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(A) :: Pedidos de boicote, o papel de Infantino e uma luta em aberto pela final: que impacto pode ter uma crise diplomática no Mundial-2030?

Pedidos de boicote, o papel de Infantino e uma luta em aberto pela final: que impacto pode ter uma crise diplomática no Mundial-2030?

Crise migratória em Ceuta deixou expostas tensões entre Rabat e Madrid a poucos meses da decisão onde será a final do Mundial-2030. FPF segue situação mas, "até ao momento, sem qualquer preocupação".

Bruno Roseiro
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José Carlos Duarte
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Era o Dia do Trono em Marrocos. O Reino celebrou a 30 de julho a chegada ao poder de Mohammed VI, que ocorreu em 1999. Nas cerimónias deste ano, houve um convidado de honra: o presidente da FIFA. Gianni Infantino fez um discurso no país em que deixava grandes elogios ao país e ainda à organização do Campeonato do Mundo de 2030: “Será a melhor edição dos Mundiais, porque se vai celebrar no país mais bonito do mundo: Marrocos. Será, sem dúvida, o maior Mundial da História”. Ou seja, o mesmo guião que usou de forma exaustiva ao longo de três anos para a fase final de 2026 mas cortando os norte-americanos.

Nesse mesmo dia em que Infantino foi recebido por Mohammed VI em Rabat e fez este discurso galvanizador, a 300 quilómetros dali, cerca de 60 mil migrantes tentavam entrar a nado em Ceuta, um enclave de Espanha – país que, juntamente com Portugal, vai também organizar esse mesmo Mundial de 2030. Uma crise migratória sem precedentes afetava o território espanhol e desencadeava uma tempestade política no seio do Governo liderado por Pedro Sánchez.

http://twitter.com/thenews_fr/status/2083478879293849808

Enquanto Infantino pressionava os membros da FIFA a abrir o Mundial, entre outras competições, a investidores privados em troca de negócios milionários, os dois principais organizadores que vão receber mais jogos no Mundial-2030 enfrentavam uma potencial crise diplomática que ainda não ficou totalmente sarada. A entrada massiva de imigrantes em Ceuta expunha as tensões entre Rabat e Madrid e como as suas divergências ainda podem colocar em risco o futuro do maior evento desportivo.

Até agora, com base nas agências de informações espanholas, a principal suspeita é que Marrocos não tenha programado diretamente esta crise migratória. Mas o país também não fez nada para a travar e viu nela uma oportunidade para pressionar o Governo espanhol. Além de as autoridades marroquinas terem ficado incomodadas com a aproximação de Pedro Sánchez à rival Argélia, verificam-se outros pontos de tensão nas relações entre Espanha e Marrocos. Em particular, e relacionado com o Mundial, existe outro que tem ensombrado os preparativos para o evento: onde se vai organizar a final, a 21 de julho de 2030.

Para a Federação Portuguesa de Futebol, que vai coorganizar o Mundial-2030 com Espanha e Marrocos, não existem nesta fase motivos de alarme apesar do sucedido. “A FPF acompanha de perto, como é natural, todos os acontecimentos que possam estar relacionados com o Mundial-2030 e está em contacto permanente com as suas congéneres organizadoras, como é normal neste tipo de situações, não tendo sido suscitado, até ao momento, qualquer preocupação relacionada com esta matéria”, disse fonte oficial ao Observador.

https://observador.pt/especiais/marrocos-vs-argelia-e-espanha-no-meio-a-profunda-rivalidade-que-pode-ter-contribuido-para-a-crise-migratoria-em-ceuta/

Sumar quer Marrocos fora. Ceuta equivale a um boicote ao Mundial?

A crise migratória em Ceuta levou a que se questionasse a natureza das relações entre Espanha e Marrocos. Deveria o país voltar à atitude de business as usual e esquecer esta crise ou agir e obrigar as autoridades marroquinas a darem respostas contundentes? No Governo de Pedro Sánchez, ainda não existe uma estratégia bem definida. Por um lado, celebra-se a forma rápida como Marrocos ajudou a travar a entrada massiva de imigrantes. Por outro, vozes como a da ministra da Defesa, Margarita Robles, exigem uma profunda investigação e que surjam consequências.

