Primeiro aqueles que são inimigos declarados, que não conseguem assumir um clima de “paz podre” e que esperam a primeira oportunidade para dirimirem essa antipatia na criação de condições para haver espaço para um golpe de estado, depois alguns dos que estiveram sempre próximos e eram vistos como “amigos”. O fogo cruzado contra a figura de Gianni Infantino mesmo depois de ter deixado cair a possibilidade de fazer uma “privatização” de parte do Mundial passou a contar com atiradores inesperados, do secretário-geral da FIFA, Mattias Grafström, ao Chefe de Desenvolvimento Global do Futebol, Arsène Wenger. Não assumiram uma posição de “fim de era”, também não defenderam uma “continuidade de era”. Os alarmes soaram.
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O que significava a marcação de uma reunião de urgência com todos os membros seniores da FIFA para esta quarta-feira em Rabat, na sede da FIFA em Marrocos? Ninguém sabia ao certo. Podia Gianni Infantino estar a pensar na demissão? Não, altamente improvável. Podia Gianni Infantino procurar uma forma de estancar toda a bola de neve criada pela ideia de criar uma empresa que passasse a deter todos os direitos comerciais das competições da FIFA vendendo parte do capital social a investidores externos? Sim, altamente provável. A partir daqui, seria uma questão de esperar. Com uma certeza: aquilo que era na semana passada a defesa de uma ideia nova tornou-se em poucos dias na defesa de uma posição e até de um status quo. Do nada, as cartas em cima da mesa foram baralhadas e a redistribuição não colocava a reeleição como certa.
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Um exemplo paradigmático disso mesmo era a posição assumida pela Federação de Futebol da Jordânia, numa altura em que era garantido que a AFC (Ásia) continuava em bloco a apoiar Infantino. “Tivemos enormes obstáculos no Mundial. Em primeiro lugar, a entrada dos nossos adeptos nos EUA: nem a todos foi concedido visto, apesar de terem bilhetes – que, como sabemos, foram vendidos a preços exorbitantes. Em segundo lugar, estamos a ser tributados pelo governo dos EUA, através da FIFA, pela nossa participação. O dinheiro que deveria ir para os jogadores e para a equipa técnica. Não foi esse o caso para quem jogou e montou base no Canadá e no México. Mas calhou-nos ficar nos EUA, pelo que agora enfrentamos enormes custos em impostos por termos participado”, começou por dizer o líder do órgão, Ali Al Hussein.
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“Em terceiro lugar, estamos desde dezembro à espera dos prémios monetários para os nossos jogadores relativos à Taça Árabe no Qatar, que é um evento da FIFA. O dinheiro que a nossa seleção deveria receber por ter chegado à final ainda não foi pago, ao mesmo tempo que a FIFA se gaba dos muitos mil milhões que tem em reserva. Fica claro que o problema reside realmente na liderança. Durante meses, a FIFA tem-se recusado a ajudar-nos em qualquer assunto – até me ter sido transmitido verbalmente, no Campeonato do Mundo, que, se apoiasse Infantino, isso ajudaria imenso a nossa Federação. Na Jordânia, orgulhamo-nos de defender valores éticos. Não o apoiámos antes e certamente não o faremos agora. Mas toda esta situação equivale a uma chantagem, e recusamo-nos a ceder”, acrescentou o líder da Federação da Jordânia.
Já esta quarta-feira, Luís Figo, antigo internacional português que foi um dos grandes apoiantes de Gianni Infantino na sua primeira eleição em 2016, fez um ataque direto à liderança do advogado suíço. “Podia escrever 10.000 palavras sobre os problemas da FIFA. Mas a solução precisa apenas de três: Infantino deve sair. Amei o futebol durante toda a minha vida. Fui jogador profissional durante 20 anos. E, acreditem em mim, deparei-me com alguns bandidos, no meu tempo na modalidade. Mas aquilo que vi exposto, nos dez últimos anos, é o mais baixo, mais enganador e mais cobarde comportamento de interesse próprio que alguma vez testemunhei”, começou por apontar o antigo extremo e capitão da Seleção Nacional.
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“O homem que daria isso – o homem que tentaria forçar alterações tão significativas apenas para se enriquecer e aos amigos – é uma relíquia do passado da modalidade, e não deveria ter lugar no seu futuro. Se fosse uma ideia tão boa, por que não dizer aos teus membros, quando os tiveste todos numa sala, antes da final do Mundial? Se era um plano tão robusto, por que não contar aos teus membros os riscos, assim como aquilo que descreves como benefícios?”, apontou Luís Figo, entre mais acusações a Infantino.
