Primeiro uma, depois outra, a seguir mais outra. À semelhança de vários outros casos em que basta uma peça cair para se perceber a existência de um efeito dominó com um nexo de causalidade, a posição intocável de Gianni Infantino como presidente da FIFA e todo-poderoso do futebol mundial foi sendo colocada em xeque com uma série de notícias que tinham como propósito promover um autêntico terramoto com epicentro no órgão que tutela as 211 federações-membro da modalidade. A resposta, neste caso de outro todo-poderoso, não demorou. “O Gianni ajudou-nos muito a realizar o melhor Mundial de sempre. O presidente gosta muito dele. Tenho a certeza de que o presidente fará tudo o que for possível para o ajudar, é uma pessoa leal”, disse ao The Telegraph uma fonte da Casa Branca. Questão: será isso suficiente para travar a contestação?
https://observador.pt/especiais/infantino-tinha-um-sonho-e-isso-tornou-se-o-maior-pesadelo-as-96-horas-que-abriram-uma-guerra-nos-bastidores-pela-lideranca-da-fifa/
Pode ajudar, dificilmente será capaz de esvaziar todas as críticas. E, três dias depois do recuo em torno da criação de uma empresa que “privatizasse” parte de provas como o Campeonato do Mundo, num projeto que também ele não demorou mais do que três dias até cair, continuam a surgir réplicas desse abalo inicial. Tanto que, de acordo com a Sky News, Infantino chamou todo o senior FIFA staff para uma reunião em Marrocos esta quarta-feira, por forma a abordar tudo o que se tem passado nos bastidores nos últimos dias.
https://twitter.com/SkyNews/status/2084716027200282945
Uma chega exatamente dos Estados Unidos. De acordo com o The Athletic, as 11 cidades do país que tiveram jogos do Mundial continuam à espera de uma promessa que Infantino terá deixado por cumprir: pagar um bónus extra de um milhão de dólares, cerca de 867 mil euros, para ajudar nos custos que a organização teve ao longo de 40 dias. Três semanas depois, nada. Zero. E com uma informação extra, confidenciada também por fontes ligadas aos vários comités de organização do Campeonato do Mundo – existia ainda a promessa de um pagamento extra pela utilização dos recintos. Três semanas depois, nada. Zero. E entre Los Angeles, Dallas, Houston, Atlanta, Nova Iorque/Nova Jérsia, Filadélfia, Kansas, São Francisco, Seattle, Miami e Boston existe um sentimento crescente de “engano” entre o que se dizia antes e o que se faz depois.
https://twitter.com/martynziegler/status/2084709199125107098
Um exemplo prático avançado pelo The Athletic, neste caso em relação ao dinheiro que foi colocado para que o Kansas recebesse jogos do Mundial: 42,5 milhões de dólares do estado de Missouri, 28 milhões do estado do Kansas, 14,8 milhões da cidade de Kansas e 1,5 milhões de outras fontes públicas, a que se juntam ainda 59,52 milhões de assistência da segurança federal mais 13,3 milhões de verbas federais para transportes. Ou seja, muito mais do que um milhão de dólares prometido, sendo que nem essa parte foi desbloqueada.
Depois, as notícias cada vez mais frequentes sobre a “não cooperação” com a FIFA até que Gianni Infantino se demita do cargo. De acordo com fontes da UEFA, citadas pela BBC Sport, existe uma rebelião que não vê hipóteses nem margem de voltar atrás enquanto o advogado suíço estiver na liderança do órgão, admitindo lutar para boicotar tudo o que venha da FIFA até que Infantino tome a posição. Em resumo, as cartas que foram sendo enviadas por algumas federações europeias que antes apoiavam a sua recandidatura, casos de Inglaterra, País de Gales, Sérvia ou Finlândia, entre outros, são só o início de uma “guerra aberta”.
https://observador.pt/2026/08/01/o-projeto-megalomano-da-fifa-durou-pouco-mais-do-que-a-superliga-europeia-72-horas-depois-infantino-volta-atras/
O jornal As coloca o Mundial de Clubes de 2029 como um dos grandes focos de “dano” às aspirações do atual líder, com Aleksander Çeferin e Nasser Al-Khelaïfi a terem um encontro marcado para os próximos dias em Salzburgo, na Áustria, para discutirem o assunto. O presidente da UEFA já percebeu que será muito difícil convencer o número 1 do PSG a desafiar Infantino nas eleições mas tenta agora seduzir Al-Khelaïfi a “fazer ver” aos mais de 850 membros da Associação Europeia de Clubes (ECA) que é necessária uma mudança no futebol. A par disso, o dirigente qatari tem recebido queixas por parte de alguns clubes que estiveram no Mundial de Clubes de 2025, nos Estados Unidos, e têm prémios e mecanismos de solidariedade em atraso. Ou seja, numa fase em que não existe um acordo entre FIFA e ECA tendo em vista o Mundial de Clubes de 2029 (que não tem sequer país organizador), um boicote europeu à prova poderia causar “mossa”.
