“Buy japanese yen (JPY) $5-10 bil”. O caderno de apontamentos do secretário de Estado do Tesouro norte-americano, Scott Bessent, não terá sido deixado ao acaso em cima da secretária numa reunião do executivo Trump em Camp David na sexta-feira, 31 de julho. O fotojornalista da Reuters captou a lista de “coisas para fazer” do responsável pela pasta do Tesouro.

A lista tinha apenas um item e indicava que os Estados Unidos da América iam (no caso já tinham) comprar moeda japonesa. A fotografia foi tirada às 11h33 hora local (menos 5 horas que em Lisboa e menos 13 horas que em Tóquio) de sexta-feira. No Japão já era sábado.
A intervenção já tinha acontecido. Uma compra dos Estados Unidos coordenada com o próprio Japão, como há 30 anos não acontecia. Em 2011 tinha havido uma ação coordenada entre os países do G7 (Canadá, França, Alemanha, Itália, Japão, Reino Unido e Estados Unidos).
Os Estados Unidos tinham ajudado a travar a queda do iene, que caminhava para mínimos de 40 anos, desde 1986. Mas aguentou-se. A moeda japonesa estava perto de atingir os 164 ienes por cada dólar. Com a intervenção chegou a perto de 155 e no início desta nova semana continua abaixo dos 160 ienes.
O que fizeram os Estados Unidos e o Japão?
Os dois governos confirmaram a intervenção do final da semana passada. Os Estados Unidos e o governo do Japão compraram ienes para travar a queda da moeda japonesa. O Tesouro norte-americano terá destinado 5 a 10 mil milhões de dólares para a compra de ienes, considerando o que Bessent escreveu no seu caderno. Já o Japão terá utilizado 36,58 mil milhões de dólares das suas reservas para comprar ienes.
Segundo o Financial Times, o Tesouro dos Estados Unidos terá comprado ienes vendendo euros que tem nas suas reservas.
Qual o efeito imediato no câmbio?
O efeito imediato foi o travão na queda do valor do iene, que acabou a valorizar face ao dólar, mas também em relação às restantes moedas. Isso mesmo indica ao Observador Henrique Tomé, analista da XTB: “O impacto foi notório no mercado cambial, tanto a nível do principal par cambial USD/JPY [dólar/iene] como também em todas (principais) moedas em relação ao iene japonês. Desde a intervenção do Banco do Japão (BoJ), o dólar americano esteve a desvalorizar cerca de 5% face ao iene. No entanto, estes movimentos são visíveis também nas restantes divisas, onde o par EUR/JPY esteve a registar quedas acumuladas na ordem dos 4,23%”. As duas principais divisas, dólar e euro, acabaram a perder terreno face ao iene, o que significa que, pelo menos de forma temporária, a intervenção foi bem-sucedida.
Ao mesmo tempo, acrescenta ao Observador Ricardo Evangelista, presidente executivo (CEO) da ActivTrades Europe, “ao despejar euros no mercado, através de intermediários financeiros, a ação injetou pressão vendedora na moeda única, poupando o dólar de uma desvalorização mais agressiva”. Ainda assim, Paulo Monteiro Rosa, economista sénior do Banco Carregosa, indica que a venda de euros “penalizou a moeda única, mas o impacto foi reduzido, uma vez que o mercado cambial do euro é muito mais profundo, robusto e líquido do que o do iene”. O euro manteve-se praticamente inalterado em relação ao dólar.
Será suficiente para travar a queda do iene?
Travou a queda momentaneamente, mas há outras forças a pesar para a evolução da moeda do Japão. Como diz Ricardo Evangelista, “historicamente, as intervenções cambiais apenas compram tempo“. Mas, acrescenta, “a coordenação bilateral entre Washington e Tóquio cria um impedimento credível contra os especuladores de curto prazo”.
Se nesse ponto e de forma temporária a intervenção foi positiva, a tendência não terá ficado consolidada. “O iene só conseguirá estabilizar a longo prazo se houver uma alteração real nos fundamentos macroeconómicos”, realça Ricardo Evangelista, no que é corroborado pela generalidade dos economistas. Também Paulo Monteiro Rosa diz que o sucesso da intervenção no travão à queda do iene é “temporário, caso não se alterem as tendências estruturais da economia japonesa, em particular o envelhecimento e a diminuição da população num país relativamente avesso à imigração”.

O diferencial entre as taxas de juro da Reserva Federal (entre 3,50%-3,75%) e as do Banco do Japão (1% e é a mais alta em 31 anos) ainda é muito alargado, enfraquecendo o iene. Isto apesar das descidas (depois das subidas resultantes da inflação induzida pela guerra na Ucrânia) das taxas de juro nos Estados Unidos e das subidas no Japão (que na reunião da semana passada manteve inalteradas as taxas). O diferencial ainda não ajuda a história do Japão. E a Fed pode voltar às subidas de taxas já na reunião de setembro.
