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Isabella Rossellini: "Noutros tempos esteve na moda a expressão 'sê bonita e cala-te'. Felizmente, as coisas mudaram"

A 79ª edição de Locarno abriu com a actriz que esteve no Ticino para receber o Excellence Award. Falámos com ela sobre a nomeação para o Óscar, a paixão pela etologia e sobre como vê o cinema hoje.

Francisco Ferreira
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Actriz e modelo italo-americana, filha de duas lendas da história do cinema — Roberto Rossellini e Ingrid Bergman — Isabella Rossellini tem a paixão dos fortes e, aos 74 anos, continua uma artista atrevida, corajosa, sedutora na sua vulnerabilidade. É curioso — agora que se pensa nisso — lembrar que a vimos quase sempre a sorrir em público, nas várias etapas do seu percurso, em total divergência com a enfeitiçada e traumatizada Dorothy Valens, o grande papel da sua vida, ou aquele que, pelo menos, mais nos marcou — mas só se falou um pouquinho de Blue Velvet e de David Lynch, que para ela foi paixão desmedida e separação difícil, um amigo até ao fim. Isabella não é pessoa de olhar demasiado para trás.

Além do cinema — trabalhou com realizadores como Robert Zemeckis, David O. Russell, Taylor Hackford, Marjane Satrapi, Guy Maddin ou os irmãos Taviani… — prefere falar de etologia, paixão de menina (e semente deixada pelo pai) que a levaria à universidade, já mulher madura. Isabella é mestre em Comportamento e Conservação Animal pela Hunter College, de Nova Iorque, e desenvolveu vários projectos autorais dedicados ao mundo animal, entre os quais a série Green Porno (2008-2009), abordagem original, bem-humorada, ao mundo dos bichos e rituais de acasalamento das espécies. De resto, a caminho da entrevista que se segue, escreveu a agente dela, zelosa, via whatsapp: “Conhece Green Porno? É que a Isabella gostava muito que visse, os episódios são muito curtos, cerca de 2 minutos cada.” Trazia a mensagem o link que aqui se sublinha:

https://www.youtube.com/playlist?list=PL14F6452A495787DE

Em 30 anos de actividade, nunca me havia cruzado com Isabella Rossellini em entrevista. Podia ter calhado, graças aos já citados Marjane Satrapi e Guy Maddin, por exemplo; mais recentemente, por A Quimera (2023), de Alice Rohrwacher, ou por Conclave (2024), de Edward Berger, filme que lhe valeu a sua primeira nomeação para o Óscar (de Melhor Actriz Secundária). Pois aconteceu esta quarta-feira, não sem sobressalto, acabado de chegar e antes sequer de levantar a acreditação, num Ticino com temperaturas invulgarmente altas para estas paragens.

Comecemos por Green Porno, já que insistiu. Porque a fascina tanto e o que mais a surpreendeu ao estudar o comportamento animal?
A natureza é infinitamente mais diversa do que imaginamos. Temos tendência para pensar apenas no modelo tradicional de pai, mãe e filhos. Mas basta observar os animais para perceber que existem inúmeras formas de reprodução, de organização familiar e até de identidade sexual. Há espécies em que o macho assume funções maternas. Outras são hermafroditas. Existem estratégias completamente inesperadas. Foi precisamente essa surpresa que quis transmitir nos filmes. Mais do que dar respostas, queria partilhar o espanto que senti ao descobrir tudo isto.

Ao estudar o comportamento animal, encontrou paralelos com o comportamento humano?
É uma pergunta que me fazem com frequência. A verdade é que a etologia estuda o comportamento, não os sentimentos. Podemos observar um cão a abanar a cauda quando vê o dono, mas cientificamente apenas podemos afirmar que, perante determinado estímulo, a cauda se move de um lado para o outro. Dizer que o cão está feliz já é uma interpretação. Durante muito tempo, essa foi precisamente a dificuldade da etologia enquanto disciplina científica. Só com o desenvolvimento de novas técnicas — como a imagiologia cerebral ou o estudo das hormonas — foi possível aproximarmo-nos um pouco mais daquilo que os animais podem sentir.

Moda, cinema e etologia parecem mundos muito diferentes. Existe um ponto de ligação entre eles?
Existe, pelo menos para mim. A moda e o cinema são artes profundamente visuais. A etologia nasceu de uma paixão completamente pessoal. Como vivi essas três experiências, quando comecei a realizar filmes percebi que podia reuni-las num único projecto. Foi exactamente isso que aconteceu com Green Porno.

