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(A) :: O sismo em Nápoles reacendeu o medo do supervulcão. Afinal, o que está a acontecer nos Campi Flegrei?

O sismo em Nápoles reacendeu o medo do supervulcão. Afinal, o que está a acontecer nos Campi Flegrei?

Meio milhão de pessoas vive na zona considerada de maior risco, caso um dia aconteça uma erupção. O recente sismo de magnitude 4,7 voltou a lançar interrogações sobre o futuro.

Filomena Martins
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O terramoto de magnitude 4,7 que abalou a região de Nápoles na noite de sexta-feira, 31 de julho, não foi o mais forte dos últimos anos em Itália. Mas bastou para reabrir uma inquietação antiga. O epicentro localizou-se nos Campi Flegrei, uma vasta caldeira vulcânica onde o solo sobe há quase duas décadas, milhares de pequenos sismos foram registados nos últimos anos e cerca de meio milhão de pessoas vive na zona considerada de maior perigo caso um dia ocorra uma erupção.

O balanço mais recente aponta para pelo menos 26 feridos, centenas de pessoas retiradas temporariamente das suas casas, danos em edifícios, derrocadas localizadas e interrupções nos transportes. O choque principal, registado a apenas cerca de três quilómetros de profundidade, foi seguido por dezenas de réplicas. Não foi apenas mais um sismo. Foi um lembrete de que, debaixo de uma das áreas urbanas mais densamente povoadas de Itália, continua ativo um dos sistemas vulcânicos mais complexos da Europa.

Foi por isso que, poucas horas depois, a pergunta começou a repetir-se nos noticiários italianos, nas redes sociais e nas ruas de Pozzuoli: o vulcão está a acordar? Os cientistas não encontraram sinais que permitam dizer que uma erupção seja iminente. Mas também não escondem que os Campi Flegrei atravessam uma das fases de maior agitação das últimas décadas. O terreno continua a elevar-se, a atividade sísmica mantém-se intensa e os gases libertados pelo vulcão são analisados diariamente. O sistema está ativo. O que ninguém consegue dizer é como terminará esta crise.

Para perceber por que motivo um terramoto de magnitude moderada provoca tanta preocupação, é preciso começar por desfazer um equívoco. Quem chega a Nápoles olha quase sempre para o Vesúvio. A montanha domina a paisagem e a memória coletiva desde a destruição de Pompeia e Herculano, no ano 79. O vulcão que hoje concentra a atenção dos cientistas, porém, quase ninguém o vê. Está debaixo dos pés de quem vive em Pozzuoli, Bacoli e nos bairros ocidentais da cidade.

O vulcão escondido debaixo de Nápoles

Os Campi Flegrei não se parecem com a imagem que normalmente fazemos de um vulcão. Não existe um grande cone nem uma cratera principal. Mas há bairros inteiros, escolas, hospitais, linhas de metro, praias, portos e zonas industriais. Debaixo deles estende-se uma enorme caldeira vulcânica com cerca de 12 a 15 quilómetros de diâmetro, formada por antigas erupções explosivas que alteraram para sempre a geografia desta região.

No seu interior sobrevivem dezenas de crateras, cones vulcânicos, lagos e fumarolas. A Solfatara, conhecida pelas colunas de vapor e pelo cheiro intenso a enxofre, é apenas uma das manifestações visíveis de um sistema muito maior. O lago Averno, o Monte Nuovo ou Astroni fazem igualmente parte da mesma estrutura. É precisamente esta configuração que torna os Campi Flegrei diferentes do Vesúvio.

No Vesúvio, a atenção concentra-se numa cratera principal. Nos Campi Flegrei, uma futura erupção poderá abrir uma nova boca em diferentes pontos da caldeira. É essa imprevisibilidade que obriga o Observatório Vesuviano, do Instituto Nacional de Geofísica e Vulcanologia (INGV), a acompanhar continuamente a deformação do terreno, a atividade sísmica, a composição dos gases e dezenas de outros parâmetros que ajudam a perceber como evolui o sistema.

Apesar de toda esta vigilância, continua a existir uma pergunta para a qual ninguém consegue dar uma data. Quando voltará o vulcão a entrar em erupção?

Quando a terra começa a subir

Há uma palavra que qualquer habitante de Pozzuoli conhece bem: bradissismo. Durante séculos, a população limitou-se a observar um fenómeno estranho. Os cais deixavam de ficar ao mesmo nível do mar; algumas ruas elevavam-se lentamente; as portas deixavam de encaixar. Em certos períodos, a terra parecia subir; noutros, voltava a descer. Hoje sabe-se que esse movimento resulta da pressão exercida no interior do sistema vulcânico.

