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(A) :: O clube dos poetas zombies

O clube dos poetas zombies

Junte-se uma VIP apaixonada por livros e uma livraria portuguesa que é a mais famosa do mundo. Só pode resultar, certo? Claro – se não fosse a agenda performática.

Paulo Nogueira
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Filha de imigrantes kosovares na Inglaterra, Dua Lipa, de 29 anos, é uma cantora pop com 3 Grammies e 15 hits do Spotify. Como vocalista, na minha modesta opinião não é carne nem peixe, tanto que foi uma sereia em “Barbie”.  Em 2021, fundou o Service95, um clube do livro, “para reinventar-se sem precisar de cortar o cabelo”. Como hoje isso não chega, proclamou-se “concierge intelectual”, com “uma plataforma global de cultura e sociedade, com curadoria sobre arte, política e direitos humanos”. Quase uma Xerazade ativista. Porém, como isso também já não chega, a prometeica Lipa lançou a Manifesto Library, num canto mimoso da Lello, no Porto, hoje a livraria mais mediática do mundo.

O projeto apregoa 100 títulos que “desafiam o poder, a exclusão, a censura e as narrativas dominantes”. Assim, um incauto imagina obras banidas, radioativas e estigmatizadas, samizdats contemporâneos que não se encontram a mão de semear e aos pontapés em qualquer lado.

Embora leitor glutão, frequento cada vez menos livrarias físicas. Primeiro porque muitas parecem mais papelarias gourmets. Segundo, pelo destaque unânime, estridente e monocórdico dos mantras do costume, espraiados pelas seções tentaculares: LGBT+, empoderamento e sororidade, primeiras nações, vilania do capitalismo em geral e do Ocidente em particular, espiritualidade arcana (de aromaterapia a ufologia, mas Cristianismo só se for sobre a Inquisição), etc.  Bolas, mas e os conteúdos contraditórios, que são a essência da diversidade? Bem, talvez a Manifesto Library fosse a resposta às minhas patéticas orações.  Afinal, o manifesto da “Manifesto” professa combater as “narrativas dominantes”. Aleluia, antes tarde do que nunca!

Não é canja por um pezinho naquele santuário da tolerância. A afluência à Lello é tão engarrafada que exige um bilhete com senha e horário marcado, por 15 euros (dão desconto na compra de livros). O título inaugural da Manifesto é um romance da brasileira Conceição Evaristo: “mulher e negra”. Até admito que tais predicados cheguem e sobrem para uma obra-prima imortal. Mas “perseguida”? “Banida”? Como assim? Além de professora universitária, Evaristo tem prémios literários badalados e recebeu a Ordem do Rio Branco, a maior (e única) condecoração oferecida pelo governo brasileiro.

Talvez tenha sido um mal-entendido (Dua não é fluente em português). Ops, mas “1984”, de Orwell, também está na lista-mártir. Ora, sou um orwelliano da gema, mas tal distopia nunca foi proibida no Ocidente, nem mesmo nos totalitários EUA. Pelo contrário: quando Trump tomou posse pela primeira vez, o romance vendeu 40 mil exemplares numa semana, e foi brandido triunfalmente por manifestantes na Marcha das Mulheres anti-Trump. Para aproveitar o balanço,  uma adaptação teatral foi montada às pressas na Broadway. Bom, um país no qual é-se livre para ler “1984” não é o país descrito em “1984”.

Ena, não posso! A “História de Uma Serva” também está na lista! É o romance de Margaret Atwood em que energúmenos católicos escravizam vestais como galinhas poedeiras (ao contrários dos iluministas da Guarda Revolucionária do Irã, a nova paixoneta do progressismo ocidental). Giríssimo, mas anatematizado? Publicado em 1985, foi traduzido em 40 idiomas e até há 5 segundos vendeu 10 milhões de exemplares. A respectiva versão para a TV teve 6 temporadas (de 2017 a 2025) e embolsou 20 Emmy e Globos de Ouro.

Também pontificam no intrépido index de Dua “Pachinko“, best seller da coreana Min Jin Lee (5 milhões de exemplares vendidos e serializado na TV) e “Erasure”, do afroamericano Percival Everett, cuja versão cinematográfica (produzida pela Amazon) foi indicada a 5 Oscar, vencendo o de melhor argumento.

