O espectáculo começava às nove da noite, com previsão de sala relativamente cheia. Às 21h15, quando Gilmário Vemba subiu ao palco, de polo da Lacoste azul marinho e calças amarelas, apenas as três filas da frente estavam preenchidas. O humorista não se incomodou: “Os angolanos vão chegar quando o show acabar”, e assim foi. Ao longo de duas horas de stand-up comedy em português africano, ao vivo no auditório da Pousada da Juventude de Moscavide (em Lisboa), o público foi ficando mais composto, exibindo um degradê de tons castanhos e gargalhadas que evocavam a memória de Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde e São Tomé.
A primeira edição do “Stand-up da Banda” aconteceu em julho do ano passado, iniciativa dos irmãos e comediantes Gilmário, Nelson e Miro Vemba, e do amigo Scait Borrabeu. Os quatro humoristas naturais de Angola concluíram que, em Portugal, estavam desligados da audiência do seu país de origem e dos restantes PALOP (Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa), apesar da ampla comunidade africana e afrodescendente que reside na antiga metrópole (6,1% da população em idade adulta, de acordo com o INE — Instituto Nacional de Estatística).


“Às vezes, queremos falar sobre a situação de Angola e, para não viajar e fazer as piadas lá, fazemos aqui com o público que está [em Portugal]”, admitiu Miro, para quem o projeto permitiu “unir o útil ao agradável”: “Assim, trabalhamos os dois públicos em simultâneo. Há piadas muito específicas que fazemos só mesmo para o público angolano”, explicou.
O jovem de 28 anos ingressou no mundo da comédia por influência dos irmãos mais velhos, Nelson e Gilmário — especialmente conhecido em Portugal, onde vive desde 2009, pelas rubricas de rádio que assina e apresentação de programas de televisão como o 5 Para a Meia-noite ou o Taskmaster (ambos emitidos pela RTP).
https://www.youtube.com/watch?v=twVdAof4tDs
Antes disso, Gilmário já era uma figura de proa da comédia originária dos PALOP, sobretudo pela participação no grupo pioneiro do humor angolano, Os Tuneza (fundado em 2003) — que grava programas de sketches em Portugal, endereçados ao público africano, desde 2016. “Acho que foi o primeiro grupo a capitalizar com esse trabalho de fazer rir as pessoas”, reconhece Miro. “Foi uma lufada de ar fresco para a sociedade angolana e uma novidade que mexeu com o país.”
Os projetos mais recentes de Gilmário, como o “Stand-up da Banda”, as digressões a solo ou participação em programas nos principais órgãos de comunicação portugueses, sucederam a saída do grupo, em 2020, que permitiu catapultar a sua carreira para um palco verdadeiramente internacional — que, nas palavras do irmão, “abrange a lusofonia toda, abrange a Guiné, São Tomé, Moçambique, Cabo Verde, Portugal, Brasil e Angola”. “Nós até lhe atribuímos o apelido de Moisés”, reforça Miro, “o Moisés da comédia, não só porque ele é o humorista melhor a nível de qualidade, mas [também] o maior a nível de expansão”.
https://observador.pt/programas/em-40-minutos/gilmario-vemba-eu-sai-de-uma-ditadura-em-angola-para-experimentar-outra-mas-agora-nas-redes-sociais/
Vingar em Portugal foi um objetivo para Gilmário desde muito cedo e nunca viu o país europeu como uma mera rampa de lançamento para a carreira de sucesso internacional. Em jovem, recebeu uma cassete do programa Levanta-te e Ri, que estreou na SIC quando tinha apenas 17 anos (em 2003), e sempre viu no humor português uma referência. “Por exemplo, os Tuneza”, observa Miro, “têm muitos, muitos traços dos Gato Fedorento”.
A carreira de Gilmário Vemba é um exemplo de sucesso e também de como fazer uso da influência e exposição mediática adquiridas para estender o tapete a novos humoristas. O “Stand-up da Banda” tem justamente esse propósito, e já deu as boas-vindas a vários representantes de uma nova geração de cómicos que fazem de Portugal a sua casa, apesar de terem coordenadas em vários pontos do continente africano.
