Amiúde recordo as palavras do meu Avô Materno Bretão, que afirmava que de pouco valia sair do seu lugar se não fosse para ir ter com outras pessoas amigas, dado que as casas que não eram as nossas apenas eram mais um amontoado de pedras.
Parece lógico assim dizê-lo, embora a cada segundo façamos o contrário, impelidos que somos para viajar e – supostamente – conhecer outras paragens. O meu próprio avô era um homem viajado, funcionário dos caminhos de ferro franceses (foi chefe de estação) chegou a vir a Portugal algumas vezes, tendo no entanto sempre o cuidado – dentro da sua rigidez moral e ética, muito graças a ter sido prisioneiro de guerra em Dachau entre 1940 e 1945 – de de facto saber onde estava, interessar-se por quem ali vivia, tendo sempre um pé na necessidade de incomodar ao mínimo a vida corrente das gentes que visitava.
Porque, na verdade, é de outra vida que buscamos ao partirmos em turismo, suspendendo a nossa existência quotidiana, como se se tratasse de um traste velho e desinteressante. Na maioria dos casos, não há relação entre estas duas vidas, a normal e a extraordinária, a de férias. Assumimos que são incompatíveis ou, no máximo, que do turismo e das férias alguma magia se possa desprender contaminando o ram-ram diário que nos conduz de locais de dormida aos locais de trabalho como autómatos contribuintes. Nunca estas nossas novas casas do quotidiano – modernas, uniformes, alinhadas como gaiolas sobrepostas em blocos de apartamentos sem um centímetro quadrado de terra onde uma pessoa possa respirar – serão visitadas por turistas, apesar da riqueza humana que as habita. E é aqui que as pessoas habitam, sonham, se zangam e se amam, são humanas. Escolhemos, no entanto, invadir, por critérios única e exclusivamente comerciais, aldeias e vilas à beira-mar, tornando aí a vida estéril e insuportável. Visitamos assim cadáveres, descobrimos o nada e a ausência das pessoas que fizeram daqueles sítios o que eles são. A descaracterização e a gentrificação tomam conta de tudo, sem parar, sem haver um momento em que, por norma, Estados e governos digam: “temos de parar com isto”.
Senti claramente esta sensação em Carcassonne, há mais de 30 anos, procurava então Cátaros, e encontrei apenas profanação, desrespeito, a estupidez dos porcos, feios e maus. Sendo que eu era um deles, apesar de historiador, ao também visitar esta cidade património da Unesco. Hoje, Óbidos, Guimarães, Lisboa…, rivalizam com esta pobre cidade da Occitânia, mas também Granada, Córdoba, Sevilha, Barcelona… são desoladoras, apenas para ficar por alguns exemplos da nossa Península. Vertendo a questão em números, a situação pode para alguns ficar mais clara: por exemplo, a vila de Sintra que tem 30 mil habitantes, é visitada anualmente em média por seis milhões de turistas, dos quais metade compra bilhetes. Se pensarmos que, na semana que passou, a Europa e o Mundo ocidental pararam em horror classificando de invasão digna de fechar o espaço Schengen a vinda de 40 a 60 mil marroquinos ilegais para uma povoação que conta com 84 mil habitantes permanentes, esta equação poderia dar que pensar.
Mas não dá, porque estas pessoas não eram turistas, não viajavam em aviões que queimam por hora de 2 500 a 12 000 litros de jet fuel, e não iam destruir as economias de um ano em algumas semanas de alienação, engorda e bronzeio. Eram pessoas, como nós, que procuram ter o que nós temos, e consequentemente – assim que o obtenham – também irão fazer parte do número de turistas que viajam para não conhecer, compreender ou respeitar, tirando diariamente biliões de fotografias que engordam bancos de dados vigiados de perto por multinacionais que criaram esta monstruosidade.
Todos conhecemos exemplos internacionais críticos das consequências do turismo, desde a lixeira nepalesa do Evereste ao caos nauseabundo de Santorini. Existem no entanto, entre este admirável mundo novo que tudo nivela e corrompe, exemplos de resistência: a Dinamarca fechou desde 2019 as suas ilhas Faroé para “manutenção” durante a primavera verão, o mesmo acontecendo em locais como a praia de Maya Bay, na Tailândia. E aparece como corrente o turismo sustentável, partindo-se do princípio – não verbalizado – que o outro é insustentável e destrutivo. É lógico e inegável.
Como espécie – porque todos os povos, de todos os hemisférios, latitudes e longitudes, adoptaram este modelo – temos um problema grave com o turismo, que é responsável por cerca de 8% d as emissões globais de gases com efeito de estufa, além de consumir recursos vitais, acelerar a destruição de habitats vulneráveis e descaracterizar sem regresso possível as sociedades que toca. Trata-se de um elemento que define as nossas sociedades e que está profundamente errado dado que não acrescenta nada a quem visita e, no processo, torna a vida dos visitados insuportável.
Não seria tempo de alterar, como prioridade civilizacional – política, económica, social, educacional – esta realidade? A humanidade, toda ela incluindo os que fugiram para Ceuta há poucos dias, agradeceria e engradecer-se-ia um pouco mais.