“A Saga de Anatahan”
Rodado em 1953 no Japão, em estúdio, A Saga de Anatahan foi o último filme de Josef von Sternberg, então já definitivamente caído no desfavor de Hollywood. É uma ficção narrada pelo realizador e feita a partir de uma história real que foi contada em livro por um dos seus intervenientes, e que começa em 1944, quando um grupo de militares japoneses fica retido na remota ilha de Anatahan, no Pacífico, após os navios de abastecimento em que seguiam terem sido afundados por aviões dos EUA. Na ilha vivem apenas o capataz de uma plantação de copra abandonada e uma bonita rapariga japonesa, Keiko (Akemi Negeshi), que vai ser o fulcro das atenções, do desejo e dos conflitos dos homens ao longo de sete anos, até serem resgatados, em 1951, sem saberem que a guerra tinha já acabado. Parte parábola sobre os comportamentos e as paixões humanas, parte fita de “soldados esquecidos” com mochila melodramática, parte estudo sobre um microcosmo da humanidade isolado num espaço limitado e tendo perdido o sentido do tempo, A Saga de Anatahan é também, e principalmente, um filme sobre o poder sedutor, manipulador e mortífero do feminino (não é por acaso que Keiko é referida como “a abelha-mestra” daquela pequena colmeia tropical de gente que gira incessante e agitadamente em seu redor). A fita estreia-se comercialmente em Portugal pela primeira vez, embora tenha já passado nos circuitos de exibição paralelos (caso da Cinemateca); e faz parte, com Soy Cuba, de Mikhail Kalatazov (dia 13), e A Piscina, de Jacques Deray (dia 20), de um trio de reposições/estreias de verão proposto pela Midas Filmes neste mês de agosto.
https://www.youtube.com/watch?v=ZRtp2c_N5rA
“Calle Málaga”
A realizadora marroquina Maryam Touzani (Adam, O Azul do Cafetã) conta com Carmen Maura no papel principal de Calle Málaga, rodado na sua Tânger natal. Ela personifica María Ángeles, uma espanhola que ali vive há décadas e que quer resistir ao desejo da filha de vender o apartamento onde sempre morou e pô-la num lar, onde acaba por ser internada. Mas vai-se embora poucos dias depois e volta a instalar-se na casa, que ainda não foi vendida, passando a viver lá clandestinamente. Segue-se uma série de peripécias em que María se envolve para conseguir ganhar dinheiro, permanecer no apartamento sem que a filha saiba e recuperar pouco a pouco os seus móveis — o que a levará a envolver-se intimamente com o comerciante solitário e de poucas falas a quem foram vendidos. Tão simpático como fácil de prever, Calle Málaga é um leve e singelo filme feel good, que Carmen Maura leva pela mão despreocupadamente.
https://www.youtube.com/watch?v=krWfyFZxSoA
“Playback”
Depois de António Variações, das Doce e de Marco Paulo (numa série de televisão), Carlos Paião (1954-1988) é o novo nome da música ligeira pop/portuguesa a ter direito a um filme biográfico, este realizado por Sérgio Graciano, e que leva o título de um dos seus mais populares sucessos, com o qual Paião representou Portugal no Festival da Eurovisão de 1981, em Dublin. Rafael Ferreira dá corpo ao estudante de Medicina que optou por uma carreira na música e foi autor e intérprete de temas como Souvenir de Portugal, Pó de Arroz ou Marcha do Pião das Nicas (e que também compôs para nomes como Herman José e Amália Rodrigues), e que morreu, trágica e prematuramente, com apenas 30 anos, num ainda hoje mal explicado acidente de viação, perto de Rio Maior, a 26 de agosto de 1988. No elenco de Playback, que inclui uma música inédita de Carlos Paião, constam ainda Albano Jerónimo, Anabela Moreira, Laura Dutra ou Rita Durão.
https://www.youtube.com/watch?v=pN_Ob1JgyZc
“Os Miseráveis: A História de Jean Valjean”
O realizador francês Éric Besnard (Delicioso, Louise Violet) isolou e filmou em Os Miseráveis: A História de Jean Valjean, apenas as primeiras 150 páginas de Os Miseráveis, de Victor Hugo, centradas na personagem de Jean Valjean (interpretado por Grégory Gadebois, o seu ator de eleição), após sair da cadeia, em 1815, onde penou por 19 anos. Cinco por ter roubado um pão para poder alimentar a irmã e a família, e os restantes por se ter tentado evadir várias vezes. Besnard fez esta opção por duas razões. Adaptar o livro todo com o devido rigor daria um filme longo demais, entre seis e oito horas. E o cineasta não tinha orçamento para uma versão integral. Decidiu assim “dedicar hora e meia àquilo que todas as adaptações anteriores resolvem em cinco minutos”. Os Miseráveis: A História de Jean Valjean foi escolhido como filme da semana pelo Observador e pode ler a crítica aqui.