Por estes dias a ditosa pátria lusitana agita-se em frémitos de excitação política: o ministro da Administração Interna foi apanhado, primeiro, a banhos numa piscina ilegal rodeada de obras feitas por empreiteiro amigo que há muito trabalha com entidades públicas tuteladas pelo agora ministro— no caso, ainda para mais, a Polícia Judiciária — e, depois, viu-se envolvido numa curiosa aparição nas instalações desse mesmo empreiteiro de um atrelado apreendido numa operação da PJ contra o tráfico de droga, atrelado o qual viu o seu transporte autorizado, ao que consta para “poupar” dinheiro, pelo mesmo amigo director da PJ, ou seja, o actual ministro da Administração Interna. Pelo caminho, o mesmo ministro absteve-se ainda, diz-nos ele por desconhecimento, de entregar uma série de declarações patrimoniais, uma omissão que, admita-se, só pode cheirar a desculpa pobrezinha para quem exerce os cargos que o ministro exerce, e exerceu.
Todo o enredo é estranho, nesse ponto parece que todos podemos concordar, tal como tresanda a moscambilha, seja ela bem intencionada, como sugerem as explicações do ministro, ou não. Ainda assim, até porque gozando o período estival onde procuro, acima de tudo, dedicar-me a outras coisas que não a cansativa torrente de “notícias” que 24 sobre 24 horas nos enche o cérebro de lixo, a verdade é que me interessam pouco os pormenores do caso — a seu tempo, como sempre, a comezinha realidade fará o caminho até à praça pública, provavelmente para gáudio das oposições e dos adversários do Governo pelos novos pormenores que encherão manchetes, telejornais e demais escaparates jornalísticos que adoram o mexerico, o sangue, o escândalo, sempre pulando, claro está, alegremente, aos gritos, por cima do essencial.
Não. Admito que nada disto me interessa. Prefiro, por outro lado, lembrar um outro tempo onde, independentemente dos pormenores, meras suspeitas levavam indivíduos detentores de cargos públicos ao pedido de demissão — ou, na ausência do chamado “sentido de Estado”, a serem demitidos. Recordo-me, por exemplo, da forma como o ministro do Ambiente e Recursos Naturais do III Governo de Cavaco Silva, em 1993, foi dispensado do seu cargo depois de ter contado, durante uma visita a Braga, uma anedota de mau gosto sobre doentes que tinham morrido no Hospital de Évora, na unidade de hemodiálise, por intoxicação de alumínio. A piada, grosso modo, foi: “sabem o que é que no Alentejo fizeram aos cadáveres das pessoas que morreram ultimamente? Levaram-nos para reciclar, para aproveitar o alumínio.” Chegada a pilhéria aos ouvidos do primeiro-ministro Professor Cavaco Silva, este demitiu-o de imediato. Depois, puff, proscrito, nunca mais Carlos Borrego exerceu quaisquer cargos políticos.
Outra demissão famosa foi a de foi Jorge Coelho, então Ministro de Estado e do Equipamento Social no Governo de António Guterres na sequência da queda da Ponte Hintze Ribeiro, mais conhecida como Ponte de Entre-os-Rios, que colapsou no dia 4 de Março de 2001, por volta das 21h15, provocando a morte a 59 pessoas. No dia seguinte, 5 de Março, menos de 24 horas depois da tragédia, já Jorge Coelho apresentava a demissão, assumindo a responsabilidade política com a frase “a culpa não pode morrer solteira”. O primeiro-ministro António Guterres, apesar da moleza e promiscuidade que o caracterizam, ainda assim aceitou de imediato o pedido do seu maior peso-pesado político governamental.
