Também sentiu o peito encher, inadvertidamente, de orgulho? Eu penso, estimado leitor desejavelmente em férias, que até fiquei mais alto. “Nunca vimos nada assim”, citavam, puxando para título, alguns jornais. A Rússia tinha capturado um drone português esta segunda-feira, na zona fronteiriça de Briansk, e enviado para investigação, prontamente, o achado. “Tinha uma estrutura de cauda e asa diferente. Quando chegámos ao local do acidente, descobrimos que era um drone de reconhecimento português”, disse o comandante da tripulação, citado pela agência de notícias Tass.
Como terão percebido que era português?, foi a questão, porventura lateral, mas inevitável, que primeiro nos assaltou. Pelo sotaque? Terá pedido bacalhau? Mas é um drone, caramba! Uma máquina! Não pode ter sido nenhum desses gestos tão humanos a denunciá-la. Deveria dizer algures um “Made in Portugal”, que ainda há-de ter deixado mais perplexo o batalhão anti-drones de Moscovo. Desde o início da guerra que a Tekever, empresa unicórnio português, fornece drones AR3 e AR5 à Ucrânia, uns mais dados a operações terrestres, outros marítimas, mas esta foi, tanto quanto sabemos, a primeira vez que um se deixou capturar.
E prepare lá esse peito para o orgulho outra vez: não foi presa fácil, este nosso Sacadura de Metal, Soldado Milhões das forças não tripuladas… Obrigou a uma perseguição de quase 30 minutos, a cerca de 2,5 quilómetros de altitude, à velocidade média de 90 a 100 quilómetros por hora. No fim, conta a Tass, quando o modelo russo Lis o conseguiu, enfim, interceptar, estava praticamente sem bateria… “Foi desafiante”, sintetizou a chefia russa contactada. Agora, o AR3 está à guarda de um instituto de investigação, onde os especialistas locais vão estudar-lhe os mistérios do design e as especificidades técnicas, certamente para lhe copiarem os segredos. Como se diz que fazem os cientistas americanos aos discos voadores e outras naves alienígenas caídas em Terra: engenharia reversa, para ver se dão o grande salto em frente.
É que podia trazer medo, mas a vaidade compensa. De repente, uma pessoa sente que sim, senhor, está lavada na sua honra. Desaparecem-nos armas de dentro dos paióis e entra-se-nos água para os navios, mas ainda somos capazes de brilharetes de deixar de boca aberta de espanto os senhores profissionais da guerra. Qualquer coisa algures entre a mais avançada tecnologia e a inteligência extraterrestre. Valente AR3. Espera-te uma comenda no regresso, senão para ti, para algum irmão. Ainda hás-de ser uma obra de arte numa rotunda.
E porém, passada a primeira emoção da notícia, uma pessoa lá vai fazendo a aproximação à pista e a aterragem em inquietações mais prosaicas… Que questões pode o AR3 levantar acerca de nós mesmos? Sabemos que tem 3,5 metros de largo por 1,9 de altura, o que, dando-o para o matulão, bate certo com aquele português retinto, mais largo de ossos que comprido. Sabemos também que, ainda por cima, não é rapaz de se meter em cenas de pancadaria, não dispara tiros nem lança bombas; é um drone de reconhecimento e observação, pacifista, contemplativo, que só lá vai com o olho gordo detectar onde o inimigo se esconde ou mantém instalações críticas, apurando as práticas mais secularmente desenvolvidas entre a vizinhança do bairro. Um drone do bem, que, ainda por cima, luta do lado da vítima, pelo menos até ao adversário o desmontar, decifrar e fabricar um igual. Um drone construído em Ponte de Sôr e nas Caldas da Rainha, significando assim, adicionalmente, que as Caldas diversificaram a sua produção histórica de bonecos. Um verdadeiro Jet Povinho.
O AR3 e a Tekever, em geral, fornecedora hoje da Agência de Segurança Marítima Europeia, do exército britânico ou do governo do Canadá, materializam quase tudo o que a economia portuguesa quer e deve ser: inovadora, tecnológica, exportadora, capaz de reter e atrair talento, de operar em sectores de valor acrescentado e, em concreto, na defesa. Mas estaremos prontos para o que isso implica? Para nos despedirmos da autocomprazimento com as maravilhas do sol e da comida, do fado e do pastel de nata? Da benfeitoria da função pública infinita ou do pavor ao vizinho que ganha mais do que eu?
É que, na história do nosso AR3, volto ao momento da captura, à grande expressão de espanto dos homens de Putin, no momento em que se deram conta da origem do bicho, como quer que se diga “que é esta m****?” em russo. Terá o AR3 aquela nossa giga-joga, a revienga, aquele faz-que-vai, mas-não-vai? Terá o parlapiê, o desenrascanço, a capacidade ilimitada de chutar os problemas para o grande deserto do “logo se vê”? ter-lhe-á ao menos dado para o fatalismo, trauteado um faduncho na solidão do cativeiro, rezado uma oração à velha Nossa Senhora das Trincheiras, a quem rogava na I Guerra o Corpo Expedicionário Português, quem sabe actualizada para Nossa Senhora da Robótica ou Bom Jesus do Chip?
É que isto das máquinas pode ser o futuro, mas também é a negação da arte de ser português. A Amália, nossa versão da inteligência artificial, quanto mais rigorosa, atempada e precisa for, menos portuguesa será; assim também este primo que foi para a guerra. Imagine-se um português sem compaixão, fanfarronice, fome, saudade – ainda será um português? Que não fecha às quatro para sair às cinco, nem mete uma cunha, nem faz o jeitinho, não esquece a declaração, nem o trabalhinho por fora, o biscate, a preço de amigo, sem recibo, porque, no fim, uma asa lava a outra?
Por um lado, as máquinas podem salvar-nos dos nossos defeitos e das nossas qualidades; por outro, podem acabar de vez com o que nem romanos, nem bárbaros, nem mouros, nem espanhóis, nem franceses conseguiram. Tu põe-te a pau, AR3. Agasalha-te. O pessoal manda saudades.