O magma existente a vários quilómetros de profundidade liberta calor e gases. Esses gases aquecem as águas subterrâneas, aumentam a pressão nas rochas e empurram lentamente a superfície para cima. Não acontece de um dia para o outro, é um processo que pode durar anos.

À medida que a pressão aumenta, a crosta começa a fraturar-se e é nesse momento que surgem muitos dos sismos sentidos pela população. O terramoto de magnitude 4,7 registado na sexta-feira faz parte desse processo. Não resultou do movimento de uma grande falha tectónica, como acontece em muitos sismos italianos, está associado à deformação da própria caldeira.

https://www.youtube.com/watch?v=phK5ETSeUwI

Os Campi Flegrei vivem uma nova fase de bradissismo desde 2005. O terreno elevou-se mais de um metro durante este período e a atividade sísmica intensificou-se. A crise mais grave do século XX ocorreu entre 1982 e 1984. Nessa altura, Pozzuoli subiu quase dois metros, milhares de sismos foram registados e cerca de 40 mil pessoas tiveram de abandonar temporariamente as suas casas. A erupção, porém, nunca aconteceu.

É precisamente essa experiência que explica a prudência dos investigadores. Christopher Kilburn, geofísico da University College London e um dos especialistas que há mais tempo acompanha os Campi Flegrei, lembra que uma crise como a atual pode terminar sem que o magma chegue à superfície. “Não há qualquer garantia de que a crise desta vez vá evoluir até à rutura e, mesmo que isso aconteça, isso não significa que se seguirá uma erupção. Pode simplesmente permitir que o gás acumulado escape mais rapidamente e pôr fim ao período de agitação.”

É uma ideia essencial para compreender o que está a acontecer em Nápoles. Um aumento da sismicidade não significa automaticamente que uma erupção esteja prestes a acontecer. Mas também não permite concluir que o risco desapareceu. Os cientistas continuam a observar a mesma sequência de sinais que, noutras épocas, antecedeu mudanças importantes no comportamento do vulcão.

E foi exatamente isso que aconteceu há quase cinco séculos: nessa altura, a Terra também começou por subir lentamente. Mas, depois, nasceu uma montanha.

A noite em que nasceu uma montanha

Há quase cinco séculos, os habitantes de Pozzuoli começaram a perceber que aquela terra deixara de ser um lugar estável. Durante meses, os sismos repetiram-se. O mar recuou em alguns pontos da costa. O terreno elevava-se lentamente, quase sem que ninguém conseguisse explicar porquê. Hoje sabemos que eram os sinais de uma crise vulcânica, mas na altura, eram apenas acontecimentos estranhos que alimentavam o medo.

Na noite de 29 de setembro de 1538, essa inquietação ganhou forma. Pouco depois das sete da tarde, abriu-se uma fissura junto à pequena povoação de Tripergole, nas margens do lago Lucrino. Primeiro ouviram-se estrondos vindos do subsolo, depois chegaram as explosões: cinzas, blocos de pedra e gases foram projetados para o céu enquanto a população fugia sem perceber o que estava a acontecer.

Nos dias seguintes aconteceu algo que parecia impossível: onde antes existia terreno praticamente plano começou a erguer-se uma montanha. Não ao longo de séculos, mas em poucos dias. Em menos de uma semana formou-se um cone vulcânico com cerca de 130 metros de altura. Ainda hoje lá está. Chama-se Monte Nuovo e continua a ser a marca mais recente de uma erupção dos Campi Flegrei.

Tripergole desapareceu. A linha de costa alterou-se. O lago Lucrino nunca mais voltou a ser o mesmo. A paisagem foi redesenhada diante dos olhos de quem ali vivia. Durante muito tempo, a erupção de 1538 foi conhecida sobretudo através dos relatos de cronistas da época. Nos últimos anos, investigadores do Instituto Nacional de Geofísica e Vulcanologia cruzaram esses testemunhos com estudos geológicos e análises estratigráficas, conseguindo reconstruir com muito maior detalhe a sequência dos acontecimentos e confirmar que a montanha nasceu, de facto, num intervalo de poucos dias.

