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Após 236 anos, podemos descobrir os tesouros da Feitoria Inglesa, da biblioteca à coleção de Porto Vintage

Associação fundada por comerciantes britânicos no Porto abre a sua casa a visitas pela primeira vez, em mais de dois séculos. Tem arte, 15 mil garrafas de vinhos Vintage e memórias da Princesa Diana.

Carina Fonseca
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Rui Oliveira
photography

Na zona da Ribeira, a curta distância do rio Douro, ergue-se a Feitoria Inglesa, um edifício majestoso, que reflete as vivências de uma comunidade muito específica naquela cidade, ao longo de séculos. Elementos de Portugal e Inglaterra cruzam-se numa casa dominada pelo granito, com soalho de pinho, mobiliário inglês e armários recheados com baixelas dos dois países. Na sala em que é servido o Porto Vintage, no fim dos jantares para convidados, destaca-se o retrato do Rei Carlos III, mas noutras paredes também surgem retratos e assinaturas de reis portugueses. Aliás, é habitual brindar-se tanto ao Rei como ao Presidente da República. E, junto à escadaria banhada pela luz proveniente da claraboia, brilha um quadro de Vieira Portuense oferecido pelo artista, cujos estudos foram pagos pela associação.

Aquelas e outras curiosidades podem agora ser desvendadas pelos visitantes, com acesso à casa pela primeira vez em 236 anos. A entrada era reservada aos sócios da Feitoria Inglesa, ou British Association, e respetivos convidados, até que, no início deste ano, a instituição vinícola decidiu abrir portas ao público. “Estamos num momento em que precisamos de passar esta história do vinho do Porto ao mundo e às novas gerações”, justifica Zoe Graham, co-CEO da Churchill Graham e membro da administração da Feitoria Inglesa. Reitera que “o vinho do Porto está a perder consumidores geracionais”, e “esta comunidade, tão ligada ao Porto, tem tesouros que vale a pena mostrar”. Enquanto em Vila Nova de Gaia a história é contada numa ótica mais comercial, nesta margem do Douro dá-se a conhecer o lado social.

Zoe Graham, “britânica com alma portuguesa”, representa a sexta geração da família no Porto. Nasceu em Inglaterra, mas passou a infância toda na Invicta. Rumou de novo a Inglaterra para se formar, viveu em metrópoles como Paris, Nova Iorque e São Paulo, e em 2019 regressou ao Porto. Antropóloga e documentarista, hoje toma conta da empresa Churchill’s, numa lógica de transição geracional. “Portugal sempre foi casa, e sempre quis dar aos meus filhos o tipo de infância que tive aqui”, prossegue, apontando como vantagens a dimensão da cidade, a natureza, as amizades, o sentido de comunidade e “o carinho pelas crianças e pela família”.

Em conversa com o Observador, Zoe explica que esta é a última feitoria inglesa no globo, com a particularidade de ser uma associação criada pelos comerciantes britânicos no Porto, que davam um contributo voluntário para o fundo da casa, destinado à sua manutenção, mas também a “ajudar o padre ou membros da comunidade que tivessem dificuldades no negócio”. A associação continua a funcionar assim: cada sócio paga uma quota anual em dinheiro, além de doar dez caixas de Porto vintage. Presentemente, os membros são empresas britânicas produtoras de vinho do Porto representadas por indivíduos; sete casas, de que são exemplo Graham’s, Churchill’s ou Symington Family Estates. Contudo, no início, os comerciantes dedicavam-se a áreas como a dos têxteis ou a do bacalhau, contextualiza Cecília Silva, responsável pelo edifício.

“Uma das garrafeiras de Vintage mais completas do mundo”

“Esta é uma instituição viva, que ainda tem as suas tradições”, reforça Zoe Graham. Exemplo disso é o almoço tradicional de quarta-feira, em que os sócios se reúnem, obedecendo a certos rituais. Um deles é expor o jornal The Times daquele dia, um século antes. Adivinha-se extenso o acervo, visto que, diariamente, desde 1832, se comprava esse periódico. Também se mantém o costume de ser o tesoureiro a escolher o vinho vintage para a refeição. Tem esse nome porque era o responsável pelo tesouro, ou seja, pelo fundo comum resultante das entregas dos comerciantes à associação. Atualmente, equivale à figura do diretor e cumpre um mandato de um ano, não podendo exercer o cargo durante dois anos seguidos. À entrada, estão os nomes de todos os tesoureiros desde 1811, alguns deles portugueses, sendo o atual, pela primeira vez, um americano: Ben T. Himowitz.

“Não quisemos tornar a casa num museu, quisemos criar uma visita a uma instituição em funcionamento”, sublinha Zoe Graham, acrescentando que, quando se abre as portas, existem cordões a proteger certas áreas. São duas as modalidades de visita, entre sexta e terça-feira (encerra quarta e quinta). De manhã, há visitas guiadas com direito a prova de dois Porto Vintage (um mais recente e outro mais antigo, das sete empresas associadas). Decorrem às 10 e 12 horas, em inglês, e às 11 horas, em português, duram entre uma hora e hora e meia, abrangem praticamente todos os espaços e custam 70 euros por pessoa.