Ou seja, e este é o meu ponto, em tempos os tempos foram outros. No caso de Borrego, nada salvo um sentido estritamente moral e ético implicava a demissão; no caso de Coelho, nada forçava a tal, excepto um sentido de responsabilidade política meramente formal. Quer um, quer o outro sentido, entretanto, desapareceram. E, se digo que desapareceram, digo-o convencido que desapareceram mesmo. Veja-se, por exemplo, quando em 2017, morreram 66 pessoas nos incêndios de Pedrógão. Onde estava a tal “responsabilidade política” da então ministra da Administração Interna Constança Urbano de Sousa? Não estava em lado algum, nem sequer depois de se saber das falhas do SIRESPE, um sistema da sua tutela, bem como do facto de ter sido responsável por uma remodelação profunda na estrutura da Autoridade Nacional de Protecção Civil (ANPC) — a estrutura operacional que coordena emergências — poucos meses antes da época de incêndios, ocasião onde foram trocados, a propósito, aqueles profissionais que haviam sido escolhidos por governos anteriores por outros mais do agrado do governo socialista.
Ainda assim, a senhora ministra lá ficou pendurada no cargo e foram precisos morrer mais cerca de 50 pessoas em Outubro desse mesmo ano para que a senhora conseguisse que o primeiro-ministro aceitasse a sua demissão por “falta de condições”, “esgotamento” e “dignidade”. Daí, pergunte-se também onde estava a tal responsabilidade política do então primeiro-ministro, António Costa, que, recordemos, pelo meio até se deu ao luxo de, ainda as cinzas esfriavam, tirar férias. Pior, também foi António Costa que, anos antes, enquanto ministro da Administração Interna de José Sócrates, lançara o desastre, e a negociata, que nunca deixou de ser o SIRESPE. Responsabilidade política nesta salgalhada toda? Que nada. Zero. Nenhum responsável, nem político, nem de nada.
O mesmo se passou, aliás, com o sucessor dessa mesma ministra, o infame ministro Cabrita, personalidade sinistra que, com toda a lata, conseguiu evitar a demissão apesar de sucessivos escândalos sobre os quais saltou que nem sapo de nenúfar em nenúfar: desde encomendar golas de fumo que eram, afinal, flamáveis, passando pela morte de um cidadão ucraniano às mãos do SEF — que acabou extinto gerando o caos na fronteira e na gestão da imigração — até, imagine-se, estar dentro de um automóvel que, a mais de 160 Km/h, passou a ferro um trabalhador de uma empresa de manutenção de estradas que aí perdeu a vida. Responsabilidade política? Nenhuma. Responsabilidade moral? Ética? Um mínimo de noção? Nadica de nada, zero, bola.
Em boa verdade, o tempo da responsabilidade acabou. Aliás, a deterioração de todos os índices de qualidade política é aterradora, bem como evidente. Tal como depois de Marcelo Rebelo Sousa qualquer indigente, inimputável ou simples ornamento — como é o caso actual — pode ser eleito Presidente da República, também, hoje em dia qualquer valdevino pode acabar ministro. E a pergunta que se coloca, no final, até é simples: se gente como Urbano de Sousa e Cabrita, voluntária ou involuntariamente, pularam por cima das maiores atrocidades sem qualquer punição política imediata, ainda para mais bem respaldados, senão forçados, pelo primeiro-ministro, que raio fez o actual ministro da Administração Interna que justificasse a sua demissão? Na cabeça dele nada, obviamente. Tal como na do primeiro-ministro, como é evidente, também não.
Desde há muito que se percebeu, para mal dos nossos pecados, que a bitola de Luís Montenegro não é outra além da de António Costa. É-o no objectivo puro e duro da manutenção do poder pelo poder; é-o na forma como navega o orçamento à vista sem sombra de reforma estrutural; é-o no modo como se desculpa das suas responsabilidades de liderança com o comportamento dos outros agentes políticos; e é-o, também, na forma como convive bem com ministros que, atraindo o fogo político, deixa a queimar em lume brando até que, esturricados, transformados em carvão, deixem de cumprir a sua primordial função política: desviar as atenções da nulidade que representa a liderança política do primeiro-ministro.
Assim, e por comparação, considerando o sucesso eleitoral de Costa e a forma como, apesar de todos os “casos e casinhos”, acabou no topo da hierarquia europeia a envergonhar todo um continente, assim se compreende a perspectiva do actual primeiro-ministro. As coisas são o que são e, como em tempos dizia o original, são muito poucochinho — tal como estão, ao que parece, para durar num lamacento pântano de imobilismo nacional onde tudo nos aparece como pobrezinho, pindérico, mas sem fogacho de melhor solução. No fim, sobra aquela leve sensação que permeia toda esta tristonha governação AD: isto é tudo muito fraquinho, mas antes, com Costa e o PS, era muito pior. Mais grave, também: isto — a governação AD, entenda-se — é poucochinha, sim, mas, considerando as alternativas, as coisas ainda poderiam ser muito piores.