Mas a verdadeira lição de 1538 não está apenas na violência da erupção, está no que aconteceu antes. Os meses que a antecederam foram marcados por sismos frequentes, deformação do terreno e alterações na linha de costa. É precisamente essa sequência que os cientistas procuram hoje identificar e interpretar. A dificuldade é que nem todas as crises terminam da mesma forma.

Christopher Kilburn, geofísico da University College London e um dos maiores especialistas mundiais nos Campi Flegrei, tem insistido nesse ponto. Não existe qualquer garantia de que uma fase de agitação como a atual evolua para uma erupção. Mesmo que a pressão acumulada provoque novas fraturas na rocha, isso pode simplesmente abrir caminho à libertação dos gases e aliviar o sistema, sem que o magma chegue à superfície.

É uma mensagem pouco espetacular, mas fundamental. Os Campi Flegrei não funcionam como uma panela de pressão com um relógio a contar para a explosão.

Muito antes de existir Nápoles

A erupção de 1538 impressiona porque, de um ponto de vista histórico, aconteceu há relativamente pouco tempo e porque deixou uma montanha que continua diante dos nossos olhos. Mas, na escala geológica dos Campi Flegrei, foi um episódio modesto. Para perceber por que razão esta caldeira desperta tanta atenção, é preciso recuar muito mais.

Muito antes de existir Nápoles. Muito antes de existirem os romanos. Muito antes de qualquer cidade ter sido construída naquela costa. Há cerca de 39 ou 40 mil anos, os Campi Flegrei produziram uma das maiores erupções conhecidas na Europa: a Ignimbrita Campaniana. A explosão lançou centenas de quilómetros cúbicos de cinzas, pedras-pomes e outros materiais vulcânicos. Correntes piroclásticas devastaram grande parte da atual Campânia. A nuvem de cinzas atravessou o continente e deixou vestígios identificados em vários países europeus.

Como cobriu grande parte da Europa com cinzas e coincidiu com uma fase de arrefecimento climático e o avanço dos glaciares, a erupção poderá ter reduzido em cerca de 30% a área habitável da Europa, o que obrigou populações humanas a reorganizarem-se. Isso poderá ter contribuído para que os Neandertais sobrevivessem durante mais tempo na Península Ibérica, onde os efeitos terão sido menores. Um detalhe que dá uma noção extraordinária da escala da erupção.

Quando uma quantidade tão grande de magma abandonou o subsolo, a estrutura situada acima da câmara magmática perdeu sustentação e colapsou. Foi esse colapso que deu origem à enorme depressão geológica que hoje conhecemos como caldeira dos Campi Flegrei. Milhares de anos depois, uma nova grande erupção — conhecida como Tufo Amarelo Napolitano — voltou a remodelar profundamente a região.

É esta história que explica por que os Campi Flegrei são tantas vezes apresentados como um “supervulcão”. Mas é também aqui que nasce um dos maiores equívocos: a palavra faz pensar numa explosão capaz de destruir meia Europa a qualquer momento. E não é nada disso que os cientistas esperam.

Os modelos probabilísticos desenvolvidos pelo INGV apontam noutro sentido: se um dia ocorrer uma nova erupção, o cenário considerado mais provável é muito mais semelhante ao de 1538 do que às gigantescas explosões de há dezenas de milhares de anos. Isso não significa que o perigo seja pequeno, significa apenas que a escala da ameaça é diferente.

Porque uma erupção relativamente modesta, quando acontece debaixo de uma área metropolitana com mais de três milhões de habitantes, pode transformar-se rapidamente numa emergência de enormes proporções.

Meio milhão de pessoas vive sobre o vulcão. Nápoles está preparada?

É aqui que a história deixa de ser apenas geologia, porque os Campi Flegrei não são um vulcão perdido numa ilha ou no cimo de uma montanha, são um vulcão que convive diariamente com uma das maiores áreas metropolitanas da Europa. É a área onde, segundo as autoridades italianas, uma erupção pode provocar rapidamente fluxos piroclásticos, cinzas, gases e outros fenómenos capazes de colocar vidas em risco. À sua volta estende-se a zona amarela, onde o principal perigo está associado à queda de cinzas vulcânicas, sobretudo sobre edifícios, infraestruturas e redes de transportes.

Meio milhão de pessoas vive hoje na chamada zona vermelha dos Campi Flegrei. Mas, se tivermos em conta o conjunto da área metropolitana, vivem mais de três milhões de pessoas, o que é uma realidade sem muitos paralelos. Há vulcões mais altos. Há vulcões mais ativos. Mas poucos coexistem com uma concentração humana desta dimensão.

