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(A) :: "Linguista é quem analisa a língua objetivamente, não é aquele que prescreve o uso conforme uma elite advoga que seja"

"Linguista é quem analisa a língua objetivamente, não é aquele que prescreve o uso conforme uma elite advoga que seja"

Em "A Natureza da Linguagem”, Alexandra Soares Rodrigues desmistifica o "bom português", aborda a comunicação animal e a IA, e recorda como uma patologia pós-covid realçou a importância da voz.

Ricardo Ramos Gonçalves
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Diogo Ventura
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Usamo-la a cada instante, quase sem pensar. Mas, afinal, o que é a linguagem? Será apenas um meio de comunicação? Porque é que um cão comunica sem possuir linguagem? Porque consegue uma criança aprender qualquer língua do mundo, enquanto nenhuma outra espécie o faz? E porque é que uma lesão no cérebro pode destruir uma capacidade que parece tão natural?

Estas são algumas das perguntas que atravessam A Natureza da Linguagem (Zigurate, 2026), o novo livro da linguista Alexandra Soares Rodrigues. Depois de mais de três décadas de investigação e ensino, a professora do Instituto Politécnico de Bragança propõe uma leitura da linguagem muito diferente daquela que domina o senso comum: não como um simples instrumento de comunicação nem como um conjunto de regras do “bom português”, mas como uma faculdade biológica inata, exclusiva da espécie humana e inscrita na própria arquitetura do cérebro.

Numa conversa por email com o Observador, a autora explica por que razão um linguista não é um “juiz do bem falar”, onde termina a comunicação animal e começa a sintaxe, o que as afasias revelam sobre a mente e porque considera que, apesar da fluência dos grandes modelos de linguagem, a Inteligência Artificial continua muito distante da linguagem humana. Pelo meio, partilha ainda a experiência pessoal de ter perdido a voz na sequência da Covid-19 e a forma como essa vivência reforçou a sua compreensão sobre a fragilidade e a dimensão profundamente material da faculdade de falar e pensar.

No início de A Natureza da Linguagem escreve que sentia falta de um livro, em português, que apresentasse uma visão contemporânea da linguagem. Trata-se, além disso, de uma obra gestada ao longo de vários anos. Como foi o processo de maturar um livro tão denso (que cruza linguística, neurociências, biologia, filosofia e arte) e traduzir matérias tão complexas para uma linguagem acessível?
Há alguns anos que sentia a falta de um livro de base que pudesse aconselhar aos alunos que se iniciam no estudo científico da linguagem. Esse livro deveria mostrar a linguagem enquanto fenómeno biológico. Esta perspetiva é inteiramente ignorada por quem inicia esse estudo, pois a visão que prevalece no ensino secundário é a de que a linguagem tem uma função comunicativa. Pensei que poderia escrever um livro que servisse não apenas os alunos e a comunidade académica, mas também um público alargado. O rigor é uma preocupação de qualquer cientista. A escolha de uma palavra errada altera a descrição do objeto, fazendo que se construa uma conceptualização errónea acerca desse objeto. Na escrita deste livro, não abandonei o léxico técnico, mas tive por isso a preocupação de explicitar ao longo do texto e num glossário final o significado de cada palavrinha técnica. Ao escrever o livro, assumi o meu papel de docente. Escrevi sobre cada assunto como se estivesse na sala de aula. A aula não é apenas um momento de descoberta para o aluno. Também o é para o professor. Há trinta anos que leciono sobre o contributo de Ferdinand de Saussure para o desenvolvimento dos estudos sobre a linguagem. No entanto, dou por mim em cada ano, durante a aula, a encontrar uma ligação nova entre os conceitos por ele apresentados e outros autores e conceitos. É essa reflexão que faz que os pensadores continuem vivos. Penso que o que faz que um indivíduo seja um professor é essa capacidade de explicar a mesma coisa de mil maneiras diferentes, sem nunca perder o rigor e tendo gosto em fazê-lo. Sem essa capacidade, não será professor, mas um repetidor de fórmulas.

Num momento em que se discute o impacto da inteligência artificial na educação, acredita que um professor continua a ser insubstituível?
A ideia de que a máquina pode muito bem substituir o professor não faz sentido nenhum, porque a máquina não se “lembra”, a propósito de uma dúvida de um aluno, de conceitos e de exemplos de outras áreas ou de exemplos do quotidiano, nem mede a adaptação do discurso à dificuldade de quem nos interroga. A riqueza de uma aula e de um livro consiste na abertura de caminhos que nem estavam inicialmente previstos. E um bom professor é aquele que faz da aula um palimpsesto onde há marcas de vários espaços do conhecimento que podem vir a ser explorados. No fundo, ao escrever o livro imaginei estar na aula, imaginei eventuais dúvidas do leitor, procurei chamar o leitor para dentro do texto e descobrir perguntas dentro de mim. Sempre tive curiosidade em entender a linguagem no seu todo e no seu carácter biológico. É o resultado dessa curiosidade que está refletido no livro.

