Carmen Maura é a mesma mulher que conhecemos dos ecrãs: directa, espirituosa, determinada e sem qualquer filtro. O seu percurso confunde-se com a filmografia de Pedro Almodóvar, que a trouxe para a ribalta desde a sua longa-metragem de estreia [Pepi, Luci, Bom y otras chicas del montón, 1980] e com ela filmaria sete vezes, em grandes êxitos do cineasta manchego — Que Fiz Eu para Merecer Isto?, A Lei do Desejo, Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos… — num serpenteado de afastamentos e reconciliações. Mas Carmen, filha de família de políticos conservadores, e que começou no teatro e no cabaret, em plena movida madrileña, antes de chegar ao cinema, também filmou em França e no México, além da sua Espanha natal, com Carlos Saura, Fernando Trueba, André Téchiné e Coppola (em Tetro), entre outros. Preferiu sempre a comédia ao drama e, na conversa que se segue, gravada no fim de Novembro do ano passado, no Festival de Marraquexe, diz ter passado por uma das experiências mais exigentes da sua carreira em Calle Malaga.
No filme de Maryam Touzani, Carmen interpreta Maria Ángeles, uma idosa de Tânger, perto da casa dos 80 anos, que resiste a abandonar a casa em que viveu toda a vida. Marta (Clara Muñoz), a única filha, recém-divorciada e instalada em Madrid, atravessa graves problemas financeiros e recorre à mãe, pretendendo desfazer-se do imóvel que a filha tem em seu nome. A astúcia e o afinco de Maria Ángeles, contudo, vão dar à trama outro destino — e uma história de amor nasce entretanto, que velhos são os trapos. Maria Ángeles enamora-se. É uma das melhores interpretações da carreira de Carmen Maura. Depois dos recentes acontecimentos em Ceuta, vale bem a pena aproveitar este filme para reflectir com ponderação sobre a antiguidade da relação entre Marrocos e Espanha e “lavar os olhos” dos telejornais com a sadia doçura de Calle Málaga, um belo filme solar, retrato justo de uma idosa ainda tão desperta para as cores, os aromas, para toda a vida que mexe e que a rodeia.
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Com uma carreira tão longa, ainda há guiões que a surpreendem? O de Calle Málaga, foi um deles?
Não costumo falar disto, mas tenho um enorme respeito pelo trabalho dos realizadores. Leio todos os argumentos que me enviam, sejam de longas-metragens, curtas ou primeiras obras. Posso acabar por recusar um projecto, recuso muitos, de facto, mas nunca deixo de o ler, porque sei o esforço que é preciso fazer para erguer um filme. Quando li este argumento, achei-o maravilhoso. O texto é extraordinário. Não tive dúvidas. Chegou-me através dos agentes, que queriam organizar uma reunião por videochamada com a realizadora. Mas eu só perguntava: “Não me podem dar o telefone dela? Quero falar já. Deixem-me ligar à Maryam Touzani!”
Não a conhecia?
Não, de todo. Só depois de ler o argumento é que fui ver os filmes dela. Mas, sinceramente, isso já pouco importava. O argumento bastava-me. Queria fazer aquele filme. Acabámos por falar e disse-lhe logo que o texto era magnífico e que, se ela quisesse, aceitava imediatamente. Depois ela veio a Madrid e explicou-me as duas condições que tinha para o trabalho. A primeira era que iríamos ensaiar praticamente todos os dias. A segunda, que existia uma cena em que eu teria de estar nua. Aceitei sem hesitar. Se me tivessem proposto isso há quinze anos, talvez tivesse pensado duas vezes. Hoje já não. Nesta idade, muitas coisas deixam simplesmente de ter importância.
Acha que a velhice continua rodeada de preconceitos?
Completamente. Mas sempre fui muito positiva. Tento encontrar o lado bom de todas as fases da vida, e a velhice também tem as suas vantagens. Há uma sensação maravilhosa de fazer apenas aquilo que realmente queremos. A velhice deu-me uma liberdade absoluta. Faço o que me apetece. Nunca tive grandes ambições na profissão. Nunca sonhei trabalhar com este ou aquele realizador, nem alcançar determinado estatuto. A minha carreira foi uma sucessão de surpresas. O meu encontro com [Pedro] Almodóvar foi uma surpresa. Quando comecei, se alguém me tivesse dito que um dia seria tão conhecida, nunca teria acreditado. Nunca fiz nada para perseguir a fama. O que eu queria era simplesmente ser actriz. E já foi um privilégio enorme conseguir sê-lo, sobretudo porque toda a minha família era contra essa escolha.
A protagonista de Calle Malaga continua profundamente ligada aos gestos da sua feminidade, ao passo que a filha vive consumida pelas dificuldades financeiras. Como é que lidou com este contraste?