"O meu pai e Vittorio De Sica não se sentaram numa bela manhã com vontade de inventar uma nova linguagem cinematográfica. Foram para a rua e trabalharam com os meios limitados que tinham, numa Itália devastada pela guerra. O essencial era contar uma história. É essa a maior lição que recebi dele."

Os filmes desta série são acessíveis e bem-humorados, ao mesmo tempo divulgam conhecimento científico. Foram pensados também para um público mais jovem?
Curiosamente, não. A origem do projecto foi bastante diferente. Tudo começou graças a Robert Redford. Em 2006, realizei uma curta-metragem chamada My Dad Is 100 Years Old, uma homenagem ao meu pai, por ocasião do centenário do seu nascimento. O Guy Maddin realizou-a comigo e o Robert Redford viu o filme. Gostou tanto que convidou-me para desenvolver uma série de curtas-metragens. Na altura, o YouTube estava a dar os primeiros passos e o iPhone ainda nem existia. Lembro-me que estava em Barcelona quando foi apresentado pela primeira vez. Diziam-nos que, dentro de poucos anos, seria possível ver um filme como Lawrence da Arábia no telefone enquanto viajávamos de carro. Parecia ficção científica. O Robert estava muito convencido de que esse novo ecrã exigia uma nova linguagem cinematográfica. Dizia que sempre fizéramos filmes para cinema ou televisão, mas nunca verdadeiramente para estes pequenos dispositivos [apontando para o telefone que gravou a conversa].

É por isso que Green Porno tem uma estética tão simples, cores muito fortes e cenários reduzidos ao essencial. Tudo foi pensado para funcionar num ecrã muito pequeno.
Também foi um enorme alívio perceber que existia finalmente espaço para curtas-metragens fora dos festivais. Durante décadas parecia que só havia lugar para filmes de duas horas ou episódios televisivos. Ora, no início da história do cinema, quase tudo eram curtas-metragens. Depois esse formato perdeu importância. As novas plataformas devolveram-lhes vida.

Receber este prémio em Locarno [Excellence Award] tem um significado especial, no mesmo festival que Roberto Rossellini venceu há 78 anos, com Germania anno zero (1948)? É inevitável pensar nele.
Sim, claro. É impossível não pensar nele. Quando recebi a notícia, a primeira imagem que me veio à cabeça foi precisamente o meu pai. Afinal, estamos a falar do mesmo festival, de um prémio que também fez parte da história dele. Às vezes perguntam-me se eu falo com os mortos, por causa de uma frase que eu disse certo dia e que a imprensa deslocou do contexto. Não é bem isso. O que acontece é que, quando perdemos pessoas que foram fundamentais nas nossas vidas, é muito chocante no início mas, em seguida, no processo de cura, as pessoas voltam à nossa mente. E não morrem, de facto. Continuam presentes nos nossos pensamentos. Hoje, por exemplo, pergunto-me inevitavelmente como se teria sentido Roberto quando recebeu esse prémio de 1948. E imagino o que diria se me visse aqui tantos anos depois.

Que diria ele?
Acho que ficaria feliz. Muito feliz. Ficaria muito orgulhoso. Curiosamente, acho que teria ainda mais orgulho em Green Porno do que no meu trabalho como actriz. Lembro-me de uma história que me marcou profundamente e vou contar-lha. Certo dia, acompanhei-o a uma escola de cinema onde ia dar uma conferência. Levou consigo uma câmara e todos os estudantes correram para a observar. O meu pai ficou incomodado com aquilo e perguntou-lhes: “Mas, se eu fosse escritor, vocês estariam a olhar assim para a minha caneta?” Depois acrescentou uma frase que nunca esqueci: “A câmara é apenas um instrumento. O importante é aquilo que queremos contar.” Esta ideia acompanhou-me toda a vida. Hoje, tenho uma nora que quer realizar filmes e digo-lhe exactamente o mesmo: não esperes pela câmara perfeita. Não esperes pelo financiamento ideal. Pega num telemóvel e faz o teu filme. O neo-realismo italiano nasceu precisamente dessa necessidade. O meu pai e Vittorio De Sica não se sentaram numa bela manhã com vontade de inventar uma nova linguagem cinematográfica. Foram para a rua e trabalharam com os meios limitados que tinham, numa Itália devastada pela guerra. O essencial era contar uma história. É essa a maior lição que recebi dele.

