A notícia foi confirmada pela família real através de um comunicado oficial. A terceira filha da princesa Eugenie, bisneta de Isabel II e 15.ª na linha de sucessão ao trono britânico, nasceu em Lisboa. Pela primeira vez, Portugal é berço de um membro da realeza britânica. Uma decisão inédita, que quebra uma tradição familiar e que representa também a dimensão do afastamento dos Iorque. Mais de 1900 quilómetros separam o Hospital da Luz do Palácio de Buckingham. Poderá ser a distância necessária para reduzir os potenciais danos que uma reaproximação familiar pública poderia causar.
Filha mais nova de André Mountbatten-Windsor com Sarah Ferguson, e neta de Isabel II, Eugenie não é membro sénior da realeza, e tem um emprego “comum”, como diretora da galeria de arte Hauser & Wirth, em Londres. Antes, a princesa estudou História da Arte e Literatura Inglesa na Universidade de Newcastle e trabalhou em Nova Iorque durante cerca de um ano, entre 2013 e 2015, a administrar leilões beneficentes para a Paddle8. “Foi uma forma de provar a mim mesma que podia ser útil, ter um trabalho e fazer coisas de que eu gosto, fora do radar”, destacou, numa entrevista no podcast Table Manners, em 2023.
Eugenie conheceu Jack Brooksbank numa viagem de ski na Suíça em 2010 e em 2011 o casal fez a primeira aparição pública, no Royal Ascott. Casaram-se em 2018, numa cerimónia no Castelo de Windsor com toda a pompa de uma celebração real — e onde Harry e Meghan celebraram o matrimónio meses antes. Foi por causa do marido que os caminhos da princesa se cruzaram com Portugal.

“Portugal é o sonho”
A ligação do casal com Portugal começou há mais de quatro anos. Jack Brooksbank trabalhou como um embaixador da marca de tequila Casamigos, fundada por George Clooney e o empresário norte-americano Mike Meldman. Mais tarde, em 2022, Brooksbank passou a trabalhar para outro projeto de Meldman, o Discovery Land Company, a promotora responsável pela construção do Costa Terra Golf & Ocean Club, em Melides. E foi neste ano que Eugenie, o marido e o filho de um ano, August, se mudaram para Portugal — dividindo o tempo entre a Comporta e Londres.
A família vivia desde 2020 no Frogmore Cottage, a residência em Windsor que foi ocupada por Harry e Meghan antes de os duques de Sussex deixarem as posições de membros seniores da realeza britânica e da consequente mudança para os EUA. Entretanto, com a mudança para Portugal, a base no Reino Unido voltou a ser o Ivy Cottage, uma casa de três quartos nos arredores do Palácio de Kensington, onde Eugenie e Jack Brooksbank já tinham vivido entre 2018 e 2020.
A residência pertence à Crown Estate, a empresa que administra as propriedades da realeza em nome dos contribuintes, pelo que a princesa deve pagar uma renda para ali viver. Um relatório do tribunal de contas britânico revelou recentemente que o Rei Carlos III paga rendas “ajustadas” para que as duas filhas do ex-príncipe André possam viver nas propriedades reais: o monarca paga 68% do valor de mercado pela renda da princesa Beatrice no palácio St. James e 64% do valor de mercado pela renda da princesa Eugenie no seu chalé no palácio de Kensington.
Em Portugal, a família tem uma casa dentro do condomínio Costa Terra. O empreendimento apresenta-se como “um refúgio familiar na Europa”, inserido num terreno de mais de 290 hectares, “com mais de 30% da vegetação preservada” e serviços de luxo com campo de golfe, centro equestre, beach club, horta biológica e centro de wellness. Dois anos depois de Eugenie e Jack Brooksbank fixarem-se em Melides, Harry e Meghan também terão comprado uma casa no empreendimento, onde costumam passar férias, como aconteceu neste verão. É neste refúgio em Portugal que Eugenie e Jack Brooksbank também recebem amigos, como foi o caso de Robbie Williams e a mulher Ayda Fields, no verão de 2025.
À revista Hello!, a princesa falou brevemente sobre como a família aproveita os dias na região, destacando que os filhos gostam muito de nadar. “O mar em Portugal é um pouco mais agitado, então ficamos só com os pés na água, mas o Augie é um peixe. Ele adora e vemos baleias e golfinhos por todos os lados.”
Já no podcast em que participou em 2023, Eugenie também partilhou um pouco sobre a vida que faz em Portugal. A princesa diz “amar” a comida portuguesa: elogia o arroz de marisco e os pratos com porco preto, “salgado e crocante”. Questionada sobre restaurantes em Lisboa, a princesa diz que não é habitual frequentá-los. “Estamos a uma hora e dez de Lisboa, numa zona onde há muito marisco, nunca vamos a Lisboa.”
Eugenie também elogia o facto de poder passar despercebida no contexto do dia-a-dia. “Portugal é o sonho porque posso ir ao supermercado com fato de treino e o cabelo apanhado e não me importar. Ninguém se importa.” A princesa assume mesmo que a casa portuguesa é “para sempre”. “Portugal é, espero, a nossa vida para sempre em termos de viver parte lá e parte cá”, diz, apesar de afirmar que pretende educar os filhos em Inglaterra: “August vai a uma creche em Londres”.
“A família real quer distanciar-se de toda a família Iorque”
Entretanto, a decisão sobre o nascimento da terceira filha em Portugal poderá ter menos a ver com a paixão do casal pelo país e mais com a distância necessária no meio da tempestade que os Iorque enfrentam no Reino Unido. Há muitos anos que André e Sarah Ferguson são escrutinados pelas suas relações próximas com Jeffrey Epstein, mas a divulgação dos ficheiros no ano passado gerou uma onda de críticas sem precedentes, que resultou na decisão de Carlos III de retirar todos os títulos do irmão, incluindo o de príncipe, e pressionar a sua saída antecipada do Royal Lodge. O que se seguiu foi a detenção do ex-príncipe no começo de 2026 para buscas e interrogatório — e uma investigação por má conduta em cargo público (que poderá ser agravada por acusações de abuso sexual).