Não a julguei. Também compreendo a filha. Enquanto interpretava a personagem, pensava muitas vezes: “Coitada, ela está realmente a passar um momento terrível.” O problema é que tentar resolver os próprios problemas expulsando a mãe da casa onde esta sempre viveu é um problema ainda maior. Maria Ángeles sabe que, se entrar num lar, provavelmente será o princípio do fim. Perderá a casa, a vizinhança, a cabeleireira, toda a vida que construiu. Por isso, começa a mentir. Para se salvar. Diz que irá viver para Madrid com a filha para estar perto dos netos quando, na verdade, só quer regressar a casa. E quando a encontra vazia, percebe que terá de reconstruir tudo: objecto a objecto, memória a memória. Gosto muito dessa força que ela revela. Até imagino o que acontece depois do fim do filme. Na minha cabeça, ela acaba por montar um pequeno negócio para ajudar financeiramente a filha. Compreende as dificuldades dela, mas recusa aceitar que a solução passe por expulsá-la da própria casa. Aliás, o final do filme acabou por mudar durante o processo. À partida, era diferente.
Disse antes que a rodagem de Calle Málaga foi uma experiência dura e que sofreu com isso, estava a referir-se exactamente ao quê?
À exigência de Maryam Touzani. O filme foi uma experiência completamente nova em que tive de repetir inúmeras vezes cada plano. E outra coisa: tinha de fazer exactamente aquilo que ela queria. Na verdade, poucas vezes sofri tanto durante uma rodagem. Aconteceu-me em Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos — uma das experiências mais difíceis da minha vida, em que chegeui a pensar abandonar a interpretação — e voltou a acontecer aqui, embora por razões muito diferentes.
Voltaria a filmar com Pedro Almodóvar?
Recordo com carinho os tempos em que filmávamos em Madrid, esquivando-nos à polícia. Foram anos loucos e divertidos. Mas o Pedro desse tempo é hoje outra pessoa. Eu também mudei, mas se calhar não mudei assim tanto. Seguimos caminhos tão distintos que já não há essa cumplicidade do passado. E não há nada de mal nisso. Com a Maryam, o sofrimento não foi emocional. O que fez sofrer foi a enorme exigência do trabalho. Ainda há dias lhe disse, a brincar, que, se algum dia receber um prémio de interpretação por este filme, metade será dela. Porque, na verdade, fiz exactamente aquilo que ela imaginou. Não me deixou fazer o que eu teria feito por instinto.

Ela era muito precisa nas indicações?
Muito. Dirigia até os gestos mais pequenos. Podia dizer-me: “Não mexas essa mão”. Ou então: “Agora mexe essa mão”. Tudo estava absolutamente pensado. Não era apenas a emoção da cena, era cada movimento, cada pausa, cada olhar. Por isso me surpreende quando as pessoas me dizem que esta personagem se parece tanto comigo ou é tão minha. Na verdade, não inventei quase nada. A Maryam construiu esta interpretação comigo. Ontem, conheci uma actriz aqui em Marraquexe que tinha trabalhado com Maryam no filme anterior dela, O Azul de Cafetã, e perguntei-lhe: “Ela também te fazia repetir tanto?” E respondeu-me que sim, mas que adorava trabalhar assim. Cada actor vive isso de maneira diferente. Eu também aceitei esse método, mas exigiu-me um esforço enorme.
E o trabalho com Ahmed Boulane, o actor marroquino com quem contracena?
Só o conheci durante a rodagem. Pareceu-me um actor muito bom e, além disso, muito bonito. Tinha uma dificuldade acrescida porque a sua língua de trabalho era o italiano. Apesar de estudar cuidadosamente o texto, escapavam-lhe, por vezes, expressões italianas quando falava árabe. Fez um trabalho enorme para dominar isso e, depois, ainda houve um trabalho muito cuidado na pós-produção. Mas foi um colega encantador. Muito generoso. Tratava-me sempre com enorme delicadeza e ouvia tudo o que lhe dizia. Acho que isso passa para o filme, sobretudo na forma como a personagem dele começa lentamente a apaixonar-se por ela.
Aquela relação tem uma timidez de adolescência.
Exactamente, também é o que eu acho! Ela nunca espera que aquilo lhe aconteça. Já não estava à espera de voltar a apaixonar-se. Simplesmente acontece. Aliás, isso pode acontecer a qualquer pessoa. Ainda há dias um senhor despertou-me alguma curiosidade… e pensei logo: “Não, Carmen, tem juízo…” Mas também lhe digo: a verdade é que, nesta fase da vida, já não me apeteceria voltar a viver com um homem.
