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Crise migratória em Ceuta. Centenas esperam regresso de familiares e amigos do lado marroquino

Centenas de pessoas esperam, do lado marroquino, por notícias dos seus familiares e amigos que tentaram a entrada em Ceuta. Dos 72 mil que o fizeram, 70 mil já regressaram a Marrocos.

João Francisco Gomes
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Na cidade marroquina de Fnideq, a poucos metros da fronteira com a cidade espanhola de Ceuta, palco da crise migratória dos últimos dias, centenas de pessoas têm nas últimas horas esperado ansiosamente pelo regresso de amigos e familiares desaparecidos, de acordo com uma reportagem do jornal britânico The Guardian no local.

Das 72 mil pessoas que entraram irregularmente a nado em Ceuta nos últimos dias, particularmente na última quinta-feira, cerca de 70 mil já regressaram a Marrocos, encaminhadas pelas autoridades espanholas ou voluntariamente. Pelo menos 79 pessoas morreram a tentar a arriscada travessia, e o número de mortes poderá ultrapassar as 160 quando aos corpos recuperados pelas autoridades espanholas se somam as 63 pessoas que terão morrido do lado marroquino, segundo estimativas de uma ONG.

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Do lado marroquino, as famílias sabem pouco sobre o que aconteceu aos seus familiares que tentaram a travessia. Na zona fronteiriça, de acordo com o The Guardian, eram centenas as pessoas que, na terça-feira, procuravam saber algo dos seus amigos e familiares, mostrando nos seus telemóveis fotografias das pessoas que procuravam àqueles que chegavam, em grande número, da fronteira com o exclave espanhol.

Hadijja era uma delas. O seu filho, de 23 anos, terá tentado a travessia, acredita a mulher, que está na fronteira desde sábado, vinda de Tânger. “Não tenho tido quaisquer notícias dele, ele não atende o telefone”, disse ao jornal britânico. “Ele não me disse que ia atravessar”, acrescentou, lamentando a “tragédia” em que se viu envolvida. “Só tenho um filho.”

Os relatos daqueles que estão a regressar a Marrocos após a tentativa frustrada de entrar em Ceuta dão conta de que, para muitos, não houve sequer hipótese de permanecer no território espanhol: a polícia interveio de imediato para os escoltar de regresso à fronteira, sobretudo na sequência da crise política espoletada na sequência do pico migratório, com apelos de vários países europeus à retirada de Espanha do espaço Schengen.

Muitos migrantes acabariam, contudo, por regressar voluntariamente. Sem perspetivas de conseguir entrar efetivamente no espaço Schengen (devido à sua situação geográfica excecional, Ceuta e Melilla têm regras próprias para o acesso à Europa continental), sem água nem comida, sem lugar para dormir e perante a hostilidade da cidade, estima-se que apenas 2 mil migrantes tenham ali permanecido. Alguns encontraram refúgio, como testemunhou o Observador no local, em sítios improváveis como o cemitério.

“Tive fome durante dias e estava cheio de medo”, disse ao The Guardian o jovem Abselam, de 19 anos, um dos regressados ao ponto de partida. “Não vale a pena, não há empregos para toda a gente lá.”

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Na quinta-feira da semana passada, mais de 70 mil pessoas entraram no território espanhol de Ceuta a nado, oriundas de Marrocos, com o objetivo de tentar chegar ao espaço europeu. Terão sido incentivadas pela disseminação de informação nas redes sociais, concretamente acerca de uma decisão do Supremo Tribunal espanhol que determinou que quem chegasse irregularmente a Espanha por via marítima não podia ser deportado de imediato. As tensões geopolíticas no norte de África poderão também ter tido um papel nesta crise.

Entretanto, em grupos de Facebook e WhatsApp marroquinos circulam rumores de uma nova data para uma nova tentativa em massa de entrar em Ceuta: 15 de agosto.

Esta terça-feira, os ministros europeus com a pasta da Administração Interna estiveram reunidos a debater esta crise e concluíram que o espaço Schengen não esteve em causa em Espanha e decidiram reforçar fronteiras e o regresso dos migrantes aos países de origem.

https://observador.pt/liveblogs/ministros-da-uniao-europeia-reunem-se-hoje-para-discutir-crise-em-ceuta/