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"É impossível abrir o portão." Depois de uma praga de pulgas, moradores da Maia desesperam com praga de baratas

Situação é recorrente, mas este verão terá atingido maiores proporções. Moradores utilizam todos os meios ao seu alcance para impedir entrada de baratas em casa. Câmara da Maia reforça desinfestação.

Miguel Pinheiro Correia
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O medo de deixar os três filhos expostos a baratas dentro da própria casa foi maior do que o calor intenso que Andreia Oliveira sentiu em algumas das últimas noites. Já com as persianas fechadas, a mulher explica que vê os insetos “nas paredes, nas ruas, nos passeios, dentro de casa e na cozinha” da habitação na Rua Central da Corga. Enumera sem parar os locais da casa onde já se assustou. “Apanho muitas na casa de banho. Não dá para estar sossegada, mesmo em casa”, assume.

Recentemente, teve que acordar as duas filhas gémeas de sete anos de madrugada para tirá-las do quarto, onde estavam várias baratas. “Já é um trauma”, repete, sem solução à vista.

O problema da família não é único em Águas Santas, a segunda freguesia do concelho da Maia com mais habitantes. Nos últimos anos, sempre pela altura do verão, repetem-se os apelos à Câmara Municipal e à junta sobre pragas de baratas na zona de Corga. A questão atraiu mais atenção este ano por ter acontecido pouco depois de ter sido detetada uma praga de pulgas na mesma freguesia, mas a dois quilómetros de distância.

Apesar de o surgimento das pulgas não estar relacionado com a praga de baratas, os temas confundem-se nas bocas dos moradores, que apontam a posição periférica da freguesia como razão da multiplicação dos insetos. Se a origem das pulgas já foi neutralizada — mesmo que esta terça-feira ainda se tenham ouvido queixas dos vizinhos — a solução para o segundo problema pode demorar pelo menos mais uma semana, reconhece um perito ouvido pelo Observador.

“Há baratas, mosquitos, abelhas, bichos das árvores, tudo aqui à volta. E nada é feito. São feitas queixas e não aparece ninguém. De noite, nós temos que andar no passeio de lanterna para não pisarmos [baratas]… Eles dizem na televisão que vêm e que têm andado aí, mas a gente não vê ninguém”, desabafa Cristina Rodrigues.

Pouco depois deste relato da funcionária de um café, o Observador viu trabalhadores de uma empresa contratada pela câmara para fazer a pulverização dos esgotos. Mas estes homens que atuam de máscara na cara, colete refletor e pulverizador, deviam entrar em ação mais vezes e antes de o problema se intensificar, aponta João Leitão, presidente da Associação Nacional de Controlo de Pragas Urbanas.

“O que se faz às vezes é: trata-se da situação até estar novamente sob controlo e depois se as pessoas se queixarem volta-se outra vez”. Para o especialista, com experiência no terreno, em vez de se ficar “à espera que as pessoas se queixem”, os serviços deviam atuar preventivamente, com limpezas regulares, impedindo a proliferação de pragas que têm sido relatadas com maior frequência em todo o país.

“É impossível abrir o portão, é impossível dar uma caminhada a pé com os miúdos, é impossível estar no terraço”

Com bastantes traços rurais, a zona da Corga, assim como Águas Santas, tem tido um crescimento recente na construção de prédios que veio quebrar a hegemonia de moradias na localidade. Entre as ruas com as casas mais antigas, poucas são as pessoas que passeiam no exterior ao início da tarde, com a maioria a preferir o convívio nos cafés.

Nas esplanadas ou dentro dos estabelecimentos, as conversas são monotemáticas. Entre os que dizem que não viram nenhuma barata, os que as contam pelos dedos de uma mão e os que já perderam a paciência, a discussão aquece. “Pode dizer que nunca as viu, mas não diga que não há”, barafusta Cristina Rodrigues, a servir as mesas no Doces Urbanos 2.

Guarda todas as provas no telemóvel. Numa das fotografias que tirou, durante a noite, aparecem quase dez baratas. “Mas eram mais, elas é que fugiram com a lanterna”. Há 16 anos em Águas Santas, a mulher de 42 anos reconhece que o problema “é recorrente”.

Este ano, ainda assim, acredita que está mais grave e até que as baratas estão maiores. Além dos cuidados a andar na rua de noite, aponta para ruas mais abandonadas, sem pessoas a caminhar ou crianças a brincar. “Nós o que queremos é limpeza, acima de tudo, para que as crianças possam brincar aqui na rua à vontade”.

