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(A) :: Proximidade

Proximidade

Ter trazido hoje, com desenvoltura e gosto, as vicissitudes de um mercado de fruta numa cidade secundária, trazer-me-á desvantagem face à soberania da actualidade: então e Ceuta e Sánchez? e o Irão?

Maria João Avillez
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1 Quando me vi face a uma plateia de caldenses, sentada entre as forças vivas da cidade para moderar um debate sobre a icónica Praça das Caldas, louvei intimamente a iniciativa: com o mundo em guerras e a incerteza como destino ter a oportunidade de “in loco” voltar a confirmar o valor e a importância da “proximidade”, foi-me muito grato.

Cada uma daquelas pessoas trazia uma opinião de casa, propunha soluções, queria ouvir a dos outros. A Praça dizia-lhes respeito, era “deles”: sugestões, alternativas, ambições, perspectivas, quotidianos e até sustentos, passaram por ali no desenrolar da conversa no palco e a seguir, na plateia.

2 A Praça da Fruta é um dos ex-libris das Caldas da Rainha, porventura o mais conhecido de tão presente, popular, participado, perene.

 Como escreveu Carlos Querido – um dos debatentes naquela tarde solarenga de Julho – no seu livro justamente chamado “A Praça das Caldas”, “se recuarmos 100 anos, hoje de manhã, lá estaria a Praça a fervilhar com o mesmo ritmo e as mesmas regras, só que com outros actores. Na verdade a Praça é como um palco, um cenário onde só os protagonistas mudam.”

Sim: o resto permanece. Com idade e vitalidade. E como a “proximidade” promove, interpela, convence (e desperta o civismo), a Praça foi de novo tema nas Caldas da Rainha: ciclicamente alguém se “lembra” que os vendedores e produtores não podem estar a céu aberto, sob a inclemência de chuvas e frio. Fazer o quê então? A “Gazeta das Caldas” – outro ícone! – que este ano celebra os seus também eles extraordinários cento e um anos, decidiu dar voz à cidade, pondo em mãos e em marcha um grande e muito profissional inquérito sobre a Praça. Coordenado por José Luís Almeida, ouviu-se tudo e todos, e as conclusões quase espantam pelo triunfo do bom senso: um) a Praça é um marco e nunca poderá sair “dali”; dois) há que proteger os vendedores das intempéries; três) a proteção não pode interferir com a identidade e a especificidade do lugar.

Mais convidativamente razoável é difícil.

Agora será com os poderes locais. A começar pelo autarca Vítor Marques – independente, em segundo mandato e presente no debate a que aludi e a acabar em interessados e, se possível, responsáveis. Mas hoje todos eles, já com o utilíssimo “instrumento” do inquérito da Gazeta na sua posse.

3 Se me posso meter onde sou chamada, acendo um sinal vermelho: atenção: possibilidade de equívoco fatal.

Ou seja, em circunstância alguma – por razões históricas, culturais, de identidade e respeito à memória – se deverá confundir ou amalgamar a Praça da Fruta com a Praça da República.

Talvez que a principal joia da coroa desta questão resida nisto mesmo: de manhã, na Praça da República vende-se fruta, legumes, flores, frutos secos, queijos. Mas à tarde tudo se aquieta e o que emerge do burburinho alegre da manhã é a geometria harmónica da Praça da República, o seu empedrado lindíssimo, as suas proporções, o seu desenho. Que a eventualidade de uma protecção mais “humana” aos vendedores não deite a perder – desfigurando-a por completo, cruel assassinato – a história e a dignidade da Praça da República. (O que inevitavelmente aconteceria, por exemplo, se se optasse por uma cobertura fixa… Por favor, não!)

4 Ainda a “proximidade”, ainda a “Gazeta”, símbolo vivo da (insubstituível) oportunidade que representa uma imprensa regional. Mensageira (única?) e (único?) traço de união entre um lugar e quem o habita. Levando notícia, acontecimento, histórias, levando o palpitar da vida em cada uma das 12 freguesias do concelho das Caldas. Ouço falar de algumas dificuldades sofridas pela Gazeta (tão bem pensada e dirigida pela minha colega Fátima Ferreira). Só tenho uma palavra a dizer: não deixem morrer a Gazeta. Por favor não deixem!

Não perceber que há elos que não podem ser cortados nem iniciativas deixadas para trás é não perceber – insisto – o formidável valor da política de “proximidade” (quem me dera).

5 Claro que ter trazido para aqui, com desenvoltura e gosto ainda para mais, as vicissitudes de um mercado de fruta numa cidade secundária, ou de um órgão de comunicação regional, me colocará em evidente desvantagem face à soberania da actualidade: então e Ceuta e Sánchez e o Irão, e as imoralidades de Trump, e Luís Neves? E, e, e.

Não: hoje viva a proximidade! E o encanto que é – por exemplo – tratar algumas pessoas pelo nome próprio por estas bandas; ser amiga como sou do adorável casal que me guarda um toldo na Lagoa; pedir tudo e mais alguma coisa a António “Venda” da nossa freguesia; poder elogiar de viva voz o Tiago, director do (óptimo) coro do Santuário do Senhor da Pedra em Óbidos. E, e, e.

Um privilégio, digo-lhes eu, isto de ser devota da proximidade.

PS. Boas férias!