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"Playback": como realizador, ator e diretor musical fizeram um filme sobre Carlos Paião

Sérgio Graciano, Rafael Ferreira e The Legendary Tigerman falam sobre o "Paião real" e o "Paião ficcional" e como ambos se juntam num retrato sobre "a pessoa e o mundo que a rodeava".

André Filipe Antunes
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Por estes dias, muito se fala sobre o sucesso comercial da biografia musical, género que nos últimos anos se tem afirmado como um dos mais fiáveis da produção cinematográfica a nível internacional. A cada ano, o número de propostas deste tipo multiplica-se, gerando milhões em receita com base numa promessa de nostalgia – conduzir o espectador numa viagem ao passado, pelos altos e baixos da vida e da obra de uma grande figura da cultura popular do século XX, um tempo de uma outra suposta simplicidade, ao som de bandas sonoras que são património coletivo.

Fórmula de méritos artísticos discutíveis consoante o projeto, não há como negar que o biopic é hoje um dos alicerces da indústria do cinema. Portugal não é exceção, tendo a produção nacional gerado nos últimos anos filmes sobre figuras como as Doce e António Variações (este último está de resto entre as produções nacionais mais vistas das últimas duas décadas, segundo dados do ICA). A estes junta-se agora um terceiro, também saído da memória dos anos 80. Carlos Paião é feito filme pela mão do realizador Sérgio Graciano (Salgueiro Maia – O Implicado, Soares é Fixe): Playback, que se estreia esta quinta-feira, dia 6 de agosto, apresenta-se como retrato biográfico e como olhar onírico sobre um músico que o tempo de certo modo esqueceu — a pessoa, não tanto as suas composições, que constam do cancioneiro nacional do pós-25 de Abril, inspiram autores atuais e fazem parte da banda sonora oficial de casamentos, batizados, bailaricos, karaokes e o que mais houver.

“Não sei dizer porque é que aconteceu”, começa por afirmar o cineasta ao Observador. De facto, olhando para o rasto que Paião deixou na memória cultural portuguesa, o seu desvanecimento torna-se evidente – um dado tanto mais curioso quanto se constata que, comparado com o dos seus contemporâneos acima citados, o médico de formação, que morreu tragicamente em 1988 com apenas 30 anos, num acidente de viação, seria talvez o mais popular dos artistas da sua geração no auge da carreira, na primeira década do Portugal democrático.

[o trailer de “Playback”, que se estreia nos cinemas esta quinta-feira, dia 6 de agosto:]

https://www.youtube.com/watch?v=pN_Ob1JgyZc

Reconstruir a figura de Carlos Paião para o grande ecrã assume, por isso, uma carga redobrada: além da reconstituição, comum a este tipo de proposta, trata-se também de devolver à relevância um artista de impacto inegável, mas que a própria história foi relegando progressivamente para segundo plano. Uma responsabilidade assumida de forma tripartida entre Graciano, o cineasta que assina o filme, Rafael Ferreira, o ator responsável por encarnar Paião, e o músico The Legendary Tigerman, a quem coube a direção musical do filme e a reinterpretação das canções do artista para um público que o poderá (re)descobrir em 2026.

Um músico entre a sofisticação e a popularidade

Talvez apropriadamente, nenhum dos criativos-chave por trás do filme se assume como fã de Paião antes do seu envolvimento no projeto. “Para mim, o Carlos Paião era uma figura mitológica dos anos 80”, diz Rafael Ferreira, o mais novo dos três, que interpreta o músico e que assume que pouco sabia a seu respeito para além das “músicas mais conhecidas”.

Também Paulo Furtado, Tigerman, confessou ter num primeiro momento estranhado o convite que lhe foi endereçado por Sérgio Graciano. “Fui ouvir as canções, tentar perceber se faria sentido, porque à primeira análise não me parecia que seria eu o nome mais consensual para trabalhar as canções do Carlos Paião, que são muito mais pop do que qualquer coisa que eu tenha feito”, diz o músico.

Esse mergulho na sonoridade de Paião acabou por revelar um músico mais sofisticado do que à primeira vista seria expectável. “Descobri um universo escondido, mordaz”, sustenta. “De repente, comecei a situar o Carlos num sítio que nunca tinha situado – umas canções super alinhadas com os Devo, outras com coisas que o [Leonard] Cohen estava a fazer na mesma altura”, explica.

São estas referências que, num primeiro momento, não seriam previsíveis de colar a um músico de índole sobretudo popular, que ganhou o Festival da Canção e cuja imagem, para o bem e para o mal, acabou associada a uma pop mainstream mastigável da época. Fator que, crê Sérgio Graciano, acabou por impactar a forma como Paião foi ou não sendo lembrado ao longo dos anos. “Era um artista mais popular, mas não quer dizer que não tivesse profundidade”, diz o realizador, reconhecendo ainda assim a perda de relevo da figura de Paião nas décadas após a sua morte face aos contemporâneos. “O António Variações se calhar era um grande músico, mais de nicho, não era tão popular como o Carlos Paião, mas foi ficando. As Doce eram um fenómeno pop, as músicas delas acabam por ser mais orelhudas que todas as outras, e então foram sobrevivendo”.