Nos vários dossiês que marcam as relações hispano-marroquinas está a organização do Mundial-2030. E alguns parceiros da coligação que sustenta o Governo de Pedro Sánchez já vieram a público pedir que Espanha se distancie de Marrocos e abandone a organização conjunta da competição desportiva. O Sumar – partido fundado pela vice-primeira-ministra e ministra do Trabalho, Yolanda Díaz – foi o primeiro a quebrar o silêncio e a exigir que o reino do Norte de África fosse afastado da organização do evento desportivo.

“É claro para nós: não se pode organizar o Mundial de 2030 juntamente com uma monarquia que ameaça e utiliza pessoas desesperadas para os seus interesses geoestratégicos”, afirmou o deputado do Sumar, Nahuel González López. O coporta-voz do Livre, Jorge Pinto, expressou principalmente a mesma ideia: Portugal não deveria juntar-se a Marrocos na organização do Campeonato do Mundo.

http://twitter.com/nah_gon/status/2084353358228316263

Certo é que, entre a esquerda europeia, Marrocos enfrenta há décadas um grave problema reputacional: a soberania do Saara Ocidental, uma antiga colónia espanhola. Muitos partidos deste espaço político defendem a autodeterminação daquele território que a Coroa marroquina encara como parte inalienável do seu território. Esta questão perdeu, no entanto, relevo, principalmente em Espanha; o Governo de Pedro Sánchez tornou-se um dos maiores aliados de Rabat desde 2023 e o tom das críticas dos partidos da sua coligação diminuiu consideravelmente.

Mais além dos partidos de esquerda, as imagens de milhares de imigrantes nas praias de Ceuta reacenderam o debate nas opiniões públicas espanhola e portuguesa sobre o pragmatismo geopolítico de Marrocos e a sua determinação em impor-se nas relações com a Europa. A confirmar-se que não travou a crise migratória, Rabat evidenciou que sabe exatamente que alavancas acionar para pressionar o Governo espanhol e desestabilizar a União Europeia.

https://observador.pt/especiais/cinco-dias-depois-a-fome-chegou-ao-fim-em-ceuta-ate-o-cemiterio-serve-de-abrigo-para-quem-sonha-com-a-europa/

Apesar de o Sumar em Espanha ter feito pressão, dificilmente haveria um boicote à organização marroquina. O custo diplomático e político seria abismal, além de já haver contratos de patrocínios avaliados em milhões de dólares. Adicionalmente, Pedro Sánchez não deverá alterar o rumo em relação a Marrocos e está, acima de tudo, no final do seu mandato. Segundo as sondagens, deverá haver alternância política em Espanha. O Partido Popular (PP), liderado por Alberto Núñez Feijóo, deverá ganhar as eleições marcadas para 2027 (isto se não forem antecipadas) e montar uma coligação com o Vox, de direita radical.

Final do Mundial, o principal ponto de discórdia entre Espanha e Marrocos (com Trump pelo meio?)

Tal como o PSOE, o PP tem evitado criticar Marrocos publicamente, mantendo uma postura cautelosa. No entanto, Alberto Núñez Feijóo já deixou uma garantia. Numa entrevista ao jornal The Objective, o líder partidário exigiu que a Final do Mundial seja em Espanha. “Espero que Sánchez, enquanto seja presidente do Governo, não esteja a comercializar a sede da final do Mundial do ano 2030″, disse. Oficialmente, o Executivo espanhol também tem defendido essa solução, assim como a Real Federação de Futebol Espanhola.

A opinião da classe política espanhola converge na ideia de que Espanha deve pressionar a FIFA para que seja a escolhida para acolher a final. Inicialmente, quando o projeto do Mundial foi lançado sob iniciativa espanhola a que depois se juntou Portugal (e só mais tarde Marrocos, antes do teste com a Ucrânia), ficou desde logo claro que Madrid ou Barcelona seriam as cidades que acolheriam a derradeira partida que define o campeão do mundo.

"Espero que Sánchez, enquanto seja presidente do Governo, não esteja a comercializar a sede da final do Mundial do ano 2030."
Alberto Núñez Feijóo, líder da oposição espanhola e presidente do Partido Popular

No Governo de Pedro Sánchez e na Real Federação Espanhola de Futebol, olha-se com apreensão para a forma como Marrocos tem conquistado aliados na corrida para acolher a final. Este braço de ferro intensifica-se num cenário em que a partida inaugural terá lugar no mítico Estádio Centenário, no Uruguai – com Argentina e Paraguai a acolherem também um dos três jogos comemorativos do centenário na América do Sul –, uma solução que não sequer serve como um eventual prémio de consolação para as pretensões espanholas.

