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“Os Miseráveis: A História de Jean Valjean”: o clássico de Victor Hugo numa insólita versão incompleta

Éric Besnrad filmou, em “Os Miseráveis: A História de Jean Valjean”, só as primeiras 100 páginas do livro de Victor Hugo, isolando o início da narrativa. Eurico de Barros dá-lhe duas estrelas.

Eurico de Barros
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Há decerto uma geração inteira cujo conhecimento das adaptações ao cinema de Os Miseráveis, de Victor Hugo, se resume ao filme musical homónimo. Realizado em 2012 por Tom Hooper, com Hugh Jackman, Russell Crowe e Anne Hathaway nos papéis principais, ele transpõe para a tela o musical de palco de Alain Boublil, Claude-Michel Schönberg e Herbert Kretzmer, e é popularmente conhecido como Les Miz, ou Les Mis (estreado em Londres em 1985, é o espetáculo do seu género em cena há mais tempo no West End). Mas Os Miseráveis é um dos clássicos da literatura mais vertidos para cinema e para televisão.

Há versões francesas, americanas e em coprodução internacional. A primeira, ainda muda e com 44 minutos, foi feita nos EUA, em 1909. Seguiram-se muitas outras, como a de 1934, realizada por Raymond Bernard, com Harry Baur e Charles Vanel; a de 1958, por Jean-Paul La Chanois, interpretada por Jean Gabin, Bernard Blier e Bourvil (e considerada a mais fiel e melhor de todas); a primeira para televisão, em 1978, assinada por Glenn Jordan, com Richard Jordan e Anthony Perkins; a passada na II Guerra Mundial, de Claude Lelouch (1995), com Jean-Paul Belmondo e Michel Boujenah; a minissérie de 2000, com Gérard Depardieu e John Malkovich; ou a série inglesa de 2018, interpretada por Dominic West e David Oyelowo, este num inspetor Javert negro. Em 2007, apareceu mesmo uma adaptação animada feita no Japão.

Mas não deve haver nenhuma como Os Miseráveis: A História de Jean Valjean (Jean Valjean, no original). O realizador Éric Besnard (Delicioso, Louise Violet) isolou e filmou apenas as primeiras 100 páginas do livro, centradas na personagem de Jean Valjean (Grégory Gadebois, o ator de eleição de Besnard), após sair da cadeia, em 1815, onde penou por 19 anos. Cinco por ter roubado um pão para alimentar a irmã e a família, e os restantes por se ter tentado evadir várias vezes. Besnard fez esta opção por duas razões. Adaptar o livro todo com o devido rigor daria um filme longo demais, com entre seis e oito horas. E não havia orçamento para uma versão integral. Decidiu assim “dedicar hora e meia àquilo que todas as adaptações anteriores resumem em cinco minutos”.

[Veja o “trailer” de “Os Miseráveis: A História de Jean Valjean”:]

https://www.youtube.com/watch?v=-ZdGxcOe4Vs

Os Miseráveis: A História de Jean Valjean fica-se pelo encontro de um Valjean emocionalmente entorpecido pela brutalidade da cadeia e descrente do seu semelhante, com o primeiro homem que é bondoso para ele, o bispo Myriel (Bernard Campan), que escolheu viver pobremente, tendo dado tudo o que era seu aos pobres e aos necessitados, bem como a sua irmã, Baptistine (Isabelle Carré). A bondade, a sinceridade e o desprendimento das coisas materiais revelados por Myriel e pela irmã reacendem em Jean Valjean a chama de humanidade que se havia extinguido nele, causam o seu renascimento emocional e moral, e dão-lhe uma segunda oportunidade na vida — que ele irá agarrar com as duas mãos.

[Veja uma entrevista com Éric Besnard:]

https://www.youtube.com/watch?v=XZxW0QSLQVc

A realização de Eric Besnard é sóbria, visual e dramaticamente encorpada, e bem assimilada às realidades do século XIX, evocando o chamado “cinema de papa”, tão “respeitável” como literário e “arrumadinho”, característico dos anos 50 e 60 em França, muito criticado e execrado (e injustamente, nalguns casos), pelos cineastas da Nova Vaga. A fita é dominada pelas interpretações do maciço Gadebois, num Jean Valjean quebrado por dentro, sombrio e lacónico, com ar de que pode explodir a qualquer momento, e que se expressa essencialmente pelo olhar; e de Campan, encarnando um Myriel todo ele calma, subtileza e compreensão. E sem o qual, como notou certa vez o escritor e crítico François Nourissier, “não haveria Os Miseráveis”, já que é graças a ele que Valjean não retoma a senda do crime.

[Veja uma entrevista com Grégory Gadebois e Bernard Campan:]

https://www.youtube.com/watch?v=2kANMltyf4w

Este fragmento de Os Miseráveis que Eric Besnard filmou deixa-nos a pensar no que seria a adaptação completa do livro que ficou por ser concretizada; e também frustrados, porque queríamos mais história, mais peripécias, ir além da legenda explicativa e “didática” com que Os Miseráveis: A História de Jean Valjean encerra. Entretanto, está anunciada ainda para este ano a estreia de mais uma adaptação à tela do inesgotável livro de Victor Hugo, realizada por Fred Cavayé e com Vincent Lindon e Tahar Rahim. E que voltará a percorrer os Miseráveis do princípio ao fim.