Artolash: do português oitocentista d’Os Maias para o stand-up em crioulo
Se os angolanos — como Scaitt Borrabeu, Jaime Teca ou Geovannia Moura — continuam a ser os nomes mais destacados e frequentes na programação, surgem também alguns guineenses, por exemplo BK (abreviatura de Braking), mas também humoristas de São Tomé e Príncipe e Cabo Verde. Artolash é o nome mais sonante da comédia em crioulo com raízes cabo-verdianas. Mudou-se para a Grande Lisboa em 2009, depois de crescer num bairro pobre nos arredores da cidade da Praia.
“Foi na biblioteca da Faculdade de Letras que comecei a ler sobre [o meu país]”, admite Carlos Andrade (o nome civil do humorista), “ou seja, eu precisei de sair [de lá] para conhecer melhor Cabo Verde, vim criar a minha identidade africana em Portugal.”
No início, Carlos rejeitava o crioulo e abraçava a língua oficial do seu país e daquele que o acolheu. Apesar de frequentar a disciplina de português — língua não materna, aceitou o desafio de ler Os Maias, de Eça de Queiroz, que não estava incluído no respetivo currículo. “Li Os Maias com um dicionário ao lado, basicamente a cada dez segundos ia à procura de uma palavra”, recorda o cabo-verdiano. “Foi assim que descobri a palavra ‘artolas’, que [segundo a explicação do Google] significa um gajo janota e pouco ajuizado.” Carlos identificou-se com o adjetivo e nunca mais renunciou ao título, que estilizou com um “h” no fim.
Durante os anos passados na Escola Secundária de Mem Martins, publicou vídeos cómicos em língua portuguesa, mas foi no crioulo que descobriu uma verdadeira mina de ouro. “Em 2014, enviei um vídeo em crioulo para os meus familiares em Cabo Verde, em que basicamente peguei numa idiossincrasia ou mania de cabo-verdiano”, recorda. “Depois, publiquei-o no Facebook e aquilo teve tantas partilhas que pensei ‘se calhar tem aqui um mercado a que não tinha dado valor, um mercado vazio, onde não existe ninguém a fazer conteúdos’.”
Depois de um curso em Estudos Africanos na Faculdade de Letras de Lisboa, Artolash reconhece que “a insistência em criar conteúdos em crioulo é um esforço para não deixar morrer tradições orais” e a língua mais falada no arquipélago africano onde nasceu. Além disso, comunicar em crioulo não foi um obstáculo à sua expansão — os vídeos humorísticos que faz são bastante populares não apenas junto dos habitantes de Cabo Verde, mas também entre os emigrantes na diáspora.
“Mesmo com poucos seguidores e experiência limitada, comecei a viajar, para a Suíça, França, Luxemburgo, Estados Unidos, Alemanha… Estamos em toda a parte”, admite, em referência aos cabo-verdianos. “Fui fazer um espectáculo na Holanda à frente de 960 pessoas no anfiteatro Oude Luxor, em Roterdão. Eu saio de Cabo Verde, de um bairro pobre, e uns anos mais tarde estou num palco que Edith Piaf já pisou.”
https://www.youtube.com/watch?v=A1npMOKDEq0
O público de Artolash é de origem africana, os temas que aborda também — desempenha várias personagens, entre as quais “a mãe cabo-verdiana”, que “tem muito conteúdo para ser explorado e é sempre gargalhada fácil” ou “o delinquente”, que satiriza a atualidade do país de origem. Contudo, a vinda para Portugal foi determinante para o percurso que viria a descrever na indústria do entretenimento. “Com a internet comecei a ver vídeos d’Os Contemporâneos [programa de sketches da autoria das Produções Fictícias] e dos Gato Fedorento. Basicamente, cheguei [ao país] nas férias de verão e, entre junho e setembro, não saí de casa”, recorda.