Os nomes de Beatrice e Eugenie chegaram a ser citados nos emails divulgados pelo Departamento de Justiça norte-americano. Em julho de 2009, menos de uma semana depois de Epstein deixar a prisão na Florida, Sarah Ferguson visitou o milionário (acusado de tráfixo sexual de menores) acompanhada das filhas. “Para que morada devemos ir? Serei eu, Beatrice e Eugenie. Vamos almoçar?”, dizia Sarah, na manhã de 27 de julho. Um dia depois, Epstein escreveu num email a Ghislaine Maxwell: “Ferg e as duas meninas vieram ontem”. Os registos divulgados sugerem que Epstein pagou pelo voo das três de Londres a Miami, e o regresso de Nova Iorque a Londres. Numa mensagem em março de 2010, a antiga duquesa de Iorque escreveu que estava à espera de Eugenie regressar de “um fim de semana de sexo”. O criminoso sexual também frequentou vários eventos privados da família, incluindo o aniversário de 18 anos da princesa Beatrice, nos jardins de Windsor.
Eugenie nunca trabalhou para o pai, mas chegou a representá-lo em iniciativas de caráter particular. Foi o caso de um evento no Japão em 2024, realizado por uma empresa dos Países Baixos que na altura tinha uma parceria com a Pitch@Palace, um programa criado por André em 2014. O evento no Japão veio alguns meses depois de uma longa negociação “muito lucrativa” que terá envolvido o ex-príncipe André, o Palácio de Buckingham e Yang Tengbo, o “espião” chinês que foi banido do Reino Unido. Eugenie já estaria no Japão naquela altura por causa de uma viagem de negócios associada à galeria de arte onde trabalha, e foi ao evento a pedido do pai.

A princesa também terá recebido um pagamento de 25 mil libras de um empresário turco, Selman Turk, num caso que chegou aos tribunais britânicos em 2022 mas nunca ficou totalmente explicado; e teve na sua lista de convidados de casamento Tarek Kaituni, um empresário líbio que foi condenado por posse de drogas e tráfico de armas em França.
As relações polémicas de André ao longo da vida acabaram por ter consequências na imagem pública das filhas. Em março deste ano, a organização não governamental Anti-Slavery International retirou o nome de Eugenie da sua lista de patronos, depois de sete anos de parceria. “Agradecemos à princesa pelo apoio e esperamos que continue o trabalho para acabar com a escravidão de vez e devolver a liberdade a todos”, disse a instituição, num comunicado.

Apesar de não estarem diretamente envolvidas nas acusações que o pai enfrenta, as princesas Beatrice e Eugenie deram um passo atrás nas suas aparições públicas relacionadas com a família real. Se até ao início de 2026 eram presença constante nos compromissos oficiais da família, desde a detenção de André que as irmãs só foram vistas na presença de outros membros da realeza no casamento do primo, Peter Philips, em junho — e ainda assim, este foi um evento privado. Na Páscoa especulou-se se as princesas não seriam sequer convidadas para outros eventos familiares, mas fontes da realeza ouvidas pela BBC garantem que Carlos III deixou “as portas abertas” para as irmãs, e que as suas ausências no serviço de Páscoa deste ano foram uma opção pessoal.
Em entrevista ao Observador, o biógrafo dos Iorque, Andrew Lownie, afirma que Beatrice e Eugenie “percebem que qualquer associação com a realeza poderia prejudicar a imagem da família real”. “A família real quer distanciar-se de toda a família Iorque”, destaca ainda o jornalista e historiador. E a presença cada vez mais assídua da família em Portugal poderá indicar essa intenção de se afastar.

