Está tudo esgotado há meses. A procura por alojamento em Bragança sofreu um boom desde que a região, a única do país onde no dia 12 de agosto será visível durante 26 segundos um eclipse solar total, entrou na rota de astrónomos amadores, profissionais e simples entusiastas dos fenómenos astronómicos. Como as reservas foram feitas com muita antecedência, os preços não galoparam; certo é que a uma semana do eclipse, se consultar qualquer plataforma de reserva de alojamentos e selecionar a noite de 12 para 13 de agosto, em Bragança, lerá um aviso: “99% dos alojamentos não estão disponíveis para as datas que indicou no nosso site”.
Porém, se tentar reservar uma cama na noite seguinte, no Hotel Tulipa, por exemplo, já torna a aparecer a opção, por 65 euros, como habitual. E o mesmo acontece em mais de 30 hotéis e apartamentos naquela mesma cidade, que apresentam preços entre os 40 e os 100 euros. A Lua vai bloquear o Sol durante poucos segundos, mas o impacto que terá na economia local será “muito positivo”, crê a presidente da Câmara de Bragança, Isabel Ferreira.
Um quarto em Bragança custa cerca de 80 euros por noite, estima a autarca. No Hotel Tulipa, os vários pedidos de reserva começaram em janeiro. Agosto é sempre intenso: além das “noites de ciência e festas ligadas à astronomia” este ano, decorrem também as festas da cidade. Como conta ao Observador a gerente do hotel no coração do centro histórico de Bragança, festividades como a Feira Medieval atraem sempre “muita gente”. Contudo, Elisabete Raimundo confessa que “não é habitual haver tanta afluência de reservas” com a antecedência que se registou. Houve um grande número de pedidos em janeiro, apenas para passar uma noite a 12 de agosto.
“Como já nos preparámos sempre para o verão, não houve grande mudança. Estamos a receber estes hóspedes como se fizessem parte da festa”, afirma a responsável. Na sua maioria, os hóspedes que reservaram aquela noite única no hotel são espanhóis ou portugueses — o que “faz sentido” devido à proximidade com Espanha, explica. Elisabete Raimundo aponta que o facto de a grande maioria utilizar o hotel apenas para pernoitar após o eclipse solar é um “sinal de que são pessoas curiosas e interessadas na área, que vêm de passagem”.
“Todos os eventos numa terra pequena como a nossa são de louvar e agradecer”, frisa a gerente do hotel. “Ficamos muito contentes por nos virem visitar.”

Os pedidos diários para reservas em alojamentos esgotados há mais de um ano em Rio de Onor
Existem quatro opções de alojamento para quem procura passar uma noite em Rio de Onor. Para além de ser uma de duas localidades em Portugal onde o eclipse solar será total, é também um caso curioso de partilha de território com o país vizinho. Existe um Rio de Onor de cima e um Rio de Onor de baixo, um lado espanhol e um lado português, e é esta particularidade que atrai vários turistas — de ambos os países — a esta pequena freguesia no nordeste transmontano ao longo de todo o ano.
Em 2026, não é este o motivo por que os quatro estabelecimentos de turismo rural de Rio de Onor de baixo estão sem vagas na semana do eclipse. A Casa da Portela é a mais popular da aldeia, de acordo com as avaliações nas várias plataformas de reserva de quartos e, diz o responsável pelo alojamento, os quartos já estão esgotados desde abril de 2025. Quem vai ocupar as quatro suítes deste negócio familiar que recebe pessoas perto da fronteira espanhola desde 2015 é um grupo de astrónomos portugueses que, por conhecer bem o calendário astronómico, quis garantir uma cama no melhor ponto para observar o fenómeno em Portugal.
Mesmo que já esteja sem vagas há mais de um ano, os pedidos de reserva não cessaram. “Embora apareça sem disponibilidade, os contactos através do site têm sido quase diários desde julho e, antes disso, eram vários por semana”, descreve o gerente em conversa com o Observador. O responsável afirma que embora a aldeia “tenha pouca oferta turística e comercial”, é normal receber vários visitantes ao longo do ano que são atraídos pela “singularidade” de Rio de Onor. “Há famílias e terrenos dos dois lados da fronteira. As pessoas circulam a pé entre os dois lados e usam o café comunitário da aldeia. Sempre foi assim”, explica.
O proprietário garante que está em causa uma procura “sem precedentes” por uma cama naquela região. “Nem na passagem de ano há este nível de movimento”, confessa. Agora — e mesmo que sejam repetidamente avisados de que a Casa da Portela não tem vagas disponíveis —, são feitos pedidos para serem avisados em caso de desistências. E este interesse não foi alterado pelo recente anúncio sobre as atividades planeadas na freguesia para a observação do eclipse.
Por causa do elevado risco de incêndio, a União das Freguesias de Aveleda e Rio de Onor confirmou ao Observador o cancelamento do evento que previa a chegada de mais de duas mil pessoas para assistir ao momento em que a Lua vai tapar o Sol durante 26 segundos. As festividades foram transferidas para o Aeródromo Municipal de Bragança, onde existe espaço para acolher “ainda mais pessoas”, como refere a autarquia, mas o interesse por Rio de Onor permanece. Tanto é que houve uma alteração nos pedidos que começaram a surgir junto da Casa da Portela.