“Antes, tinha de ir para uma biblioteca pública e pagar 50 contos para ter meia hora de internet”, explica Artolash. “Chegar a Portugal e conseguir aceder a tanta comédia fez-me perceber que eu não estava só nem era estranho — porque em Cabo Verde era considerado um palhaço, no mau sentido. Aqui, vi que havia mais pessoas [interessadas no humor] e que era uma coisa boa e bem vista.”
Com um pé em Lisboa e outro no arquipélago onde nasceu, Carlos às vezes pensa em regressar a Cabo Verde, sobretudo “pelo custo de vida” na Europa. “Lá, toda a gente da minha geração tem uma casa e […] temos mais facilidade em poupar alguma coisa, o que aqui em Portugal está cada vez mais difícil.”
Atualmente, o humorista trabalha mais para Cabo Verde do que para Portugal e sagrou-se o primeiro a fazer um espectáculo de stand-up nas ilhas africanas. “Os Cabo-verdianos Não Conhecem Limites foi o primeiro especial de comédia em crioulo [de sempre], e o primeiro especial de comédia a pisar o território de Cabo Verde”, admite, celebrando outro compatriota muito reconhecido nos dias que correm, o guarda-redes da seleção cabo-verdiana de futebol, Vozinha.
“No Mundial, protagonizámos jogos incríveis contra equipas favoritas, conseguimos sobressair e fazer o mundo olhar para Cabo Verde de forma diferente. As pessoas já sabem onde é que fica Cabo Verde”, nota o comediante, que acompanhou a jornada dos Tubarões Azuis no campeonato. “Isso mostra que [lá] há muito talento, muita coisa boa, que as pessoas estão a descobrir agora. Na comédia, tento fazer o mesmo, porque sei que tenho muito mais para dar em crioulo do que em português e sei que a diferença que eu consigo fazer em Cabo Verde é enorme”, conclui.
Azome Pinto: um iPhone 11 contra o mundo (e a comunidade lusófona)
A história de Azome Pinto também dá conta da possibilidade de emancipação contida na internet. Chegou a Portugal com o irmão Alexandre em 2016, a fim de estudar Contabilidade na Universidade de Bragança. Apesar do frio “insuportável”— e muito distante do clima equatorial de São Tomé, a ilha onde nasceu — e das dificuldades financeiras, Azome conseguiu alcançar um público alargado através dos vídeos cómicos que começou a publicar nas redes sociais.
Nos primeiros anos, o par de irmãos subsistia com pouco mais de 300 euros mensais, que os pais enviavam de São Tomé com muito esforço. “Todo o dinheiro que vinha usávamos para pagar a propina, porque tínhamos medo de perder a oportunidade de estudar; o restante servia para pagar a caução e a renda”, recorda. “O primeiro ano foi bem difícil.”
Com a pandemia, popularizaram-se as livestreams (vídeos partilhados com os seguidores em tempo real), aos quais Azome e Alexandre, que já tinham um canal de YouTube bastante dinâmico, aderiram. “Fomos convidados para participar numa live que dava um prémio aos participantes e ganhámos um iPhone 11. Depois disso, nunca mais parei.”


O novo gadget permitiu melhorar a qualidade técnica do conteúdo humorístico que Azome produzia e que passou a publicar numa nova rede social, o TikTok. No ano em que “comecei a gravar [para o TikTok] já era finalista na faculdade; fiz a minha matrícula, mas não fui às aulas”, admite. “Fiquei em casa um ano letivo inteiro só a gravar vídeos, noite e dia.”
Atualmente, o jovem de 31 anos tem mais de 260 mil seguidores no TikTok, além do following que conseguiu acumular no Facebook e Instagram, e que inclui representantes de toda a CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa). Com uma notoriedade razoável e fãs disseminados pelo mundo, Azome também já explorou as potencialidades da comédia ao vivo — sempre muito influenciado pelas liberdades do digital.
“Há uma seguidora que se chateia quando me chamam de comediante, que diz: ‘Você faz muita coisa para ser comediante’”, confessa o são-tomense. “Eu faço criações, intervenção social, divulgação do país… De tudo um pouco, faço humor, mas também falo sobre coisas sérias. ‘Para mim, você é artista’, diz ela.”