“Se o esquema era simples, por que não ser honesto com o facto de que te daria um emprego de 30 milhões de dólares por ano, no final? Mas nada disto foi feito. Porque não era uma boa ideia. Não é robusto quando não és transparente sobre os retornos incapacitantes que os investidores privados iriam procurar. Não é ousado quando não explicas que, ao venderes a tua parte, vai-se para sempre e deserdaste os teus sucessores de deterem o Mundial. Após entregar o grosso do Mundial numa bandeja aos companheiros, em Washington, ia ter um emprego a ganhar cinco vezes mais do que o salário atual”, concluiu o ex-jogador, numa opinião secundada pelo senador do futebol mundial, Jorge Valdano: “Não lhe perdoo o Prémio da Paz FIFA que deu a Donald Trump e muito menos que o tenha feito em nome do futebol. Conheço Gianni Infantino há muito tempo, aconteceu-lhe o que acontece a muita gente: o poder subiu-lhe à cabeça”.
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Perante esta tensão crescente, com várias federações europeias a enviarem também cartas a renunciar o apoio inicial à recandidatura como Inglaterra, País de Gales, Finlândia, Sérvia ou Suécia, a imprensa inglesa apontava para dois cenários possíveis em cima da mesa na perspetiva de Infantino: serenar as coisas até ao mês de março, altura em que se vai realizar um Congresso FIFA em Marrocos para eleger o novo líder e, entre mais pontos, definir quem recebe a final do Mundial-2030, ou atuar de imediato para esvaziar aquilo que começava a ser um cenário crescente de haver votos suficientes para forçar um encontro extraordinário da FIFA que colocasse em xeque o líder. E o grande perigo falado dos bastidores apontava para o sentido da AFC, com votos seguros de Qatar, Indonésia, Kuwait, Líbano ou Sri Lanka mas outros mais tremidos.
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O The Guardian fez esta quarta-feira um exercício meramente especulativo sobre como estaria uma possível contagem de espingardas tendo em vista as eleições da FIFA, sem olhar sequer para um nome em específico para poder ir a votos contra Infantino fosse ele o líder do PSG, Nasser Al-Khelaïfi (que já terá recusado essa possibilidade), o presidente da CONCACAF, Victor Montagliani, ou a número 1 da Federação Norueguesa de Futebol, Lise Klaveness (uma recomendação do antecessor de Infantino, Sepp Blatter). Resumo? Nesta fase, a posição do atual líder está “blindada” mas não surge de forma tão segura como estava há um mês.
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A UEFA (Europa) era o ponto inicial de viragem, com essa garantia de que Çeferin poderá conseguir juntar as 55 federações-membro em torno de uma alternativa a Gianni Infantino. Em mais um capítulo desta novela, a Associação Europeia de Clubes (EPL) emitiu um comunicado a pedir mudanças na FIFA. “Não podemos ignorar que na quinta-feira, 30 de julho, no meio do alvoroço em torno da FFE [FIFA Forward Enterprise], a FIFA partilhou com as suas federações-membro um relatório de pesquisa, na esperança de avançar com a expansão do Mundial-2030 a 64 equipas. Para que fique claro: a FIFA não pode continuar a tomar decisões unilaterais e disruptivas que contrariem as ligas, os clubes, os jogadores e os adeptos, cujos esforços e investimentos contínuos impulsionam o valor das competições internacionais de futebol”, frisou, em mais um dado até agora desconhecido – a hipótese existia, o relatório com a ideia não se sabia.
https://observador.pt/2026/08/01/o-projeto-megalomano-da-fifa-durou-pouco-mais-do-que-a-superliga-europeia-72-horas-depois-infantino-volta-atras/
“Agora, mais do que nunca, a FIFA precisa de uma reforma na governação que garanta que todas as partes interessadas relevantes têm um papel formal nas decisões que moldam o futuro do nosso desporto. Até que haja uma reforma, que inclua legalmente todas as partes membro relevantes, as Ligas Europeias irão rejeitar a expansão ou criação de competições da FIFA”, completou o mesmo comunicado da EPL.