Logo nos primeiros capítulos estabelece uma fronteira clara entre a linguística e a norma gramatical, sublinhando que “a linguística nunca é normativa”. Porque é que ainda tendemos a olhar para o linguista como uma espécie de juiz do “bem falar”, em vez de o vermos como um cientista que investiga uma faculdade biológica e mental da nossa espécie?
O senso comum está demasiadamente marcado por duas ideias: o peso da perspetiva que impera no ensino básico e secundário relativamente às línguas e a consciência de que o modo como usamos a língua veicula uma imagem acerca de nós. Aprendemos na escola que há formas erradas e formas corretas, ou seja, o mau e o bom português. Uma das funções da escola é ensinar-nos a moldar o uso da língua em formatos socialmente mais prestigiantes. E fá-lo porque sabe que na sociedade os juízos de valor acerca do outro também têm em conta o modo como usa a língua. Isto implica que o senso comum, o falante que não estudou Linguística, mas também aquele que estudou, mas esqueceu, só conheça uma forma de abordar a língua: a normativa. Quando se confronta com as palavras “linguística” ou “linguista”, relaciona-as com a única abordagem que conhece acerca das línguas — a normativa. Além disso, impera a ideia da separação entre letras e ciências. Ora, o estudo das línguas está tradicionalmente ligado às letras e não às ciências. Os avanços científicos que houve nos séculos XIX e XX acerca da linguagem e das línguas continuam a ser ignorados pelo senso comum, tal como são ignorados os avanços recentes. O senso comum só vê o português como certo ou errado. Não questiona o que é isso do “bom português”, se tem fundamento objetivo ou se decorre de constrangimentos meramente sociais e epocais e subjetivos. O que é estranho é encontrar prescritores do “bom português” que se apelidam a si mesmos de linguistas. Deviam perceber que “linguista” é quem analisa a língua objetivamente conforme ela é e não aquele que prescreve o uso da língua conforme uma elite advoga que seja. Considero que o papel da escola deve ser cumprido. Mas considero também que posições extremadas acerca do “bom português” são ostracizadoras daqueles que não pertencem a essas elites e não falam como essas elites.

Escreve que “a linguagem não é comunicação”. Como explica esta ideia a quem a ouve pela primeira vez?
No livro dou o exemplo de um extraterrestre que vem à terra com o objetivo de captar imagens de um gato. O único dado que tem é que o gato caça ratos. Tem também uma imagem de um rato. O pobre extraterrestre depara-se com aquilo que nós sabemos ser um gato. No entanto, este gato não faz mal nenhum ao rato. Entretanto, aparece um cão, que caça o rato. O extraterrestre pensa que o cão é um gato porque o vê a caçar um rato. Tal como o ET identifica erradamente um gato porque o procura não pelo que ele é, mas pelo que ele eventualmente faz, também definirmos linguagem por uma das suas funcionalidades, e não pelo que ela é, nos conduz a conceções erradas. Nas aulas gosto de criar exemplos deste género. Para compreendermos que a linguagem não é comunicação, basta pensarmos que a comunicação não é exclusiva da espécie humana e que a comunicação não decorre apenas da linguagem. Um cão que se deita de barriga para cima diante de outro cão mostra submissão e, no entanto, não construiu uma frase a dizer “Não sou mau, não quero luta, quero paz”.  Deste comportamento decorre comunicação.

"A linguagem é a capacidade mental, geneticamente determinada, que nos permite aprender e criar línguas. Se não tivéssemos essa capacidade que é a linguagem, não conseguiríamos aprender língua nenhuma, incluindo a língua materna. A linguagem é inata. As línguas são os produtos, as manifestações dessa capacidade que é a linguagem."