@azomepintooficial 58,81% da população do nosso amado país São Tomé e Príncipe optaram pela opção abstenção nas eleições presidenciais de ontem dia 19 de julho 2026. Espero que este número sirva de reflexão para os todos os partidos políticos do meu país para todos os políticos de São Tomé e Príncipe que a política está a estragar o nosso país que a política precisa ser mudada no nosso país. O bem-estar da nossa população precisa sempre estar em primeiro lugar e não bem estar dos partido político ou dos político que exerce o papel de representante do nosso povo, o povo reclama para ser escutado eu peço que os político do nosso país passam a escutar o clamor do nosso povo de São Tomé e Príncipe????????♥️???? #azomepintooficial#saotomeeprincipe????????????#palops????????????????????????????????????????♬ som original - azomepintooficial
Como Artolash, o são tomense não dá muito crédito à ideia de que a comédia é incompatível com o discurso politicamente carregado — para ele, não é possível escolher entre os dois, e faz uso da sua plataforma online para militar a favor do “único partido político que apoia” — o país onde nasceu.
“No dia 12 de julho, nós fizemos 51 anos de independência”, afirma. “É triste, porque, em 51 anos, ninguém conseguiu resolver os problemas da educação, energia, saneamento básico, água potável, estradas… Eu cresci e nasci a ver as pessoas considerarem o meu país subdesenvolvido, em vias de desenvolvimento. Espero que daqui a algumas décadas os meus filhos possam ver a saúde a funcionar, espaços de lazer para a população, que as pessoas consigam tirar férias. Temos todas essas coisas aqui em Portugal”, conclui.
Sempre com boa disposição, Azome reivindica o cargo de embaixador do país que deixou há mais de dez anos. Usando a língua portuguesa como arma e um conjunto de personagens recorrentes, como a Azominha, transmite a cultura de São Tomé e Príncipe a outras geografias.
https://www.youtube.com/watch?v=b79TFGUD7XE
“Na rede social Facebook, as duas comunidades que mais me acompanham antes do meu próprio país são os angolanos e os cabo-verdianos, só depois é que aparecem os são-tomenses. Como estou a falar português, é mais fácil para as pessoas entenderem o meu conteúdo e, se tiver graça, melhor ainda”, conclui.
Três tons de comédia, uma língua
Gilmário Vemba já ganhou notoriedade pela sua comédia além-fronteiras e assente na lusofonia, que lhe permitiu apadrinhar novos talentos africanos residentes em Portugal — como dá conta o “Stand-up da Banda”. Na carreira a solo levou esse esforço mais além, através de um grupo humorístico fundado com um português e um brasileiro e que, curiosamente, se apresentou em França, antes mesmo de pisar qualquer país da comunidade lusófona.
Em março do ano passado, o trio constituído por Gilmário, Hugo Sousa e Murilo Couto estreou no Apollo Théâtre de Paris, espaço conhecido por dar palco a humoristas, e pelo qual já passaram diversos portugueses — como o próprio Hugo Sousa, que também lá tem uma data agendada no próximo dia 27 de novembro.
O grupo chama-se Tons de Comédia e a sua missão está explícita no nome: mostrar de quantos tons se faz a comédia em língua portuguesa, através de três comediantes que, apesar de originários de vários pontos do mundo, têm o idioma em comum. “Cada um de nós tem um um tom diferente, que se traduz num toque de comédia mais abrasileirado, angolanizado ou à moda portuguesa”, reflete Gilmário.
“No Brasil, poucas pessoas me conheciam a mim e ao Hugo, não é? Em Angola, Cabo Verde e São Tomé, o Hugo também era pouco conhecido. E num show em Paris, fomos xingados porque só queriam ver o Murilo”, recorda o comediante. “Todas essas pessoas saíram da sala super surpreendidas e depois escreveram-nos a dizer que foi muito bom observar as [nossas] diferenças e rir na mesma.”
