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(A) :: O cantado «What a wonderful world!» estará mesmo de pernas para o ar?

O cantado «What a wonderful world!» estará mesmo de pernas para o ar?

Os novos modelos de IA generativa nada têm a ver com o conceito de "desenvolvimento integral" recentemente recordado com determinação pelos papas Francisco e Leão.

António Maria Mello e Castro
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É verdade que o Louis Armstrong – SATCHMO (such a mouth) para os mais íntimos – se referia, naquele seu delicioso maravilhamento, a um tempo em que, em vez de drones cruzando-se nos céus, ele via skies of blue e clouds of white, e em vez de povos-tribos contra povos-tribos, ele se regozijava com as gentes que trocavam gestos de amizade, alegremente dizendo-se how do you do, sóbria expressão daquilo que realmente desejavam transmitir, a saber, um coletivo I love you!.

Estamos a um século de distância, e aparentemente vivemos, ou num outro planeta daquele que o jazzman habitou, ou não!,  é ainda e sempre a mesma Terra que pisamos, mas oferecendo uma imagem quase irreconhecível : fomos transformados em espetadores passivos de uma distinta fase histórica em que uma porção de homens privados detem um exorbitante poder que põe em cheque todo o equilíbrio e lógica erigidos no pós-segunda Guerra mundial , e em particular toda uma filosofia ocidental baseada numa série de direitos (e deveres) fundamentais que a democracia representativa tem vindo , tant bien que mal, a garantir.

Os gurus desta nova era, diferentemente daqueles dos anos 60 do passado século, não protagonizam uma qualquer profecia invocando a soberania de um exotérico transcendente  sobre toda uma humanidade perdida em confusos e mentirosos materialismos e quimeras, mas antes dizem-se portadores da capacidade de tudo pôr em causa  através da imparável criatividade e revolucionária capacidade de umas novas tecnologias e equipamentos aos quais será inclusive confiada, a prazo, a responsabilidade  de uma absoluta delegação do comando e controlo sobre o conjunto de atividades que constituem o nosso quotidiano. s usos e costumes das gentes, o homem vulgar-de-lineu passará normalmente a situar-se algures entre o “0” e o  “1”, e mais, orgulhar-se-á da sua nova condição de beneficiário líquido, atento e obrigado, das novas premissas criadas para a sua alegada felicidade. Os líderes e miríades de engenheiros de sistemas  ao seu serviço “apena” lhe exigirão como contramedida uma total submissão aos novos ditames. 

A pouco e pouco – e os sinais de uma firme tendência nesse sentido já se fazem sentir entre nós -, todos os humanos irão perceber que a moral e a ética até há pouco sempre presentes – direta ou indiretamente – a montante das orientações e decisões tomadas, serão vítimas de uma omnipresente doutrina celebrando sem reservas a supremacia da «deusa eficiência» em vez de quaisquer princípios ou valores que, na prática, transportam o debate e a dúvida para a cena pública, gerando , consequentemente, na perspetiva dos apressados líderes da era digital, uma inaceitável perda de tempo.

Esta brutal disrupção não parece sequer contemplar um especial aproveitamento das acrescidas competências académicas de uma multidão de estudantes saídos nas últimas décadas de múltiplas universidades: tal dinâmica, na verdade, não sendo embora ignorada pelos novos senhores tecnológico-feudais,  não se coaduna todavia com a matriz mestra da nova filosofia, que prescinde imperialmente desses conhecimentos  adquiridos com vista a uma integração numa realidade cujo prazo de validade, segundo eles, estará em vias de extinção.

E o que é que propõem, em alternativa, os iluminados líderes desta revolução? Que seja servida uma outra ementa, que, pasme-se!, não exclui explicitamente a plausabilidade de vir a surgir um momento a partir do qual, não só o homem verá a caravana dos acontecimentos passar triunfante ao seu lado, como poderá vir a ser, ele próprio, vítima da sua visão profundamente concentrada na conquista a curto-prazo de cintilantes e gigantescos lucros materiais, esquecendo a eventualidade de que a mesma extraordinária capacidade digital poderá , quando liberta de quaisquer relevantes dependências  relativamente ao seu criador, dar o seu grito ( metálico) do Ipiranga , e numa lógica utilitarista, reduzir o género humano “colonialista” a uma expressão de tipo serviçal-vegetativo.

O tremendo absurdo desta hipotética situação não escapa a um normal observador sem quaisquer atributos especiais a não ser o de saber pensar com discernimento. É absolutamente incrível admitir-se essa putativa tragédia que, em última instância, conduzirá a um substantivo retrocesso da inteira humanidade:  por causa de uma desenfreada guerra tecno-comercial entre as grandes empresas tecnológicas- e em face de uma incapacidade evidente dos poderes públicos em descobrirem um meio de interferir nessa polarizada compita- , arriscamo-nos a uma desgraça de dimensão apocalíptica.

Naturalmente, resta sempre espaço – e ainda bem que assim é – para aqueles otimistas de serviço que acreditam que este propalado caminho de desenvolvimento, esquecendo por completo as dimensões outras que as meramente económico-estatísticas, nunca ocorrerá, e que as máquinas, mesmo com um elevado grau de autonomia, não ignorarão, nas suas soluções, a raiz humana da sua própria conceção.

É verdade que, nomeadamente após a revolução industrial inglesa, se registaram outros conhecidos momentos históricos de verdadeira rutura com o status quo, provocando gigantescas ondas de protestos pela inevitável perda de postos de trabalho em ocupações tornadas obsoletas. E afinal, todos sabemos o que afinal se passou:  embora acompanhado pelo sofrimento e miséria de muitos, em especial num primeiro tempo de choque com uma realidade completamente nova e o medo de não serem capazes de sobreviver a esse monstruoso tsumani, o sucesso do desenvolvimento económico veio a confirmar-se, com as populações conquistando um nível de bem-estar antes nunca atingido.

Mas nessas etapas qualificadas por Joseph Schumpeter como épocas de “destruição criativa”, não se mexeu no próprio homem, já que o que essencialmente mudou então foram os métodos e instrumentos pensados para garantirem a desejada harmonia e paz entre os humanos: essa é a determinante diferença relativamente ao que hoje vemos ocorrendo. Infelizmente, a noção cunhada pelo economista austríaco parece ter sido confiscada pelas GAFAs deste mundo. E os novos modelos de IA generativa, como todos sabemos, nada têm a ver com o conceito de “desenvolvimento integral” recentemente recordado com determinação pelos papas Francisco e Leão.