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O momento da alta

Quando a medicina deixa de mandar e a vida volta a tomar conta de si.

Diana Pedreira
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Há um momento em todos os internamentos de que se fala pouco. Passamos dias concentrados no diagnóstico. Nos exames. Nas análises. Nos ajustes da medicação. Discutimos hipóteses, alteramos estratégias, esperamos resultados. Às vezes, tudo corre como previsto. Outras vezes, o caminho faz curvas que ninguém antecipou. Mas, independentemente da forma como lá chegamos, há um ponto que acaba sempre por chegar:

A alta.

É curioso como usamos esta palavra quase como sinónimo de fim. Como se o problema tivesse ficado resolvido e a história pudesse ser arquivada. Na verdade, a alta é apenas uma mudança de cenário. O doente deixa de estar no quarto onde sabemos, a cada momento, como está a tensão arterial, a frequência cardíaca ou a temperatura. Deixa de receber a medicação certa à hora certa. Deixa de haver alguém que pergunta quanto comeu, se dormiu, se a dor melhorou ou piorou. Volta para casa.

E nós deixamos de ter controlo. Ou, talvez mais exatamente, deixamos de ter a ilusão de que o tínhamos. Porque os doentes nunca são nossos. Têm vida própria, prioridades próprias, medos próprios. Regressam às suas rotinas, às suas dificuldades e, muitas vezes, aos mesmos hábitos que passámos dias a tentar mudar. Alguns conseguirão fazê-lo. Outros não. E isso faz parte da vida muito mais do que da medicina.

Para quem sai do hospital, este momento também nem sempre é vivido como uma libertação. Depois de um internamento instala-se uma ideia difícil de desaprender: o corpo pode falhar. Até esse momento, a doença é quase sempre uma possibilidade distante, algo que acontece aos outros. Um internamento muda essa perceção. Depois de dias rodeados por monitores, exames, medicação e profissionais de saúde, torna-se impossível continuar a acreditar que o corpo é infalível.

Há experiências que não terminam quando recebemos alta. Continuam connosco quando chegamos a casa. Voltamos com comprimidos novos, consultas marcadas, recomendações, restrições alimentares, sinais de alarme para vigiar. Muitas vezes, tanta informação que é impossível retê-la toda. E, sobretudo, regressamos com uma pergunta silenciosa:

E se voltar a acontecer?

Talvez seja por isso que algumas pessoas regressam tantas vezes à urgência nos dias seguintes à alta. Não porque estejam necessariamente pior. Mas porque, depois de perceberem que o corpo é vulnerável, qualquer sintoma ganha um significado diferente.

Nós, médicos, também sentimos qualquer coisa nesse momento. Explicamos a medicação, esclarecemos dúvidas, entregamos a carta de alta e sabemos que, a partir dali, a vida do doente deixa de passar por nós. Depois chega outro internamento, outro diagnóstico, outra história. Mas fica sempre uma sensação discreta de que fizemos tudo o que podíamos. O resto já não depende de nós. É assim que deve ser.

E, ainda assim, há qualquer coisa de inquietante em devolver a alguém a responsabilidade pelo seu próprio corpo. Talvez a alta seja isso. Não o fim da doença. Nem o fim do trabalho do médico. Mas o momento em que duas pessoas — médico e doente — aceitam, cada uma à sua maneira, que há um território onde a medicina deixa de mandar e a vida volta a tomar conta de si.