O ponto de partida na capital de França foi o compromisso a que chegaram, a fim de evitar começar a digressão nos respetivos países — já que a digressão recebeu o nome de “Tons de Comédia pelo Mundo”. Seguiram-se datas em Dublin e Londres e uma série de sessões por Portugal fora, pelos PALOP — exceto Moçambique, onde foram impedidos de entrar — e por várias cidades do Brasil.
https://observador.pt/especiais/gilmario-vemba-hugo-sousa-e-murilo-couto-quem-sao-os-humoristas-impedidos-de-entrar-em-maputo/
Sem um guião fixo, os espectáculos contam com um momento de stand-up a solo, em que cada humorista faz rir o público à vez, seguido de um final em que o trio junta improviso e bits “já oleados” em sucessivas apresentações ao vivo. “O que é engraçado[, por exemplo,] é ver o Murilo atuar em África e falar da sua perspetiva enquanto brasileiro em África”, admite Hugo Sousa, destacando a importância dos “pontos pontos de vista diferentes” no desfecho cómico do evento.
Em jeito de brincadeira, Murilo acrescenta que “o preconceito é a gasolina da comédia” do trio luso-afro-brasileiro, aludindo às ideias pré-concebidas que existem entre os diferentes povos da CPLP. “Às vezes, temos certezas em relação a um sítio e, quando lá vamos, levamos uma ‘chapada na cara’”, confessa Gilmário, que admite trabalhar os próprios preconceitos e os do público no stand-up dos Tons de Comédia. “Como ter uma ideia sobre Angola e logo nas primeiras horas perceber, ‘calma aí, não é bem assim’, e poder gozar com a noção que o angolano tem do português, que o português tem do angolano e que o brasileiro tem de Portugal.”
Se o sotaque, o sentido de humor ou as referência culturais são aspetos obviamente diferenciadores entre os integrantes dos Tons de Comédia (e que exigem algumas adaptações consoante o ponto geográfico onde atuam ao vivo), o trio de cómicos não lhes dá particular relevo. Questionado sobre aquilo que afasta os membros do grupo — sendo a língua o principal ponto de encontro entre os três e aquilo que permite dar vida ao projeto — Hugo Sousa admite que simplesmente não partilham “o quarto”, o que, acrescenta Murilo, é um aspeto “bem importante”. Pouco importam as diferenças de base entre eles ou entre o espectadores que acompanham o projeto, pois, acima de tudo, basta que falem português para que usufruam do espectáculo.
Os Tons de Comédia voltam aos palcos do país na próxima edição do Worten Mock Fest, dia 29 de agosto.
https://observador.pt/especiais/pode-lisboa-ter-um-web-summit-do-humor-festival-de-comedia-e-sinonimo-da-evolucao-do-setor/
Porta dos Fundos na vanguarda do humor transatlântico
Mas os precursores do intercâmbio humorístico em língua portuguesa, que já esgotavam salas em Lisboa e no Porto antes de Gilmário se afirmar como comediante mainstream no país ou sequer sonhar com os Tons de Comédia, foram os membros do coletivo brasileiro Porta dos Fundos, entre os quais se destacam Fábio Porchat e Gregório Duvivier. A produtora independente foi fundada em 2012, antes de os vídeos de formato curto do TikTok ganharem popularidade e quando sketches com menos de dez minutos “viralizavam” no YouTube com enorme facilidade.
O primeiro vídeo a alcançar esse estatuto entre os portugueses foi o “Sobre a Mesa”, publicado em setembro de 2012, que impressionou o público nacional pelo humor ácido e discurso despojado sobre sexualidade feminina. Meses mais tarde, o produtor Hugo Nóbrega visitou o Rio de Janeiro e viu um espectáculo de Fábio Porchat publicitado na agenda cultural da cidade. Entrou em contacto com o humorista e convidou-o para atuar no já extinto Famous Fest — Festival de Humor de Lisboa.
