Há 83 dias, o FC Porto recebia o troféu de campeão nacional pela 31.ª vez no início de um dia de grande festa na cidade Invicta, em Vila Nova de Gaia e até no Rio Douro; o Sporting carimbava o acesso direto à Liga dos Campeões; o Benfica ia direto para a Liga Europa, numa cenário que mudou na semana seguinte com mais seis jogos antes da fase de liga da segunda competição continental na sequência da vitória do Torreeense na final da Taça de Portugal; o Sp. Braga achava que ia voltar a jogar a competição em que tinha acabado de chegar às meias mas caiu para a Liga Europa; o Famalicão viu gorado o sonho de fazer a estreia nas provas UEFA; apesar da quinta posição com a melhor pontuação de sempre; e Tondela e AVS viram consumado o regresso à Segunda Liga. Quase três meses depois, o pano do Campeonato Nacional volta a abrir-se para uma 93.ª edição com novidades, mudanças e os candidatos do costume.
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No topo, dragões, leões e águias partem como os principais favoritos à conquista do troféu em maio, ainda que os portistas estejam ligeiramente mais à frente, na pole position, numa altura em que buscam o 32.º título da sua história com um “Porto de Honra” a acompanhar. Por outro lado, o vice-campeão da época passada procura conquistar o Campeonato pela 22.ª vez num ano de transição com muitas caras novas a surgirem no plantel comandado por Rui Borges. Quem também partiu para 2026/27 com uma nova cara foram os encarnados, mas no banco de suplentes, já que Marco Silva é o timoneiro de serviço no lugar de José Mourinho na tentativa de levar o universo benfiquista ao 39.º título. Numa espécie de segunda linha surge o Sp. Braga que, com Carlos Vicens, se mostrou ao melhor nível essencialmente fora de fronteiras. Falta dar um passo em frente em termos internos. De volta à Primeira Liga estão Marítimo (campeão da Segunda Liga) e Ac. Viseu, depois de o Casa Pia se ter imposto no playoff frente ao Torreense.
Em jeito de lançamento do Campeonato que arranca esta sexta-feira com o Estoril-Famalicão (20h15), o Observador esteve à conversa com os comentadores e adeptos do programa E o Campeão é, da Rádio Observador, que consideram o FC Porto o principal candidato por conta do título conquistado no ano passado e da manutenção dos principais nomes do plantel, mas alertam para um Sporting que, a meio da renovação, promete praticar um bom futebol. A maior incógnita é o Benfica de Marco Silva, que ainda tem o plantel longe de estar fechado. Por outro lado, a dois anos da entrada em cena da centralização dos direitos audiovisuais, os comentadores alertam para os desafios que se colocam na valorização do futebol português enquanto produto.
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“Muitas dúvidas” na arbitragem, momento pouco positivo e os problemas que se arrastam no futebol português
A nova época da Primeira Liga arranca com um ambiente de incerteza na arbitragem portuguesa – e Pedro Henriques, antigo árbitro internacional, não esconde as reticências no atual cenário. “Estou com muitas dúvidas em relação a esta época”, admite, num contexto marcado por dois casos internos graves: a demissão de Duarte Gomes, diretor técnico nacional, por perda de confiança do presidente Luciano Gonçalves, em resultado de indícios de fuga de informação agora nas mãos da Polícia Judiciária; e os polémicos áudios de Pedro Proença. Pedro Henriques não avança para uma corroboração ou para a discórdia, mas reconhece que “é essa a perceção que o mundo do futebol tem”. E para ajudar a essa perceção, a época começou com uma arbitragem “que não foi positiva”, no jogo da Supertaça, entre o FC Porto e o Torreense.
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A isto somam-se críticas estruturais que se arrastam há anos: “Os relvados e a qualidade dos relvados, o preço dos bilhetes e, acima de tudo, esta questão dos horários. Ter jogos ao domingo às 20h30 ou à segunda-feira à noite afasta os adeptos”. O mesmo assunto requer o levantamento de algumas questões para o início desta Liga, que Gabriel Alves considera preponderantes: “Que estádios temos a nível global? Não estou a falar do Estádio da Luz, do Estádio do Dragão, do Estádio José Alvalade, do Municipal de Braga ou do D. Afonso Henriques. Estou a perguntar, a nível global, como é que os estádios estão e como é que se apresentam, não só para que as transmissões televisivas tenham capacidade de poder mostrar o jogo de forma inerente àquilo que o jogo é. Que relvados vamos ter? As associações estão atentas a isto – não é uma questão apenas da Liga e da Federação. E os clubes?”.