Por seu turno, Rafael Ferreira vê em Paião uma certa ideia de “normatividade” face aos padrões da década de 80 que, paradoxalmente, ajudou outros atos musicais da época a sobressair aos olhares revisionistas. “O António Variações era aquela figura de que toda a gente se lembra, era da comunidade LGBT num tempo em que isso não era bem visto; as Doce também rompiam com o lado dseminuas numa altura em que isso não era permitido. O Carlos Paião não rompeu com a época, então acho que também foi esquecido um pouco por causa disso”, reflete o ator.

Transversais são ainda assim as canções, clássicos da música pop e ligeira do período. De Pó de Arroz a Playback, passando pelo primeiro amor de Cinderela ou a Vinho do Porto, uma certa ideia de “portugalidade” que ainda hoje emanam nas suas letras e arranjos torna estes temas incontornáveis a sucessivas gerações. “É um artista que está totalmente cravado no cancioneiro português, é incontornável”, defende The Legendary Tigerman.

A realidade filtrada pelo cinema

Parte do encanto que as músicas de Paião são ainda hoje capazes de engendrar reside nas letras, construções profundamente visuais, que conjuram imagens vívidas em quem as ouve. Este lado de certa forma onírico acabou por servir de base à abordagem adotada em Playback, que ao invés de outros biopics talvez mais convencionais, opta por dar um rumo mais abertamente “fantasioso” à vida de Paião e às sequências musicais.

“O desenho onírico do filme aconteceu, por um lado, porque estamos mais defendidos — o homem já não está, o cantor já morreu e isso defende um bocadinho o nosso papel no filme, podemos tirar uma licença poética”, começa por explicar Sérgio Graciano, oferecendo como termo de comparação mais próximo o filme Rocketman, fantasia musical biográfica sobre Elton John.

Para chegar à construção de personagem vista em Playback, a equipa criativa do filme falou com quem o conheceu em vida – em particular com a viúva de Paião, Zaida Cardoso – e estudou o material de arquivo disponível sobre o músico. Sem, contudo, comprometer a índole fantasista da proposta, ou arriscar cair para uma mera recriação histórica, salienta Rafael Ferreira. “O Sérgio diz muito que a realidade às vezes não serve a ficção. Por isso foi sobretudo perceber o que é que no Carlos real funcionava no Carlos ficcional, perceber a energia geral daquela pessoa e do mundo que a rodeava na altura”, conta o ator.

Paralelamente, o diretor musical do filme procurou com o rearranjo das músicas de Paião não mudar a identidade dos temas que todos conhecem, antes apenas atualizar a roupagem dos arranjos abaixo da superfície. “Acho que era importante manter a craveira pop e essa aparente simplicidade”, explica The Legendary Tigerman, que sublinha que o onirismo latente em Paião (e que o filme retrata de forma direta) já é possível encontrar em alguns dos seus arranjos incomuns para a época. “Havia uma inteligência muito grande na forma como ele geria o som e os timbres e os instrumentos que usava em cada canção. Mantinha a portugalidade, aparece às vezes uma guitarra portuguesa ao lado de sintetizadores”, diz o músico.

“É mesmo transversal”: Paião, de novo ao vivo

Essa dinâmica musical foi explorada no filme, e não só. Isto porque, em paralelo com a estreia de Playback, Rafael Ferreira e uma banda organizada por The Legendary Tigerman saíram à rua para voltar a dar nova vida às canções de Paião, ao vivo e fora do grande ecrã. “Nos concertos surpreendeu-me perceber que o Carlos Paião é mesmo transversal, desde os 16, 18 anos, até às pessoas mais velhas que o acompanhavam na altura. É muito intrigante, como é que um artista cujo repertório não foi assim tão trabalhado até este momento se mantém vivo tantos anos depois”, reflete Tigerman.

Aos dois concertos de apresentação do projeto no NOS Alive, juntou-se ainda uma apresentação integrada na antestreia do filme, no final de julho, no Cinema São Jorge. Para Rafael Ferreira, ainda não é possível tirar grandes ilações – essas só depois de mais concertos, que já estarão a ser pensados para um futuro próximo – mas o ator admite que o exercício está a superar as expectativas. “No NOS Alive nunca achei que teríamos as pessoas que foram, mas de facto a música do Carlos Paião está mesmo muito presente, as pessoas cantam do início ao fim”, diz.

Questionados sobre expectativas em relação ao que o projeto poderá trazer, realizador e ator principal mostram-se cautelosos. “Nunca sabemos verdadeiramente o que é que um filme vai fazer quando chega às salas. Se conseguir despertar a curiosidade de quem já o conhecia, e ao mesmo tempo apresentar um Carlos Paião 2026 a uma geração que vem aí, já terá cumprido uma missão muito importante”, considera Sérgio Graciano.

Esse propósito, de redescoberta de Paião, é também algo que Rafael Ferreira ambiciona como legado do filme, ainda que reconheça que os tempos atuais tornam essa missão difícil. “Nesta era das redes sociais, não percebo muito bem o que é que cola e não cola… Gostava que as pessoas fossem ao cinema, difícil, principalmente com filmes portugueses. Acho que o facto de ser o Carlos Paião vai ajudar a que isso aconteça, mas sinceramente estou algo receoso que o nome Carlos Paião não seja forte o suficiente para tirar as pessoas de fora do ecrã do telemóvel… vamos ver”, remata.