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Maryam Touzani: "Quis celebrar os corpos envelhecidos, praticamente invisíveis no cinema"

Para a cineasta marroquina, “Calle Málaga” é um belo encontro (com Carmen Maura) e um filme profundamente íntimo, inspirado na morte da mãe, na memória da avó espanhola e em Tânger, onde nasceu.

Francisco Ferreira
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Poucos dias antes do encontro com Carmen Maura em Marraquexe 2025, foi no Cairo, noutro festival importante da esfera MENA (Médio Oriente e Norte da África), que conversámos com Maryam Touzani, cineasta e actriz conhecida entre nós desde a estreia da sua obra anterior, O Azul do Cafetã (2022). Maryam já esteve em Portugal mais do que uma vez, a convite do Leffest, para promover filmes seus ou a acompanhar o marido, o também cineasta Nabil Ayouch. O casal marroquino tem uma relação de trabalho muito fértil, quando um realiza, o outro produz, partilhando também com frequência a assinatura dos guiões que um e outro realizam. Maryam já foi igualmente actriz num filme de Nabil (Razzia) e prepara-se para repetir a experiência em Run, With No Tears, ao lado de Noomi Rapace. No Egipto, a passagem de Calle Málaga foi um triunfo.

A personagem de Maria Ángeles nasceu antes de pensar em Carmen Maura ou foi escrita para ela?
Não. Quando escrevi o argumento ainda não sabia quem iria interpretar a personagem. Acontece que a Carmen, uma das actrizes que decidimos contactar em primeiro lugar, apaixonou-se imediatamente pela Maria Ángeles quando leu o texto. Depois falámos ao telefone e fui visitá-la a Madrid. Quando a conheci pessoalmente percebi que era exatamente a mulher que tinha imaginado.

Porquê?
Pela sua vitalidade extraordinária, por aquela alegria transbordante, pela enorme profundidade humana. Apaixonou-se pela personagem… e eu por ela. Aquilo que mais me impressionou na Carmen foi o olhar. Senti que, dentro dele, coexistiam todas as idades da sua vida: a criança, a jovem, a mulher madura. Muitas vezes vamos apagando essas versões de nós próprios à medida que envelhecemos. Nela, continuam todas presentes. Ainda lá está a Carmen menina. Era exatamente isso que eu procurava para Maria Ángeles.

Tânger ocupa um lugar absolutamente central no filme — é uma das suas personagens, passe o cliché.
Calle Málaga é uma verdadeira carta de amor a Tânger. Nasci lá, cresci lá, vivi praticamente toda a minha vida naquela cidade. Só saí para estudar e mais tarde, quando conheci o Nabil, fui viver para Casablanca. Tenho uma ligação absolutamente visceral à cidade. Mas Tânger é também a terra dos meus pais. Depois da morte da minha mãe, voltar lá parecia impossível. Durante toda a vida, ir a Tânger significava ir ter com ela. E, de repente, essa ligação desapareceu. Sem me dar conta, escrever este filme obrigou-me a enfrentar essa ausência. Foi uma forma de reaprender a amar a cidade sem a presença da minha mãe. Os lugares felizes tornam-se, muitas vezes, dolorosos quando deixam de existir as pessoas com quem os associávamos. O filme permitiu-me reconciliar-me com essas memórias.

A própria Calle Málaga existe realmente?
Existe, embora hoje seja muito diferente. Era a rua onde ficava o apartamento da minha avó, onde a minha mãe cresceu. Depois da morte dela fui lá várias vezes, quase como se procurasse aproximar-me de uma parte da sua vida que eu própria nunca tinha conhecido. Aliás, durante algum tempo pensei filmar precisamente naquele apartamento, mas entretanto a malha urbana envolvente mudou por completo. Já não correspondia ao espaço que existia nas minhas recordações nem nas histórias que sempre ouvi contar. Ainda assim, quis prestar-lhe homenagem. No filme, vemos a placa da Calle Málaga escrita em árabe, espanhol e francês. Acabámos por filmar noutra rua, a Rue d’Italie, que conserva melhor essa mistura entre passado e presente, tradição e modernidade, culturas diferentes que sempre definiram Tânger.