O tema é igualmente abordado por Augusto Inácio, que também recordou a Supertaça: “Gostava de ver muitas melhorias para esta época e menos polémicas, multas e queixas no Conselho de Disciplina, mas isto já começou muito mal. O relvado [do Cidade de Coimbra] era uma grande miséria. Nunca se poderia fazer uma final num relvado daqueles. O Bednarek lesionou-se e não houve mais lesões porque Deus estava com eles”. Para o antigo jogador e treinador, a responsabilidade é clara: “A Federação teve muita culpa no que aconteceu em Coimbra. Enquanto as coisas não forem ditas com transparência, haverá sempre desconfiança em cada jogo, com muitas lamentações e poucos elogios”.
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Pedro Henriques aponta ainda para um sintoma de falta de organização e antecipação, além do relvado do Cidade de Coimbra: “A 48 horas de começar a Liga não há o livro das leis de jogo em português”. Também sobre a arbitragem, Gabriel Alves é taxativo, deixando sobre os clubes uma quota de responsabilidade para o que aí vem: “Estou à espera que haja um plano na arbitragem, em que não haja nenhum dos grandes, médios ou pequenos a fazer lamúrias durante o ano, a dizerem que perderam ou que caíram por causa do árbitro. Espero que haja uma estrutura na arbitragem capaz de dar resposta a tudo aquilo que é necessário para que haja uma Liga devidamente consistente, verdadeira, de resultados objetivos, concretos e pragmáticos. Já é tempo de ter esse assunto devidamente tratado. Naquilo que é o trabalho das arbitragens, é muito necessário que estejam à altura das necessidades de uma Liga que pretende ter caráter internacional”.
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Apesar do cenário mais instável, a linha da frente da arbitragem para a época 2026/2027 em Portugal não sofreu grandes alterações. São nove os árbitros com insígnias FIFA: João Pinheiro, Luís Godinho, Fábio Veríssimo, António Nobre, David Silva, Miguel Nogueira, Cláudio Pereira, Gustavo Correia e João Gonçalves. É sobre este grupo que poderá recair a total responsabilidade dos jogos mais exigentes da época. “Os jogos entre Benfica, FC Porto e Sporting – aqueles jogos mais quentinhos e com maior grau de risco – deverão recair praticamente sobre estes nove internacionais“, sublinha Pedro Henriques. No topo da hierarquia, o nome que mais se destaca continua a ser o de João Pinheiro, que regressa de um Mundial onde representou Portugal com distinção, e de quem se espera que “dê continuidade” ao sucesso alcançado na Champions e no torneio disputado nos EUA, México e Canadá. Logo a seguir surge Luís Godinho, apontado como “o que está mais próximo de ascender a este top class que existe em termos internacionais”.
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Para além desta dupla de topo, o antigo árbitro aponta João Gonçalves como aquele que tem maior margem de crescimento – “já se começa a afirmar e este ano ficou em segundo lugar” na classificação interna. Fábio Veríssimo, pela experiência acumulada, surge também como referência, a par de António Nobre, David Silva, Miguel Nogueira e Cláudio Pereira. Como boas surpresas da época passada que podem agora dar um passo em frente, o comentador destaca José Bessa e Miguel Fonseca, que, “por essa boa classificação, possam aparecer como nomes mais próximos” dos grandes palcos.
O problema Gabri Veiga e Mora, a “exigência” Champions e o “forte candidato” FC Porto
O FC Porto de Francesco Farioli começou esta temporada oficial da mesma forma que acabou a última: a vencer. Os dragões tornaram-se o clube mais titulado no futebol nacional depois de vencerem o Torreense no primeiro dia de agosto e conquistarem a sua 25.ª Supertaça (1-0). Com este troféu, os azuis e brancos passam a somar 88 títulos, mais um do que o Benfica. E para operar esta mudança, Farioli pouco ou nada mexeu: dos habituais titulares, ninguém saiu. No plano das mudanças de relativo destaque, houve duas entradas: o médio Hwang In-beom e o avançado André Silva. É, por isso, um FC Porto que, até ao momento, em termos práticos, nunca subtraiu e só adicionou.
