Honrarei aqueles que me honram, mas aqueles que me desprezam serão desprezados. (1 Samuel 2,30)
Em grande parte da Europa de hoje é fácil ter a impressão de que já ultrapassámos a vergonha e a honra. Preferimos falar de direitos, estilos de vida e preferências, como se a avaliação moral fosse, na melhor das hipóteses, um resquício embaraçoso de uma época mais opressiva. Gostamos de delegar o juízo em procedimentos e algoritmos revestidos de linguagem de direitos e tratamos palavras como “culpa” ou “desonra” como peças de museu de um passado mais duro e julgador. Mas uma sociedade que já não cora não se tornou moralmente neutra. Limitou‑se a desviar o seu desprezo para outros alvos.
Para culturas mais antigas, incluindo a Europa clássica e cristã que nos formou, honra e vergonha nunca foram meros jogos sociais. Eram as formas concretas, do quotidiano, através das quais a comunidade indicava que certas ações fortaleciam a vida comum e outras a destruíam. Perder a honra era grave porque significava perder a confiança de amigos, familiares e concidadãos. No seu melhor, estes códigos de honra funcionavam como sinais sociais, imperfeitos mas eficazes, de que certas maneiras de tratar as pessoas – com desprezo, traição ou exploração – violavam uma dignidade que não dependia da moda nem do poder. Ao mesmo tempo, estavam frequentemente entrelaçados com hierarquias e injustiças e, por isso, precisavam eles próprios de crítica moral. Como já defendi nestas páginas, a dignidade humana é criada, finita e relacional; não é fabricada pelo Estado nem concedida pela aprovação social. Honra e vergonha, quando bem ordenadas, eram os reflexos sociais que reconheciam esta realidade prévia.
A Europa moderna não aboliu a vergonha; apenas a redirecionou. Raramente coramos com a promiscuidade sexual ou com a desagregação familiar, mas envergonhamos depressa quem questiona as ideologias dominantes sobre género, consumo ou identidade nacional. É verdade que os padrões de vergonha nunca são totalmente uniformes e que subsistem bolsões de reprovação herdada; ainda assim, a cultura pública dominante deslocou em grande medida a sua energia moral para outros campos. Perante o desacordo, respondemos menos com argumentos e mais com linchamentos públicos, sobretudo quando alguém se atreve a dizer que certos atos são simplesmente errados. Somos rápidos a “cancelar” pessoas por uma frase infeliz, mas ninguém se envergonha quando o desenho anónimo de uma plataforma digital arruína vidas em silêncio. Os códigos antigos muitas vezes impunham conformismo à custa dos vulneráveis, e há quem veja nas sanções informais de hoje apenas uma forma de responsabilização na era mediática. O problema é que as novas sanções caem com mais força sobre quem interroga o discurso dominante do que sobre quem prejudica discretamente os mais fracos.
Esta inversão está ligada à erosão da linguagem moral e à confusão entre tolerância e indiferença que analisei em textos anteriores. Aqui o foco é mais concreto: os reflexos sociais de honra e de vergonha que, em tempos, faziam sentir essas distinções morais na vida de todos os dias. Quando deixamos de falar com clareza de bem e de mal, quando reduzimos a dignidade ao que a lei positiva ou a moda do momento decidem reconhecer, perdemos a gramática comum que nos permitia distinguir o honroso do indigno. O modo tecnocrático de diluir responsabilidades, que já descrevi, tem aqui o seu espelho: a vergonha dirige‑se hoje para o que é visível e incómodo, enquanto os sistemas impessoais que trituram os fracos passam sem qualquer censura.
Uma sociedade saudável não pode viver sem algum sentido partilhado do que é honroso e vergonhoso. A tarefa que temos pela frente não é ressuscitar humilhações cruéis ou castas rígidas, mas recuperar a coragem tranquila de dizer que certos atos merecem admiração, outros pedem luto discreto e outros ainda exigem censura pública. Se cada pessoa possui de facto uma dignidade que não brota do Estado nem da aprovação social, então honra e vergonha devem seguir a forma como tratamos essa dignidade. Honramos quem protege os fracos, cumpre as promessas e assume as responsabilidades. Sentimos vergonha quando usamos pessoas, quando lhes mentimos ou as abandonamos. Estes juízos não pertencem a nenhuma ideologia em particular; são as evidências elementares que tornam possível a confiança entre vizinhos. Não são restos de um passado opressivo; são os laços informais que a lei e a tecnocracia, por si sós, nunca conseguirão produzir.
A Europa passou décadas a convencer‑se de que podia dispensar as velhas categorias de honra e de vergonha. O resultado não foi uma liberdade maior, mas uma forma mais suave de coerção: a pequena tirania das opiniões autorizadas. Ao abandonar noções tradicionais de honra e de vergonha sem as substituir por um padrão comum credível, não nos tornámos moralmente neutros; limitámo‑nos a deslocar elogios e culpas para novos alvos, muitas vezes arbitrários, enfraquecendo o tecido social e tornando mais difícil reconhecer a verdadeira virtude.
Recuperar um sentido humano de honra e de vergonha, ordenado à verdade, à dignidade criada e ao bem comum, não é um passo atrás. É a condição necessária para reconstruir os laços morais que os textos anteriores desta série mostraram estar a desfazer‑se. Sem esses laços, continuaremos a invocar direitos enquanto esquecemos deveres, a celebrar a autonomia enquanto abandonamos os vulneráveis e a gerir sistemas enquanto perdemos o hábito de olhar os outros nos olhos e dizer, com firmeza serena, o que é digno de louvor e o que não é.
Só quando voltarmos a ter coragem de louvar o que é nobre e de sentir a vergonha justa pelo que é vil é que a Europa poderá recuperar a gramática viva de uma comunidade moral. Só então as categorias antigas que julgávamos ter ultrapassado se revelarão, mais uma vez, os próprios fios que ainda seguram a vida comum na busca do bem comum.