Numa das cenas mais delicadas do filme, a sua personagem fala da descoberta tardia da sexualidade com uma frontalidade pouco habitual no cinema. Como encarou esse momento?
Foi uma das cenas mais difíceis por causa do texto. Nunca, em toda a minha carreira, tinha dito um diálogo assim. Era muito directo, muito explícito, mas ao mesmo tempo tinha de soar completamente natural. Lembro-me de pensar que bastava dizer uma palavra de forma errada para tudo parecer artificial ou até ridículo. Mas achei fascinante que uma mulher daquela idade pudesse falar do desejo, do prazer e do corpo com tanta honestidade. Foi preciso encontrar exactamente o tom certo.
E as cenas de intimidade?
Acabaram por ser fisicamente muito exigentes. Como tudo era filmado em planos longos e repetido muitas vezes, chegava uma altura em que o cansaço era enorme. Não tivemos esses coordenadores de intimidade que agora estão na moda. Recusei. Lembro-me de uma cena na cama em que fiquei verdadeiramente exausta. Até acabei por chorar um bocadinho, não pela cena em si, mas pelo desgaste de a repetir continuamente. Felizmente, o Ahmed foi sempre extraordinário. É um homem muito delicado, muito atento ao outro. Essa confiança sente-se no ecrã.
A sua personagem desfaz também a ideia de que o amor e o desejo pertencem apenas à juventude.
É verdade. Acho que uma das coisas bonitas do filme é precisamente essa: mostrar que os sentimentos não desaparecem com a idade. Mudam, talvez. Tornam-se mais tranquilos, menos ansiosos. Mas continuam lá. E isso parece surpreender muita gente, quando devia ser a coisa mais natural do mundo.
Conhecia bem Tânger, que é a cidade-natal de Maryam?
Tinha visitado algumas vezes, mas nunca a tinha conhecido verdadeiramente. Foi este filme que me permitiu descobri-la. A personagem mantém com aquele espaço uma ligação absolutamente visceral. As paredes, os móveis, os objetos, tudo guarda fragmentos da sua vida. Não são simples coisas acumuladas ao longo dos anos; cada objeto representa uma memória, uma emoção, um momento vivido. A cadeira de baloiço, o gira-discos, os pequenos objetos do quotidiano… Tudo faz parte da sua identidade. São as marcas de uma existência. E quando a filha vende o apartamento e se desfaz daqueles objetos, Maria Ángeles sente que lhe arrancam uma parte de si. É como se lhe amputassem a própria memória. Estou convencida de que Calle Málaga vai fazer com que muita gente queira visitar a cidade e conhecer melhor Marrocos. Digo-o em todas as entrevistas: de Madrid a Tânger é um salto. Está mesmo ao lado. No entanto, ainda há muitas pessoas que imaginam que vão encontrar um lugar perigoso. Não podia ser mais falso.

O que mais a conquistou na cidade?
As pessoas. São extraordinariamente simpáticas, recebem-nos muito bem e têm um enorme sentido de humor. Depois há a beleza da cidade, o comércio tradicional, aquelas pequenas lojas sempre tão bem organizadas, a luz… Acho sinceramente que este filme vai fazer muito por Tânger. Tenho amigos que nunca lá tinham ido. Foram visitar-me durante a rodagem, apaixonaram-se pela cidade e entretanto já lá voltaram apenas para passear. É um lugar muito especial. E depois há outro detalhe que surpreende toda a gente: continua a ser um destino bastante acessível. Vai-se a uma padaria e, com muito pouco dinheiro, sai-se de lá com pão, croissants e outras coisas. É uma cidade onde se vive bem.
Continua a gostar de acompanhar os filmes junto do público ou as viagens começam a pesar-lhe?
As viagens começam a cansar-me bastante. Se todas as entrevistas fossem em minha casa, seria maravilhoso! Mas os aviões já me custam muito. Ainda há pouco estive em Buenos Aires e, poucos dias depois de regressar, tive de vir para Marraquexe. Chega uma altura em que esse ritmo deixa de ser fácil. Por isso também prefiro que seja a Maryam a fazer grande parte da promoção internacional. Ela aguenta muito melhor estas deslocações. Eu ainda irei a Paris e talvez à Alemanha, mas não acredito que faça muitas mais viagens.
Ainda assim, continua a entusiasmar-se quando encontra um projecto como este?
Claro. É precisamente isso que mais me surpreende nesta profissão. Depois de tantos anos, continuo a encontrar personagens que nunca imaginei interpretar. Nunca fiz planos de carreira, como lhe disse. A vida foi oferecendo coisas inesperadas e eu fui aceitando. Calle Málaga foi mais uma dessas surpresas.
O autor escreve segundo a antiga ortografia