Do lado da Europa, tudo dito. Do lado da AFC (Ásia), tudo “cenários prematuros”. Apesar de ter sido a maior adversária nas eleições de 2016 da FIFA, por ter o então líder Salman Bin Ibrahim Al-Khalifa na corrida além de Ali Al Hussein, que era vice-presidente do órgão, a AFC aproximou-se muito de Infantino com o passar dos anos e tem países influentes como Arábia Saudita, Qatar ou Emirados Árabes Unidos sempre do lado do suíço. No entanto, e apesar de haver uma maioria que não quer mudar, quando esse cenário ganhar forma real pode haver mudanças. Já a CONCACAF pode ser a grande aliança da UEFA nesse movimento contra Infantino, tendo a hipótese de colocar Victor Montagliani na corrida. De África (CAF) e América do Sul (CONMEBOL) não são esperadas grandes alterações, da Oceânia sobram mais dúvidas do que certezas.
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Já a BBC Sport, antes de haver qualquer novidade vinda de Marrocos, tentou fazer o desenho de quem podia marcar presença no encontro, tendo em conta que as notícias davam apenas conta do senior FIFA staff mas sem qualquer nome. O secretário-geral Mattias Grafström e todos os membros executivos estariam nessa reunião, sendo também esperados outros nomes como Thomas Peyer, chefe financeiro do órgão, Emilio Garcia Silvero, líder do departamento executivo, Daniel O’Toole, chefe dos recursos humanos, Elkhan Mammadov, responsável pelas federações-membro, ou Bryan Swanson, das relações públicas e ligação com a comunicação. Kevin Lamour, diretor de operações da FIFA que falou de “um projeto de uma só pessoa” entre várias críticas num comunicado enviado à Associated Press, era das principais incógnitas.
https://twitter.com/radarafricacom/status/2084965165145976895
“Se Infantino jurar continuar na luta, que outras vias estão disponíveis? O Conselho da FIFA poderá tentar forçar a saída de Infantino através de uma reunião de emergência, mas tal reunião só seria convocada se 19 dos 37 membros do Conselho da FIFA a solicitassem (e existem dúvidas sobre esses 19 votos necessários). Uma outra medida podia ser a convocação de um Congresso Extraordinário, sendo necessárias apenas 43 associações a pedirem isso por escrito (e a UEFA tem 55) mas levaria no mínimo dois a três meses para ser convocado, dando margem para Infantino reconquistar votos”, explica a BBC Sport que, perante estes cenários, a ideia poderia passar “apenas” por encontrar um “candidato adequado” para março de 2027.
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Sendo certo que a demissão não está nem nunca esteve nas cogitações de Infantino, começam a saber-se alguns pontos que terão sido discutidos numa reunião que tem como único registo até ao momento a chegada de vários carros topo de gama com os participantes à sede da FIFA em Marrocos. E, de acordo com o The Times, uma das novidades diz respeito ao país africano: o líder da FIFA teria prometido a atribuição da final do Mundial-2030 ao novo recinto para 115 mil espectadores em Casablanca, ganhando assim a “guerra” a Madrid, que estava a ser proposta pela Espanha. Pouco depois, a FIFA veio de forma célere negar a informação do jornal, com os espanhóis a recordarem a ligação entre Infantino e Florentino Pérez. Mas existem mais manobras preparadas pelo líder da FIFA para recuperar dos danos causados pelos últimos dias.
https://twitter.com/TimesSport/status/2085030314108166522
Segundo o The Times, um dos objetivos é convencer alguém dentro do grupo FIFA Legends (composto por antigos jogadores internacionais que recebem para marcar presença em eventos) a manifestar publicamente o seu apoio a Infantino. “Eles adorariam que um ex-jogador famoso viesse a público apoiar Infantino, mas parece que se tornou uma figura demasiado tóxica depois do plano de venda de jogadores para o Mundial”, referiu ao jornal uma das fontes contactadas. Em paralelo, existe uma preocupação crescente que sai também do encontro em Rabat, onde Infantino tem estado nos últimos dias: numa altura em que têm sido feitos vários contactos para reforçar o sentido de apoio para a reeleição, o silêncio da Arábia Saudita, que é há muitos anos um dos maiores apoiantes do advogado suíço, está a gerar preocupação interna.
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Há mais uma informação que saiu das fontes contactadas pela publicação britânica: mais de 50 clubes foram contactando a Associação Europeia de Clubes por não terem sido libertadas verbas prometidas por altura do Mundial de Clubes, nomeadamente a quota-parte dos 250 milhões de dólares que tinha sido abordada. A FIFA disse ao The Times que essa verba continua disponível mas que as discussões em relação à forma de distribuir esse “bolo” ainda prosseguem. A Associação Europeia de Clubes não terá sido contactada com qualquer explicação para esse atraso, sendo que algumas fontes acreditam que isso deverá estar ligado ao insucesso financeiro da competição organizada pelos Estados Unidos em 2025.
