(c) 2023 am|dev

(A) :: "O Jantar": a angústia de estar à mesa com Herman Koch

"O Jantar": a angústia de estar à mesa com Herman Koch

É chocante, tal como a notícia. E conhecer a sinopse não lhe diminui o choque. Pelo contrário, o leitor fica, num ambiente calmo, à espera da explosão, à espera de saber quando, como, porquê.

Ana Bárbara Pedrosa
text

Queimada viva às mãos de um gangue de adolescentes, no ano de 2005, em Barcelona, María del Rosario Endrinal Petit viria a inspirar este romance de Herman Koch. O Jantar, inicialmente publicado em 2009, depressa se tornou num best-seller mundial, tendo sido editado em cerca de 40 países e tendo vendido mais de 700 mil exemplares. Veio a receber o prémio Publieksprijs nesse mesmo ano e foi adaptado ao cinema em 2017.

É chocante, tal como a notícia. E conhecer a sinopse não lhe diminui o choque. Pelo contrário, o leitor fica, num ambiente calmo, à espera da explosão, à espera de saber quando, como, porquê. A acção do romance, que saltita entre analepses e prolepses, passa-se num restaurante exclusivo, elitista, em Amesterdão, onde poder ter uma mesa implica uma reserva feita com um mínimo de três meses de antecedência.

Vamos conhecendo estes pormenores através da voz de Paul, narrador, que janta nesse restaurante com mais três pessoas. São dois casais: o próprio Paul, ex-professor de história do secundário, agora reformado, e que é um narrador irónico e inquietante, nada confiável, e Claire; e Serge Lohman, irmão de Paul, que, sendo da oposição política e estando prestes a tornar-se primeiro-ministro, consegue qualquer mesa sem reserva, e que é casado com Babette, mulher vistosa que pouco diz, e cuja imagem funciona como toque de marketing eleitoral.

Os capítulos dividem-se nos momentos gastronómicos que compõem o jantar – aperitivo, entradas, prato principal, sobremesa e digestivo – e a tensão cresce de página para página. Para o leitor, é óbvio que alguma coisa dará para o torto, e o suspense está bem construído, de forma a que quem lê fique agarrado à espera de mais, à espera do momento-chave. A relação entre os irmãos não é suave: Paulo considera Serge um parolo, um bruto, e dá-nos acesso a ele através de um olhar opinativo, em que o desdém não passa ao lado. Os sucessivos saltos temporais permitem que se entenda o panorama da família, em particular a do núcleo Paul, Claire e Michel, o filho. O jantar começa com conversa de encher minutos e, à medida que os pratos chegam, o romance adensa-se no que motivou o encontro. Enquanto as páginas correm, percebe-se que Paul não aguenta as manias de Serge, fã de vinhos franceses, pão francês, queijo francês, croissants franceses, assim como não aguenta a sua vida para inglês ver, como uma casa em Dordogne com vinhas, castelos e jardins. Como só temos a visão de Paul, encaramos o romance já de forma enviesada, já com uma lente posta, e é-nos possível perguntarmo-nos quanto daquilo será inveja (afinal, Serge nem ali precisa de uma reserva, bastando-lhe marcar mesa no próprio dia), quanto será puro. É que, logo à cabeça, vemo-lo desprezar as manias de um restaurante tão elitista, seja pela exclusividade ou pela formalidade do espaço.

A conversa flui devagar, sobre as novidades, sobre o passar dos dias, e depressa se entende que o jantar é regado a amargura e a ressentimento. Em vez de tranquilidade, há mal-estar. E o ambiente gourmet, sofisticado, não só não põe pó de arroz em nada como ainda deixa mais evidente o desfasamento entre os irmãos. O jantar, afinal, não foi marcado para que convivessem de forma tranquila, e a raiz dos problemas chega com o prato principal: os filhos de ambos estão prestes a ser expostos em praça pública, e a solução que o político inventou não agrada ao irmão.

O Jantar tem, por isso, o seu quê de thriller. A tensão aumenta a cada frase, a cada prato. Espera-se um final dramático, mas nem isso impede o final de ser inesperado. A tensão é bem doseada por Koch, que sabe manipular o leitor, deixando-o a ferver em água lenta.

E em água lenta vemos o mal a adentrar-se numa família, e vemos essa família a viver com ele, ou apesar dele. Vemo-lo acontecer quase por acaso, sem plano, sem ponderação, quase como quem flui – e ainda vemos os adolescentes a rir enquanto o praticam. Numa noite que tinha tudo para ser igual às outras, aparece a vida como o que tem de irredimível, irrepetível, inapagável. E depois temos dois primos, que deixam que o romance abra para temas de tensão psicológica, como o peso na consciência ou a falta dele, a impunidade ou a necessidade moral de punir. Cogita-se o papel dos pais na protecção dos filhos, radiografando-se os silêncios que ficam entre quem cria e quem é criado, perante uma acção em que a maldade parece coisa do acaso. E teme-se que a notícia dos factos, vinda a público, destrua carreiras – ou seja, pesa mais a putativa consequência do que a natureza dos actos.

A prosa está pronta para que o leitor empatize com Paul, em parte pelo desdém que, logo a priori, dedica a tudo o que ressoe elitismo, mas também porque a sua voz narrativa, pejada de ironia e, por isso, de humor, ajuda a aguentar a experiência de leitura à medida que o enredo se vai acinzentando. Mesmo aí, o ambiente confinado não é o da sua cabeça: é o daquele restaurante em que tudo parece cuidado e perfeito, perante uma desordem cuja conclusão não se adivinha. O leitor, confinado no espaço e numa versão, sente a claustrofobia de estar preso num ambiente em que não se pode sequer falar demasiado alto, com a vida real, e grave, a ser tratada a bisturi, com diplomacia.

Com uma prosa limpa, sem grandes salamaleques, O jantar radiografa não só o amor parental, mas também a ideia de família como cartão de visita que não pode ser maculado. Sob a fachada da cortesia e de um ambiente gourmet, Koch obriga o leitor a deparar-se com uma situação em que a protecção dos filhos é a protecção dos próprios, ainda que se cogite que abdicar da moral e da responsabilidade seja também abdicar da auto-preservação.

A autora escreve de acordo com a antiga ortografia.