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“Manteve o plantel e o treinador, e parte com alguma vantagem. Não quero ver aquele FC Porto de meio da época, que foi titubeante, quebrou fisicamente e perdeu imaginação e criatividade. Quero o FC Porto do início e do fim da época passada. O arranque foi fortíssimo. O FC Porto era forte fisicamente e surpreendeu os adversários. A ideia de jogo de Farioli assenta muito nisso: na pressão, nos duelos e numa equipa que tem de estar bem fisicamente. A vantagem que o FC Porto ganhou no início do Campeonato foi fundamental. A dupla de centrais vai voltar a ser preponderante. [Jan] Bednarek e [Jakub] Kiwior são os pêndulos da equipa, com Diogo Costa na baliza. O FC Porto assenta muito na capacidade de defender bem. Aposto no Hwang, que pode ser um jogador muito importante. Não vai demorar muito a conquistar a titularidade. É um jogador que tem a intensidade e a rotação que o Farioli gosta. Com bola tem uma capacidade diferente dos médios que o FC Porto já tinha, com mais critério, movimentações diferentes”, explicou Luís Pinto Coelho.
“Gostava que o FC Porto ainda fizesse umas movimentações no mercado: um defesa-esquerdo, um extremo e um ponta de lança. Acredito que o plantel sirva para o Campeonato, mas para dar um salto qualitativo precisa de reforçar estas três posições. Champions? A exigência é grande e o FC Porto terá como objetivo passar a fase de liga. É uma exigência diferente porque os adversários são de outro nível e os jogos a seguir à Liga dos Campeões são sempre perigosos. A profundidade do plantel é preponderante. Rodrigo Mora é um jogador querido pela esmagadora maioria dos adeptos, mas não encaixa na perfeição na ideia de jogo de Farioli. Para render, o FC Porto teria de inverter o triângulo do meio-campo. Se chegasse uma boa proposta, parece-me que seria vendido em detrimento de Diogo Costa ou Froholdt. É um 10 típico que tem dificuldade neste futebol moderno. Vai ter pouco espaço”, completou o adepto portista.
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Na mesma ótica, Gabriel Alves considera que Victor Froholdt “é metade da globalidade” dos dragões, apresentando-se como um “jogador fundamental na dinâmica da ‘sala das máquinas’ de Farioli”. “Ao FC Porto falta um virtuoso, um criativo e um jogador imaginativo que construa. Há muitas equipas na Europa em que se destaca este e aquele jogador, seja pela sua capacidade no um para um, na qualidade do passe, na qualidade da desmarcação ou no associativismo. No FC Porto é tudo muito mecânico e físico. Há o Mora, mas tem dificuldade em entrar neste esquema. Há o Gabri Veiga, mas não chega. Ficou amarrado à dinâmica da equipa. Continua a faltar o tal jogador que, de alguma maneira, era o Samu. Samu e André Silva não têm nada a ver um com o outro. O André, independentemente de ser matador, é um jogador muito associativo, sabe ocupar espaços e jogar sem bola. Tem uma tipologia muito próxima do que o Harry Kane faz. O André Silva poderá ser fundamental para armar situações”, afirmou.
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Por sua vez, João Pinto destacou a capacidade “extraordinária” dos azuis e brancos “na bola parada e no ataque posicional”, ao passo que, em sentido inverso, João Castro considerou que “o processo ofensivo do FC Porto não é o mais exuberante, mas com uma defesa bem organizada como a que apresentou no ano passado, continua a ser um forte candidato”. Para Augusto Inácio, que corroborou as ideias anteriores sobre Mora e Veiga, explicou que “falta criatividade” aos dragões, mas garantiu que a intensidade competitiva “não vai mudar”. “Em termos de estabilidade, o FC Porto parece estar melhor. A matriz continua igual: lutar muito, correr muito, trabalhar muito, defender muito bem, pressionar e reagir rápido à perda. Penso que o FC Porto precisava de ser mais criativo, porque o ano passado ganhou muitos jogos na base da garra, da determinação e do ‘ADN Porto’, mas também houve jogos em que a estrelinha esteve do seu lado”, completou.

Leão procura superar a falha “nos momentos grandes” com uma equipa “regenerada”
Quis o destino que uma das melhores prestações de sempre do Sporting na Liga dos Campeões fosse alcançada num ano que terminou sem qualquer troféu conquistado, ainda que os leões tenham terminado o Campeonato no segundo lugar e estado na decisão da Taça de Portugal e da Supertaça. Apesar da época mais ou menos bem conseguida, os leões optaram por renovar-se nas últimas semanas e perderam Morten Hjulmand, Francisco Trincão e Hidemasa Morita, nomes que foram importantes nos últimos anos, sendo que Pedro Gonçalves e Ousmane Diomande também estão na calha para sair. Em sentido inverso, Rodrigo Zalazar, Ibrahima Ba, Issa Doumbia, Sergi Altimira, Silas Andersen, Pedro Lima e Jesse Derry chegaram a Alvalade. Se Rui Borges se mantém como o timoneiro de serviço, há uma mudança na capitania, com Gonçalo Inácio a envergar a braçadeira dentro de campo.