Um dos principais aliados da causa marroquina para acolher a final é Gianni Infantino. Como demonstra a visita a Rabat no Dia do Trono, o Rei Mohammed VI tem-se esforçado para cortejar e cair nas boas graças do presidente da FIFA. E não é apenas o suíço: o monarca tem mantido excelentes relações com Donald Trump, sendo que o Presidente norte-americano vê em Marrocos um grande aliado no Norte de África.

Para disputar a final, a Coroa marroquina elaborou uma sofisticada operação de charme para poder acolher a Final. Segundo a imprensa espanhola, Marrocos já terá angariado pelo menos reuniu 22 dos 37 votos na FIFA para que isso aconteça, para já, ainda que permaneçam várias dúvidas. Desde as monarquias do Golfo Pérsico aos países que integram a confederação africana, Marrocos tem sabido mexer as peças do tabuleiro a seu favor e soube montar uma rede eficaz, ainda que nada esteja garantido.

Nesta rede de influências marroquina, Donald Trump assume um papel de destaque, mantendo uma boa relação quer com as autoridades marroquinas, quer com Gianni Infantino. Em paralelo, o presidente norte-americano nunca escondeu a hostilidade que sente por Pedro Sánchez. A nível diplomático, Espanha tem sido o país europeu mais crítico da guerra no Irão e até não deu permissão para que as suas bases militares fossem usadas durante o conflito. Assim sendo, a ter de escolher, era óbvio que o líder dos Estados Unidos preferia que a final fosse em Casablanca, onde está a ser construído o grande estádio Rei Hassan II – que será o maior do mundo.

relatos na imprensa espanhola de que o Presidente norte-americano poderia inclinar a balança de vez para o lado marroquino. Porém, a Real Federação Espanhola de Futebol prefere não comentar diretamente o assunto. À The Atlantic, fontes ligadas ao processo reconheceram que Donald Trump exerceu uma grande influência no Mundial de 2026. Mas não é claro que o faça dentro de quatro anos, numa altura em que o chefe de Estado deverá estar já fora da Casa Branca.

Em todo o caso, a decisão sobre qual estádio acolherá a final do Mundial de 2030 ainda não tem data marcada. Olhando para o histórico recente, o anúncio costuma ser feito cerca de dois anos antes – no caso do Mundial-2026, por exemplo, o anúncio ocorreu em fevereiro de 2024. Ainda assim, um fator determinante pesará na escolha: a possível reeleição de Gianni Infantino no 77.º Congresso da FIFA, em 2027. Embora a decisão formal pertença aos 37 membros do Conselho da FIFA, o líder da organização tem um peso decisivo no sentido de voto dos restantes dirigentes.

Por agora, Marrocos tem ganhado ascendente junto de Gianni Infantino, ao passo que Espanha se tem afastado – sobretudo num contexto em que a UEFA tem liderado a oposição ao plano de Infantino de abrir o Mundial a investidores privados. Na Federação Espanhola, ainda assim, olha-se para um possível trunfo: a boa relação que o presidente da FIFA mantém o líder do Real Madrid, Florentino Pérez. Como lembra o El Mundo, esta sintonia poderá levar a final do Mundial ao Estádio Santiago Bernabéu – mas nada está ainda definido.

Os problemas com que Portugal já teve de lidar em cinco anos (e sempre de forma indireta)

No meio de tantas convulsões, Portugal tem conseguido sempre passar ao lado de tudo – estando sempre presente e com mudanças de liderança, não só no governo mas também na Federação Portuguesa de Futebol. No entanto, já teve de conviver com uma série de problemas que podiam ter ferido de morte a ideia de coorganizar um Campeonato do Mundo de futebol, assumida num plano ibérico em outubro de 2020.

https://observador.pt/2020/10/07/portugal-e-espanha-anunciam-candidatura-conjunta-ao-campeonato-do-mundo-de-2030/