“Caso a inflação americana obrigue a Fed a manter os juros altos por mais tempo, ou até a aumentá-los, o efeito desta intervenção diluir-se-á rapidamente”, sugere Ricardo Evangelista, acreditando que só uma “aproximação das políticas monetárias (uma descida de taxas nos EUA ou um aperto monetário no Japão) retirará pressão ao iene, permitindo que a divisa recupere organicamente de forma mais sustentada”.
Paulo Monteiro Rosa volta a colocar a tónica nos fatores macro: “Apesar da subida das taxas de juro japonesas e da redução do diferencial face aos EUA, a moeda continua pressionada por fatores estruturais da economia nipónica, nomeadamente o envelhecimento e a diminuição da população, o fraco crescimento económico e a pouca abertura à imigração. Sem alterações destes fatores, poderão ser necessárias novas intervenções para sustentar o iene. Ao mesmo tempo, a persistência de um iene fraco continua a favorecer operações de carry trade, mantendo pressão adicional sobre a moeda japonesa”.
O carry trade é quando os investidores fazem arbitragem entre ativos. Pedem empréstimos no Japão, em ienes, cujas taxas são baixas o que resulta em custos de financiamento reduzidos. Convertem ienes em dólares e investem em ativos dolarizados, como obrigações do Tesouro dos Estados Unidos ou ações, com maiores rentabilidades. Está, por isso, sempre a haver oferta de ienes, pressionando a moeda em baixa e o investidor ganha com a diferença de taxas — entre a que paga o empréstimo e a que recebe pelo investimento dos ativos.
Por isso, enquanto esse diferencial de taxas existir, o iene continuará pressionado. Henrique Tomé, da XTB, realça que “as expectativas sobre as taxas de juro, sobretudo no Japão, continuam a ser determinantes para a tendência do iene nos mercados internacionais”. “O BoJ (Bank of Japan) tem estado a normalizar a sua política e os mercados continuam a prever novos aumentos dos juros este ano, se a inflação e os salários o justificarem; ainda assim, esse movimento não chega para eliminar o diferencial, que continua a justificar a pressão vendedora sobre o iene”.
Com o iene sempre na corda bamba, o Japão terá de continuar a intervir no mercado para o sustentar. Estas intervenções por parte do país têm sido frequentes, mas agora teve de se juntar os Estados Unidos.
O que levou os EUA a ajudar o Japão? “Estamos sempre cá para o Japão”, que é o maior detentor estrangeiro de dívida pública americana
“Temos um bom relacionamento com o Japão. Somos muito fortes — muito, muito fortes financeiramente — e eles têm um iene enfraquecido e quiseram um pouco de ajuda. E nós estamos sempre cá para o Japão. O Japão tem sido muito bom para nós, com a exceção, claro, de Pearl Harbor”, declarou Trump. A 7 de dezembro de 1941, os japoneses bombardearam a base naval norte-americana em Pearl Harbor, no Havai, empurrando os Estados Unidos para a Segunda Guerra Mundial.
Dizendo ter sido “um sinal de amizade”, Trump assumiu que os Estados Unidos beneficiaram com a intervenção que, também, traz vantagens “à economia mundial”.
Ricardo Evangelista, CEO da ActivTrades Europe, não tem dúvidas de que “Washington agiu para proteger o seu próprio sistema financeiro”. E explica: “Ao segurar o iene, os EUA protegeram o mercado de obrigações americanas e estabilizaram as taxas hipotecárias domésticas, que disparariam caso os japoneses começassem a liquidar ativos globais. A ação foi benéfica para ambas as partes. O Japão obteve o alívio inflacionário de que precisava desesperadamente nas suas importações de energia, enquanto os EUA garantiram estabilidade para o seu mercado de dívida soberana”.
Paulo Monteiro Rosa também acredita que este movimento foi “um win-win. Ao suportarem o iene, os EUA protegem também os seus próprios interesses. Um iene demasiado fraco aumenta a volatilidade nos mercados financeiros, poderá obrigar o Japão a vender parte da sua carteira de Treasuries [dívida pública norte-americana] para financiar novas intervenções cambiais e dificulta alguns objetivos da política económica norte-americana”. Uma maior estabilidade cambial beneficia, por outro lado, os mercados financeiros, reduzindo o risco de movimentos desordenados. As flutuações do iene têm forte impacto nas moedas dos vizinhos asiáticos, nomeadamente no won sul-coreano.
A intervenção parece ter-se ficado, neste caso, apenas pelo mercado cambial, através da venda de euros para compra de ienes pela Fed de Nova Iorque, não existindo qualquer referência a compras ou vendas de Treasuries ligadas a esta operação.