Em relação ao ano passado, não quero o Sporting a perder os jogos grandes. Neste Campeonato isso pode ser decisivo. São pontos que, na prática, valem a dobrar. Não quero o Sporting que, nos momentos grandes e de decisão, falha. Do ano passado quero o Sporting que praticava o melhor futebol em Portugal, que amassava muitas equipas mais pequenas. Isso acontecia muito contra blocos baixos, que o Sporting desmontava com relativa facilidade devido às dinâmicas do seu ataque posicional. No Sporting ainda se levanta a questão do corredor esquerdo. Para a frente fala-se no [Nestory] Irankunda, mas ainda não está fechado. Mais atrás gostava de ver a chegada de um suplente do Maxi [Araújo], para que a sua gestão física não seja um problema”, começou por dizer João Castro.
“À partida, o Sporting fez um melhor mercado, pela forma inteligente e esclarecida com que renovou o plantel, como baixou o teto salarial e como projeta a equipa em termos de curto, médio e longo prazo. Há um bom trabalho a observar por parte da estrutura do Sporting. Fala-se que consegue 200 milhões de ativos em termos de vendas, baixa o teto salarial e vai buscar bons jogadores. São jogadores que, pela mão do treinador, da estrutura e de tudo aquilo que é o complexo de um grande clube desportivo, mostram que têm consistência, que têm capacidade. Dão a quem gosta de futebol, e essencialmente aos seus adeptos, aquilo que é a fantasia e a utopia. Há uma renovação. Há ciclos normais no futebol, como há na vida. É preciso que este novo ciclo seja devidamente construído com cabeça, tronco e membros e com consistência”, analisou Gabriel Alves.
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“É verdade que os jogos particulares valem o que valem, mas deu uma ideia positiva de que a equipa parece que está mais envolvida, mais solta, mais criativa. Havia tanta gente nova que às vezes demora muito tempo a ter esses mecanismos. Diria que o Sporting é uma expectativa. O presidente disse que acabou o ciclo de uns e vai começar o de outros, só que eu não entendo o que é o ciclo. O Trincão, com 26 anos, fez os jogos todos, foi o melhor jogador em campo, foi vendido e acabou o ciclo dele? Não, porque ele tinha ambição da cabeça aos pés. É mais tempo de negócio do que outra coisa. Se tivesse um jogador com sete, oito ou nove anos de casa de saída, isso sim seria um ciclo. O Quenda também foi transferido com 17 anos e não terminou nenhum ciclo. Diria que o Sporting tem muita coisa nova: meio-campo, um ala esquerdo que vamos ver quem vai ser e, na ala direita, o Geny Catamo, que é um excelente jogador”, refletiu Augusto Inácio.
Por fim, Luís Pinto Coelho considerou que os leões vão “ter problemas ao longo da época”, apesar de se terem reforçado “bem”. “Mudar tanto um plantel e deixar de ter as principais referências do clube pode tremer a equipa. Conto com um Sporting a quebrar a meio da época”, reforçou o comentador. Já João Pinto assumiu que vai ser o Sporting a “marcar o passo, ao contrário do que fez o FC Porto”. “Vejo uma capacidade muito boa de regenerar a equipa, ganhar ambição e de estar com miúdos e com uma equipa renovada. Só um calendário de Liga dos Campeões muito exigente é que vai fazer com que o Sporting perca essa cadência”, sentenciou.

Águia capaz de “sacrificar pontos em nome do ataque” com o “bando de individualidades”
O Benfica terminou a última época no terceiro lugar, o que impossibilitou uma presença na Liga dos Campeões. Os encarnados não mudaram tanto quanto o Sporting a nível de plantel, mas mexeram-se mais no mercado do que o campeão nacional. A principal mudança foi no comando técnico: José Mourinho saiu para o Real Madrid e Marco Silva chegou à Luz para substituí-lo. Depois da chegada do novo treinador, foram anunciadas quatro chegadas ao plantel: John Durán, Clement Lenglet, Gabriel Índio e Jakub Kaminski. Essas não foram as únicas mudanças no plantel encarnado: até ao início de agosto, saíram Nico Otamendi – logo no final da última época –, António Silva, e Tiago Gouveia, Bruma e Dodi Lukebakio parecem estar fora dos planos de Marco Silva. Os encarnados foram os primeiros dos três grandes a entrar em campo a nível oficial, com a presença nas pré-eliminatórias da Liga Europa.
