A história portuguesa guarda maravilhas por descobrir que custa entender como foram desvalorizadas e, durante séculos, geralmente desconhecidas. O caso é a travessia da África Austral, de costa a costa, de Angola a Moçambique, essa grande epopeia do final do nosso século XIX. Sempre pensei – como quase todos – que os primeiros grandes feitos deste desígnio pertenceram a Serpa Pinto, Hermenegildo Capelo e Roberto Ivens, nas décadas 1870 e 1880; e, olhando aos ingleses, a David Livingstone, na década 1850. Também pensei que este propósito surgira apenas na segunda metade do século XIX, no quadro das ideias que desaguaram na Conferência de Berlim, de 1884/85. Não foi assim.
Em Outubro de 2025, participei no lançamento do livro “A primeira travessia da África Austral”, de José Bento Duarte (ed. Perfil Criativo – Edições, 2025) autor que me revelou um facto extraordinário e surpreendente: os heróis da primeira travessia de Angola a Moçambique, e volta, foram dois pombeiros portugueses, angolanos, escravos por sinal, Pedro João Baptista e Anastácio Francisco, que realizaram essa proeza ao serviço de Portugal, entre 1802 e 1814: nove anos à ida (1802-1811) e três anos à volta (1811-1814). Formidável! Meio século antes de Livingstone e 70 anos antes de Serpa Pinto, Capelo e Ivens, já aquela missão portuguesa se iniciara para ser concluída, com êxito total. Foram os luso-angolanos Pedro João Baptista e Anastácio Francisco que realizaram, pela primeira vez, a travessia que nunca ninguém fizera.
Confirmei, depois, que Maria Emília Madeira Santos, historiadora que é uma autoridade na área, relatara também estes factos (embora discretamente), no artigo “Os países africanos de língua portuguesa na África do século XIX”, que publicou, em 2008, no volume VI da “História da Humanidade” (da UNESCO, publicada em Portugal pela Verbo): «A partir dos finais do século XVIII, a exploração científica ultramarina gozou do apoio oficial da Universidade e da Real Academia de Ciências. Em 1797, o matemático Lacerda e Almeida foi o primeiro cientista português a tentar atravessar África, mas, não possuindo quinino, morreu de febre no Cazembe. Nos finais do século XVIII, os portugueses haviam reunido as condições materiais necessárias para empreender a travessia de África com o envolvimento de homens práticos. Perante as dificuldades dos cientistas, recorreu-se à colaboração de dois pombeiros negros do Cassanje, assimilados pela sociedade luso-africana, ambos com grande experiência de viagens a pé e capazes de manter um diário de percurso. Esta travessia de África foi possível graças aos chefes africanos que abriram os caminhos aos seus irmãos negros, que pediam passagem em nome do Muene Puto, rei de Portugal (1802-1814). O diário dos pombeiros, que viu a luz do dia em 1843, permitiu aos geógrafos europeus preencher espaços em branco até à altura desconhecidos no mapa de África. O governo preocupou-se, então, com a proteção da exploração geográfica, deixada à iniciativa privada durante quase três décadas.» A historiadora apresentara já este feito, de modo mais desenvolvido, na sua obra de 1978, “Viagens de Exploração Terrestre dos Portugueses em África”.
No seu livro, José Bento Duarte relata desenvolvidamente, desde o século XV, a chegada dos portugueses a África e como se estabeleceram em vários pontos da costa ocidental e, depois, na contracosta oriental no Índico, instalando-se onde viriam a formar-se Angola e Moçambique.

O interessantíssimo livro de José Bento Duarte.
Também confirma que o desígnio português de fazer a travessia da África Austral já era, em Portugal, um objetivo científico, académico e político na segunda metade do século XVIII. Relata a viagem preparatória em 1755-56 de Manuel Correia Leitão, sargento-mor dos distritos do Dande, em Angola. Correia Leitão, acompanhado pelo piloto António Grizante, fora mandado pelo novo governador de Angola, António Álvares da Cunha, desbravar as terras para leste da feira do Cassanje, na região de Malanje, então o ponto mais oriental conhecido a partir de Luanda, para reunir informações sobre as terras a atravessar na rota para Moçambique.
A seguir, ainda no século XVIII, o livro narra, desde a preparação com envolvimento político directo do governo em Lisboa, a expedição de Francisco José de Lacerda e Almeida, cientista credenciado e cartógrafo, formado em Matemática pela Universidade de Coimbra. Lacerda e Almeida foi enviado pela Coroa para estabelecer a ligação terrestre entre Rios de Sena (Moçambique) e Angola. Era uma expedição com boa organização e propósito ambicioso. Partindo de Tete, em Julho de 1798, atravessou o interior africano até ao Cazembe (na actual Zâmbia), onde esperava prosseguir para Angola, a oeste. Venceu todas as peripécias até conseguir partir e venceu as dificuldades da viagem; mas o desgaste físico e as doenças impediram-no de cumprir a missão. Em Novembro, morreu no Cazembe, tornando-se símbolo dos limites da exploração científica europeia em África.