“Como não tinha a certeza se aquilo ia correr bem, pus nessa noite o Bruno Nogueira a abrir com o Fábio”, recorda o fundador do evento. “Juntei os dois artistas na mesma sessão e foi uma surpresa incrível, porque quando o Fábio entrou houve uma grande aclamação do público. Percebi que todas as pessoas ali já seguiam [o seu trabalho].”
Depois do sucesso alcançado no Famous Fest em julho de 2013, Hugo trouxe Fábio de volta à capital portuguesa para um espectáculo a solo no Coliseu de Lisboa, que esgotou a sala no dezembro seguinte. “Até me lembro dele a chorar nessa noite, em palco, da emoção que era ter em Portugal este público todo de pé”, conta Hugo. Depois, “no ano de 2014, fizemos a primeira edição do Festival Porta dos Fundos”, um projeto pioneiro do coletivo humorístico e que envolveu um grupo mais alargado de comediantes brasileiros.
O evento estreou numa altura em que, na opinião do produtor, “Portugal estava órfão dos Gato Fedorento”, cujo humor também funcionava à base do sketch. Os Porta “acabaram por criar um mercado parecido, que envolvia uma partilha semanal em formato digital”, mas que atingiu novos patamares à medida que os seus intérpretes mais conhecidos começaram a visitar o país, em grupo e a solo.

Com a peça de teatro Uma Noite na Lua, Gregório Duvivier começou a construir uma base de fãs portugueses que se solidificou de forma definitiva após a digressão pelo país do popular espectáculo O Céu da Língua. Descentralização é a palavra de ordem de um artista que chega a demorar um mês a percorrer apenas a região Nordeste do Brasil e que procurou atuar em cidades de Portugal que não costumam receber humoristas com reconhecimento internacional.
“É incrível como hoje é possível assistir a três espectáculos vindos do Brasil no centro de arte de Águeda em apenas um mês”, admite Hugo, que acrescenta que, nas últimas tournées de Gregório pelo país, o brasileiro visitou entre 15 e 20 cidades, de norte a sul.
A afeição do grupo de humoristas por Portugal cresceu proporcionalmente à procura que o seu conteúdo foi tendo por estas bandas. Desde cedo, conseguiram fidelizar um público que vai muito além da diáspora brasileira. “Às vezes, eles perguntavam nos espectáculos, ‘Quem é que é português? Quem é do Brasil?’ e tinham sempre [pelo menos] 60% de espectadores portugueses”, reconhece Hugo Nóbrega.
https://www.youtube.com/watch?v=s-hc2F4X9Sc
“Quando percebi que o público do país era muito recetivo e amoroso comigo, comecei a fazer [mais] shows em Portugal e a gravar programas e conteúdos para a televisão”, recorda Fábio Porchat, que se estreou em 2022 na RTP com a série Viagem a Portugal, inspirada no livro com o mesmo nome de José Saramago. “Desde então, todo ano eu vou a Portugal para gravar algum programa diferente”, como o mais recente Porta Pró Milhão, um especial de comédia que mobiliza “comediantes brasileiros e portugueses para falar sobre aquilo que nos une, que nos separa, aquilo que nos causa rixa e aquilo que nos dá alegria”, nas palavras do carioca.
“A [nossa] colaboração com atores e comediantes portugueses surgiu no Portátil, a peça que a Porta dos Fundos fez com o César Mourão e a Inês Aires Pereira”, lembra Fábio. “Os comediantes portugueses são muito generosos conosco. Desde o Salvador Martinha, o Ricardo Araújo Pereira, a [Maria] Rueff, a Inês Lopes Gonçalves, o Luís Franco Bastos, nós temos muitos comediantes portugueses que sempre nos receberam muito bem.”

Dizer trem em vez de comboio
Tornou-se evidente nas entrevistas efetuadas para os fins desta reportagem que existe um antes e depois dos Gato Fedorento no humor em língua portuguesa. Membro do grupo de humoristas fundado em 2003, Ricardo Araújo Pereira é dos poucos, se não o único humorista português, que conseguiu alcançar algum nível de celebridade no Brasil, onde, para além de ter livros editados, escreve uma coluna no jornal Folha de S. Paulo, desde 2017. “Por uma razão qualquer, os brasileiros conhecem os Gato Fedorento”, nota o comediante. “Não é uma coisa que 200 milhões de pessoas saibam, mas vejo isso nas pessoas ligadas à comédia.”