Crescer com Roberto Rossellini e Ingrid Bergman influenciou inevitavelmente a forma como encara o cinema. Ainda há poucos dias, recordou o Libération num artigo a forma tumultuosa como eles se apaixonaram, pela carta que ela lhe escreveu e que ele só leu, meses depois, gerando uma paixão intensa. O que é que verdadeiramente herdou deles?
Aquilo que mais aprendi com os meus pais foi o amor pelo trabalho. Muitas pessoas pensam que eles trabalhavam para alcançar sucesso ou prestígio, mas nunca foi isso que os moveu. Faziam filmes porque havia alguma coisa que os emocionava ou intrigava profundamente. Foi essa a grande lição que recebi. Eu também não fiz Green Porno para conquistar audiências ou prémios. Fiz aqueles filmes porque tinha uma curiosidade enorme pela ciência e queria explorar esse universo através do cinema.

Por outro lado, a arte transforma-nos. Caso contrário, ninguém estaria aqui, num festival de cinema. Os filmes permitem-nos conhecer pessoas, culturas e realidades completamente diferentes das nossas. Podemos compreender melhor um país onde nunca estivemos ou aproximarmo-nos de experiências humanas que desconhecíamos. Neste momento, por exemplo, estou a trabalhar com a artista iraniana Shirin Neshat. É fascinante perceber como ela exprime, através do cinema, aquilo que significa ser iraniana e viver em Nova Iorque. É essa capacidade de criar empatia que torna o cinema tão importante.

"'Blue Velvet' chegou muito cedo para mim. Antes dele, tinha feito 'White Nights', mas foi o filme do David que acabou por marcar verdadeiramente o início da minha carreira. Foi um começo muito intenso. Perdemos o David há pouco tempo e é impossível não pensar na influência que teve sobre tantas pessoas. Era um cineasta absolutamente único."

Em que momento percebeu que queria ser actriz?
Bastante tarde. Só comecei verdadeiramente na casa dos trintas. Afinal, a minha mãe era Ingrid Bergman. Tinha uma carreira absolutamente extraordinária. Quando somos jovens, queremos construir a nossa própria identidade, provar que conseguimos fazer alguma coisa pelos nossos próprios meios. Achei que devia seguir outro caminho. Foi por isso que investi primeiro na moda. Mais tarde, comecei a ouvir várias pessoas dizerem que muitas modelos estavam a tornar-se actrizes. O fotógrafo Richard Avedon disse-me então uma frase de que nunca me esqueci: “Ser modelo é como ser uma estrela do cinema mudo. Já sabes contar emoções sem palavras; só precisas de lhes acrescentar voz”. Percebi que talvez tivesse razão e resolvi experimentar. Mas comecei tarde. E só realizei os meus próprios filmes muito mais tarde, já nos cinquentas. Tenho a sensação de que faço sempre tudo um pouco atrasada.

A sua mãe gostou da ideia?
Adorou. Já o meu pai era bastante mais reservado com actores. Achava a profissão muito dura, toda uma vida feita de recusas, de castings falhados, de insegurança permanente. Talvez tivesse razão.

Que recordações guarda do seu primeiro grande filme internacional, White Nights [O Sol da Meia-Noite, de Taylor Hackford, 1985]?
Uma experiência muito importante, foi nessa altura que decidi verdadeiramente tentar ser actriz. Nessa época, já vivia nos Estados Unidos. Mudei-me para lá quando tinha 19 anos e toda a minha vida adulta decorreu na América. Continuava naturalmente ligada à Europa, entre Itália e França, que são o centro da moda, mas profissionalmente já trabalhava, sobretudo, nos EUA.

Em 1985, estávamos na Guerra Fria e você interpreta a russa…
Sim, e durante a preparação de White Nights frequentei aulas de representação com Mikhail Baryshnikov, que continua a ser um grande amigo. Pouco depois fiz Blue Velvet, por isso posso dizer que tive um início de carreira muito forte. Sabia que restauraram White Nights? Vamos voltar a apresentá-lo em Nova Iorque, a 15 de Setembro deste ano, na cópia de 70mm, tal como aconteceu na sua distribuição da época. Infelizmente, Gregory Hines já não está entre nós, mas o “Misha” [Mikhail Baryshnikov] vai acompanhar-me nessa sessão.