“Elas saem dos bueiros, das grelhas de saneamento. São muitas e a sair ao mesmo tempo”. José Lopes junta-se à conversa para mostrar marcas de picadas de mosquitos e denunciar outro problema, que já tem sinalizado junto de autoridades competentes. Gasta muito dinheiro com pomadas e queixa-se disso. Com um inseto morto na mão, um imigrante brasileiro sentado na esplanada do mesmo café diz que foi picado pelo “mosquito” da “dengue ou da zika”.

Não está longe da verdade, mas também não está totalmente certo. O formato do corpo e as listras nas patas não deixam dúvidas de que se trata de um Aedes aegypti ou um Aedes albopictus, mosquitos que podem ser portadores de doenças como a dengue, a malária ou a zika, mas não quer dizer que o sejam sempre.

Mosquitos podem transportar doenças graves, mas é raro

Em 2o24, foram identificados 38.522 mosquitos de 18 espécies em território nacional, mas não foram identificados vírus de doenças em nenhum dos milhares de mosquitos do género Aedes, a que também se chama “tigre asiático”.

“Não dá para ver estes mosquitos, só quando chegamos a casa é que notamos [as picadas] nos braços e nas pernas. Uma pessoa tem que gastar dinheiro em pomadas e elas não são assim tão baratas”, reclama José Lopes.

Mais visível e mais anormal do que a presença quotidiana dos mosquitos é a multiplicação das baratas que preocupa os moradores e os obriga a gastar dinheiro em todo o tipo de produtos, na esperança de terem o antídoto certo para afastar os insetos.

“Tenho posto veneno, tenho posto hipoclorito, lixívia, lavanda… tudo o que eu veja que possa afastar”, explica Andreia Oliveira. Com resultados? “Mais ou menos”. Se reconhece o problema repetido de anos anteriores, também assume que “este ano está muito pior”.

“Este ano elas saem por todo o lado. É impossível abrir o portão, é impossível dar uma caminhada a pé com os miúdos, é impossível estar no terraço ao fim do dia”. No epicentro da zona mais problemática e sempre com a preocupação de manter os três filhos a salvo, Andreia assume que já tem procurado, junto da autarquia, soluções de habitações sociais para viver numa casa com melhores condições para os filhos.

https://observador.pt/especiais/vem-ai-um-verao-cheio-de-mosquitos-devemos-temer-a-dengue-e-a-malaria/

Entre as conversas, os vizinhos também discordam sobre a ação dos serviços autárquicos para combater este problema. Enquanto uns apontam o dedo à falta de limpeza, outros reconhecem que já viram funcionários a limpar os esgotos. Apesar da discussão, concordam na falta de resultado.

As recomendações sobre bons produtos para afastar as baratas também surgem. Os donos do Doces Urbanos elogiam o gel que mandaram vir pela Internet, já José Santos optou por colocar “armadilhas pequenas”. “Até ver, não apareceu nada”, diz, mas antes, em casa, já tinha encontrado “meia dúzia”.

A chegar a um dos prédios mais recentes da zona de Corga, um morador assume que “ainda não” viu nenhuma barata e atira: “Já disse à minha mulher que quando vir, saímos daqui”. A veemência não é reflexo do medo, mas da falta de paciência com um problema que já lhe deu dores de cabeça: a família viveu até há poucos anos em Valongo, de onde teve que sair devido a uma praga de baratas. “A câmara foi lá três vezes desinfestar… e não conseguiu”.

Autarquias apostam pouco na prevenção e investem pouco na limpeza, acusa especialista

No verão passado, com o proliferar de pragas por todo o País, incluindo na freguesia de Ermesinde — que apesar de já pertencer ao município de Valongo, faz fronteira com Águas Santas — o Observador ouviu especialistas que reconheceram um aumento do número de baratas face a 2024.

Confrontado, agora, com a situação na Maia, o perito João Leitão reitera críticas às autarquias: “As câmaras olham demasiado ao preço. Muitas vezes as empresas, quando vão fazer o serviço de limpeza, deparam-se com realidades que ficam aquém do caderno de encargos”.

Para o presidente da Associação Nacional de Controlo de Pragas Urbanas, as câmaras optam por contratar equipas para fazerem menos visitas do que deviam. Por isso, mesmo quando, como em Águas Santas, a situação se repete anualmente, não há uma aposta na prevenção.

O verão acaba por ser sempre a época de eleição das baratas, que têm no calor melhores condições de reprodução e que fazem dos esgotos e do saneamento os seus habitats. O mais comum, tal como foi relatado pelos moradores, é os insetos subirem pelos esgotos até às casas ou estabelecimentos comerciais das pessoas, mas não só. “Por exemplo, eu moro num terceiro andar, esta noite tinha a janela aberta e entrou uma barata”, detalha João Leitão, que distingue as mais de 20 espécies em Portugal e explica que as observadas em Águas Santas dizem respeito a uma espécie que vive nos esgotos e que não se chega a instalar na casa das pessoas.