Também aqui, infelizmente, não se me oferecem muitas dúvidas. Afinal, como alternativa a Montenegro, por um lado, temos o regresso do PS com um novo “líder” Carneiro, um político com o carisma de uma caixa Multibanco, ainda para mais dirigente de um aparelho partidário que ainda imagina indigentes políticos estilo Pedro Nuno, ou idiotas úteis da extrema-esquerda tipo Alexandra Leitão, como gente politicamente recomendável. Ou seja, a alegada “alternativa de confiança” que o PS vende pelo país em outdoors não passa de algo que política, racional e higienicamente só pode ser visto como uma piada de mau-gosto, para mim ainda pior que aquela que levou Borrego à sua desgraça política — afinal, antes ele que um país inteiro.
Pelo outro lado, e falo das alternativas à pobreza reinante, temos a aposta no vazio programático, no bota-abaixo em esteróides e no auto-proclamado salvador da pátria André Ventura. Que o Chega trouxe contributos importantes para o panorama político português, isso não posso deixar de aceitar e, até, enaltecer: a luta contra o politicamente correcto, o estilhaçar do unanimismo monotemático dos órgãos de comunicação social, a capacidade de combater sem tréguas o wokismo, bem como trazer a problemática da imigração para a ordem do dia, tudo isso foi positivo e agradece-se. O ponto é que tais feitos, primeiro, já foram alcançados e, segundo, para um partido que granjeia 23% dos votos, a liderança da oposição e promete “salvar” Portugal, lamento, mas não Chega — pun itended.
Aliás, não apenas não chega, como, e mais uma vez para mal dos pecados portugueses, é também poucochinho: desde um programa eleitoral concebido para agradar a Gregos e Troianos contando com um PIB per capita 2 ou 3 vezes superior ao português, estatismo e mais estatismo a coberto de alegado reformismo — uma heresia —, bem como socialismo a coberto de “direitismo” — outra —, no final, aquilo que o Chega propõe para o país é acenar com uma mão cheia de sonhos enquanto que com a outra, ao melhor estilo da esquerda, apenas lança uma simples promessa: “as coisas serão muito melhores se em vez daqueles que lá estão formos para lá nós”. Ora, é pena, mas isto não é um programa, é um arraial. É, em poucas palavras, um embuste político, uma farsa e, pior, no caso de chegar ao poder com uma maioria, uma perfeita receita para o desastre.
Estamos, portanto, no final e em bom português, verdadeira entalados: entre o PS que mata, o Chega que esfola e esta AD que não ata nem desata, a única coisa que se pode esperar é que, sem sombra de um projecto capaz de inspirar uma maioria, seja quem lá estiver dos actuais intervenientes, tudo vá ficando na mesma como à lesma — calmamente se deteriorando, decaindo, apodrecendo, a pouco e pouco se afundando no tal marasmo pantanoso sem sombra de solução no actual quadro político-partidário, pelo menos com os actuais intervenientes.
Não admira, portanto, que ao bom estilo português, no meio deste denso, húmido, tenebroso nevoeiro que nada permite vislumbrar de particularmente bom para o país num futuro próximo, vá cada vez mais gente sonhando com D. Sebastião, desta feita encarnado talvez na única personagem — e que tristeza ser só uma — que alia a capacidade política, a visão estratégica e a virtude de um carácter corajoso, íntegro e determinado capaz de rasgar com o impasse aflitivo em que nos encontramos — Passos Coelho, pois claro. Uma das pouquíssimas personalidades públicas, aliás, que previram, e logo avisaram desde o início, no caso de Passos com a frontalidade que o caracteriza, que a nomeação de um director da PJ em funções para ministro do governo era um mau sinal que apenas poderia acabar mal. Como em quase tudo o resto que vai avisando, tinha razão.