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(A) :: Cinco dias depois, a fome chegou ao fim em Ceuta. Até o cemitério serve de abrigo para quem sonha com a Europa

Cinco dias depois, a fome chegou ao fim em Ceuta. Até o cemitério serve de abrigo para quem sonha com a Europa

Milhares que atravessaram a fronteira entre Marrocos e Espanha passaram dias sem comer. Cruz Vermelha começou a distribuir refeições na praia. Mesquita e cemitério são outros pontos de apoio.

Inês André Figueiredo
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João Porfírio
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Enviados especiais do Observador a Ceuta

Sentado numa pedra e em tronco nu, Lebal Abdelkader apressa-se a comer uma baguete de atum que um amigo acaba de lhe passar para as mãos. É a primeira refeição que faz desde que chegou há dias a Ceuta. Pela primeira vez desde o início da crise migratória, a Cruz Vermelha da região esteve a distribuir comida na Playa Del Trampolín, onde permanecem centenas de migrantes.

Nas costas e no peito tem escrito, a caneta azul, a palavra “asilo”, em espanhol. É da Argélia, já esteve em vários países e passou os últimos sete meses em Marrocos, entre Casablanca e Tânger. Quando viu, nas redes sociais, vídeos de milhares de pessoas a atravessar a fronteira resolveu tentar a sorte. A primeira tentativa não funcionou. Teve um ataque de tosse no mar após cinco horas a nadar e foi salvo pelas autoridades marroquinas. Mas não desistiu: aproximou-se mais da fronteira espanhola por terra e foi bem-sucedido numa segunda chance.

Esperou mais de dez anos para chegar a Espanha. Aos 15 anos de idade embarcou num pequeno navio com destino ao país onde sonha viver e após alguns dias em alto mar foi intercetado pelas autoridades argelinas, que o levaram de volta a casa. Tentou chegar à Europa a partir da Turquia e alcançou a Bulgária, mas foi detido e deportado. Também não conseguiu pela Tunísia. Agora, fez o percurso via Marrocos — e acredita que, finalmente, vai chegar a bom porto.

Em Ceuta, é apenas um entre milhares de migrantes, mas está preparado para aguardar o tempo que for necessário pela proteção internacional que, espera, lhe permitirá ficar em território europeu. Com ou sem comida. Ao fim de seis dias sem comer, admite que foi “um pouco difícil”, mas reage como se fosse apenas mais um dia na vida: “Conseguimos lidar com a situação porque estamos habituados a este tipo de coisas.”

Lebal acrescenta: “Compreendemos que o Estado espanhol não nos tenha ajudado logo porque éramos muitos e não conseguiam dar comida a tanta gente.” Acredita que, de hoje em diante, haverá mais dias sem fome. O mesmo garante a Cruz Vermelha de Ceuta, através do porta-voz, Germinal Castillho: “A partir de agora, [a distribuição de comida] será todos os dias. O serviço será constante.”

“Queremos ir para a Europa porque é um lugar seguro”

Uma baguete, duas latas de atum, um pacote com um doce, leite e água engarrafada. A fila não tem fim à vista. A Polícia Nacional espanhola organiza centenas de migrantes num pequeno monte junto às rochas e deixa avançar, à vez, grupos com cerca de 30. Ao aproximarem-se das carrinhas da Cruz Vermelha recebem a comida e são dirigidos novamente para a zona da praia, onde se sentam a desfrutar. “A comida está muito, muito boa. Está maravilhosa. Estamos muito felizes e agradecemos aos espanhóis”, diz Siddik, do Sudão, que está sentado de frente para o mar, com um grupo de seis amigos.

Uns conheceram-se ali, outros atravessaram a fronteira juntos, mas todos têm o mesmo objetivo: a União Europeia — e sentem que, agora, estão a um pequeno passo de o conseguir. “Fugimos da guerra e queremos ir para a Europa porque é um lugar seguro”, explica, enquanto mastiga a sandes que recebeu há poucos minutos. Os amigos, mais preocupados com a comida do que com a conversa, vão acenando com a cabeça. Estão “felizes”, mais tranquilos do que nos últimos dias. E estão crentes de que o pior já passou.

No ponto oposto da praia, outras equipas da Cruz Vermelha tratam dos feridos. E são muitos. Desinfetam feridas, dão injeções, tratam dos pés secos e esburacados de dias e dias a caminharem descalços. Enquanto isso, muitos migrantes fogem à barreira formada pela polícia, que tenta impedir que subam para a zona do CETI, o centro de acolhimento temporário de imigrantes que está cheio e onde praticamente todos desejam conseguir uma vaga. Ali, a Cruz Vermelha não chegou. O passa-palavra fez várias pessoas descerem até à praia, mas há outros que, com medo de não conseguirem regressar, preferem nem arriscar.

Cemitério serve de abrigo, mas porta da mesquita não se abre

Ao contrário da ajuda em larga escala, que só agora foi trazida pela organização internacional, colada à Mesquita Sidi Embarek há uma ONG (organização não governamental) que tem vindo a distribuir comida nos últimos dias. Halima Ahmed, porta-voz da Lunablanca, garante que têm sido entre 250 e 300 refeições todos os dias.

A água está à disposição num jarro gigante. Ou enchem o recipiente que trazem ou bebem todos do mesmo copo. Na mão levam um pão, uma caixa de plástico com massa à bolonhesa e uma colher de plástico. A última refeição quente que tinham comido foi antes de atravessarem a fronteira e ficarem sem rumo pelas ruas de Ceuta.

Desde quinta até segunda-feira, esta foi a única associação que ofereceu comida aos migrantes em Ceuta. E a esmagadora maioria nem sequer sabe que este apoio existe. Em comparação com os que estão na praia e à porta do centro de acolhimento temporário, são muito menos as pessoas que vêm procurar ajuda perto da mesquita. Há mais marroquinos e menos migrantes da África Subsariana. Esta é uma zona mais habitacional e muitos dos que por ali ficam já conhecem alguém a viver em Ceuta.

Nas traseiras do local de culto dos seguidores da fé islâmica, há migrantes que aproveitam o cemitério para comer e descansar. Estão espalhados por todo o espaço. Por estes dias, as campas à sombra servem de mesas e camas para quem mal tem conseguido sobreviver. Já na mesquita, há migrantes que tentam entrar e são impedidos. Quem está por perto explica: “Não estão limpos e só pessoas asseadas têm possibilidade de entrar.” Continuam a rezar na praia ou nos passeios da cidade.