“Elas acabam por morrer fora do seu ambiente”. O que não acontece com outras espécies que podem alojar-se dentro das casas das pessoas, onde permanecem mais tempo.

“Quando está mais frio a fase de desenvolvimento [das baratas] é mais lenta, quando está mais quente é mais rápida. E por isso veem-se menos [no inverno], porque está mais frio e elas estão nos esgotos. Quando o tempo aquece elas intensificam-se e saem pelas sarjetas, pelos esgotos para dentro da casa das pessoas”.

Da experiência como presidente da associação e como dono de uma empresa, João Leitão já passou os olhos para muitos contratos das câmaras. “Recebo cadernos de encargos de várias autarquias em que nós agradecemos e nem respondemos, porque é incomportável”. “Para fazer um trabalho em condições, para ter equipas disponíveis, para ter pessoas realmente qualificadas, não se contratam pessoas para fazer apenas aquele tipo de serviço. Os técnicos têm de ter alguma formação e têm de ter algum conhecimento para saber lidar com as situações”.

O representante das empresas de desinfestação conclui que a maioria do trabalho feito para as câmaras é “em serviço de urgência”, e não em “prevenção”. Nem sempre é culpa das autarquias, acrescenta, “pode haver empresas [de controlo de pragas] que não funcionam”.

A grande certeza do especialista é que as pragas se têm agravado nos últimos tempos devido às “condições ambientais” e ao calor mais intenso que tornam a temperatura mais favorável a estes insetos. Por outro lado, como acontece em Águas Santas, há muitos sistemas de saneamento antigos cuja modernização não acompanhou o crescimento em termos de população, que representa uma sobrecarga maior destas infraestruturas.

Ao contrário do que indicaram alguns moradores ouvidos pelo Observador, a existência de ligações clandestinas à rede de esgotos não representa um grande problema para as equipas de limpeza. “A eficácia [da limpeza] não muda muito se há dez ou cinco ligações”.

Os mecanismos de resposta, já visíveis em Águas Santas, costumam ser rápidos, mas com limitações: agora, as equipas têm mais cuidado nos produtos que utilizam para não afetar tanto o meio ambiente com biocidas.

Enquanto as equipas de limpeza se equipam a rigor para combater as pragas, as recomendações deixadas por João Leitão às pessoas que apanham baratas em casa são outras. Há que ter cuidado com os pontos sensíveis: tubos das máquinas de lavar e, sobretudo, ralos.

De gel para matar baratas na mão, Alfredo Augusto assume a um vizinho que mata as baratas calcando-as. O vizinho devolve que assim “as baratas largam ovos” e multiplicam-se, mas o homem de 89 anos repete que sempre o fez, durante toda a vida, e não tenciona mudar. O presidente da Associação Nacional de Controlo de Pragas Urbanas desfaz o mito, que não é só deste vizinho.

“Estas [espécies de] baratas transportam normalmente uma cápsula com cerca de 16 ovos — mas há outras que levam 40. Se pisarem a barata e a cápsula, morre tudo”, corrige João Leitão.

Praga de pulgas afetou a mesma freguesia. Mariana tinha a filha “toda ferrada”, com “ferida”

A dois quilómetros da zona de Corga a paisagem é semelhante. Numa zona de moradias perto do nó de Águas Santas, entre a A3 e a A4, há poucas pessoas a passear na rua. Além das casas na rua Dr. Carlos Pires Felgueiras, também a Escola Básica de 1.º CEB/JI do Paço está vazia.

Mas se não há movimento de crianças no recreio não é só por ser verão, uma vez que a escola deveria receber, por estes dias, um programa educativo durante as férias. No entanto, também as cerca de 50 crianças participantes na iniciativa sofreram o impacto de uma praga de pulgas que incomodou os moradores e levou ao cancelamento do programa.

Mariana, de 27 anos, começou a notar o aumento das pulgas nos últimos três meses. “Como andam aqui alguns gatos na rua, achámos que poderia ser dos gatos”. Só com o passar do tempo repararam que vinham todas do mesmo local: a casa de uma vizinha idosa, que “vive sozinha” — e que apesar de ter filhos, raramente são vistos pelos moradores da rua.

“Não sei se são os filhos que não a ajudam ou se ela simplesmente não aceita a ajuda”. Quando os vizinhos denunciaram o caso à comunicação social, a autarquia acabou por atuar, mas não no foco da praga.

