Há decisões políticas que pertencem ao tempo de um Governo. E há decisões que permanecem como testemunho da forma como um país escolheu relacionar-se com a sua própria memória. A alteração promovida pelo Governo de Luís Montenegro ao modelo das comemorações dos 900 anos da Batalha de São Mamede pertence a esta segunda categoria. Não por uma questão administrativa. Nem por uma mera reorganização institucional. Mas porque traduz uma opção política que diminui o lugar de Guimarães na celebração do nascimento de Portugal. E isso não pode deixar de ser denunciado.
A Resolução do Conselho de Ministros aprovada em fevereiro de 2026 reconhecia aquilo que sempre pareceu indiscutível: a cidade onde nasceu Portugal deveria ocupar um papel central nas comemorações nacionais da fundação da nacionalidade. Criava um Comissariado Nacional de natureza executiva, integrava Guimarães no núcleo onde as decisões seriam tomadas e fixava a sua sede no Paço dos Duques de Bragança.
Mais importante ainda: essa opção do Governo encontrava respaldo num consenso político e institucional raro. A Assembleia da República aprovou, por unanimidade, uma recomendação que reconhecia a centralidade de Guimarães nas comemorações dos 900 anos da Batalha de São Mamede, determinando que o programa científico e cultural preparado pelo Município, pela sua Comissão Científica e pelas instituições locais fosse integrado na estratégia nacional.
Não se tratava assim de uma reivindicação municipal nem de uma posição partidária. Tratava-se antes de uma posição assumida por todos os grupos parlamentares, refletindo um consenso nacional em torno da relevância histórica de Guimarães.
Quatro meses depois, o próprio Governo desfez aquilo que havia construído. Guimarães deixou de integrar o centro de decisão para passar a ocupar um lugar num Conselho Geral de dezanove membros. A sede desapareceu. A estrutura tornou-se mais difusa, mais distante e menos identificada com o lugar onde, há quase nove séculos, começou o processo político que deu origem a Portugal.
A pergunta impõe-se: O que mudou entre fevereiro e julho?
Não mudou a História. Não apareceu qualquer documento que alterasse o conhecimento científico sobre a fundação da nacionalidade. Não surgiu qualquer descoberta arqueológica. Não foi publicada qualquer investigação
capaz de reescrever aquilo que a historiografia portuguesa há muito consolidou. Mudou apenas a decisão política do Governo.
Ora, quando a política altera o modo como o Estado celebra a sua própria origem sem que a História tenha mudado, a explicação deixa de ser académica e passa a ser política. É precisamente por isso que o Governo tem o dever de explicar ao país os fundamentos desta opção. Porque a História não pode ser reorganizada segundo critérios de oportunidade política.
A Batalha de São Mamede não constitui apenas mais um episódio da longa construção do Reino. Representa o momento fundador da autonomia política portuguesa. É ali que D. Afonso Henriques rompe definitivamente com a tutela da Galiza e afirma um projeto político próprio que conduzirá ao nascimento de Portugal.
É por isso que Guimarães não é apenas um dos palcos da nacionalidade. É o seu berço. Esta distinção não resulta de qualquer sentimento regionalista nem de uma reivindicação local. Resulta da História.
Também por isso merece reflexão a decisão de colocar, no mesmo plano comemorativo, momentos históricos profundamente distintos. Ninguém questiona a importância de Ourique, de Zamora ou da bula Manifestis Probatum na consolidação do Reino. Mas nenhuma dessas etapas possui o mesmo significado fundador de São Mamede. E torna ainda mais difícil compreender os critérios adotados.
Mas existe uma dimensão que ultrapassa o debate historiográfico. Guimarães é reconhecida internacionalmente como Património Mundial pela UNESCO, precisamente porque o seu centro histórico testemunha o nascimento da identidade nacional portuguesa. Não se trata apenas de um património arquitetónico. Trata-se do lugar onde nasceu uma ideia de país.
Por isso, quando é o próprio Estado português que reduz simbolicamente o papel de Guimarães nas comemorações da fundação da nacionalidade, a questão deixa de ser local. Passa a ser nacional. Portugal nasceu em Guimarães. Nasceu em São Mamede. E essa verdade antecede todos os governos e sobreviverá a todas as maiorias parlamentares. Permanecerá muito para além das circunstâncias políticas de cada tempo.
O primeiro-Ministro ainda vai a tempo de corrigir esta decisão. Não por cedência a Guimarães. Mas por respeito a Portugal. Porque nenhum governo tem legitimidade para diminuir o lugar onde nasceu a nação que hoje governa. Porque a História não se decreta. Respeita-se.