A partir das 13h30 horas, com última entrada até às 17 horas, têm lugar as visitas livres, sem guia, sem prova e sem acesso ao último piso (onde estão a cozinha antiga, a Sala de Bilhares e a Sala das Senhoras). Esta opção, ancorada em informação escrita e multimédia, vale 14 euros. Os bilhetes podem ser adquiridos no local.

A casa está recheada de histórias dentro da História, na forma de documentos e outros objetos. As visitas arrancam no rés do chão do edifício, que chegou a acolher algumas trocas comerciais nos primeiros anos, conta Cecília Silva. Fica na Rua do Infante D. Henrique, até 1890 denominada Rua Nova dos Ingleses, que escolhiam esta zona, bem perto do Douro, para fixar os seus escritórios e casas. Um poço que captava água do rio da Vila, subterrâneo, chama a atenção a caminho daquela que é, “provavelmente, uma das garrafeiras de Vintage mais completas do mundo”, com mais de 15 mil garrafas só de vinho do Porto Vintage, a mais antiga de 1927. O conteúdo é consumido de duas formas: nos almoços tradicionais de quarta-feira e nos eventos que vão tendo lugar.

Da primeira edição d’ “A Origem das Espécies” à fotografia de Carlos e Diana

A seguir à garrafeira subterrânea, um dos espaços mais acarinhados é a biblioteca do século XVIII, que guarda cerca de 20 mil livros ingleses, entre eles uma primeira edição d’A Origem das Espécies, de Charles Darwin. Há ainda a Sala dos Mapas, em que se destacam um mapa de África, do século XIX, com menções só às localidades costeiras, revelando desconhecimento do resto do continente; o primeiro mapa do Douro vinhateiro, criado pelo Barão de Forrester; e um mapa da ilha de Santa Helena, para onde foi exilado Napoleão. Este último pode encerrar alguma ironia, visto que o edifício foi pilhado durante a II invasão napoleónica, em 1809. Mais: reza a lenda que, no dia 11 de novembro de 1811, quando regressaram à casa (já livre dos invasores, que tinham destruído também documentos e vinho), 11 membros reuniram-se num almoço, pelas 11 horas, com 11 pratos e 11 vinhos, e reabriram as portas daquele espaço social, palco de bailes e jantares.

Digno de registo é, a propósito, o Salão de Baile pintado de azul céu, com paredes e tetos trabalhados e um grande tapete comemorativo da Aliança Luso-Britânica de 1373. Como a construção da igreja anglicana só foi autorizada em 1815, antes disso realizaram-se ali casamentos, batizados e missas. Hoje, é usado para provas de vinhos de maior dimensão e demais eventos. Nos jantares, ganham protagonismo, por seu lado, as salas gémeas: na primeira é servida a refeição e, no momento de saborear o vinho do Porto Vintage, as portas da sala contígua abrem-se para acolher os convidados, que se mudam para essa divisão livre de aromas para apreciar a bebida à luz das velas.

Mas voltemos aos primórdios da Feitoria Inglesa: tudo começou por ação de John Whitehead, cônsul britânico no Porto durante 47 anos e arquiteto, responsável pela construção do edifício, entre 1786 e 1790. É de estilo neopaladiano, que estava em voga, em Inglaterra, em meados do século XVIII, segundo Zoe Graham. Nota-se o estilo iluminista, que desejava projetar uma imagem de racionalidade. Com o passar do tempo, os traços originais da casa foram mantidos e, mesmo quando se mandou fazer uma cozinha moderna, “não se tocou na cozinha do século XVIII”, sublinha. Essa que é a única divisão sem uso está localizada no último de três pisos por razões de segurança: em caso de incêndio, as pessoas poderiam escapar do edifício. Por lá ainda se encontram os antigos baldes que se enchiam com água, caso fosse necessário apagar fogos.

Entre os objetos expostos pela casa, muitos deles oferecidos à associação, encontram-se peças como o tinteiro usado pela Rainha Isabel II numa visita, em 1957; uma fotografia da monarca com Salazar, tirada no Palácio da Bolsa; ou uma garrafa de vinho do Porto destruída durante o Blitz (período de intensos bombardeamentos aéreos alemães sobre o Reino Unido, durante a II Guerra Mundial), mais precisamente, na explosão de 17 de maio de 1942, nas caves de H. Parrot & Co..

Curioso é, por outro lado, o livro de assinaturas com os nomes dos soldados ingleses que ali se deslocaram, com o Duque de Wellington, na sequência da libertação do Porto, e também da Rainha Isabel II, uma das visitas mais ilustres, a par com o Rei (então príncipe) Carlos III e a Princesa Diana — pode ser vista uma fotografia do casal à porta da Feitoria Inglesa, em 1987. “Continua a ser uma casa importante para receber a diplomacia”, observa Zoe, na Sala de Visitas, junto a um retrato da sua tetravó Elizabeth Noble, que se casou com John Graham, fundador da Graham’s. “Este quadro foi pintado num tempo [1834] em que as mulheres ainda não podiam jantar na Feitoria”, lembra. Só no início deste século é que a primeira mulher se tornou sócia, e foi preciso esperar até à década de 2010 para ter uma tesoureira (no caso, Natasha Bridge). Encerra-se assim esta viagem pela história da comunidade britânica no Porto, que continua a ser escrita.