Já muitos anos antes de Eugenie ter uma casa em Melides, André e Sarah Ferguson valorizavam a privacidade que a costa portuguesa oferecia — o casal escolheu os Açores para a viagem de lua-de-mel, há 40 anos. Desde então, o ex-príncipe nunca mais visitou Portugal num contexto oficial, mas Sarah Ferguson esteve em Portugal em pelo menos duas ocasiões: em 1994 a representar uma instituição de luta contra a SIDA, e em 2022 para lançar um romance na Feira do Livro. Numa conversa de 2022 com a revista Sábado, a então duquesa deu a entender que costuma frequentar o país em viagens privadas e mencionou rapidamente os laços da família com a região da Comporta. “O meu genro, Jack, trabalha para a Costa Terra, em Melides – são tempos muito emocionantes para nós”, disse. Já à TVI, chegou mesmo a dizer que vir a Portugal era como “regressar a casa”. “Este país acolhe-me na sua história”, disse a ex-duquesa de Iorque.
Desde a detenção de André que pouco se sabe sobre o paradeiro de Sarah Ferguson. A ex-duquesa de Iorque vivia com o ex-marido no Royal Lodge, mas optou por não seguir para Sandringham com o ex-príncipe. Os tabloides britânicos avançaram com as hipóteses de uma clínica de luxo na Suíça e uma passagem pelo Dubai, e houve quem apontasse o dedo para a casa de Eugenie em Melides. Contudo, Andrew Lownie descarta que Sarah Ferguson possa vir a viver em Portugal. “Acho que as filhas querem distanciar-se dela. Acho que ela quer ser independente e em Portugal enfrentaria muito escrutínio da imprensa. Pelo bem das suas filhas, ela vai permanecer afastada.”
15ª na linha de sucessão não é natural do Reino Unido nem tem título real
Depois de se mudarem parcialmente para Portugal, Eugenie voltou a ser mãe em maio de 2023. Mesmo assim, o bebé Ernest nasceu na maternidade privada de Portland, em Westminster, tal como o irmão August, e outros membros da realeza. Portanto, a decisão da princesa de dar à luz a terceira filha num hospital em Lisboa gerou alguma surpresa entre os que acompanham a realeza britânica — é apenas o terceiro bebé da família real nos últimos 100 anos a nascer fora do Reino Unido. O caso mais conhecido é o de Lilibet, a segunda filha de Harry e Meghan, que nasceu na Califórnia, já depois de o casal ter decidido ir viver para os EUA.

Apesar de ter nascido em Portugal, em princípio a bebé não recebe a cidadania portuguesa automática — só seria portuguesa se pelo menos um dos pais estivesse a residir legalmente em território português há pelo menos cinco anos, o que não será o caso da princesa e do marido. Também não recebe nenhum título real à nascença, assim como também não receberam os irmãos, porque na realeza britânica os títulos são transmitidos pela linhagem masculina.
Já os títulos de príncipe e princesa são reservados aos filhos do soberano, filhos dos filhos homens do soberano e todos os filhos do filho mais velho do príncipe de Gales — motivo pelo qual Eugenie recebeu o título de princesa à nascença, sendo neta de Isabel II. Já os filhos do príncipe Eduardo não usam os títulos de príncipes por uma decisão dos pais, que optaram por atribuir a James e Louise títulos equivalentes aos de filhos de um conde (Eduardo era Conde de Essex quando os filhos nasceram). Depois da morte do príncipe Filipe, Eduardo herdou o título de Duque de Edimburgo e o seu filho mais velho herdou o seu título anterior.
Mas mesmo sem um título e sem ser nascida em território britânico, a filha de Eugenie mantém a sua posição como 15ª na linha de sucessão ao trono. Isto porque para ser monarca é obrigatório apenas ser protestante e descendente da princesa Sophia de Hanover — uma regra que faz com que outros nomes de membros não sénior continuem elegíveis para o cargo, como Harry e os dois filhos, e até mesmo André Mountbatten-Windsor (que continua como o oitavo na linha sucessória, atrás de Lilibet).
A sequência da linha de sucessão só se altera para a inserção de novos membros — para retirar a alguém este direito, seria preciso recorrer a um processo complexo. Um projeto de lei teria de ser apresentado e aprovado em Westminster e posteriormente adaptado para a aprovação nos parlamentos de todos os 56 países membros da Commonwealth — como por exemplo a Nova Zelândia, o Canadá ou a Austrália — onde o Rei é também o chefe de Estado. Com o lugar na linha sucessória assegurado à distância, a chegada da bebé em solo português consolida a opção por uma vida longe dos holofotes de Buckingham e do escrutínio que continua a assombrar o clã.