A nomeação recente para o Óscar por Conclave teve significado para si?
Muito. Fiquei muito agradecida. Sobretudo porque pensei imediatamente na minha mãe, que recebeu sete nomeações e ganhou três Óscares. Quando anunciaram o meu nome, a primeira coisa que me ocorreu foi esta: “Pelo menos consegui esta nomeação!”. Tenho a certeza de que ela teria ficado muito contente.

Esta nomeação tardia, olhando para trás, não é afinal o espelho de uma carreira tão pouco convencional como a sua?
Sem dúvida. Nunca tive pressa. Comecei tarde como actriz. Realizei filmes ainda mais tarde. Voltei à universidade depois dos cinquenta anos. Hoje continuo a descobrir coisas novas. No fundo, acho que a curiosidade acabou por orientar toda a minha vida muito mais do que qualquer plano de carreira. E isso deixa-me bastante feliz.

Falou em Blue Velvet. É um filme fulcral para a minha geração e continua a ser um dos momentos incontornáveis da sua carreira. Como recorda esse início e o encontro com David Lynch?
Curiosamente, Blue Velvet chegou muito cedo para mim. Antes dele, tinha feito White Nights, mas foi o filme do David que acabou por marcar verdadeiramente o início da minha carreira. Foi um começo muito intenso. Perdemos o David há pouco tempo e é impossível não pensar na influência que teve sobre tantas pessoas. Era um cineasta absolutamente único. Nunca seguiu tendências. Criou um universo próprio e convidou-nos a entrar nele. É raro encontrar alguém assim.

Continua a haver espaço para um cinema tão livre e ousado como o de Lynch?
Estamos num momento de grande transformação, no olho do ciclone. Não sei exactamente para onde o cinema caminha e desconfio que ninguém sabe. Os estúdios atravessam dificuldades, o aparecimento das plataformas de streaming alterou completamente o modelo tradicional da indústria e, agora, também começamos a confrontar-nos com a inteligência artificial. Tudo isto está a acontecer ao mesmo tempo. São mudanças talvez só comparáveis à passagem do cinema mudo para o sonoro, um século atrás. Naturalmente que o cinema vai sobreviver. A questão é perceber de que forma. Continuaremos a reunir-nos numa sala escura para ver um filme? Haverá lugar para as pequenas salas de bairro que desapareceram em tantos países? São perguntas para as quais ainda não temos resposta. Mas acredito que o cinema encontrará um novo equilíbrio.

Entretanto, trabalhou com Ryan Murphy, um realizador completamente diferente de David Lynch.
Completamente. O Ryan é das pessoas mais divertidas que conheço. Tem uma cultura visual impressionante. Conhece a história do cinema, da moda, da fotografia, da televisão, da cultura popular. Tudo aquilo que faz está cheio de referências. Lembro-me que, durante uma cena [da série The Beauty, que está no Disney+], ele me dizer: “Agora quero que caminhes como a Bette Davis. E quando chegares à janela, faz um gesto à Eva Perón.” Eu ria-me porque percebia exactamente aquilo que queria dizer. É assim que ele pensa. Uma loucura. As referências fazem parte da linguagem dele.

"Nunca pensei que, aos cinquenta anos, voltaria à universidade. Nunca pensei que, aos setenta, continuaria a fazer filmes sobre comportamento animal. Mas talvez seja precisamente isso que torna a vida interessante. Nunca sabemos qual será a próxima descoberta."

Voltando atrás: apesar de ter construído uma forte carreira como actriz, houve um momento em que decidiu regressar à universidade. Porquê?
Porque nunca deixei de ter curiosidade. Quando tinha catorze anos, o meu pai ofereceu-me um livro de Konrad Lorenz, um dos fundadores da etologia. Foi uma descoberta extraordinária. Pensei imediatamente: “É isto que quero estudar.” Mas, naquela época, praticamente não existiam cursos universitários dedicados à etologia. Estudava-se Biologia, Zoologia, mas não esta disciplina específica. Depois, a vida levou-me por outros caminhos. Tornei-me modelo. Depois actriz. Entretanto nasceram os meus filhos. Só quando entrei na casa dos cinquenta anos, quando comecei a trabalhar menos e os meus filhos já eram adultos, senti que era o momento de regressar à universidade. Foi isso que fiz.