Isso significa que Nápoles está condenada? Os vulcanólogos respondem de forma quase unânime que não. A região vive com risco vulcânico há milhares de anos. Foi precisamente esse vulcão que ajudou a criar alguns dos solos mais férteis de Itália, alimentou termas conhecidas desde a Antiguidade, favoreceu a agricultura e contribuiu para que sucessivas civilizações se instalassem naquela costa. Gregos, romanos e, mais tarde, milhões de italianos aceitaram viver com esse risco porque também beneficiaram dele.

O problema não é a existência do vulcão, mas sim a densidade populacional que hoje existe sobre ele.

Uma cidade consegue fugir de um vulcão?

É a pergunta que inevitavelmente surge sempre que a atividade sísmica aumenta. A resposta italiana chama-se Plano Nacional de Emergência para os Campi Flegrei.

O documento parte de um princípio simples: quando aparecerem sinais consistentes de que uma erupção poderá estar próxima, a prioridade deixa de ser estudar o vulcão. Passa a ser retirar pessoas. O plano prevê a evacuação faseada da zona vermelha, envolvendo dezenas de municípios, forças de proteção civil, caminhos de ferro, autocarros, portos, autoestradas e apoio de outras regiões italianas. O objetivo é concluir essa operação em cerca de 72 horas.

É um exercício logístico gigantesco e um dos maiores planos de proteção civil da Europa. Mas existe uma condição fundamental: a evacuação só pode funcionar se houver tempo. É precisamente por isso que os cientistas acompanham diariamente a deformação do solo, os sismos, a temperatura e a composição dos gases. O objetivo não é prever o dia de uma erupção — algo que a ciência continua sem conseguir fazer — mas identificar alterações suficientes para justificar a passagem para um nível de alerta superior.

Francesca Bianco, diretora do Observatório Vesuviano, tem insistido repetidamente numa ideia: a vigilância permanente existe precisamente para que qualquer mudança relevante seja detetada o mais cedo possível. Isso não elimina a incerteza, mas reduz significativamente o risco de uma população ser apanhada de surpresa.

E o que está a acontecer com o Vesúvio?

A poucos quilómetros dos Campi Flegrei ergue-se o vulcão mais conhecido de Itália: é impossível olhar para Nápoles sem reparar no Vesúvio. A última erupção ocorreu em março de 1944, durante a Segunda Guerra Mundial. Desde então permanece em repouso.

Pode o Vesúvio voltar a entrar em erupção? Os vulcanólogos não têm dúvidas de que também continua ativo. A questão não é se voltará a entrar em erupção, mas quando. Tal como acontece nos Campi Flegrei, ninguém consegue indicar uma data.

Há, no entanto, uma diferença importante entre os dois sistemas. O Vesúvio é um estratovulcão clássico, com uma conduta principal e uma cratera bem definida. Os Campi Flegrei são uma caldeira extensa, onde uma eventual erupção pode abrir uma nova boca em diferentes pontos da estrutura.

São dois vulcões distintos, com as suas histórias geológicas diferentes e dois planos de emergência igualmente complexos.

O Etna tem alguma relação?

O Etna, na Sicília, entrou novamente em erupção, mas pertence a um contexto tectónico completamente diferente. Apesar de integrarem o mesmo país, Etna, Vesúvio e Campi Flegrei têm sistemas magmáticos independentes. Uma erupção num deles não desencadeia automaticamente atividade nos restantes.

É uma associação frequente nas redes sociais sempre que dois vulcões italianos apresentam sinais de atividade ao mesmo tempo, mas os investigadores sublinham que não existe evidência de uma ligação direta entre estes episódios.

Quanto maiores as erupções do Etna, maior também a probabilidade de afetarem o tráfego aéreo da Sicília, impedindo voos de partirem e aterrarem e também aviões de sobrevoarem a ilha.

Uma erupção em Nápoles pode afetar o resto da Europa?

Depende sempre da dimensão da erupção. Uma erupção semelhante à de 1538 teria impactos sobretudo locais e regionais. As populações próximas seriam as mais afetadas, podendo existir perturbações no tráfego aéreo se uma coluna significativa de cinzas atingisse altitude suficiente.

Um cenário comparável às grandes supererupções de há dezenas de milhares de anos teria consequências muito mais vastas. Mas é precisamente esse cenário que os cientistas consideram pouco provável com o conhecimento atual.

