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(A) :: A Revolução dos Flamingos 

A Revolução dos Flamingos 

A corrupção, as falhas no Estado de Direito e a cobardia política são ameaças tão reais à conservação ambiental  como as que aprendemos na escola. E quando o Estado falha, é o povo que se levanta.

Pedro Faria
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A ilha deserta de Sazan localiza-se perto da foz do rio Vjosa e a oeste da lagoa de Narta, no sudoeste da  Albânia. Este espaço corresponde a uma área natural protegida onde nidificam mais de 200 espécies de aves, entre  as quais o flamingo, sendo 70 consideradas ameaçadas, bem como a tartaruga marinha cabeçuda. As águas da zona  são também o refúgio da foca monge do mediterrâneo, uma das focas mais raras do mundo. Algures antes de 2024,  Ivanka Trump e Jared Kushner terão pela primeira vez visto a pristina ilha. Este era o ponto de partida para uma  fabulosa série de eventos que culminou mais de dois anos depois com milhares de protestantes nas ruas de Tirana,  capital da Albânia, e um largo movimento anti-governo, cunhado “A Revolução dos Flamingos”.

Jared Kushner pertencia à elite nova-iorquina já antes de se casar com a filha do futuro quadragésimo quinto  (e quadragésimo sétimo) Presidente dos Estados Unidos da América. Terá tido uma parte ativa em assegurar a sua  eleição e foi premiado com um cargo na Casa Branca como senior-advisor do Presidente. Terá tido também um papel  central na política da Administração Trump para o Médio Oriente, sendo um importante defensor dos Acordos de  Abraão. Certamente que a proximidade de Benjamin Netanyahu à família Kushner, admitida pelo próprio primeiro ministro israelita, terá sido de utilidade ao genro do Presidente. Após abandonar a Administração Trump, Kushner cria  a sua empresa de investimentos, Affinity Partners, que investe em empresas americanas e israelitas e tem como um  dos grandes financiadores, alegadamente, o Fundo de Investimento Público da Arábia Saudita (PIF), aproveitando os  canais que o próprio Jared havia ajudado a criar enquanto diplomata. Falamos de investimentos na ordem dos vários  milhares de milhões de dólares.

A Affinity Partners nunca foi isenta de controvérsia. Inicialmente por ser descaradamente uma iniciativa para  um ex-diplomata fazer milhões através dos seus contactos políticos. Posteriormente, voltou a ser alvo de controvérsia por Kushner voltar à vida diplomática como intermediário nas negociações acerca dos conflitos em Gaza e na Ucrânia enquanto se mantinha como dono da empresa, num cada vez mais óbvio conflito de interesses.

Kushner é ainda membro executivo do Board of Peace, anunciado para resolver o conflito e reconstruir Gaza.  Não deixa de ser interessante que o próprio, uma vez discursando em Harvard, tenha descrito a faixa de Gaza como  “um enorme potencial imobiliário à beira mar”. Não é improvável que tenha influenciado as ideias anunciadas por  Trump no ano passado (parece noutra vida) para transformar aquela zona de guerra na “Riviera do Médio Oriente”.

Se pelo menos os palestinianos não estivessem ali… Mas divago, e de modo a evitar acusações de má-fé da minha  parte para com Jared Kushner, voltemos à Albânia.

A descrição que Ivanka Trump faz da primeira vez que viu e pisou a ilha de Sazan é algo idílico. O grupo de  multimilionários viu a ilha e foi a nadar desde o iate até à praia, explorando depois a pé, descalços e em comunhão  com a natureza, aquela beleza do Adriático. Apaixonados pelo sítio, decidiram que ali iriam construir um mega resort.