E foi aí que nasceu Green Porno?
Exactamente. As pessoas tendem a pensar que Green Porno é apenas uma série sobre sexo animal, mas não é verdade. Essa foi apenas a primeira série. Depois fiz Seduce Me, sobre os rituais de sedução entre animais, Mammas, dedicada ao comportamento maternal, e agora estou a preparar um novo projecto sobre os animais domésticos e a forma como espécies selvagens foram sendo domesticadas ao longo da evolução. No fundo, todos estes filmes nasceram da mesma paixão: compreender o comportamento animal.

A ciência acabou por lhe oferecer uma segunda, ou melhor, uma terceira vida profissional?
Pelo menos, ofereceu-me uma nova liberdade. Nunca pensei que, aos cinquenta anos, voltaria à universidade. Nunca pensei que, aos setenta, continuaria a fazer filmes sobre comportamento animal. Mas talvez seja precisamente isso que torna a vida interessante. Nunca sabemos qual será a próxima descoberta.

Nesta edição de Locarno chamou também a atenção pela roupa que escolheu para o festival. Disse que foi feita com a lã das suas próprias ovelhas.
É verdade. As ovelhas são minhas, duas. Chamam-se Frida Kahlo e Georgia O’Keeffe… Gosto de lhes dar nomes de artistas. Descobri um tecido maravilhoso, feito a partir da lã delas, e pensei: porque não desenhar eu própria a roupa que quero vestir?

Esse interesse pela moda sempre fez parte da sua vida?
Sempre. Antes de ser modelo e actriz, também queria ser figurinista. Estudei design de figurinos e continuo a adorar moda. Mas hoje a relação é diferente. Já não me interessa vestir uma marca. Interessa-me vestir uma ideia.

Também disse há pouco tempo que não gosta do tapete vermelho, que ele se tornou um dilema.
Tornou-se. Porque há uma enorme contradição. Passamos anos a fazer um filme que, muitas vezes, procura justamente questionar a forma como as mulheres são vistas. Depois chegamos à passadeira vermelha e percebemos que grande parte das pessoas ainda nem sequer viu o filme. Estão ali para avaliar o vestido. O penteado. As jóias. É estranho. As pessoas não sabem que muitos actores ganham mais dinheiro com contratos de moda ou de joalharia do que propriamente com os filmes. É uma realidade da profissão. Muitas vezes dizem-nos: “O salário do filme não é grande, mas depois recuperas na red carpet.” É assim que muita gente paga a hipoteca. Não tenho nada contra a moda. Pelo contrário, adoro-a. O que me incomoda é a falta de transparência. Vejo rapazes e raparigas desejarem determinados objectos sem imaginarem que muitas dessas imagens fazem parte de campanhas publicitárias cuidadosamente construídas. Hoje posso dar-me ao luxo de não depender disso. Já paguei a minha casa. Por isso, desenho a minha própria roupa e visto exactamente aquilo que me apetece. A liberdade é um privilégio.

A propriedade rural em que vive também mudou a sua relação com o tempo?
As pessoas imaginam a vida no campo como um retiro tranquilo. Não é nada disso. Uma quinta dá imenso trabalho. Há sempre qualquer coisa para fazer. Os animais não esperam. E as estações do ano também não. Na verdade, descanso mais quando estou a filmar do que quando estou na quinta.

Ao longo do seu percurso, assistiu também a uma profunda transformação na forma como as mulheres são representadas, podia falar-me disso?
Sim. Posso falar da minha experiência na Lancôme, onde trabalho há mais de cinquenta anos. Quando comecei, a modelo não tinha identidade. Nem sequer queriam que o meu nome aparecesse nas campanhas. Retiravam tudo aquilo que pudesse identificar-me — até a aliança. A beleza devia ser anónima. Mais tarde chegaram as super-modelos. Depois as actrizes. Hoje vemos escritoras, poetas, cantoras, rappers. As marcas já não procuram apenas um rosto. Querem uma voz. E isso diz muito sobre a evolução da sociedade. Noutros tempos esteve na moda a expressão francesa “sê bonita e cala-te” [em francês “sois belle et tais-toi!”, expressão essa que baptizou igualmente um documentário extraordinário de Delphine Seyrig, de 1981]. Era quase um lema quando comecei a trabalhar. Durante muito tempo esperava-se isso das mulheres. Que fossem bonitas e discretas. Felizmente, as coisas mudaram. Ainda há muito caminho a percorrer, mas hoje as mulheres são ouvidas de outra maneira. E isso parece-me uma conquista extraordinária.

O autor escreve segundo a antiga ortografia