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João Pinto, adepto benfiquista, não hesita em apontar o Benfica como favorito ao título – mas com um argumento que vai além do plantel. “O Benfica tem mais condições porque a exigência da Liga dos Campeões mastiga muito, leva muita energia, provoca muitas lesões e muito desgaste. A rotina da Liga Europa obriga a menos. Tem um plantel equilibrado, tal como o FC Porto o ano passado, e tem mais condições para rodar a equipa, manter-se fresco e ter a máquina oleada”, diz.
As fragilidades, porém, existem – e João Pinto identifica-as sem rodeios. “Para o mal, o Trubin e o Lenglet. São dois jogadores que não têm substitutos no plantel e são duas posições muito específicas. Se o Lenglet falhar será um problema porque é um jogador feito que foi contratado para substituir o Otamendi. O Trubin é mais na perspetiva da baliza – os clubes grandes precisam de grandes guarda-redes para serem campeões. O Trubin não tem falhado nos momentos decisivos, mas uma má época tira muitos pontos ao Benfica”. Gabriel Alves vai mais longe na avaliação ao central francês: “O Lenglet é um bom central, mas se fosse um grande central não estaria aqui, não teria saído do Atlético de Madrid ou do Barcelona. Não é aquilo que o Benfica pretende naquilo em que está enquadrado e na exigência que almeja”.
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A questão do meio-campo é outro ponto de debate. Augusto Inácio recorda que “Richard Ríos e Barrenechea não deram aquilo que se esperava em termos de clarividência, criatividade e intensidade”, enquanto Gabriel Alves é ainda mais direto: “No meio-campo percebe-se que lhe falta um patrão. A ‘casa das máquinas’ é fundamental hoje no futebol. Vamos ver se o Palhinha vem ou não. Parece que ele quer mesmo vir e regressar a Portugal e o Benfica tem dimensão para ele. Mas Palhinha não vem trazer rendimento financeiro – por muito que baixe o ordenado, vai ser sempre um jogador caro. É preciso que o rendimento desportivo projete capacidade económica para fazer face ao que vai despender, porque senão pode ser um buraco”, alertou.
No ataque, João Pinto vê mais argumentos do que dúvidas. “Os artistas como Schjelderup, Rafa e, agora, Kaminski. O Benfica tem ainda Lukebakio e Prestianni – não está mal servido, tem é de meter os artistas a servir a equipa. O Durán é um elemento de força física que o Benfica precisava, embora falte um ‘9’ com jogo aéreo, como espero que o Anísio venha a ser”. O aparecimento tardio de Schjelderup na época passada é visto por Augusto Inácio como um sinal de esperança: “Só precisava de oportunidades e confiança. Dois golos ao Real Madrid e o treinador barrou a sua transferência”.
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Gabriel Alves é entusiasta quanto ao regresso de Marco Silva a Portugal: “Espero muito do Marco Silva porque é um excelente treinador. Fala de forma objetiva, concreta e direta. Aprendeu depois de ter estado no futebol português, foi para fora e aquilo que fez é elucidativo”. João Castro, adepto do Sporting, reconhece as qualidades do técnico mas mantém reservas: “É um bom treinador, que lê bem o jogo e que não põe ‘paninhos quentes’ nos erros que a sua equipa comete – vê o mesmo jogo que toda a gente viu. Mas o Benfica continua a ser mais um ‘bando de individualidades’ do que efetivamente uma equipa”. Luís Pinto Coelho, adepto do FC Porto, assume que o Benfica ainda vai a tempo: “Está a começar muito titubeante, mas Marco Silva, com o tempo, vai criar uma equipa bastante competitiva. Conto com um Benfica forte mais para a frente”.
Augusto Inácio aponta o dedo à gestão dos últimos anos, mas vê sinais de mudança. “O Benfica gastou muito há dois anos e no ano passado e as coisas não correram bem. Parece que agora há um critério diferente, até porque o Benfica não tem muito dinheiro para gastar, mas o que gastar tem de acertar”. O diagnóstico sobre a identidade de jogo é também claro: “O Benfica ainda anda à procura do seu estilo. As coisas foram sempre aos solavancos. Quando o Benfica acertar com o seu estilo, esse pode ser o princípio. Parece-me uma equipa mais unida, mais junta, mais dinâmica e intensa. Se o Benfica continuar neste registo, pode fazer uma grande equipa”.
