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(A) :: O Presidente da República não é o Conselheiro Acácio 

O Presidente da República não é o Conselheiro Acácio 

É o Acácio que, hoje, exige que o  Presidente venha a público declarar, em tom grave, que a corrupção é má e que a  dignidade das instituições importa.

Rui Duarte
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O acacianismo é a língua oficial da economia do ruído: muito volume, pouca  substância e, sempre, sempre, a reclamar mais um comunicado.

Há três semanas que uma parte sonora do país anda sinceramente indignada. Não com  a inflação, não com as listas de espera do SNS, não com o preço do metro quadrado, mas com o silêncio. Mais precisamente, com o silêncio do Presidente Seguro que teve  a ousadia quase indecorosa de esperar pelos factos antes de disparar uma opinião.  Uma total heresia na república das fogueiras. Habituámo-nos a um Presidente que  comentava tudo, do Indo-Pacífico ao estado de alma da seleção, e por isso a  sobriedade soa-nos agora a afronta como quem, no meio de uma feira, se recusa a  gritar.

Convém então dizer o óbvio, que é, em Portugal, quase sempre a coisa mais subversiva  que se pode dizer: um Presidente que fala pouco e a horas não é um Presidente  ausente. É um Presidente que leu a Constituição. O nosso é um sistema  semipresidencial, o que significa, para os distraídos, que o Chefe de Estado é um  moderador, um árbitro, uma magistratura de influência e não um comentador residente  com direito a antena permanente. O árbitro que apita a toda a jogada não é um bom  árbitro; é um exibicionista de apito.

Olhemos para os vizinhos, que é sempre higiénico. Na Finlândia, semipresidencialismo  como o nosso, Alexander Stubb gasta o seu capital político a servir de interlocutor entre  Washington e Kiev, e não a emitir boletins meteorológicos sobre a polémica doméstica  da semana. Na Áustria, também semipresidencial, Alexander Van der Bellen dispõe, no papel, de poderes que fariam corar um monarca: nomeia chanceler, pode dissolver o  parlamento. E, no entanto, quando o país mergulhou na sua crise de formação de  governo, usou-os com a parcimónia de quem sabe que a autoridade se gasta com o  uso. Até a irlandesa Catherine Connolly, que ninguém acusará de timidez, definiu o  cargo numa frase que devia estar afixada à porta de Belém: ser uma Presidente que  escuta, que reflete e que fala “quando é necessário”. Reparem no advérbio. O  contraexemplo é, previsivelmente, francês. A Quinta República deu ao mundo o  Presidente-executivo, aquele que governa de manhã e opina à tarde, e o resultado é  uma vida pública em estado febril permanente. É exatamente o modelo que alguns, por  cá, parecem ter saudades de importar não pela eficácia, mas pelo espetáculo.

E aqui chegamos ao ponto que a “economia do ruído” preferia que não se tocasse. Há  dois Portugais. Há o Portugal real de noventa e nove por cento das pessoas que se  levantam, produzem, faturam, tratam de doentes, ensinam miúdos, exportam, e que  não perdem dez segundos do seu dia com o caso episódico da jornada. E há a  economia do espetáculo mediático: um ecossistema pequeno, barulhento e faminto,  feito de painéis, rodapés e indignações agendadas, que precisa de um Presidente-comentador como o motor precisa de gasolina. Para essa economia, o silêncio de  Seguro não é sobriedade, é desemprego. E o drama é que confundimos os dois.  Tomamos o PIB do escândalo pelo PIB do país. E, enquanto uma nação inteira fabrica  valor em silêncio, a outra vive recorrentemente e ritualmente da fogueira de pessoas.

Ora, para descrever a fogueira, não há melhor cronista do que o nosso Eça. Lembram se de Juliana, a criada de “O Primo Basílio”? Aquela que descobre as cartas de Luísa e,  a partir de um punhado de papéis alheios, monta uma pequena indústria de chantagem  e passa a viver do medo dos outros? A nossa economia do espetáculo é uma Juliana à  escala nacional: não produz nada, mas prospera magnificamente na intimidade  queimada do próximo. Cada semana tem a sua carta comprometedora, o seu caso, a  sua vítima designada. Numa é o gabinete assaltado; noutra, as obras de um ministro;  na seguinte, há de ser outra coisa qualquer… porque a fogueira, para arder, precisa de  lenha nova.

E depois há o coro. Todos os autos-da-fé nacionais têm o seu”Conselheiro Acácio” aquela figura solene, também ela saída da genialidade de Eça em “O Primo Basílio”, que enuncia obviedades com a gravidade de quem revela segredos de Estado, e que  deu à língua portuguesa o adjetivo “acaciano”. É o Acácio que, hoje, exige que o  Presidente venha a público declarar, em tom grave, que a corrupção é má e que a  dignidade das instituições importa. Como se alguém duvidasse. Como se governar  fosse debitar máximas. O acacianismo é a língua oficial da economia do ruído: muito  volume, pouca substância e, sempre, sempre, a reclamar mais um comunicado.

O Presidente Seguro recusou-se a ser o sacristão que acende o círio a horas certas.  Preferiu aborrecer o país acaciano e ler a Constituição do que alimentar o circo que  corre de caso em caso. E é preciso dizê-lo com todas as letras: o tédio institucional é  uma política económica. Cada semana em que a Presidência não alimenta a fogueira é  uma semana em que noventa e nove por cento do país pode voltar ao trabalho sem o rodapé a piscar. Andam por aí a chamar-lhe silêncio. Eu chamo-lhe higiene. E, num país  viciado em fumo, a maior das ousadias é não deitar mais lenha na fogueira e deixar que  os noventa e nove por cento respirem.