Já não percebo nada. Mas errar é humano. A própria notoriedade planetária da Lello teve como gatilho de marketing o rumor equivocado de que JK Rowling inspirara-se nela para criar o universo Harry Potter. O frenesi foi tanto (turistas tratam as estantes da livraria como mero cenário para selfies, e jamais lhes irá passar pela cabeça comprar e muito menos ler um livro – era só o que faltava!) que Rowling esclareceu: nunca pisara na Lello, mas considerava o portuense café Majestic o mais belo do mundo.

Rowling vendeu 600 milhões de livros em 85 línguas – mas claro que não é por isso que devia pontificar no indómito panteão de Dua, como os outros 100 best sellers iconoclastas. Nem pela coincidência simpática de a autora que revolucionou a literatura infantil ter vivido no Porto entre de 1991 a 1994, a lecionar Inglês. E muito menos pela sua opinião de que mulheres trans, embora mereçam o mesmo respeito que qualquer ser humano, não são mulheres biológicas nem aqui nem na China. Por tal posição, que todos homo sapiens perfilharam por 200 mil anos (até ao destrambelhado século XXI), Rowling recebeu tantas ameaças de morte que “davam para forrar como papel de parede a minha casa inteira”. Militantes trans divulgaram online a morada dela, incitando atentados contra toda a família da autora e, no X e no Tik-Tok, postaram inúmeros vídeos a carbonizar os seus livros  – a revista Newsweek até informou que era uma nova “tendência pirómana”. Em “Manhunt”, romance  da trans americana Gretchen Felker-Martin, a própria Rowling é queimada viva num castelo na Escócia (presume-se que Gretchen e seus leitores esperem que a vida imite a arte).

No mês passado, a Anistia Internacional (AI) pediu ao órgão regulador de organizações sem fins lucrativos da Grã-Bretanha que revise o estatuto das entidades cujas opiniões a AI desaprova, por “ameaçarem os direitos humanos”. Credo, quais eram esses antros maléficos? Terroristas islâmicos? Neonazis? Gangues de violação? Nem por isso. São 117 associações, algumas das quais postulam a relevância da biologia, e/ou argumentam que distinções baseadas no sexo devem permanecer legalmente relevantes em contextos como prisões, desportos, tratamento e serviços para vítimas de violência sexual. Trocando por miúdos (literalmente…): discordam que crianças não precisem de pais biológicos e que famílias heterossexuais sejam redundantes.

Entre aquelas entidades mefistofélicas consta o Beira’s Place, centro para mulheres vítimas de abuso sexual, em Edimburgo, que, se não for pedir muito, considera prudente não acolher lá homens. O Beira’s Place foi fundado por J. K. Rowling, e há 20 anos ela também criou a Fundação Lumos, que socorreu até hoje 300 mil crianças e jovens carentes. Pronto, pronto, mas quem manda ser parva? Obviamente (dado que por todo o Ocidente hoje há autos-de-fé 24 horas por dia em que são incinerados gays e trans), a posição do Rowling sobre sexo e género importa mais do que a proteção de mulheres  e crianças vulneráveis. Portanto, nenhuma vírgula dela está na Library Manifesto.

Certo, talvez não seja mera birra: é que essas coisas de liberdade de expressão são mesmo complicadas, não? Em 2024, RuPaul, a drag queen mais célebre do planeta, lançou a Allstora, uma livraria online “revolucionária e inclusiva”, que de imediato gerou ultraje por também vender títulos de direita. Não seja por isso: a loja criou a correr e a saltar um sistema para que os consumidores fizessem o favor de indicar as obras que “fossem contrárias aos seus valores fundamentais” – e zás, ei-las sumariamente ceifadas. A inclusão exclusiva em todo o seu esplendor pio.

Em fevereiro de 2021, a Amazon, a maior livraria online do mundo, removeu do site (e do Kindle e do Audible) o livro “When Harry Became Sally”, de Ryan T. Anderson, pois “não comercializa obras que classifiquem identidades LGBTQ+ como doença mental”. O autor contestou a decisão: muito simplesmente, não dizia aquilo na obra. Uma coisa é promover uma cultura cívica onde as pessoas não vivam com medo por causa de sua sexualidade. Outra bem diferente é exigir que crianças de 5 anos decidam se querem ou não se submeter a alterações cirúrgicas e químicas da sua identidade de gênero. Quatro anos depois, o colosso de Jeff Bezos reconheceu que pisara na bola e disponibilizou o título (com 4 vetustos anos no lombo, em vez de uma novidade viçosa).