Essa herança espanhola também faz parte da sua própria identidade?
Completamente. A minha avó era espanhola, andaluza. Chegou muito jovem a Marrocos durante o Protetorado Espanhol. Casou primeiro com um espanhol, depois com um marroquino — e daqui nasceu a minha mãe. Cresci numa casa onde se falava espanhol diariamente. É uma língua profundamente ligada à minha infância e às mulheres da minha família. Ao mesmo tempo, quis mostrar uma realidade pouco conhecida: a comunidade espanhola que durante décadas viveu em Tânger e ajudou a construir a identidade muito particular da cidade. Muitas dessas pessoas permaneceram toda a vida em Marrocos. Sentiam-se espanholas e marroquinas ao mesmo tempo. Não queriam deixar de ser uma coisa nem outra. Essa identidade múltipla interessava-me muito.

O filme também retrata uma cidade muito diferente da imagem exótica tantas vezes associada a Tânger.
É verdade que Tânger foi, durante décadas, uma cidade internacional, um lugar de liberdade onde conviviam artistas, escritores, comerciantes, espiões, pessoas vindas de todo o mundo. Muita dessa memória continua presente. Mas aquilo que mais me emociona continua a ser a dimensão humana da cidade. A relação com os vizinhos, com os comerciantes, com as pessoas da rua. Existe uma proximidade que vamos perdendo nas grandes cidades contemporâneas. Era isso que eu queria transmitir através de Maria Ángeles: compreender porque é que alguém pode amar tão profundamente um lugar, mesmo quando toda a gente à sua volta considera que ela deveria partir.

A escrita do filme parece-me muito intuitiva, como se fosse guiada pelas personagens, moldando-se à interpretação dos actores. Como decorreu esse processo?
Escrevo sempre por necessidade, nunca por cálculo. Não começo um filme a pensar numa estrutura ou numa mensagem. Sento-me e escrevo, deixando-me conduzir pelas personagens, de facto. Na verdade, raramente sei para onde elas me vão levar. Durante a escrita de Calle Málaga, adormecia todas as noites com Maria Ángeles. Acompanhava-a mentalmente nas suas caminhadas, nos encontros, nas conversas, e limitava-me a segui-la. É um processo muito instintivo. Só mais tarde compreendi verdadeiramente porque é que determinadas personagens surgiram ou tomaram certas decisões. Há qualquer coisa de profundamente libertador na escrita. Antes de qualquer racionalização, preciso de escrever. É quase como respirar. Há coisas que saem de mim sem que eu as compreenda naquele momento. Só mais tarde lhes descubro o significado.

Partilha ao mesmo tempo esse trabalho com o seu marido, Nabil Ayouch. Habituaram-se a trabalhar em simultâneo nos filmes um do outro, na escrita ou na produção [Nabil aparece, de facto, creditado no genérico do filme como produtor e co-argumentista]. Como funciona essa colaboração?
Temos a enorme sorte de podermos acompanhar o trabalho um do outro, é verdade. Escrevemos sozinhos, mas nunca estamos verdadeiramente sós. Quando termino uma primeira versão, conversamos muito. O Nabil lê, faz perguntas, desafia-me, provoca-me, dá-me o seu olhar. Eu faço exactamente o mesmo com os projectos dele, sou a sua primeira crítica [Maryam, de resto, estudou jornalismo em Londres e foi crítica de cinema no início do seu percurso]. Existe uma enorme confiança e um profundo respeito pela liberdade criativa de cada um. Neste caso, foi ainda mais especial. O Nabil conheceu muito bem a minha mãe, sabia o que esta história representava para mim e percebeu imediatamente que eu precisava de fazer este filme. Enquanto companheiro e produtor, deu-me toda a liberdade possível.

A relação entre Maria Ángeles e a filha Clara é um dos grandes motores emocionais do filme. E causa tristeza a aflição de Clara que, por motivos financeiros, vai perder um pouco a noção da realidade e de si própria. O filme é também uma reflexão sobre a maternidade?
Existe uma ideia muito enraizada nas nossas sociedades de que uma mãe deve sacrificar permanentemente a sua própria vida pelos filhos. Eu quis questionar essa expectativa. No início do filme, Maria Ángeles aceita vender o apartamento para ajudar a filha. Faz esse gesto por amor, embora lhe custe profundamente. Clara, por sua vez, encara esse sacrifício como algo natural. Está tão absorvida pelos seus próprios problemas — um divórcio difícil, os filhos, o trabalho, as dificuldades financeiras — que deixou de conseguir ver a mãe como uma mulher com desejos, necessidades e uma vida própria. Na verdade, Clara já não conhece verdadeiramente a mãe. Vive desligada da realidade dela e, de certa forma, também perdeu o contacto consigo própria. A vida pode tornar-se uma sucessão de urgências que nos coloca permanentemente em modo de sobrevivência. E, nesse processo, esquecemo-nos das coisas mais simples, mas também das mais essenciais para sermos felizes.

