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Jared Leto: um pesadelo em Hollywood

"Hollywood’s Darkest Secret" é o documentário da BBC sobre alegados casos de assédio e agressão sexual. E é "o retrato de um padrão, um modus operandi que se arrasta há 20 anos", escreve Susana Verde.

Susana Verde
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Normalmente, começo estes meus textos com um parágrafo sobre uma situação do quotidiano, uma qualquer idiossincrasia minha ou, simplesmente, alguma coisa que me veio à cabeça em consequência do objeto que me propus analisar. Um quebra-gelo com mais ou menos comicidade, consoante o meu nível de inspiração e de horas de sono. O facto é que, neste caso, não tenho nada disso. Depois de ter visto o documentário da BBC Jared Leto: Hollywood’s Darkest Secret, se estou a abrir a boca não é para gargalhar nem é um bocejo.

Em 2025, uma DJ norte-americana chamada Allie Teilz partilhou no Instagram algo que tinha escrito no Facebook em 2012: “You’re not really in LA until Jared Leto tries to force himself on you backstage at an M83 show… In a Kilt… and a snow hat”. Allie tinha 17 anos. Este post foi uma fagulha num eucaliptal, que levou centenas de mulheres a relatar experiências semelhantes, enquanto adolescentes. Isto despertou o interesse de Elena Clavarino, jornalista do AirMail e de Jessica Sartenaer, produtora e documentarista na BBC.

Estas investigações conduziram a este documentário. Uma das entrevistadas é Maureen Ryan. A autora de Burn it Down: Power, Complicity and a Call for Change in Hollywood diz que quando as pessoas lhe perguntavam o que é que ela esperava conseguir com o livro, ela respondia: “Duas coisas, quero ter orgulho dele e não ser processada”. Espero o mesmo. E estou a falar dos processos, porque falar de orgulho nem cabe aqui. Assim, ficam já a saber que é enfiar o barrete do alegadamente do início ao fim do texto. O resto são os meus juízos de valor fundamentados pelas palavras das vítimas, dos profissionais que investigaram o caso e das ilações que tirei da peça, no geral. Aquilo que se chama uma opinião, já que a justiça não julgou o alegado até à data.

Ao longo de pouco menos de uma hora, assistimos a testemunhos de mulheres que dizem ter cruzado caminho com Jared Leto quando eram adolescentes. Os relatos vão desde o assédio à agressão sexual. O ator-músico já negou as acusações, num curto comunicado em que disse que nunca ter assediado sexualmente ninguém “na minha vida”, classificando as denúncias como “absolutamente e categoricamente falsas”.

Pelo que nos é mostrado, aconteceu aos 14, aos 16, aos 17 anos das vítimas. A diferença de idades entre elas e Leto vai dos 15 aos 26 anos, mais coisa menos coisa. Apenas uma era maior de idade. “Alex” tinha 19 anos, à data dos eventos. No entanto, logo no primeiro contacto com o ator/cantor, numa after-party de um concerto em Londres da banda de Leto, os Thirty Seconds to Mars, à porta de uma casa de banho, sentiu-se imediatamente desconfortável. E de forma a criar alguma barreira de proteção, achava ela, perguntou-lhe se sabia que idade ela tinha. Ele disse que não. “Alex” mentiu e disse que tinha 17 anos, ao que Jared retorquiu: “A idade é só um número. De qualquer das maneiras, estamos na Europa”. Ele tinha 41.

É da história dela que sai um dos soundbites mais repulsivos do documentário: “If you’re gonna sleep here, you’re gonna wake up with a dick in your ass”. Os testemunhos de pessoas que trabalharam com o músico e ator (apenas duas aceitaram falar de forma de anónima, apesar de terem contactado mais de uma centena) são agridoces, porque embora validem as vítimas, também comprovam que o alegado abusador estava e está rodeado de facilitadores, que não só fechavam os olhos, como colaboravam no “recrutamento” das fãs-potenciais vítimas que Leto escolhia.

Os testemunhos e os relatos da investigação vão sendo salpicados com clips de Leto em conferências de imprensa, concertos ou entrevistas que isolados podem passar por corriqueiros ou até bem humorados, mas neste potpourri de esterco funcionam como um letreiro em néon.

Jared Leto começou jovem na televisão, onde arrancou muitos suspiros com os seus profundos olhos azuis. Depois, foi construindo uma carreira sólida no cinema (American Psycho, Requiem for a Dream, Panic Room) que culminou com o Óscar para Melhor Ator Secundário por Dallas Buyers Club. Aliás, na exata noite em que ganha o galardão, terá conhecido uma aspirante a modelo de 16 anos no elevador de um hotel, ficamos a saber. Tiveram relações sexuais ainda nesse ano. Pedia que lhe chamasse “daddy”, tratava-a por “my little girl”.

