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(A) :: O anti-Marcelo

O anti-Marcelo

Um Presidente que não tem nada para dizer ao país é um Presidente que o país pode perfeitamente dispensar. Seguro parece não ter pressa. Mas convém que não pareça parado ou, pior ainda, paralisado.

Miguel Santos Carrapatoso
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António José Seguro foi eleito, em grande medida, por ser e para ser uma espécie de anti-Marcelo Rebelo de Sousa. Por ser e para ser o avesso do omnipresente, torrencial e conspirativo antecessor. Por ser e para ser a síntese (disponível) de uma forma mais institucional de estar em Belém. Por ser e para ser, entre muitas outras coisas, a negação dos gelados da Santini, dos calções de banho presidenciais, das rábulas sobre os novos Távoras e sobre os recém-chegados rurais. Por ser e para ser um foco de previsibilidade e segurança política num país cada vez mais pantanoso — com Seguro não haverá seguramente guarda-chuvas em Paris, mas também não haverá cabeças a rolar em direto. É o que é.

Nos dois maiores testes que enfrentou até ao momento, António José Seguro manteve-se fiel ao que se propôs ser: discreto. Tão discreto que pareceu quase invisível. Ninguém de boa fé o poderá acusar de ter sido o catalisador dos enormes embaraços que atingiram o Governo. Aliás, Fernando Alexandre e Luís Neves bem podem agradecer a António José Seguro — tivesse o Presidente da República falado mais grosso e, olhando para o estado em que se encontra um Governo ultraminoritário, muito provavelmente não viveriam para contar mais um dia nos respetivos Ministérios. A piromania política já não é prática em Belém. E ainda bem.

Mas há riscos, naturalmente. A discrição pode ser rapidamente confundida com abandono taticista e falta de coragem política. Grande parte do poder de um Presidente, lição que Marcelo Rebelo de Sousa nunca foi capaz de interiorizar, reside no uso eficaz da palavra, na difícil gestão do tempo político. Ora, se Seguro não falar de todo, se falar sempre tarde ou se falar apenas para dizer o óbvio, deixará rapidamente de ser ouvido. Por quem se propôs representar, pelos partidos da oposição e, naturalmente, pelo primeiro-ministro. A banalização do uso da palavra do Presidente não deve dar lugar à banalização da mensagem do Presidente. Forma e conteúdo contam. Um Presidente que não tem nada para dizer ao país é um Presidente que o país pode perfeitamente dispensar.

Seguro, fiel à frase que ajudou a imortalizar, parece não ter pressa. Mas convém que não pareça parado ou, pior ainda, paralisado. O calendário está a acelerar, o braço setorial do Governo foi atingido (na Saúde, na Educação, na Administração Interna, no Trabalho e Segurança Social), o motor do Executivo parece gripado e a autoridade política do primeiro-ministro está comprometida. Seguro, por ação ou inação, não deve passar a mensagem de que tudo isto é normal ou inevitável, sob pena de permitir que se instale o pior dos sentimentos: a desesperança. Quando acontece, costuma produzir péssimos resultados.

Em política, as expectativas contam. António José Seguro, que veio para devolver alguma dignidade à forma de fazer política, deve ser julgado pelo que fizer e por aquilo que não fizer para impedir o pântano, sabendo, naturalmente, que nem tudo depende dele. De resto, será justo perguntar o que diria Luís Montenegro, o líder da oposição que se batia contra a “balbúrdia política e institucional” e a normalização das “anomalias”, de Luís Montenegro, o primeiro-ministro que convive com a desresponsabilização compulsiva de Fernando Alexandre e a incúria de Luís Neves, só para citar os exemplos mais recentes. Talvez não fosse assim tão benevolente.