Maria Ángeles acaba por desafiar muitas das expectativas que a sociedade coloca sobre uma mulher da sua idade.
Era precisamente isso que me interessava. Vivemos rodeados de preconceitos sobre a velhice. Espera-se que, a determinada altura, uma pessoa deixe simplesmente de desejar, de sonhar, de amar ou de descobrir coisas novas. Sempre achei isso profundamente injusto. Desde pequena, passei muito tempo com pessoas idosas. Sempre senti um enorme respeito por elas. Nunca vi a velhice como uma decadência, mas como uma etapa cheia de riqueza, memória e humanidade. Porque a velhice não é o fim da vida, não pode ser só isso, é uma celebração de tudo o que vivemos. Acho que as nossas sociedades têm medo da morte e, por consequência, têm medo da velhice. Procuram escondê-la, afastá-la do olhar público. E o cinema também contribuiu muitas vezes para isso. Ora, eu quis fazer exatamente o contrário.

O filme celebra a velhice em vez de a esconder, de facto.
Porque envelhecer é um privilégio. Chegar aos oitenta ou noventa anos é uma vitória da vida. Cada ruga representa uma história vivida. Cada marca no corpo é o testemunho de uma existência. Quis celebrar os corpos envelhecidos, sobretudo os corpos das mulheres, que continuam praticamente invisíveis no cinema. Existe uma ideia muito limitada sobre aquilo que merece ser mostrado como belo. A beleza também está na experiência acumulada. Por isso quis aproximar tanto a câmara da Carmen, mostrar a textura da pele, as rugas, os gestos, sem maquilhagens nem artifícios, sempre com delicadeza. Com a minha diretora de fotografia, Virginie Surdej, procurámos encontrar a distância certa para filmar esses rostos sem nunca sermos intrusivos.

Há também uma dimensão muito sensual neste filme, aliás frequente na sua filmografia.
Agradeço que toque nesse assunto, pois já dei entrevistas que o evitam, ou que se esqueceram dele, e isso deixou-me amargurada. A sensualidade é absolutamente essencial. Quis devolver àquela mulher algo que a sociedade lhe tenta retirar: o direito ao prazer. Existe um enorme tabu em torno da sexualidade das pessoas idosas, sobretudo das mulheres. Como se, a partir de certa idade, deixassem de desejar ou de ser desejáveis. Isso entristece-me profundamente. Maria Ángeles redescobre a sensualidade, o desejo e o prazer numa fase da vida em que muitos consideram que tudo isso já não deveria existir. Essa descoberta é simultaneamente bela e perfeitamente natural. Celebrar a vida implica também celebrar o amor, o corpo e a sexualidade. Ela continua viva. Continua capaz de amar. Continua capaz de sentir prazer.

Outro lugar importante no filme é o cemitério, onde repousam o marido de Maria Ángeles, as amigas e, simbolicamente, toda uma comunidade desaparecida.
Gosto muito de cemitérios. Pode parecer estranho, mas sempre os achei lugares profundamente tranquilos. Para mim, não são apenas espaços associados à morte; são também lugares de memória e de continuidade. O cemitério é igualmente um lugar de vida. Muitas vezes vemos ervas daninhas nascerem entre as sepulturas destruídas. A natureza está sempre a lembrar-nos que a vida e a morte coexistem e fazem parte do mesmo ciclo. O cemitério do filme é o cemitério cristão de Tânger, onde a minha avó está sepultada. É um lugar que me emociona muito. As campas abandonadas contam uma parte da história da cidade. Falam da comunidade espanhola que viveu em Tânger durante décadas e que foi desaparecendo com o passar das gerações. Os filhos partiram, as famílias dispersaram-se e muitas sepulturas deixaram de receber visitas. Maria Ángeles continua a ir lá porque acredita que manter viva a memória também é uma forma de amar. Vai visitar o marido, as amigas, mas também pessoas que nunca conheceu. Ela está em paz com a morte.

O autor escreve segundo a antiga ortografia