Além da participação em festivais literários, como o Flip — Festa Literária Internacional de Paraty, onde conheceu o diretor da Folha de S. Paulo e recebeu o convite para escrever no diário, Ricardo também faz um espectáculo com Gregório Duvivier e já foi convidado de vários programas de televisão populares no país, como o líder de audiências The Noite com Danilo Gentili e o Conversa com Bial, da TV Globo.
Um Português e um Brasileiro Entram num Bar é o nome do projeto que o português assina com Gregório Duvivier e que, apesar de criado para um evento de caráter institucional, organizado “pela embaixada de Portugal no Brasil, ou uma coisa assim”, já foi reproduzido noutras circunstâncias, de ambos os lados do Atlântico. “Sempre que nos encontramos no mesmo continente fazemos isso, já fizemos no Rio de Janeiro, em São Paulo, em Lisboa, no Porto, em São Miguel… E é uma coisa muito bizarra, porque falamos sobre gramática e língua portuguesa e, no entanto, as pessoas compram bilhete para ir ver.”
https://observador.pt/especiais/ricardo-araujo-pereira-esta-aliviado-por-nao-ter-poder-nenhum-gregorio-duvivier-nao-concorda-onde-vai-parar-esta-amizade/
A língua de um povo é uma ferramenta “de uso diário e que faz parte da identidade das pessoas” que a falam, admite Ricardo, para quem a produção de conteúdo dirigido ao público do Brasil exige algumas adaptações a nível de texto, mas também de “entrega”. “Há aqueles cuidados mínimos a ter quando estou a falar para uma plateia de brasileiros”, reconhece. “Eu não consigo fazer o sotaque e sinto-me estúpido a fazer o sotaque. Mas se posso dizer trem em vez de comboio, assim farei.”
“Usar uma palavra ou outra faz toda a diferença”, assim como falar com um ritmo menos acelerado e escolher temas com os quais os espectadores e leitores brasileiros se conseguem relacionar, como a realidade de “ser humano no século XXI” ou “a ideia de que estar vivo é meio desconfortável”.

Afinal, a familiaridade dos brasileiros com o entretenimento português é muito limitada, sendo que, pelo contrário, nós conhecemos a cultura do Brasil em profundidade — através das telenovelas, dos filmes para crianças, dobrados em “pt br” até aos anos 90, do conteúdo digital consumido pelas novas gerações e da música.
“O humor português não chega ao Brasil, aliás, a cultura portuguesa” em geral, “o que é uma pena, porque há coisas impressionantes de Portugal que precisavam chegar aqui”, admite Fábio Porchat. “A verdade é que o Brasil é um país muito grande” e que valoriza muito a própria cultura — “o único país no mundo em que os top ten de música são [inteiramente] em brasileiro. Não tem um americano nas rádios brasileiras.”
Hugo Nóbrega reconhece que o sotaque europeu é um obstáculo à expansão dos humoristas portugueses no Brasil, já que lá “não é muito normal a forma como nós falamos para dentro e enrolamos” as palavras. Contudo, o maior entrave que o produtor identifica é a “dificuldade dos portugueses em entender o Brasil do ponto de vista de mercado”. Se os comediantes brasileiros “veem Portugal como uma extensão rápida [do seu país], que dá para fazer um ‘bate-volta’ [viagem curta de um dia] — como eles dizem —, é complexo para um português ir ao Brasil fazer um fim-de-semana e voltar” logo a seguir.
Hugo enfatiza também a consistência necessária a qualquer artista que quer crescer do outro lado do Atlântico, algo a que os humoristas, ou performers portugueses em geral, não estão habituados. Um espectáculo que, no Brasil, aguenta “três ou quatro anos” em cena, dificilmente é exibido por mais de um ano em Portugal, por “medo de que o produto se esgote”.