Se a linguagem não existe primordialmente para comunicar, qual é então a sua função?
Eu não digo que a linguagem não serve para comunicar. Digo que a linguagem não é comunicação. Relativamente à função, é evidente que uma das funcionalidades da linguagem é comunicar. Mas há outras. Por exemplo, uma funcionalidade importantíssima que destaco no livro é a de a linguagem permitir a consciencialização do pensamento. Repare-se que, quando estamos a produzir texto mentalmente, sem falarmos nem escrevermos, ocorre linguagem, mas não ocorre comunicação. Portanto, nem a comunicação está dependente da linguagem, como vimos com o exemplo do cão de barriga para cima, nem a linguagem está dependente da comunicação. Nessa circunstância em que conversamos connosco em silêncio ou em que discorremos sobre um assunto apenas mentalmente, ocorre linguagem e esta permite-nos uma organização do pensamento e uma autorreflexão, um conhecimento acerca de nós mesmos. Essa consciencialização do pensamento é também primordial. Não sei bem se usa a palavra “primordial” no sentido temporal ou de importância. Em termos temporais, não sabemos se a linguagem se desenvolveu na espécie humana por necessidade de comunicação ou de organização do pensamento. Muito provavelmente, não terão estado as duas funções desligadas uma da outra. Mas gosto de sublinhar que linguagem também não é o pensamento. Casos de indivíduos que apresentam afasia total, ou seja, uma perturbação total da linguagem decorrente de uma lesão cerebral, e que, no entanto, continuam a jogar xadrez muito bem, demonstram que a linguagem não é o pensamento.

A cinta do livro remete para a célebre pintura de René Magritte, Ceci n’est pas un pipe. De que forma essa imagem ajuda a compreender o intervalo entre o sinal físico, o significado que construímos na mente e a realidade?
Essa pintura faz-nos refletir que a representação não é o objeto real. “Isto que aqui vedes não é um cachimbo, mas a representação do cachimbo.” Claro que ainda podemos pegar na palavra “ceci”, “isto”, e refletir que esta palavra também não é um cachimbo, mas uma espécie de seta para o cachimbo, e que a palavra “pipe” também não é um cachimbo, embora o represente. O desenho do cachimbo é um sinal físico, uma mancha de contrastes de luz captada pelas células da retina. Em si mesma, essa mancha não tem significado. A nossa mente é que a relaciona com um significado. Esse significado parte da análise decorrente das experiências que cada um tem do mundo real, neste caso de cachimbos reais. A nossa mente recolhe informações acerca de cachimbos reais e, a partir dessas experiências sensoriais, constrói a ideia de cachimbo. Se transpusermos o exemplo para a linguagem, compreendemos que na linguagem há palavras. Essas palavras são constituídas por uma forma física – sons (de uma forma muito simplista; quem quiser saber a verdade terá de ler o livro…). Esses sons não têm significado. Mas a nossa mente relaciona-os com uma representação de um objeto do mundo real. A palavra cachimbo tem sons e tem um significado. Esse significado não é o objeto do mundo real, mas uma conceptualização do objeto do mundo real. Um signo linguístico é uma construção abstrata que parte de outra construção abstrata: a representação mental que construímos do mundo real é uma abstração que decorre da análise desse mundo real e o signo linguístico contém um significado, uma moldagem linguística dessa representação mental.

Porque é que é tão importante distinguir linguagem e língua? E de que forma a existência das línguas gestuais mostra que a linguagem é independente da voz e do aparelho fonador?
Existem mais de sete mil línguas vivas no mundo. No entanto, o Homo sapiens partilha uma só linguagem. A linguagem é a capacidade mental, geneticamente determinada, que nos permite aprender e criar línguas. Se não tivéssemos essa capacidade que é a linguagem, não conseguiríamos aprender língua nenhuma, incluindo a língua materna. A linguagem é inata. As línguas são os produtos, as manifestações dessa capacidade que é a linguagem e, em simultâneo, permitem o desenvolvimento dessa capacidade em cada indivíduo. As línguas não são inatas; são adquiridas, variam no tempo e no espaço. A linguagem é universal. É essa capacidade que é a linguagem que leva a que um indivíduo surdo, de modo natural e espontâneo, desenvolva gestos para manifestar os textos que constrói mentalmente. Por vezes as pessoas pensam que um surdo aprende uma língua gestual artificialmente, na escola. Na verdade, duas crianças surdas em contacto uma com a outra desenvolvem naturalmente gestos que lhes permitem exteriorizar e captar aquilo que pretendem partilhar linguisticamente. Na Amazónia, por exemplo, existem línguas gestuais naturais em comunidades com um número considerável de surdos. Essas línguas gestuais são usadas por toda a comunidade, mesmo por aqueles que não são surdos, além das línguas orais, usadas apenas por estes. As línguas gestuais mostram que a linguagem é universal. É uma capacidade de construir textos combinando signos, isto é, associações entre sinais e significados. As línguas gestuais mostram que esses sinais não têm de ser sons. Se formos surdos, não captamos sons e, por isso, não temos a audição como um guia para nós próprios produzirmos esses sons. Como tal, de modo espontâneo, arranjamos outros sinais, que serão os gestos. Sejam gestos, sejam sons, ambos os tipos de sinal servem de veículo de exteriorização de uma organização formal de conceptualizações. No caso de indivíduos surdos e invisuais, os gestos são associados ao tato. Estes indivíduos recebem nas mãos ou na face ou nas costas os gestos do locutor. Só assim os podem captar.