O projeto inclui uma componente na ilha deserta mas também desenvolvimentos na lagoa de Narta bem  como no estreito de terra que a separa do mar Adriático. Contaria com uns estimados 10.000 quartos de hotel e  cerca de 6 mil milhões de dólares investidos. Infelizmente, o sonho Kushner-Trump situava-se numa área natural  protegida. Acontece que, menos de um mês depois de ser aprovada na Albânia a Lei nº 21/2024, que altera a Lei  das Áreas Protegidas de modo a permitir a construção de infraestruturas turísticas de larga escala em zonas naturais  protegidas, já Jared Kushner partilhava designs para o seu projeto nas redes sociais. Este recebe estatuto de  investimento estratégico e, sem sequer avaliações de impacto ambiental ou consulta pública, em 2026, a primeira  zona é fechada com arame farpado e protegida por seguranças privados e os bulldozers começam a trabalhar.

Os receios de corrupção, falta de transparência e alterações legislativas por encomenda não são  completamente infundados. Há pouco tempo a mesma Affinity esteve implicada num escândalo na Sérvia quando  pretendiam converter um edifício histórico listado como herança cultural no Trump International Hotel, em Belgrado.  O resultado foi a acusação do ministro da Cultura de abuso de poder por ter, alegadamente, falsificado documentos

de modo a permitir a remoção de estatuto de herança cultural ao edifício. Com esta memória fresca, os avanços na  Albânia rapidamente levaram ao surgimento de diversos protestos espontâneos, tanto no local do futuro resort, como  na capital Tirana. As ruas encheram-se de protestantes, maioritariamente jovens com menos de 30 anos, e o flamingo  cor de rosa tornou-se o símbolo de protesto. Inicialmente contra o projeto e a favor da área protegida, depois ganhando  contornos de protestos anti-corrupção, anti-elite e, dado o apoio quase incondicional do primeiro-ministro da Albânia,  Edi Rama, ao projeto, protestos anti-governo.

Como não bastasse, a instabilidade política e a falta de cumprimento dos valores ambientais promovidos  pela União Europeia lançam uma sombra sobre o processo de adesão da Albânia ao bloco. O projeto de  desenvolvimento nacional de Edi Rama, através do turismo de elevado valor e do grande investimento externo, é  legítimo, mas se o pretende levar a cabo por estes caminhos sinuosos há uma escolha clara a fazer: entre os princípios  europeus do Estado de Direito e do respeito e proteção ambientais e a lógica mercantilista da elite  americana/internacional. Na Europa, não devemos aceitar que se façam as coisas desta maneira, e se alguns se  querem juntar a nós, devemos garantir que seguem os nossos princípios.

A proteção da natureza não é só porque ela é bonita. Nos corredores dos gabinetes de Biologia a discussão  em redor da conservação centra-se, frequentemente, nos benefícios da diversidade e resiliência de um ecossistema,  bem como nos serviços que estes nos prestam ao nível da saúde pública e do bem estar. Mas há também um outro  ângulo, talvez mais próprio das Humanidades: o património natural é património. Do mesmo modo que uma Nação  não se separa do seu povo, da sua História e do seu território, também não se separa da sua paisagem e do seu  património natural. É nosso, de todos. E como tal, não se vende. Mas acredito que viver como parte de uma elite  internacional tolde a visão para algumas realidades: que há algumas coisas que não se vendem nem se compram.  Não há como comprar o bater das asas de uma cegonha sobre o Tejo, ou a memória nas pedras do Castelo de  Guimarães, ou o calor apaixonado de um beijo.

A situação albanesa ensina-nos também a nós uma lição. A corrupção, as falhas no Estado de Direito e a  cobardia política são ameaças tão reais à conservação ambiental como as que aprendemos na escola. E quando o  Estado falha, é o povo que se levanta. É ao povo, aquele alicerce sobre o qual se constrói a nação, que cabe ser o  defensor último daquilo que é seu por direito. E neste, são os jovens da “geração sem causas” aqueles que, face à  ameaça da perda e do retrocesso, não hesitam em mostrar qual a direção em frente. Essa, no entanto, será uma  reflexão para outro momento.