No meu tempo de universidade tive um professor que me falava de uma certa “competenciativite-aguda”. Esta tendência de resumir todo o sucesso e todo o futuro a competências, métricas, sucessos. Como se toda a sociedade só possa sentir que tem sucesso se nivelar pelo Cristiano Ronaldo.
É uma opção, mas parece-me uma opção errada.
Há competências que nenhum exame é capaz de medir: decidir sob pressão, falhar sem desistir, liderar sem esmagar, cooperar com quem não escolhemos. São as chamadas, por alguns, competências para a vida. E depois existe toda a vida para lá das competências, dos canudos, dos “campeonatos”, dos sucessos históricos sempre em direto nas nossas redes sociais.
E vem esta reflexão porque, entre 3 e 8 de agosto, milhares de jovens escuteiros da Região de Braga acampam na Penha, em Guimarães, no ACAREG’26, o Acampamento Regional do Corpo Nacional de Escutas, sob o mote “Dar ComVida”.
Olhemos para o que ali acontece com olhos de educador:
Uma patrulha de seis adolescentes recebe um terreno vazio e, em horas, ergue o seu próprio campo: distribuem tarefas, gerem tempo e material, negoceiam desacordos, corrigem erros. Organizam-se, empreendem, inovam e resolvem criativamente os seus desafios.
Fazem-no dando espaço ao erro, aprendendo com ele, melhorando a sua resiliência e seguindo caminho, juntos, para o próximo desafio.
E fazem-no por uma semana inteira, superando o cansaço, criando memórias, vivendo numa comunidade nova que no último dia já os faz chorar de saudades.
Há uma ligação óbvia com as competências que a OCDE e o Fórum Económico Mundial colocam no topo do que o século XXI exige.
Aprende-se com as mãos, fazendo, enfrentando a dureza da vida ao ar livre, com fome à hora de jantar se ninguém se preparou para cozinhar. A consequência real, num espaço seguro, é um dos melhores processos de aprendizagem…
E há mais e mais importante do que isso, o que sustenta tudo o resto: o desenvolvimento integral, que junta as dimensões física, afetiva, do carácter, espiritual, intelectual e social e lhes dá sentido a cada atividade, em cada grupo, a cada nova etapa do desenvolvimento dos nossos jovens.
O método escutista assenta numa ideia quase radical nos dias de hoje – dar responsabilidade verdadeira a quem ainda não é adulto. O jovem de catorze anos que responde pelos mais novos não está a brincar aos chefes; está a descobrir que a confiança se honra. A autoestima que daí nasce não vem de likes, vem de ação, obra feita, amizade forjada em noites de acampamento e desafios superados.
O resultado transborda para todos nós. Uma sociedade que se constrói para lá dos diplomas, sem os substituir; constrói-se com cidadãos que aparecem – quando a mata precisa de ser limpa, quando o vizinho mais velho precisa de companhia, quando a catástrofe chega e são precisos braços. O escuteiro promete deixar o mundo um pouco melhor do que o encontrou. É daqui que nasce e é aqui que encontra o seu sentido em cada jovem.
Se multiplicarmos essa promessa por dezenas de milhares de jovens, temos um dos maiores programas de formação cívica do país, lado a lado com as famílias, o Estado, a sociedade.
Falamos tanto de preparar os jovens para o futuro. Talvez o futuro se prepare além dos rankings, numa montanha em Guimarães, entre tendas, muitos desafios e milhares de lenços de Escuteiro. Utilizando um método centenário, fundado por Baden-Powell.
E assim seguimos: Sempre Alerta para Servir, sendo felizes no caminho.