https://observador.pt/2026/07/30/mais-replicas-de-um-terramoto-no-futebol-mundial-uefa-boicota-provas-da-fifa-afc-e-concacaf-estao-contra-mudancas/
Em paralelo, o The Guardian avança que as federações-membro da CONCACAF começam também a organizar-se para retirar o apoio à recandidatura de Gianni Infantino, o que ia inclinar ainda mais as contas.
A tudo isso junta-se também um email interno enviado por Mattias Grafstrom, secretário-geral da FIFA e presença habitual nos Estados Unidos durante o Mundial (apenas umas filas atrás de Infantino, de forma mais pormenorizada), a todos os funcionários do órgão que tutela o futebol mundial. A ideia passava por dar uma palavra de “conforto” numa semana particularmente conturbada para a FIFA, na “ressaca” do maior Campeonato do Mundo de sempre ao longo de 40 dias, mas ficou clara a crítica ao “seu” número 1.
“A semana passada foi simultaneamente extraordinária e desgastante para todos os membros do pessoal da FIFA nos nossos escritórios por todo o mundo. É por isso que queria que fossem os primeiros a ouvir esta mensagem da minha parte. Desejo reconhecer e sublinhar o trabalho excecional realizado por cada um de vós, que trabalhou incansavelmente, no local e à distância, para garantir o sucesso do Campeonato do Mundo da FIFA de 2026 no Canadá, no México e nos Estados Unidos. Foi um sucesso retumbante, um evento apreciado por milhares de milhões de pessoas em todo o mundo, unidas por uma paixão comum pelo futebol”, começou por destacar Mattias Grafstrom nessa comunicação feita no início da semana.
https://twitter.com/SkyNews/status/2084571154316935477
“Uma série de eventos lamentáveis e condenáveis – que felizmente terminou com o abandono definitivo do projeto FFE – por mais dececionantes que sejam, não deve ocultar esta realidade. Fomos todos mergulhados num período de turbulência, difícil de compreender e aceitar. Mas, como secretário-geral, peço-vos que se mantenham focados no que sempre nos uniu: servir o futebol e as suas 211 federações-membro, trabalhando lado a lado com todas as partes interessadas, no pleno respeito pelos Estatutos da FIFA e pelos seus regulamentos”, criticou o número 2 da FIFA, visando de forma direta Gianni Infantino.
“Asseguro-vos que, como membros da administração, serão protegidos e preservados do contexto político que atravessamos atualmente. Não têm de se preocupar. Os indivíduos, os períodos de instabilidade e os episódios infelizes passam. A instituição, a sua missão e a sua responsabilidade para com o futebol, essas, permanecem. A minha porta estará sempre aberta e continuarei a apoiar as equipas enquanto o meu trabalho for apreciado por aqueles que servimos”, concluiu Mattias Grafstrom no mesmo email.
https://twitter.com/SkyFootball/status/2084617850770043158
Também Arsène Wenger, outro dos grandes apoios de Infantino, fez uma “demarcação” em relação ao líder da FIFA. “Os recentes acontecimentos na FIFA merecem alguns esclarecimentos da minha parte. Na FIFA, sou o Chefe de Desenvolvimento Global do Futebol. Juntamente com a minha equipa, supervisiono a análise de dados do jogo, o centro de treino online da FIFA, o desenvolvimento da formação de jovens através de 60 academias em 60 países onde são mais necessárias, e as competições juvenis em todo o mundo”, começou por apontar o antigo técnico francês do Arsenal (que passou antes por Nancy, Mónaco e Nagoya).
“Além disso, sou consultor técnico da IFAB. Não estive envolvido neste plano estratégico e tomei conhecimento do projeto apenas através de notícias nos meios de comunicação social. A decisão de retirar o projeto foi absolutamente necessária e indiscutível, porque acredito firmemente numa FIFA independente que sirva o nosso futebol com empenho, transparência e integridade”, acrescentou.