Uma maravilha, este pequeno livro de Pedro Eiras, professor de Literatura Portuguesa na Faculdade de Letras da Universidade do Porto e ficcionista. Quem olhar para a sinopse, ou analisar a ideia do livro, e descobrir um regresso ao universo de Fernando Pessoa via ficção, pode cair no erro de achar o livro um academismo estéril; uma reciclagem de um universo estudado; um aborrecimento, em suma. Logo à cabeça, o texto dá razão ao título, já que abre com descrições do nevoeiro – eis um universo tingido pelo presente, eis a ideia de penumbra transformada em ambiente social, eis a ideia de vultos e segredos num momento histórico em que até os sussurros pareceriam barulho a mais. Leia-se:
Não se percebe quem é quem, nem onde está: bocados de nuvem parecem homens, homens parecem bafo, estranhas sombras nascem dos candeeiros, do brilho tímido na calçada.” (p. 11)
Ora, quem for ao livro com a expectativa que enumerei irá certamente ao engano. Nevoeiro é cheio de vida, o seu texto é cheio de contexto. São menos de duzentas páginas, mas cada uma é densa, cada uma compõe um mundo. Em cada frase, funde-se texto e contexto. Em cada momento de discurso directo, há asserções que compõem as personagens e que, em concomitância, nos abrem os braços, os olhos, as janelas, para aqueles primeiros anos de ditadura.
Vemos António Ferro a pensar, e Fernando Pessoa e Salazar. Volta e meia, dá vontade de saber o que é que é Eiras, o que é que é dos outros três. Das frases de Pessoa, quantas serão dele? É possível, ao longo da leitura, sucumbir-se à tentação do Google ou de folhear a biblioteca, ver o que é que o autor roubou de viva-voz, ver o que inventou, mas talvez a melhor estratégia passe por se ignorar o ímpeto para separar o trigo do joio, uma vez que, no romance, tudo é trigo.

Temos, logo à cabeça do romance, António Ferro, Director do Secretariado da Propaganda Nacional, a sugerir ao Presidente do Conselho a criação de cinco prémios literários que sirvam para enaltecer obras que enalteçam o patriotismo. “Acho que os nossos valores só podem ser recuperados pelos artistas, pelos escritores – pelos escritores sobretudo, que fixam as grandes histórias da Pátria” (p. 17), diz ele. E, ao longo do livro, vemos não só a ideia de instrumentalização da literatura para fins patrióticos, para maquilhar o regime, mas também a ideia de censura como forma de aprimorar o ofício dos próprios escritores. Por exemplo, Ferro considera que o Secretariado da Propaganda Nacional deve servir para fazer o que o povo português não consegue, e que a arte é um instrumento para efeitos propagandistas:
Eu próprio, quando entro numa livraria, fico assustado com a debilidade do que se escreve hoje, do que se publica! Mas aí é que os órgãos da governação podem – e devem! – intervir, aí é que o novíssimo Secretariado da Propaganda Nacional tem uma grande responsabilidade.” Precisamos de separar o trigo do joio. E o público português não está preparado para essa triagem, não tem educação nem cultura para distinguir o que desperta o espírito e o que o ataca.” (p. 18)
É aqui que o livro voa, ao intercalar tudo no mesmo movimento, regra geral no mesmo discurso ou na mesma cogitação: vemos o regime, o alicerce teórico do regime e a composição da formulação. Nisto, convém ainda dizer, não há ponta de moralismo ou sequer de explicação para o leitor. Eiras escreve, o leitor interpreta, não lhe cabendo o papel de recipiente acrítico de uma posição. E as personagens, conhecidas e sobejamente conhecidas, funcionam com tudo o que são ao mesmo tempo: pessoas reais, símbolos culturais e elementos que possibilitam este romance.
A criação do prémio serve para que a literatura seja um soldado ao serviço do Estado, e da sua perpetuação, e não para sublinhar o valor das obras literárias. A ideia é “desenvolver a política do Espírito, defender os valores nacionais” e o “próprio regulamento (…) estipula directrizes claras”, como “uma intenção amplamente construtiva” ou revelar “uma inspiração bem portuguesa (…) e um alto sentido de exaltação nacionalista” (p. 19) e por aí fora. A liberdade dos escritores é vista como “irresponsabilidade”, e cita-se Mussolini a dizer que “os homens estão cansados de liberdade” (p. 20). Ora, Pessoa entra no romance como putativo recebedor do prémio, mais do que putativo premiado: Ferro anuncia-lhe o regulamento como quem lhe faz a encomenda de um livro, navegando a ideia de que um escritor não pode viver de artigos esparsos publicados em revistas.
As descrições são vivas e o leitor dá por si com as personagens. Vê António Ferro “farto do calor” a tentar “folgar o colarinho”; vê Pessoa “dobrado sobre uma folha de papel” a parecer “um funâmbulo a equilibrar-se sobre o aparato da caneta”, com “o cabelo ralo no alto da cabeça, o bigode cada dia mais branco” (p 29). E vê a cabeça de Pessoa e a de Salazar a partir de dentro, este que se apresenta como um homem cansado, a quem o poder faz peso, a quem o poder é um fardo para quem tem a responsabilidade, enquanto elite cultural, de encaminhar as massas ignaras. Na sua voz, vê-se a exaltação da pátria e a ideia de valores culturais, como árvore perene cuja sombra abarca os portugueses todos.
A única quebra no livro existe nos capítulos em que a voz autoral se sobrepõe, ou se torna equivalente, ao enredo ali montado, o que não é só é escusado para o leitor como o tira de um universo que está ali criado ao detalhe. De resto, além de nos dar todo este meio de forma elegantemente construída, sem que se vejam as costuras, Pedro Eiras ainda cria uma prosa limpa, funcional, sem espinhas. Ao longo de dezenas de páginas, nunca lhe foge do teclado a elegância.
A autora escreve de acordo com a antiga ortografia.