Parece-me óbvio que foi a música, não o cinema, que lhe trouxe o acesso a multidões de adolescentes sem controle parental, embaladas por um rock que apela à rebeldia e à angústia do mundo que não compreendem e não as compreende — banda que tem concerto agendado para Lisboa a 6 de abril de 2027, na MEO Arena. E pelos tais profundos olhos azuis, claro. Mas acho que não preciso de explicar que não é por uma adolescente de 15 anos suspirar por ele, que lhe dá o direito de lhe dar um autógrafo na zona dos seios e lhe atirar um “Bela prateleira!”. E não contente, ainda a convidar para uma festa no backstage, momento em que a mãe se chega a frente e lhe relembra que a filha tem 15 anos. Leto responde: “Ainda assim, é uma bela prateleira”. Eu tinha ido presa.

Os testemunhos e os relatos da investigação vão sendo salpicados com clips de Leto em conferências de imprensa, concertos ou entrevistas que isolados podem passar por corriqueiros ou até bem humorados, mas neste potpourri de esterco funcionam como um letreiro em néon. A maneira como ele pergunta às miúdas a idade antes de as chamar a palco e como o facto de serem menores não só não o demove, mas parece motivá-lo… Já para não falar da maneira como lhes toca. Há também uma entrevista bastante confrangedora, em que uma jornalista pergunta se o verso em que ele canta “I’ll wrap around your neck so tight. With love, love” terá um cariz sexual. Leto ri-se e diz que acha curioso que ela tenha feito essa associação e ainda atira um “Everything is about sex, except for sex. Sex is about power”.

Diz o bem sucedido ator que quase aos 30 anos decide ser vocalista de uma banda de rock com uma sonoridade que apela a um público maioritariamente feminino e juvenil. Estou só a constatar. E deixem-me dar aqui mais um la-mi-ré: se vos passar pela cabeça aquela narrativa do “Hoje, em dia uma pessoa nunca sabe que idade é que elas têm, com as maquilhagens e as pestanas e cenas”, reparem nas fotos das alegadas vítimas à data dos eventos. Elas não só pareciam menores, como pareciam mais novas do que eram.

O documentário da BBC não surpreende porque embora se intitule Hollywood’s Darkest Secret, já vimos tão ou mais dark do que isto, mais do que uma vez. Já vimos esta história contada outras vezes e o pantone não era muito diferente. É sempre sobre dinheiro, é sempre sobre poder, é sempre sobre vulnerabilidade, é sempre sobre uma relação desigual entre o predador e a presa.

Jared Leto: Hollywood’s Darkest Secret não entretém, não dispõe bem, não é extraordinariamente bem feito, embora seja bastante competente. É uma sucessão de relatos na primeira pessoa, muito repetitivos e que provam um ponto. Porque não foi uma fase má, um momento de insanidade, uma decisão equivocada. O que vemos é o retrato de um padrão, um modus operandi que se arrasta há cerca de 20 anos, uma opção apenas tomada por quem sabe que vai ficar impune.

E o que mais me deixa consternada, não só pessoalmente, mas também como parte da sociedade, é que nada no documentário surpreende. E não digo isto em jeito de “eu já o tinha topado”, “a mim, nunca me enganou” ou “estes meios, já se sabe como é”. Enquanto ator, até o acho bastante talentoso. Enquanto músico não é o meu género. Diria que, em princípio, também não sou o género dele. O documentário da BBC não surpreende porque embora se intitule Hollywood’s Darkest Secret, já vimos tão ou mais dark do que isto, mais do que uma vez.

Surviving R. Kelly veio-me logo à cabeça, mas é apenas um exemplo. E não quero com isto fazer um ranking de vítimas ou estabelecer a quem é que calhou a palhinha mais curta e foi alvo do mais monstro dos monstros. A questão é que já vimos esta história contada outras vezes e o pantone não era muito diferente. É sempre sobre dinheiro, é sempre sobre poder, é sempre sobre vulnerabilidade, é sempre sobre uma relação desigual entre o predador e a presa.

As frases repetem-se como num mantra “toda a gente sabe”, “toda a gente tem contas para pagar”, “não sou eu que me vou lixar por causa disto”. Já as alegadas vítimas são brindadas com uma cantilena que pouco varia entre o “ninguém as mandou para lá”, “habilitam-se!” ou “elas são piores do que eles e depois queixam-se”. E a família, não raras vezes, ainda leva com a sua própria melodia: “Se fossem uns pais como deve ser, nada disto tinha acontecido”. Mas sabem como é que isto não tinha acontecido? Como é que havia zero por cento de probabilidade de isto acontecer? Como a soma dos mil factores que usam para culpabilizar a vítima nunca teria resultado num abuso? Se não houvesse um agressor na equação.