À margem de um jogo de preparação entre Portugal e Espanha no Estádio José Alvalade, as duas federações assumiram de vez um rumor que há muito corria nos bastidores. Foi aí que assinaram aquilo que foi descrito como um “protocolo de cooperação” que veio “reforçar a união de forças para impulsionar a candidatura conjunta à organização do Mundial-2030, estabelecendo estratégias comuns e plataformas de cooperação a nível técnico e de organização de eventos desportivos”. “As duas federações prometem unir esforços também em diversas áreas, tais como responsabilidade social e na troca de experiências e conhecimentos”, explicaram em comunicado. Mais tarde, em junho de 2021, essa proposta de organização foi oficializada em Madrid, com a presença de todos os envolvidos a vários níveis: Felipe VI, Marcelo Rebelo de Sousa, Pedro Sánchez, António Costa, Luis Rubiales e Fernando Gomes. Em dezembro, num dos desenvolvimentos mais palpáveis, António Laranjo foi nomeado coordenador do projeto técnico de candidatura ao Mundial-2030.

https://observador.pt/2021/06/04/dois-paises-uma-forma-de-entender-futebol-vamos2030-a-candidatura-iberica-a-organizacao-do-mundial-de-2030/

A candidatura era forte, a oposição ainda mais. Do lado europeu, a Inglaterra tinha definido há muito a ideia de voltar a ter uma grande competição no país, podendo juntar-se, além da Rep. Irlanda, a Escócia, País de Gales e/ou Irlanda do Norte. O esboço de projeto acabou por cair, com os britânicos a optarem por focar as atenções na organização do Europeu-2028… e no Mundial feminino de 2035. Depois, a América do Sul. Por ser a edição do Centenário, e na sequência do Mundial-2014 no Brasil, Uruguai, Argentina, Chile e Paraguai juntaram-se numa potencial candidatura conjunta que tinha como grande obstáculo o investimento no plano financeiro mas que contava com essa parte mais “histórica” a jogar a favor. Na altura, chegou ainda a falar-se da possibilidade de haver um Mundial-2030 jogado na Europa, em África e na Ásia, num projeto entre Grécia, Egito e Arábia Saudita, mas o plano começou e acabou naquilo que eram os objetivos sauditas.

Entre este contexto, sobrava um “problema”: Marrocos. Além do investimento que foi feito no futebol como veículo de uma reinvenção social do país, como se voltou a ver agora no Mundial-2026 com uma equipa que foi sendo “reforçada” por um scouting que aumentou bastante o leque de opções para a formação e para o conjunto principal, o rei Mohammed VI há muito que ambicionava organizar uma grande competição a nível internacional para, a partir daí, suprir uma das lacunas que existem ainda em Marrocos: centros e campos de treino, além de estádios com melhores condições. Depois, era fazer as contas: 2010, África (neste caso África do Sul, primeiro país do continente a receber um Mundial); 2014, América do Sul (Brasil); 2018, Europa (Rússia); 2022, Ásia (Qatar); 2026, América do Norte (Estados Unidos, México e Canadá); 2030… África?

A partir daí, Portugal e Espanha foram tentando jogar os seus trunfos mas as cartas nem sempre estiveram do seu lado. Longe disso. E por cada movimento em busca da solução, vinha pelo menos outro problema.

Questão 1: a aposta na Ucrânia para se juntar à organização do Mundial-2030. Quando a proposta ibérica já parecia “fechada”, Nyon, onde fica a sede da UEFA, recebeu algo que já tinha sido adiantado uns dias antes pelo The Times – a candidatura passaria a ser tripartida. “Pode parecer inesperado mas foi uma decisão lógica e natural. A devastação, a fuga de milhões de ucranianos e a incerteza em relação ao futuro pesou na vontade de integrar a Ucrânia nesta candidatura, que mereceu desde a primeira hora incondicional apoio do presidente da UEFA. O futebol é muito mais que futebol, é superação, compromisso, resiliência e inspiração”, explicou na cerimónia Fernando Gomes, então presidente da Federação Portuguesa de Futebol.

https://observador.pt/2022/10/03/a-surpresa-guardada-para-quarta-feira-foi-antecipada-ucrania-junta-se-a-portugal-e-espanha-na-candidatura-ao-mundial-de-2030/

Problema? Essa possibilidade, que na verdade nunca chegou a ser muito bem “explicada” (exemplo de uma questão que não foi respondida: se em 2030 o país ainda estivesse em guerra após a invasão da Rússia, como seria?), foi avançada no 222.º dia de ataque russo mas acabou por cair cerca de cinco meses depois. Por um lado, a incerteza logística e em termos de segurança era ainda maior, com um cenário de fim de conflito mais afastado a breve prazo. Por outro, Andriy Pavelko, líder da Federação Ucraniana de Futebol, foi detido por suspeitas de corrupção e desvio de fundos destinados à construção de uma fábrica de relvados artificiais para campos de futebol. Solução? Com a FIFA a trabalhar nos bastidores, entrou… Marrocos.

