vinham para o Algarve e não tinham onde estender a toalha”.
No início de junho, a AHP já tinha sinalizado que o mercado interno poderia vir a ter um comportamento “errático”, porque, “ao contrário de outros anos”, foi apontado por menos operadores como o principal mercado emissor de turistas. “Sentia-se um abrandamento e parece-nos que, efetivamente, isso irá confirmar-se”.
Para Hélder Martins, tem de haver um “meio termo” entre o que é “saudável” para as empresas e a “qualidade para o cliente que vem cá gastar o dinheiro”. Além da questão financeira, o responsável da AHETA identifica outro fator para os portugueses escolherem menos o Algarve do que noutros anos: em todo o país há cada vez mais opções de alojamento.
Portimão a subir no AL e em quebra na hotelaria
Em meados de julho, um estudo do IPAM (Instituto Português de Administração de Marketing) sobre as férias dos portugueses concluía que o Alentejo litoral tinha ultrapassado o Algarve “e torna-se o destino preferido dos portugueses” no verão. “Entre os destinos nacionais, o Alentejo Litoral surge agora como a principal escolha, indicada por 60% dos inquiridos que fazem férias em Portugal. O Algarve, que liderava em 2019, desce de 48% para 30%”, apontava o estudo, que tinha como base 450 questionários.
E ainda o verão não tinha começado, em meados de junho, e já a Airbnb publicava uma análise semelhante, que dava conta que os portugueses estão cada vez mais em busca de destinos “além do Algarve”, embora reconhecendo que “o Algarve continua a ser o principal destino de verão dos viajantes portugueses”. O Observador pediu à plataforma de alojamentos os dados mais recentes sobre as reservas no Algarve para este verão, ao que o Airbnb, que é uma empresa cotada, indicou os resultados publicados em maio de 2026, o último trimestre reportado junto do regulador norte-americano.

Segundo a plataforma, o Algarve lidera nas reservas de portugueses, com base “nas pesquisas e reservas efetuadas durante o primeiro trimestre de 2026 para estadias entre 21 de junho e 22 de setembro de 2026, comparadas com as pesquisas e reservas realizadas no primeiro trimestre de 2025 para estadias entre 22 de junho e 23 de setembro de 2025”.
O destino nacional mais procurado na plataforma este verão, por portugueses e não só, foi Portimão, “enquanto Olhos de Água e Tavira também figuram entre os cinco destinos nacionais com maior volume e crescimento de pesquisas”. Portimão foi também “o destino mais procurado pelas famílias portuguesas, seguido de outros destinos algarvios, como Olhos de Água, Tavira e Olhão”.
Os dados da Airbnb contrastam com a tendência observada pelo INE, que revela que em junho houve uma quebra do número de hóspedes em Portimão de 8,6% e de 6,6% nas dormidas. Nos hóspedes estrangeiros, a descida foi de quase 10%. Os portugueses foram menos 6,8%. No balanço dos primeiros seis meses do ano, Portimão mantém o registo negativo em ambas as métricas.
Há, porém, um dado relevante que pode explicar a diferença entre a popularidade de Portimão na Airbnb e a quebra verificada pelo INE. O Instituto Nacional de Estatística considera como alojamento local apenas os estabelecimentos “com 10 ou mais camas”, o que, reconhece o setor, pode desvirtuar a verdadeira dimensão da ocupação turística, no Algarve e não só. “Nós temos 137 mil camas legais e alojamento local desde 2007 com mais de 200 mil camas”, em que muitas delas não contam para as estatísticas oficiais, diz Hélder Martins. “A ocupação do Algarve vai aumentar 6% ou 7% quando esses dados forem contabilizados pelo INE”, ressalva. Algo por que o setor tem vindo a batalhar.