É por isso que o debate científico não está centrado numa explosão capaz de afetar toda a Europa, mas numa pergunta muito mais imediata: o que acontecerá se uma nova erupção ocorrer debaixo de uma área metropolitana onde vivem milhões de pessoas?

É essa pergunta que explica porque os Campi Flegrei continuam entre os sistemas vulcânicos mais estudados e monitorizados do planeta. O terramoto de sexta-feira não respondeu a essa questão, mas voltou a recordar que ela continua em aberto.

O que a ciência consegue dizer — e aquilo que continua sem saber

Em todas as crises dos Campi Flegrei, a pergunta é sempre a mesma: vai haver uma erupção? E a resposta mais rigorosa continua a ser a também a mesma: ninguém sabe.

Pode parecer pouco satisfatório, mas é precisamente isso que distingue a vulcanologia de outras áreas da ciência. Os investigadores conseguem medir com enorme precisão a deformação do terreno, localizar milhares de sismos, analisar a composição dos gases libertados pelas fumarolas e acompanhar alterações na temperatura do sistema hidrotermal. O que ainda não conseguem é transformar todos esses sinais numa data provável para uma erupção.

É por isso que evitam frases categóricas. Giuseppe De Natale, antigo diretor do Observatório Vesuviano e um dos investigadores que mais estudou os Campi Flegrei, resumiu essa dificuldade numa entrevista à Reuters: “O risco mais imediato continua a ser sísmico, mas a possibilidade de uma erupção não pode ser ignorada enquanto o sistema permanecer ativo.”

É também por isso que o nível de alerta permanece amarelo. Nem pode ser verde, porque o vulcão mostra sinais claros de atividade. Nem laranja ou vermelho, porque não existem evidências suficientes de que o magma esteja prestes a chegar à superfície. É uma posição de equilíbrio difícil de explicar ao público, sobretudo depois de um terramoto sentido por centenas de milhares de pessoas. Mas é exatamente esse equilíbrio que a ciência tenta manter: evitar tanto o alarmismo como a falsa sensação de segurança.

Uma cidade construída graças ao vulcão

Há um paradoxo que ajuda a perceber por que tantas pessoas continuam a viver nesta região. Os Campi Flegrei representam um risco, mas também ajudaram a criar uma das paisagens mais férteis e procuradas do Mediterrâneo.

As cinzas vulcânicas enriqueceram os solos durante milhares de anos. As águas termais atraíram gregos e romanos. A zona de Baiae transformou-se num dos locais de veraneio preferidos da elite do Império Romano. A agricultura prosperou. As vinhas multiplicaram-se. As cidades cresceram.

Em certo sentido, o mesmo vulcão que hoje preocupa os cientistas ajudou a construir a riqueza da Campânia. É uma realidade comum em muitas regiões vulcânicas do mundo. As populações não vivem junto dos vulcões porque desconhecem o perigo. Vivem porque, durante séculos, os benefícios superaram os riscos.

O terramoto foi um aviso. Não uma resposta

O sismo de magnitude 4,7 voltou a lembrar que os Campi Flegrei estão longe de ser um vulcão extinto. Continua a haver deformação do terreno. Continuam a ocorrer enxames sísmicos. Continuam a escapar gases do subsolo. E continua a existir um plano preparado para retirar cerca de meio milhão de pessoas se um dia os sinais apontarem para uma erupção iminente.

Ao mesmo tempo, a crise atual mostra outra realidade: a ciência sabe hoje incomparavelmente mais do que sabia em 1984. Os satélites medem deformações do terreno com precisão milimétrica. Redes de GPS registam cada movimento da crosta. Sismómetros detetam milhares de pequenos abalos que passariam despercebidos há poucas décadas. Equipas de geoquímicos analisam continuamente os gases libertados pelo vulcão.

Nunca um sistema vulcânico foi observado com tanto detalhe, mas mesmo assim, continua a existir uma pergunta sem resposta: ninguém consegue dizer quando ocorrerá a próxima erupção. Talvez demore décadas. Talvez séculos. Talvez esta crise termine, como aconteceu noutras ocasiões, sem que o magma alguma vez chegue à superfície.

E foi isso que o terramoto de sexta-feira realmente mostrou. Não que o vulcão esteja prestes a entrar em erupção, mas que continua vivo. E que, debaixo das ruas, dos hospitais, das escolas e das casas de Nápoles, a Terra continua lentamente a mover-se.

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