A chiquérrima rede de lojas Nordstrom vende (US$ 49,00) nos EUA um saco finíssimo com a inscrição: “Read Banned Books”. OK, por vezes esse fogo arde sem se ver, mas desta vez há fumo porém nem uma centelhazinha – embora quem vê pense que recuamos ao dia 10 de maio de 1933, com as fogueiras de livros incitadas pelo líder nazi Joseph Goebbels em 20 cidades alemãs (quase todos de autores judeus, como aquelas pessoas que precisam de ser varridas do rio até ao mar). Segundo o PEN America,  6.870 livros foram banidos nos EUA em 2025 (18 por dia!), a maioria “de autores negros, LGBTQ+ e mulheres”. Mortificada, a Heritage Foundation decidiu testar empiricamente tal alegação, acessando todos os catálogos das  bibliotecas nos distritos escolares onde terão ocorrido as censuras – com resultados desconcertantes.

Exemplos? “The Hate U Give”, para jovens adultos (18 aos 24 anos) sobre brutalidade policial e racismo sistêmico, ao contrário da denúncia específica do PEN disponibilizava 9 exemplares nas medievais escolas públicas de Goddard (Kansas), e mais 3 estavam emprestados no próprio momento da pesquisa.  E o mesmo com  “Gender Queer”, graphic novel de Maia Kobabe para adolescentes, com ilustrações de sexo oral não-binário, e “All Boys Aren’t Blue”, de George M. Johnson, com cenas de sexo gay entre dois menores. Ou, noutra modalidade, “How to Be an Antiracist”, de Ibram X. Kendi, segundo o qual “o único remédio para a discriminação do passado é a discriminação do presente”. Apesar de resmungos amuados dos inevitáveis totós saloios, também prolifera naquelas escolas provincianas a versão minorca do panfleto: “Antiracist Baby”, contra os supremacistas brancos de palmo e meio, pois é em pequenino que se torce o pepino. Mas nas bibliotecas pedagógicas nem uma sílaba de obras de afroamericanos não racialistas, como Thomas Sowell, John McWhorter ou Coleman Hughes. Monólogos são muito mais inclusivos.

Ou há moralidade ou comem todos? O velho dilema: até onde deve ir a liberdade de expressão, especialmente com crianças a bordo (donde julgamos que brotou a epidemia de “disforia”)? A democracia deve permitir a apologia da sua aniquilação? Há livros que são mais nocivos do que o seu banimento? Como “O Livro de Receitas do Anarquista” , que contém instruções sobre como construir explosivos: escrito por William Powell quando era adolescente, décadas depois o próprio autor quis retirá-lo de circulação. Há editoras especializadas em desafiar tabus, como a Feral House e a Loompanics, que podem ser questionamentos saudáveis ao groupthinking saloio ou progressista. Por outro lado, Peter Sotos foi preso em 1985 pelo fanzine “Pure”, com pornografia sádica envolvendo crianças. Em 2010, a Amazon parou de vender “The Pedophile’s Guide to Love and Pleasure”, de Philip R. Greaves, processado e condenado a dois anos de cadeia. Por sinal, já em 1977 uma petição foi apresentada ao Parlamento francês a defender a descriminalização do sexo entre adultos e crianças, assinada por crânios como Jean-Paul Sartre, Jacques Derrida, Roland Barthes, Simone de Beauvoir, Gilles Deleuze e Michel Foucault.

Sim, este é um Zeitgeist escanifobético. Como diz a abertura de “A Tale in Two Cities”, de Dickens: “Era o pior dos tempos, era o melhor dos tempos”. Porém todas as épocas humanas não são assim, desde que o mundo é mundo, tornando a vida tipicamente agridoce? Mas sim, vivemos tempos bicudos: estátuas são derrubadas, murais assírios e romanos são vandalizados pelo ISIS, os talibãs reduziram a pó monumentos budistas do século VI, pessoas são canceladas por mulheres com pénis e homens com úteros, e prolifera como um rastilho de pólvora o ódio altruísta.