Esta noite, o The Guardian acrescenta mais um ponto que promete dar que falar: Gianni Infantino terá mantido conversas sobre a nova competição que tentou nascer em 2021, a Superliga Europeia, por forma a que se chamasse… Superliga da FIFA. Mais: terá existido mesmo um memorando de entendimento para fechar esse acordo, datado de outubro de 2020. “A FIFA estava preparada para marginalizar as suas federações-membro na defesa de planos para reduzir o número de datas-limite para jogos internacionais e descreve como a entidade máxima do futebol mundial teria recebido direitos especiais de governação e políticos com uma ‘ação de ouro'”, escreve o jornal britânico. O mesmo documento previa ainda uma versão alargada do Mundial de Clubes, realizada anualmente em três semanas ligada à tal Superliga que nunca chegou a existir, sendo um projeto que foi apresentado e acabou por cair em cerca de 48 horas.
“Após uma reunião em Rabat, Marrocos, o secretário-geral da FIFA e os membros do Conselho de Administração presentes reafirmaram o seu total apoio ao presidente da FIFA, Gianni Infantino, como o único dirigente eleito pelas 211 associações-membro da FIFA. Por sua vez, o presidente da FIFA reiterou o seu total apoio ao secretário-geral da FIFA e à administração da FIFA pelo trabalho essencial e excecional que têm vindo a desenvolver na concretização da sua visão. Foi discutido e acordado que os processos, a comunicação e as interações entre o presidente da FIFA, o secretário-geral da FIFA e o Conselho de Administração da FIFA, que apoiam a concretização desta visão, podem e devem ser continuamente melhorados em termos de eficácia e eficiência”, resumiu a FIFA ao final do dia em comunicado.
https://twitter.com/fifamedia/status/2085115735768981643
“O excelente trabalho da Administração da FIFA, que garantiu o sucesso do Campeonato do Mundo da FIFA 2026, foi reconhecido e não teria sido possível sem que o presidente da FIFA, o secretário-geral da FIFA e a Administração da FIFA falassem a uma só voz e trabalhassem como uma só equipa. Neste sentido, a gestão de topo da FIFA está plenamente confiante de que os resultados da reunião de hoje irão reforçar a governação da FIFA, ajudar a restaurar a confiança na organização e permitir-nos preparar-nos para os principais eventos e desafios futuros de forma unida e transparente, ao mesmo tempo que continuamos a nossa missão de desenvolver o futebol em todo o mundo”, prosseguiu a missiva distribuída pela FIFA.
“A reunião abordou também a proposta FIFA Forward Enterprise (FFE), onde foram reconhecidos os erros cometidos. Ficou acordado que não era intenção que o Conselho da FIFA e as Associações-membro da FIFA se sentissem excluídos do processo e que o processo deveria ter sido conduzido de forma diferente. Reconheceu-se ainda que também foram cometidos erros após a fuga da proposta para a comunicação social. Numa carta separada ao Conselho da FIFA e às Associações Membro da FIFA, foi feito um pedido de desculpas por estes erros, juntamente com o compromisso de garantir que não se repitam. Será conduzida uma revisão e um relatório será apresentado ao Conselho da FIFA na sua próxima reunião”, frisa.
“Tal como comunicado anteriormente, a proposta FFE está agora descartada. Com a retirada do projeto, ficou acordado que a FIFA não tolerará quaisquer ataques à sua integridade, boa governação e devido processo legal, e tomará todas as medidas necessárias para proteger e salvaguardar o seu nome e reputação. Há sempre lições a tirar e a FIFA continuará a melhorar os seus processos à luz dessa experiência. Neste caso, porém, é importante realçar que, embora tenham sido cometidos erros, tudo o que foi feito estava em total conformidade com o quadro regulamentar da FIFA. A FIFA trabalhará em estreita colaboração com as partes interessadas relevantes para examinar como pode apoiar ainda mais o desenvolvimento do futebol através do programa FIFA Forward, em benefício das 211 associações-membro da FIFA, das Confederações e das associações regionais”, concluiu o comunicado emitido na noite desta quarta-feira pela FIFA.
[A investigação ao espião português suspeito de vender segredos à Rússia é inesperadamente confrontada com uma vida dupla. Tem relações com várias mulheres do leste, é frequentador de bares de alterne e striptease e é ainda presença habitual em reuniões da maçonaria. Ao mesmo tempo, os serviços secretos norte-americanos querem montar uma armadilha à “toupeira” no interior do SIS. Já pode ouvir o segundo episódio do novo Podcast Plus “A Vida Dupla do Espião Traidor” no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube.]