José Bento Duarte encerra o livro com a apaixonante narrativa da primeira travessia terrestre de Angola para Moçambique, por Pedro João Baptista e Anastácio Francisco entre 1802 e 1811 – e regresso a Angola em 1814. Eram pombeiros luso-angolanos, na condição de escravos, pertencentes ao tenente-coronel Francisco Honorato da Costa, governador da feira de Cassanje, experientes nas rotas comerciais do interior africano. Apenas quatro anos depois de Lacerda e Almeida morrer no Cazembe, os pombeiros partiram do lado angolano, no sentido inverso, de Cassanje com destino a Rios de Sena, em Novembro de 1802, enfrentando uma viagem de nove anos, marcada por longas permanências intercalares em territórios africanos, complexas negociações com chefes locais e dificuldades de toda a ordem. Estiveram logo dois anos parados nas terras do rei Bumba (actual leste do Moxico, Angola), de onde seriam resgatados por Honorato da Costa. E o momento decisivo ocorreu, já perto de Moçambique, no Cazembe, onde tiveram de permanecer quatro anos antes de obter autorização para prosseguir. Chegaram a Tete, em 2 de Fevereiro de 1811, demonstrando pela primeira vez a viabilidade da ligação terrestre entre as duas possessões portuguesas. Regressaram a Angola em 1814, assim concluindo uma expedição de cerca de doze anos, no total.

A rota da travessia de Pedro João Baptista e Anastácio Francisco, no percurso de Cassanje (Angola) a Rios de Sena (Moçambique) – 1802-1811. Fonte: Portal da História.
Pedro João Baptista e Anastácio Francisco eram pombeiros experientes, muito habituados ao trato com as populações africanas. Pombeiros eram comerciantes no interior de África, que faziam longas viagens, em que consolidavam valiosas competências de relacionamento: negociar preços, resolver conflitos, conhecer costumes, dominar várias línguas africanas, interpretar protocolos, saber quando oferecer presentes, pedir audiências, reconhecer hierarquias locais. Por isso, Pedro João Baptista, homem de confiança de Honorato da Costa (ele mesmo rotinado no trato com chefes africanos), tornara-se num “diplomata comercial”, com qualidades pessoais que explicam o êxito alcançado. O chefe da longa missão não era um cientista, nem um militar, nem um político, nem um embaixador, mas um agente intercultural. Sobreviveu a doze anos de negociações contínuas com chefes locais e soberanos africanos. E, no final, a saída diplomática achada para se libertar da última paragem de quatro anos no Cazembe confirma-o como líder dotado de enorme paciência, respeito pelo protocolo local, capacidade e sensibilidade para compreender interesses políticos e total autocontrolo.
Por outro lado, a esta distância e desconhecendo a cultura do tempo e do lugar, não deixa de impressionar que estes dois escravos não fugissem e, pelo contrário, mantivessem, ao longo de todas as contingências e peripécias, a fidelidade e a determinação no cumprimento da missão que lhes fora confiada ao serviço da Coroa (no dizer do tempo e do lugar, o Muene Puto): fazer a travessia que nunca ninguém fizera. Extraordinário!
Bento Duarte relata o remate desta história formidável: o reconhecimento oficial da missão pela Coroa. Depois de regressado a Cassanje, Pedro João Baptista viaja para Luanda, onde é recebido pelo governador como herói. E daqui, em 1815, na fragata “Príncipe Dom Pedro”, foi até ao Rio de Janeiro, onde apresentou os roteiros e documentos da sua formidável viagem. O príncipe regente D. João (pouco depois, rei D. João VI) determinou a criação de uma Companhia de Pedestres, destinada a assegurar a comunicação terrestre entre Angola e Moçambique, nomeando Pedro João Baptista seu Capitão e concedendo-lhe um soldo relevante. Francisco Honorato da Costa foi também recompensado pelos serviços prestados na organização da expedição.
Os feitos e ensinamentos da viagem de Pedro João Baptista, como anteriormente de Lacerda e Almeida (esta, não concluída), influenciaram de modo insofismável os futuros exploradores europeus, 50 anos depois. Os documentos relativos à missão de Pedro João Baptista foram publicados nos Annaes Marítimos e Coloniaes, publicação mensal da Associação Marítima e Colonial, em 1843 – surge dentro do título geral «Explorações dos Portugueses no Interior da África Meridional», que incluía os «Documentos relativos à viagem de Angola para Rios de Sena». E a documentação da missão incompleta de Francisco Lacerda e Almeida foi publicada nos mesmos Annaes Marítimos e Coloniaes, em 1844 e 1845. Em Inglaterra, ambas as missões estão publicadas pela Royal Geographical Society, desde 1873, na obra «The Lands of Cazembe. Lacerda’s Journey to Cazembe in 1798… Also Journey of the Pombeiros (…) across Africa from Angola to Tette on the Zambese». Uma atenção internacional que bem merece respeito e comprova a prioridade.
O Portal da História, que publica na internet vários documentos e relatos da viagem dos pombeiros, escreve: «Este relato, traduzido para inglês no ano seguinte à sua publicação, serviu para Livingstone, o missionário escocês que explorou o território entre Angola e Moçambique, preparar as suas viagens.»
Por isso, nesta nossa celebração dos 900 anos de Portugal, não posso deixar de registar e destacar a extraordinária viagem dos luso-angolanos Pedro João Baptista e Anastácio Francisco, entre 1802 e 1814, como a primeira travessia da África Austral da história euroafricana. É também, ao que hoje sabemos, nessa época, a única missão transcontinental documentada de ida-e-volta realizada por uma mesma expedição no interior da África Austral – todas as outras foram só num sentido. É, na verdade, uma grande proeza da História de Portugal – e da História de Angola também.
Uma proeza em linha com os Descobrimentos, “por mares nunca dantes navegados”: eles próprios travessias que nunca ninguém fizera.
[Os artigos da série Portugal 900 Anos são uma colaboração semanal da Sociedade Histórica da Independência de Portugal. As opiniões dos autores representam as suas próprias posições.]