Se, por ser um autor/a, devam ser perdoadas as respectivas opiniões políticas – eis uma outra questão. Mas o que talvez não deva dizer-se é: “Ah, fulano concorda comigo, portanto é praticamente um Shakespeare”. E tão-pouco: “O Zé concorda comigo, logo tem toda a razão”.  É a entronização da razão solipsista: “Eu sou eu, portanto estou certo, e para sempre.” Não vamos muito longe assim – no máximo, à fímbria do umbigo.

O responsável pela literatura estalinista, Jdanov, impôs o realismo socialista, uma literatura doutrinária e didática, para promover a ditadura do proletariado. Havia temas tabus, como a coletivização forçada e os campos de concentração, e só eram publicados livros que cumprissem tais dogmas. No colapso da URSS, em 1991, foram encontrados 600 mil manuscritos de “inimigos do povo” censurados e vetados na sede da KGB. Submetidos à justiça revolucionária, talentos raros como Ossip Mandelstam (47 anos) e Isaac Babel (44 anos) morreram no Gulag. Hoje as obras panfletárias do realismo socialista só são usados como calços para mesas com as pernas bambas.

Durante 3 séculos, as colónias da América espanhola e o Brasil foram proibidos de publicar livros, para não subverter os colonos. Houve importação e contrabando a dar com um pau, mas o primeiro romance hispânico, “El Periquillo Sarniento”, só foi editado no México em 1816, no processo da independência. No Brasil, tudo mudou com a transferência da Família Real para o Rio de Janeiro, em 1808.

Já Platão, na “República”, defendeu a exclusão dos poetas do estado ideal. No século XXI, um movimento de estudantes universitários nos EUA exigiu proteção contra obra “angustiantes” – no mínimo, um alerta na capa do risco à saúde mental do leitor, em letras garrafais. Incluíram clássicos anglófonos como “Huckleberry Finn”, de Mark Twain (acusado de retratar o racismo), “Sanctuary”, de William Faulkner (com uma cena traumática de violação), “The Great Gatsby”, de F. S. Fitzgerald (abuso doméstico), e “Mrs. Dalloway”, de Virginia Woolf (suicídio). O que este medo representa, não apenas para quem dele padece, mas para a sociedade que o alimenta e dele parece se alimentar?

Em 2016, o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro aceitou o pedido do Ministério Público e proibiu a venda, a exposição e a divulgação de “Mein Kampf”, de Adolfo Hitler, em domínio público a partir daquele ano. Além de intelectualmente pateta, a decisão foi inútil. A obra excrementícia do Führer pavoneia-se em milhares de sites. Aliás, uma tradução integral dela para o hebraico foi publicada em 1995 pela Hebrew University of Jerusalem.

No Brasil, foi editada uma versão ‘’light” de “O Alienista” (1882), de Machado de Assis, que trata satiricamente de doenças mentais. Com a I.A., neste momento tudo é possível: alunos de Sociologia da Universidade de Harvard (4º lugar no QS World University Rankings) estão a usar o Chat GPT para “traduzir” romances como “A Laranja Mecânica” (1962), de Anthony Burgess, para uma linguagem mais fácil e “menos traumática”.

A arte pela arte (ou em latim “ars gratia artis”, como ruge o leão da Metro) nunca existiu, pois nenhum artista jamais viveu numa torre de marfim – mas tão-pouco pode reduzir-se a manipulação ideológica. Para o romano Cícero, a boa arte (e eu, que sou suspeitíssimo, considero a literatura a arte suprema) devia deleitar, instruir e comover. A melhor literatura faz – e só pode fazer – tudo aquilo ao mesmo tempo: deleita, a instruir e a comover; comove, a deleitar e a instruir; e instrui, a comover e a deleitar. Mas a arte só é útil se lhe for permitido permanecer totalmente inútil – ou seja, livre para ir aonde quiser, incluindo o abismo e o beco sem saída.

Voltarei ao assunto (sim, é uma ameaça: Dua Lipa e Lello, cá vou eu! E tenciono usar os meus 15 euros – em Orwell).