O país africano já tinha perdido cinco corridas e começou a perceber que a sexta derrota podia estar também a caminho, depois dos insucessos em 1994, 1998, 2006, 2010 e 2026. Com isso em mente, o rei Mohammed VI anunciou em março de 2023 que Marrocos passaria a integrar a candidatura ibérica, apesar da reticência que a Real Federação Espanhola de Futebol começou a manifestar inicialmente. Com isso, não haveria um projeto isolado de África e a ideia tripartida entre Arábia Saudita, Grécia e Egito caía de forma natural – e, mais tarde, para que não subsistissem dúvidas, a FIFA “anulou” a proposta da América do Sul colocando os três primeiros jogos, que marcarão a estreia de Uruguai, Argentina e Paraguai, nos respetivos países, por forma a comemorar os 100 anos de Mundial no Centenário, no Monumental e no Osvaldo Domínguez Dibb. No entanto, estava para chegar mais um “terramoto” com impacto direto na candidatura ibérica.

https://observador.pt/2023/03/15/portugal-confirma-candidatura-ao-mundial-2030-com-espanha-e-marrocos-participacao-da-ucrania-clarificada-em-tempo-oportuno/

Questão 2: a polémica na Real Federação Espanhola de Futebol no seguimento do beijo do então presidente, Luis Rubiales, à jogadora Jenni Hermoso na cerimónia de medalhas para as vencedoras do Mundial feminino de 2023. Ao longo de três semanas, até à demissão da liderança de RFEF, o caso Rubiales foi somando capítulos atrás de capítulos, das pressões internas e externas para que deixasse o cargo (algo que nem mesmo perante uma suspensão de 90 dias por parte da FIFA acabou por acontecer) às polémicas que foram sendo destapadas por usos indevidos de fundos, passando pelas tomadas de posição das internacionais da Roja e pela queixa-crime por agressão sexual de Jenni Hermoso, o então número 1 da RFEF tentou resistir a tudo, multiplicou entrevistas a tentar justificar (sem sucesso) a sua inocência num processo que chegou a catalogar de “perseguição política” mas acabou mesmo por capitular de vez a 10 de setembro de 2023.

https://observador.pt/2023/08/24/foi-mesmo-um-beijo-de-despedida-luis-rubiales-vai-apresentar-a-demissao-de-presidente-da-federacao/

O sucessor, primeiro de forma interina e depois como vencedor de uma corrida onde era o único candidato, também não ficou muito tempo. No entanto, foi com Pedro Rocha nessa condição, o que na altura “bastava” para a FIFA tendo em conta que a prioridade era afastar o “ativo tóxico” que se tornara Luis Rubiales, que a candidatura entre Portugal, Espanha e Marrocos ganhou a organização. E, para evitar problemas futuros, o caso seguinte na RFEF foi resolvido de forma bem mais célere: Pedro Rocha foi acusado de abuso de poder, acabou suspenso e destituído pelo Tribunal Arbitral do Desporto, houve novas eleições e entrou no cargo Rafael Louzán, que liderava a Federação da Galiza e veio “estabilizar” de vez a RFEF a partir de 2024.

https://observador.pt/especiais/de-alvalade-a-madrid-e-passando-pela-ucrania-para-chegar-a-marrocos-como-a-versao-4-0-de-uma-candidatura-trouxe-o-mundial-ate-portugal/

A decisão foi anunciada por aclamação e unanimidade em dezembro de 2024, com a candidatura única ao Mundial-2030 entre Portugal, Espanha e Marrocos a ser confirmada com os três jogos iniciais disputados no Uruguai, na Argentina e no Paraguai. Mais: a Arábia Saudita ficou com o caminho livre para alcançar aquilo que mais queria, podendo organizar como único país, como acontecera com o Qatar, o Mundial-2034.

https://observador.pt/2024/12/11/agora-sim-yalla-vamos-fifa-confirma-mundial-2030-em-portugal-espanha-e-marrocos/