Essa realidade não é muito diferente para quem deseja expandir a sua influência por estes lados, como demonstra a evolução da Porta dos Fundos no nosso país. “O Gregório começou no Teatro Aberto à frente de 400 pessoas. Depois passou para o CCB [Centro Cultural de Belém], no ano seguinte, onde atuou para 1400. Na terceira vez já foram 2500 no Coliseu”, explica Hugo Nóbrega. “Esta consistência, de voltar a vir e voltar a tentar, parece-me muito natural nos artistas com quem trabalho. Já o artista português tem muito a lógica de ir uma vez ao Brasil e de não tornar isso num objetivo muito consistente.”

“Também é importante perceber que o Brasil é um ‘aglomerado de países’, [que diferem] em termos culturais”, acrescenta Hugo, enfatizando que são poucos os humoristas que conseguem alcançar um sucesso generalizado. “Só quando há um fenómeno desta dimensão, como o Fábio ou o Gregório, é que se consegue ter uma escala nacional.” A diáspora também pesa na popularidade que certos artistas adquirem a nível internacional, sendo que em Portugal 35,9% do total de imigrantes são naturais do Brasil, o que totaliza perto de 575 mil pessoas, de acordo com os dados mais recentes divulgados pelo INE.
“Às vezes, vejo num cartaz no Coliseu dos Recreios que vem cá alguém do Brasil de quem eu nunca ouvi falar”, diz Ricardo Araújo Pereira. “E, no entanto, aquilo está cheio, e está cheio de brasileiros, porque vivem muitos cá”. Já no Brasil, apenas 10% dos estrangeiros residentes são portugueses — 14.669 ao todo, segundo o Observatório da Emigração brasileiro, o que corresponde a apenas 0,007% da população residente total, de quase 212 milhões de habitantes.
Se um artista brasileiro que visita Portugal é recebido por um número de conterrâneos que representa uma fatia considerável da população residente, o contrário já não acontece. Como se isso não bastasse, é de notar que, apesar da História e património cultural que partilham, ambos os países estão focados noutras geografias e sob uma forte influência anglo-saxónica. “Quantos humoristas espanhóis é que conhece?”, pergunta Ricardo Araújo Pereira. “Vou arriscar dizer que não conhece assim tantos, e, no entanto, eles estão aqui ao lado. Mas se eu pedir uma lista de ingleses ou de americanos, vai dar-me centenas.”
Em simultâneo, é curioso constatar que as antigas colónias portuguesas em África — cuja realidade é muito diferente, desde logo porque ganharam a independência 150 anos depois do Brasil — continuam atentas ao que acontece em Portugal. Segundo Ricardo, que já atuou em Cabo Verde, “ali sente-se o contrário, ou seja, que eles sabem muito mais sobre nós do que nós sabemos sobre eles”.
Os cabo-verdianos “são do Benfica, do Sporting e do Porto e, como nós, torcem pela equipa de Cabo Verde, mas também por Portugal no Campeonato do Mundo. […] Conhecem bastante bem a nossa realidade, até mesmo pelos anúncios”, conclui o humorista.
Gilmário Vemba admite que, também em Angola, “o mercado português é muito grande”. “Se vai lá um português fazer um espetáculo, tem a sala cheia”, acrescenta. Apesar de ser um país com uma área muito superior à da antiga metrópole (cerca de 14 vezes maior), Angola não tem estruturas suficientes para criar um circuito ativo de comédia. “Não temos salas em condições, nem apoios para a cultura”, explica o irmão, Miro. “Mas tentamos […] e têm surgido muitos humoristas que criam noites pequenas nas suas zonas e atuam em restaurantes e bares.”
“A nível de estrutura, Portugal tem muito mais para oferecer a um artista do que Angola”, reforça Gilmário. São muito mais raros os casos de portugueses que procuram lançar uma carreira nas artes a partir do país africano e “não há muita gente a olhar para lá e a considerar que o mercado [existente] vale a pena”.