“Passámos a ter pedidos de pessoas a perguntar se não era mesmo possível reservar, porque, devido ao condicionamento de trânsito que vai haver na aldeia, querem estar alojadas para poderem ter uma declaração de acesso” ao local, revela o gerente. Segundo a presidente da Câmara de Bragança, o acesso às aldeias de Rio de Onor e Guadramil vai mesmo estar condicionado no dia do eclipse, para evitar grandes ajuntamentos nas áreas em risco de incêndio. Quem já estiver nessas localidades vai conseguir permanecer no território, mas o acesso estará interdito “a quem vem de fora”.

Turismo tem vindo a crescer em Bragança, mas espera-se “aumento muito maior” com o eclipse
O concelho tem uma população de cerca de 32 mil pessoas que todos os verões duplica, com o regresso dos emigrantes e a vinda dos turistas nacionais e internacionais que visitam a região de Trás-os-Montes. O fluxo turístico tem vindo a aumentar nos últimos anos, mas “nada se compara” com o evento que a autarquia está a organizar desde o início do ano.
“Este é um momento único que as pessoas não querem perder e Bragança é, em Portugal continental, o território que oferece condições para observar o eclipse solar em maior extensão”, afirma ao Observador a presidente da Câmara Municipal de Bragança, referindo que estimam a chegada de “quatro a cinco mil pessoas” apenas para as atividades de observação de eclipse no dia 12, mas “podem ser muitas mais”.
Havendo uma parcela de território muito limitada para observar o eclipse na sua totalidade, as opções para pernoitar começaram a ficar esgotadas logo no princípio do ano, quando começaram a ser divulgadas as primeiras iniciativas relacionadas com o fenómeno. “Começámos a ter logo muitas reservas e cedo ficaram esgotadas as camas disponíveis, quer em hotelaria, quer em alojamentos locais, não só no concelho de Bragança, como nas imediações”, indica Isabel Ferreira.
Quem não conseguiu encontrar uma cama optou por encontrar um espaço para montar uma tenda. Porém, também as vagas nos parques de campismo nas imediações daquela faixa do Parque Natural de Montesinho deixaram de existir. “Relativamente aos dados de 2025 comparados com 2024, no caso das dormidas registou-se um aumento de 19,7% e nos hóspedes mais 12,5%”, afirma. De acordo com os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), entre 2022 e 2025, o rendimento médio auferido pelo proprietário por quarto disponível aumentou de 15,7 para 21,3 euros. “Em condições normais já estamos em crescimento com as nossas atividades habituais”, descreve a presidente. Apesar de ainda não estarem disponíveis os dados finais sobre a evolução das dormidas na região nesta primeira metade de agosto, “com este fenómeno excecional”, espera-se “um aumento muito maior”.
Bragança prepara programa “muito diverso” para semana do eclipse
A Câmara Municipal vai assegurar a circulação dos transportes públicos desde a estação rodoviária de Bragança até ao aeródromo, no dia 12 de agosto. Lá, há espaço para “bem mais” do que as duas mil pessoas que estavam previstas para o evento em Rio de Onor, com a autarquia a contar com pelo menos o dobro. “As pessoas também podem ir nas suas viaturas porque há condições de estacionamento para um número elevado de veículos”, garante Isabel Ferreira.
Para acolher este volume “sem precedentes” de visitantes na região, a presidente da Câmara de Bragança confirmou que irá haver “um reforço dos meios humanos e operacionais em todo o terreno”, estando destacado um dispositivo de segurança dos bombeiros, da PSP, da GNR, do ICNF e dos serviços municipais de proteção civil “para garantir que será um dia feliz, único, mas vivido em segurança”. E apesar de o foco estar no dia do eclipse, as atividades começam logo no início da semana.
“Temos muitas atividades ligadas à ciência e a esta ligação entre a comunidade, a parte recreativa e a parte mais científica, que explicará a toda a população e famílias, independentemente da idade e do grau de especialização, o momento que vamos viver”, explica a autarca ao Observador. Naqueles dois dias antes do fenómeno astronómico, o município, em coordenação com a Ciência Viva, organizou “círculos matemáticos, apresentação de livros ligados à astronomia, conversas com vários especialistas, workshops para aprender a construir um telescópio e sessões de observação”, no que descreve ser um programa “muito diverso” entre os dias 10 e 11 de agosto.
A autarca Isabel Ferreira sublinha que o eclipse acaba por ser uma oportunidade de mostrar as “características únicas” de Bragança. Seja o Parque Natural de Montesinho, por onde passa a faixa de totalidade do eclipse, ou a Reserva Mundial da Biosfera e a “grande mais-valia de um rico património natural e paisagístico”, a presidente da Câmara acredita que este boom turístico — apesar de curto e espontâneo — poderá traduzir-se numa “oportunidade”. E garante que, no dia 12, “toda a cidade se vai transformar num palco de preparação para o eclipse solar”.
[A investigação ao espião português suspeito de vender segredos à Rússia é inesperadamente confrontada com uma vida dupla. Tem relações com várias mulheres do leste, é frequentador de bares de alterne e striptease e é ainda presença habitual em reuniões da maçonaria. Ao mesmo tempo, os serviços secretos norte-americanos querem montar uma armadilha à “toupeira” no interior do SIS. Já pode ouvir o segundo episódio do novo Podcast Plus “A Vida Dupla do Espião Traidor” no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube.]