Foi durante esse hiato que aquilo que parecia definido começou a tornar-se uma dúvida – e um motivo de disputa. Em condições normais, até por estar na génese da co-organização, Madrid parecia ser uma escolha óbvia para a final tendo em conta o projeto de renovação do Santiago Bernabéu apesar da contestação que foi surgindo da Catalunha, tendo em conta que também o Camp Nou está a ser totalmente renovado. Contudo, no meio desses avanços e recuos, o novo Estádio Hassan II, em Casablanca, que com 115 mil lugares passará a ser o maior recinto de futebol do mundo superando o Estádio 1.º de Maio Rungrado, na Coreia do Norte, entrou na luta para acolher a decisão do Mundial. Mais uma vez, Portugal não estava nessa corrida.

Desde início que a posição de Portugal ficou definida: receber uma meia-final, ter cerca de 12 a 15 jogos da fase final que correspondem a cerca de 15% do total (contabilizado para 48 equipas, podendo aumentar se o Mundial-2030 já tiver mesmo 64 seleções), apresentar os três maiores estádios do país como são Luz, Alvalade e Dragão e preparar mais de 30 centros de treino. Tudo com uma garantia, que desde início foi uma condição inegociável – não havia investimentos avultados como no Europeu de 2004, que deixou alguns elefantes brancos sem tanta rentabilização como aconteceu em Aveiro, Leiria, Coimbra e Faro/Loulé.

“É um momento histórico, também para o Estado português. O trabalho feito pela Federação foi notável e o Governo também esteve empenhado. Portugal não foi escolhido por acaso. Agora, Portugal irá apresentar uma carta de intenções, que apresenta obrigações e responsabilidades em relação à organização deste Mundial que junta dois continentes, várias culturas e demonstra que o desporto pode ser integração e coesão. Estamos numa fase primitiva, o trabalho era garantir que Portugal estava na organização e está feito. Vamos ter três estádios que são os únicos que cumprem requisitos, mais de uma dezena de jogos e não vamos construir novos recintos. Vai haver impacto positivo no PIB, vai criar postos de trabalho e gera maior receita fiscal”, disse Ana Catarina Mendes, então ministra Adjunta e dos Assuntos Parlamentares, numa audição após requerimento potestativo da IL na Comissão de Cultura, Comunicação, Juventude e Desporto.

https://observador.pt/2023/10/25/tres-estadios-mais-de-30-centros-de-treinos-ate-15-dos-jogos-o-sonho-de-uma-meia-final-o-papel-de-portugal-no-mundial-2030/

“Foi apresentada uma estimativa de custos mas só agora começa tudo com carta de intenções, só agora se vai saber quanto se vai gastar. O plano de mobilidade, de segurança e de saúde estarão sempre garantidos, custos é prematuro porque não sabemos a realidade daqui a sete anos. O Estado e a Federação estarão envolvidos no melhor Mundial de sempre, que é a celebração do Centenário. É um momento de afirmação do desporto mas também de racionalizar todos os investimentos feitos ao longo dos anos. Daí ser preciso reforçar que não vai ser construído nenhum estádio e que existem mais de três dezenas de centros de estágio e de treino. Veremos se é preciso reforçar ou melhorar as suas respostas, sendo que são infraestruturas que ficarão para os nossos jovens praticarem desporto. Não implica custos de dinheiros públicos, sustentabilidade é a palavra de ordem. Sustentabilidade económica, sustentabilidade social e também sustentabilidade ambiental. Em 2004 tivemos a avaliação sobre as derrapagens. Há coisas que devemos aprender com o passado e uma delas é não construir estádios novos”, acrescentou nessa mesma audição, em outubro de 2023.

O tema do Mundial-2030 não mais voltou a ser abordado nestas condições até esta terça-feira, com o Livre, através do porta-voz Jorge Pinto, a defender que Portugal deve rejeitar uma coorganização com Marrocos depois da entrada em massa de migrantes em Ceuta vindos do norte de África. “Perante o que tem acontecido, exige-se uma decisão corajosa: Portugal não pode compactuar com a organização conjunta do Mundial-2030 com Marrocos. Tudo faremos para que não fiquemos tristemente associados à organização com um país que mostrou não ter capacidade nem dar confiança”, escreveu na rede social BlueSky.