“Está a crescer o interesse por destinos alternativos”, diz Airbnb
As estatísticas oficiais, sem contar os alojamentos com menos de 10 camas, mostram que em junho, em vários dos municípios algarvios onde o turismo tem mais peso, houve uma quebra no número de hóspedes e de dormidas. As exceções são Albufeira, Loulé e Vila Real de Santo António. Albufeira, que é o segundo município com mais turistas em Portugal, a seguir a Lisboa, recebeu em junho mais de 206 mil hóspedes, uma subida de 3,6% face ao mesmo mês do ano passado. O número de estrangeiros cresceu 3,8% e o de residentes 2,9%. As dormidas aumentaram 2%. Entre janeiro e junho as subidas foram até bastante expressivas. Mais 11,2% de hóspedes e mais 8,2% de dormidas, com os estrangeiros a crescerem mais do que os residentes.
No top Algarvio segue-se Loulé, onde se situam Vilamoura, Quarteira e Quinta do Lago. Aqui, o número de turistas aumentou 2,3% em junho, mas as dormidas só cresceram 0,1%. E se o número de estrangeiros subiu em ambos os indicadores, nos turistas nacionais a tendência foi inversa – -0,3% de hóspedes e -3,4% de dormidas. E as contas de janeiro a junho também revelam um panorama negativo, com uma descida de 0,8% nos hóspedes e de 3,5% nas dormidas.
Logo a seguir a Loulé na lista dos municípios com mais turistas seguem-se três concelhos algarvios: Portimão, Lagos e Lagoa. E em junho a tendência foi a mesma em todos – menos hóspedes e menos dormidas. No balanço dos primeiros seis meses, Lagos conseguiu crescer em hóspedes e dormidas e Lagoa apenas em hóspedes.
No extremo oposto está Vila Real de Santo António, que se destaca nas estatísticas de junho ao crescer 6,1% em hóspedes, ainda que apenas 0,3% nas dormidas. No município fronteiriço, que abrange Vila Nova de Cacela e Monte Gordo, o número de estrangeiros cresceu 9,8% e as dormidas 5,2%. Já os visitantes nacionais até aumentaram (3,6%) mas as dormidas desceram (-3,2%). De janeiro a junho Vila Real de Santo António registou -2,8% de hóspedes e -5,9% de dormidas.
Os dados do INE revelam ainda a realidade de Tavira, mas só em junho, já que nos primeiros seis meses de 2026 o município não entra no top 15 nacional. Assim, em junho, Tavira recebeu menos hóspedes (-1,4%) e menos dormidas (-2,9%) do que no mesmo mês de 2025. A quebra nas dormidas de estrangeiros foi expressiva: -6,4%.
Já a Airbnb não especifica a evolução do Algarve em relação aos verões anteriores, dizendo apenas que, “de uma forma geral, as reservas efetuadas por viajantes portugueses para destinos nacionais durante o verão de 2026 aumentaram 25% face ao mesmo período de 2025”. As reservas para viagens em família aumentaram 24% e as reservas para grupos cresceram 28%. Sem apontar uma quebra nas reservas no Algarve, a plataforma ressalva que “embora o Algarve mantenha a liderança, está a crescer o interesse por destinos alternativos, em particular na costa alentejana e em zonas rurais”. Nomeadamente, “Odemira e Porto Covo registam um crescimento significativo da procura e afirmam-se como alternativas para os viajantes que procuram tranquilidade, mais espaço, contacto com a natureza e, em muitos casos, uma melhor relação qualidade-preço através da partilha dos custos do alojamento”.
No Algarve, a grande batalha que o turismo tem travado é o combate à sazonalidade. Eventos desportivos ou culturais têm ajudado a atrair visitantes fora dos meses mais quentes, assim como os preços mais baixos em junho ou em setembro, dizem as associações. “Tem sido feito um bom trabalho pelo Turismo do Algarve, os operadores e os organizadores de eventos. Mas não há milagres. Não se muda o perfil de um destino de verão de uma hora para a outra”, afirma Eduardo Miranda da ALEP. Ainda que pela evolução das reservas dê para perceber que “a lógica de ficar uma semana no mesmo hotel ou na mesma praia e não sair para mais nada mudou”. As estadias de dois, três ou quatro dias, sobretudo no caso dos estrangeiros, “querem dizer que os turistas estão a andar mais por várias zonas e a ver coisas diferentes, o que é positivo”. Ainda assim, lamenta Hélder Martins, a sazonalidade e o pico do turismo em agosto “nunca diminuirá para o nível que gostaríamos, que era que não existisse”.