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É precisamente esse estilo que João Pinto exige, sem margem para ambiguidade: “Não quero um Benfica que não arrisque, que não se exponha. Quero um Benfica muito arrojado e que jogue sempre para ganhar. Estou disposto a sacrificar pontos em nome de um Benfica ofensivo, com os olhos na baliza, que arrisca e que fisicamente seja muito capaz”. A lição da época anterior, porém, não deve ser esquecida: “O que o Benfica fazia defensivamente foi bem feito. Espero que se mantenha a capacidade de fechar e de ser humilde, com capacidade de entreajuda”. E a equação para o título, na sua perspetiva, é simples: “O Benfica só joga 12 pontos contra Sporting e FC Porto. É fundamental ganhar os outros pontos todos”.

Liga vive “ano especial”, em que “a décalage entre os grandes e os pequenos tem de encurtar”
O Sp. Braga perdeu dois dos seus melhores jogadores no mercado de verão – Zalazar e Lukas Hornícek –, mas a maioria dos analistas não o vê em colapso. Gabriel Alves é um dos que mantém a confiança na estrutura arsenalista: “Tem uma boa administração em termos de estrutura financeira e de rendimento, tem um bom PIB. Está a construir uma excelente cidade desportiva e tem feito investimentos muito importantes na sua empresa. Mais tarde ou mais cedo virá o benefício e o rendimento desportivo será ainda mais rentável”. Pedro Henriques aponta o contexto desta época como um incentivo extra ao risco: “Este é um ano especial, porque os três primeiros classificados podem ir à Champions. É o ano para arriscar financeiramente, porque a probabilidade de lá chegar é grande, mesmo com pré-eliminatórias”. Mas Augusto Inácio levanta a questão central: “Vamos ver que Sp. Braga vamos ter – se vai lutar com os três grandes ou ser o maior de todos os outros, no quarto lugar”.
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O V. Guimarães é o eterno candidato a surpreender que raramente o faz. Augusto Inácio é dos mais críticos: “É aquele clube que toda a gente espera que se intrometa, mas que está muito longe do que são os pergaminhos do clube. Já foi considerado o quarto grande, mas foi ultrapassado pelo Sp. Braga. Olhando para o plantel, e sem pôr em causa o excelente treinador [Tiago Margarido], a massa adepta do V. Guimarães é muito exigente. Ao menor descuido, vão levar com a bancada abaixo. Não me parece que o V. Guimarães lute pelo quinto lugar”. Gabriel Alves é mais generoso, destacando o crescimento da base de adeptos como um ativo real: “Tem vindo a crescer bem em termos de massa associativa. É muito importante criar este status forte com o povo à volta”.
Gabriel Alves alarga o elogio à região minhota: “A AF Braga tem feito um trabalho excelente, colocando os clubes principais nos dez primeiros, incluindo o Famalicão, o Gil Vicente e o Moreirense, todos com excelentes indicadores”. Mas a sustentabilidade desse trabalho está sempre ameaçada pelas saídas: o Famalicão perdeu Gustavo Sá, Ibrahima Ba, Rafa Soares e Justin de Haas; o Gil Vicente ficou sem César Peixoto no banco. Já o Moreirense é visto por Inácio com alguma preocupação: “Acho que o Vasco Botelho da Costa fez um excelente trabalho, mas este ano as coisas já não estão tão bem, porque saem sempre jogadores importantes”. O Marítimo é, para Inácio, o caso mais delicado: “Está muito abaixo, não construiu um plantel à medida e Van der Gaag vai ter um trabalho muito complicado para manter o Marítimo na Primeira Liga“. Do lado das possíveis surpresas, aponta Alverca, Estoril e Arouca como os candidatos mais prováveis a baralhar as contas.
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A questão estrutural está, no entanto, noutro plano. Gabriel Alves resume-a sem rodeios: “A décalage entre os grandes e os pequenos tem de encurtar. O Campeonato tem de ter mais competitividade entre os pequenos e os maiores para haver enriquecimento. Não chega ter Benfica, FC Porto e Sporting para vender lá para fora. A centralização dos direitos é um meio, mas não é o fim. É tudo muito bonito, mas quem paga os direitos olha para as Supertaças feitas em campos do ‘quarto mundo’. O próprio futebol é prejudicado. É preciso arbitragens, estádios e estratégia. Não podemos ter clubes que servem de estufa para negócios e pouco mais”.