Na poítica dos nossos dias e no estudo da Ciência Política, lemos e assumimos que o Estado liberal é neutro e que deve ser isso mesmo perante as várias conceções da vida boa.
Não se privilegiar uma religião, uma moral, uma filosofia ou uma tradição cultural em detrimento de outra, limitando-se a garantir um quadro que assegure valores “comuns” dentro do Estado de Direito como a liberdade individual, a iniciativa privada, a igualdade perante a lei e a convivência entre cidadãos. No Ocidente e na sua filosofia política moderna, esta concessão contribuiu para reduzir conflitos confessionais e ideológicos que marcaram séuclos da nossa história.
Mas existirá verdadeiramente a neutralidade? Ou será antes, simplesmente, uma construção teórica que dificilmente resiste à observação da realidade?
A meu ver, o Estado liberal não é neutro, nem poderia sê-lo. O que sucede é que, ao contrário de outros modelos políticos que assumem explicitamente a sua orientação ideológica, o liberalismo tende a apresentar os seus próprios pressupostos como se fossem simples exigências da racionalidade ou do próprio funcionamento do Estado de Direito, ocultando que também eles resultam de escolhas normativas e de uma determinada conceção da sociedade.
Vejamos que o funcionamento de qualquer governo contraria este princípio. Nenhum executivo chega ao poder sem um programa político, sem prioridades, sem objetivos estratégicos e sem uma determinada visão do país que pretende construir. A ação governativa é ditada por escolhas, e toda a escolha implica inevitavelmente a valorização de certos princípios em detrimento de outros.
Seja a aumentar o investimento na escola pública, na baixa de impostos, incentivos à natalidade, modificar a política migratória ou redefinir verbas orçamentais. Tudo isto consiste numa tradução em políticas públicas, uma determinada ideia sobre aquilo que considera-se desejável para a comunidade política.
Essa escolha pode ser mais ou menos acertada, mais ou menos discutível, mas nunca é neutra. É precisamente essa dimensão normativa que distingue a política da mera administração. Governar é tomar decisões, gerir e eleger os valores que merecem ser promovidos e quais devem ceder perante outros.
Por esta razão, considero que qualquer força política que conquiste legitimamente o poder através das eleições governará sempre segundo uma determinada agenda ideológica. Não vejo nisto qualquer problema. É mesmo inevitável e desejável, desde que essa agenda seja sufragada democraticamente, respeite os limites constitucionais e possa ser substituída pelos cidadãos através da alternância política.
Seria quase certo que qualquer um de nós, com essas responsabilidades governativas, teríamos uma visão concreta sobre aquilo que gostaríamos de imprimir ao nosso país. É desonesto fazer por esconder, em nome de uma determinada neutralidade, por mais sério e benéfico que esse ideal liberal seja.
Procuraria promover uma sociedade onde a propriedade privada estivesse o mais dispersa possível, evitando concentrações excessivas de riqueza e de poder económico; onde a família fosse reconhecida como a principal instituição social; onde o princípio da subsidiariedade e da descentralização devolvesse protagonismo às comunidades locais e às instituições intermédias; onde as tradições nacionais fossem preservadas como património vivo; onde a luta de classes deixasse de ser encarada como motor de política; onde a economia valorizasse modelos corporativos capazes de harmonizar capital e trabalho; onde a religião católica fosse reconhecida pelo papel determinante que desempenhou na formação histórica, cultural e civilizacional de Portugal; onde a tolerância coexistisse com convicções firmes; e onde a propriedade privada permanecesse um dos pilares fundamentais da liberdade.
Muitos discordarão desta visão, como é natural numa sociedade democrática. Outros defenderão prioridades completamente diferentes. Mas aquilo que nenhum deles conseguirá fazer será governar sem qualquer escala de valores. A divergência reside no conteúdo da agenda, nunca na sua existência.
O problema começa quando uma determinada ideologia deixa de se apresentar como uma entre várias possibilidades legítimas e passa a reivindicar para si o estatuto de neutralidade. É precisamente isso que acontece, com frequência, no liberalismo do nosso tempo.
Valores como a autonomia individual, o pluralismo moral e político, uma determinada conceção de igualdade, a separação rigorosa entre religião e esfera pública ou a primazia dos direitos individuais são princípios legítimos e fundadores das democracias liberais ocidentais. Representam opções filosóficas concretas, desenvolvidas ao longo de uma tradição intelectual específica.
Nada impede que estes princípios sejam defendidos ou sufragados democraticamente. O que merece ser questionado é a tendência para os apresentar como simples exigências objetivas da razão, da ciência ou da inevitabilidade histórica, como se não fossem também escolhas políticas entre várias alternativas possíveis.
Quando uma visão do mundo deixa de reconhecer a sua própria natureza ideológica, torna-se frequentemente mais dogmática do que aquelas que critica. A convicção de que se governa sem valores acaba, paradoxalmente, por impedir qualquer debate sério sobre os próprios valores que já estão a orientar a ação do Estado.
Talvez devêssemos abandonar definitivamente o mito do Estado neutro. Não para rejeitar o Estado liberal ou o Estado de Direito, cujos méritos são inegáveis, mas para tornar o debate político mais honesto.
Toda a ordem política assenta numa hierarquia de valores; toda a lei traduz uma determinada visão da sociedade; toda a política pública promove um ideal, ainda que implicitamente. A diferença não está entre Estados com ideologia e Estados sem ideologia. Está entre aqueles que assumem os seus princípios perante os cidadãos e aqueles que os apresentam como se fossem simplesmente a ordem natural das coisas. A neutralidade absoluta nunca existiu nem existirá e o que temos são ideologias suficientemente bem-sucedidas para convencer os seus próprios defensores de que deixaram de ser ideologias.