“Na manhã de 30 de julho, o Ministério Público informou o Município de que se encontrava a concluir a petição da providência cautelar [que autorizou a entrada coerciva na habitação identificada pela Autoridade de Saúde como o provável foco da infestação de pulgas registada em Águas Santas], a qual seria remetida ao Juiz de Turno para apreciação. Ainda nesse dia, o Município foi formalmente notificado de que a providência cautelar tinha sido apresentada junto do Tribunal. Também a 30 de julho, o Delegado de Saúde emitiu um mandado de condução da residente ao hospital. A PSP de Águas Santas deslocou-se à habitação para executar essa determinação, mas a residente recusou abrir a porta. Não existindo, nessa altura, fundamento legal para uma entrada coerciva, o mandado não pôde ser cumprido”, referiu a autarquia num comunicado.

Todavia, as equipas de limpeza aproveitaram a deslocação a Águas Santas para desinfestar gratuitamente as casas dos vizinhos que quisessem. “Mas a situação continuou porque ela não autorizou a limpeza”.

Na passada sexta-feira, já com decisão do tribunal sobre a providência cautelar, as equipas de limpeza, com o apoio da PSP de Águas Santas, conseguiram entrar na casa, tendo a idosa facilitado a entrada. “Contudo, a residente foi encaminhada temporariamente para uma instituição adequada, salvaguardando a sua segurança e bem-estar durante o período necessário à intervenção, conforme determinado pelo Tribunal”, reforçou a autarquia.

Desde então, os moradores ouvidos pelo Observador confirmam a evolução favorável da situação, mas indicam que ainda há algumas pulgas. Tal como Mariana, alguns vizinhos ainda vão receber as equipas de limpeza em casa. A mulher espera que esta intervenção solucione finalmente um problema que tem afetado a sua filha. “Foi a mais afetada com isto, está toda picada, toda ferrada. Até faz ferida”.

“Os Serviços Municipalizados de Águas e Saneamento registaram, desde o início do ano, 44 ocorrências relacionadas com a presença de baratas em diferentes pontos do concelho, das quais duas dizem respeito à Rua da Corga”
Câmara Municipal da Maia

Junta de Freguesia admite alargar obras de saneamento à zona de Corga

Por sua vez, a Junta de Freguesia lamenta a “completa impotência” de competências para terminar com o problema. Assim, quando Miguel dos Santos, presidente da junta, soube do problema com as baratas, alertou de imediato a Câmara Municipal. “Limitámo-nos a reencaminhar. E tanto quanto sei, a Câmara tem agido em conformidade com o problema”, disse ao Observador.

Quando falou com a autarquia, o presidente sensibilizou os SMAS — Serviços Municipalizados de Águas e Saneamento — da Maia para a necessidade de, atendendo à repetição do problema, atuar de forma preventiva. “A Câmara obviamente poderia e deveria ter uma ação mais preventiva, uma vez que o que está a acontecer nestes dias já aconteceu no passado”, conclui.

O município recebeu uma chamada a dar conta do problema a 29 de julho, tendo-se deslocado ao local no dia seguinte para avaliar a dimensão da praga de baratas. “Os Serviços Municipalizados de Águas e Saneamento registaram, desde o início do ano, 44 ocorrências relacionadas com a presença de baratas em diferentes pontos do concelho, das quais duas dizem respeito à Rua da Corga”, garantiu a autarquia ao Observador.

https://observador.pt/especiais/pragas-de-baratas-estao-a-aumentar-e-sente-se-mais-nas-cidades-empresas-de-desinfestacao-lamentam-mas-praticas-das-autarquias/

Apesar de os trabalhadores da empresa de desinfestação não terem detetado baratas na primeira vistoria, o município determinou, “por precaução”, a realização de uma desinfestação que se repetiu na terça-feira.

Para Miguel dos Santos, os antigos espaços comerciais abandonados ou as eventuais ligações clandestinas à rede de esgotos são parte de um problema que tem como figura central um sistema de esgotos demasiado antigo. “Estamos a sofrer uma grande alteração de substituição de tudo o que é rede de saneamento. Porque é muito antiga, muito obsoleta. Acho que prova disso também, de a rede estar velha e obsoleta, é o aparecimento de uma ou outra praga”.

Para já, a Junta de Freguesia tem em marcha um plano de substituição da rede de saneamento, que começou no ano passado. “Não está previsto” que esta intervenção chegue à Corga, afirma Miguel dos Santos, mas a urgência de melhorar a infraestrutura perante as pragas pode levar a que se acelerem os trabalhos nessa zona.