Só que o temor dos Estados Unidos é precisamente esse. É que o Japão é atualmente o investidor estrangeiro com mais títulos de dívida pública dos Estados Unidos. E com este movimento os Estados Unidos acabaram por travar eventuais vendas de Treasuries (obrigações norte-americanas) pelo Japão, o que iria pressionar, por seu lado, os custos de financiamento dos Estados Unidos já de si altos.
O Japão tem cerca de 1,14 biliões de dólares investidos em Treasuries, consolidando a posição cimeira depois de a China começar a reduzir a sua exposição. Mas não só. O Japão terá cerca de 1,2 biliões de dólares em ações e mais de 300 mil milhões em dívida corporativa norte-americana.
Uma desvalorização persistente do iene “poderá obrigar as autoridades japonesas a vender parte dessa carteira [especialmente de dívida pública americana] para financiar futuras intervenções cambiais. Esse cenário aumentaria a oferta de dívida norte-americana no mercado, pressionando em alta as yields e encarecendo o financiamento do governo norte-americano”, realça Paulo Monteiro Rosa recordando que são, no entanto, os investidores norte-americanos a deter a maior parte da dívida pública dos EUA de 40 biliões de dólares. O Japão representa apenas 3% dessa dívida. Ainda assim, com a intervenção, verificou-se um alívio nos juros da dívida pública norte-americana. “Os EUA evitaram assim uma subida das yields das suas obrigações, que iria encarecer os custos de financiamento da sua economia”, salienta Ricardo Evangelista.
Na semana passada as taxas de juro da dívida norte-americana a 30 anos atingiram o nível mais elevado desde 2007.
O que ganhou o Japão, além do travão à queda do iene?
Controlar a desvalorização da sua moeda permite ao Japão não agravar mais os custos que tem com as importações, em particular as relacionadas com a energia.
As matérias-primas, como o petróleo e o gás, são transacionadas em dólares, um iene mais forte resulta numa fatura menor para empresas e consumidores japoneses que pagam em ienes. O Japão está entre as economias mais dependentes do fornecimento de energia do Médio Oriente, “o que torna o iene mais exposto à pressão dos termos de troca impulsionada pelo petróleo do que a maioria das outras moedas principais”, salienta o IG.
Se isto é verdade para os produtos energéticos é igualmente verdade para as restantes importações. As compras ao exterior acabam por ficar mais baratas, aliviando o custo de vida. E pode aumentar as compras, nomeadamente aos Estados Unidos, já que as suas exportações, por seu lado, ficam mais competitivas, o mesmo é dizer mais baratas.
Os consumidores beneficiam e as empresas também, podendo importar mais barato mercadorias essenciais para a produção, melhorando a margem.
O efeito contrário, no entanto, é o outro lado da moeda com impacto para os exportadores. Os produtos japoneses tornam-se mais caros e, logo, menos competitivos no mercado internacional.
Mas os japoneses podem ganhar algum poder de compra, que têm perdido nos últimos anos. Como se vê no estudo do Deutsche Bank, Tóquio tornou-se uma das cidades mais baratas, devido ao baixo poder de compra. Isso é bom para os turistas que visitam o país asiático, mas para quem o vive representa menos salário comparativo e mais dificuldade em comprar produtos com incorporação estrangeira. Uma situação agravada com as medidas expansionistas do governo nipónico que, já com uma dívida pública alta, acabou por ver a sua ação fazer mexer com a política monetária e cambial.
Scott Bessent que, como recorda o New York Times, estava há mais de uma década a apostar, ao lado de George Soros, mil milhões de dólares na queda do iene, veste agora a camisola de governante e garante que os Estados Unidos “não hesitarão em participar em mais intervenções conjuntas” com o Japão — vizinho da rival e desafiadoramente poderosa China. O Departamento do Tesouro considera que a excessiva volatilidade do iene é “indesejável”. A última vez que os Estados Unidos tinham intervindo diretamente no mercado cambial foi em 1998, durante a crise financeira asiática. Houve uma intervenção em 2011 mas conjugada no G7, devido ao terramoto e tsunami no Japão. Agora volta à manipulação direta, embora não se acredite que os Estados Unidos terão pouca margem de ir buscar mais reservas em moeda estrangeira.
Já o Japão tem ainda margem para intervenções futuras, mas a fatura chegará a algum lado.
[A investigação ao espião português suspeito de vender segredos à Rússia é inesperadamente confrontada com uma vida dupla. Tem relações com várias mulheres do leste, é frequentador de bares de alterne e striptease e é ainda presença habitual em reuniões da maçonaria. Ao mesmo tempo, os serviços secretos norte-americanos querem montar uma armadilha à “toupeira” no interior do SIS. Já pode ouvir o segundo episódio do novo Podcast Plus “A Vida Dupla do Espião Traidor” no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube.]