Ao longo das últimas décadas multiplicaram-se os estudos sobre baleias, golfinhos, primatas ou aves que parecem revelar formas muito sofisticadas de comunicação. Ainda assim, defende que os animais não-humanos não têm linguagem. Onde está exatamente essa fronteira? O que possui a linguagem humana que nenhum outro sistema de comunicação conhecido parece possuir?
Muitos estudos revelam que a emissão de som por parte de animais não-humanos é extremamente complexa. Também estamos longe da época em que se pensava haver um hiato a separar a inteligência, ligada ao Homo sapiens, e a ausência de inteligência, nos outros animais. Atualmente não se pensa assim. A inteligência, se for a capacidade de adaptação às circunstâncias, é uma característica de todos os animais, assumindo formatos mais ou menos complexos em diferentes níveis ao longo das diferentes espécies. No que diz respeito à linguagem, tal não se verifica, ou seja, a linguagem só está presente no Homo sapiens. Não sabemos se estava presente noutros humanos extintos. Podemos conceber que o Homo neanderthalensis também dispunha de linguagem. Mas trata-se de uma hipótese não verificada. A fronteira maior entre a linguagem e outras capacidades, noutras espécies, que acarretam a produção e a captação de sinais que manifestam construções e estados mentais reside na sintaxe. A sintaxe é a organização formal dos signos que resultam da associação entre sinal e significado. Quando um humano produz um texto, não se limita a pronunciar uma série de palavras desligadas entre si. Se quisermos transmitir a ideia de “a águia avistou o cão”, não basta pronunciar uma lista de palavras. A partir desses elementos, podemos criar organizações formais diferentes (“o cão avistou a águia”, “as águias avistaram o cão”), em que cada alteração na estrutura altera o próprio significado. É esta combinação formal que nos permite produzir um número infinito de textos.

Isso significa que, por mais complexo que seja o canto de uma ave ou o som de um golfinho, falta-lhes essa capacidade de combinação infinita?
Exatamente. Um melro, por exemplo, tem cantos notoriamente diferentes: o canto que emite durante a aurora é distinto do que emite em situações de perigo. Nós humanos conseguimos dizer o mesmo conteúdo de diferentes maneiras: Este nascer do dia é lindo; o raiar do dia é maravilhoso; a aurora é deslumbrante; estou encantada com a luz do sol a romper o dia; estou extasiada ao ver o nascimento da manhã; etc. O melro não. Poderá cantar durante mais ou menos tempo, mas não tem essa diversidade de sinais nem a capacidade de os combinar infinitamente. É verdade que as pegas emitem sons de alarme diferentes em face de uma raposa ou em face de um milhafre. Mas não variam essa produção como nós humanos fazemos. Nós podemos dizer “Cuidado com a raposa! Maldita raposa! Cuidado! Atenção! Avisto uma raposa! Ai que a raposa nos caça!”. E assim infinitamente. Esta geração infinita está ausente dos outros animais.

"Estou afónica há 22 meses na sequência de uma segunda infeção por Covid-19 [...] O problema da afonia é um problema da voz e não da linguagem [...] Há dias em que estou melhor e consigo sussurrar por alguns instantes, ainda que as cordas não vibrem. Se eu quiser dizer a palavra "vaca", o que vai sair é "faca", porque as cordas vocais não vibram nunca. Noutros dias, nem sussurrar consigo."

Dedica um longo capítulo ao desenvolvimento da linguagem nas crianças, do balbucio às primeiras construções gramaticais, discutindo também a hipótese de um “período crítico”. Há alguma descoberta da investigação recente que continue a surpreendê-la sobre a forma como adquirimos a linguagem nos primeiros anos de vida?
Não é exata a palavra “adquirir” para nos referirmos ao período em que a criança desenvolve uma capacidade que é inata. A linguagem desenvolve-se, não se adquire. Uma das investigações recentes que abordo no livro é a descoberta de que a criança, quando nasce, consegue discriminar sons diferentes, independentemente da língua que ouve. Durante os primeiros meses de vida, ainda sem falar a sua língua materna, a criança vai perdendo essa capacidade discriminatória que funcionava para todos os sons. A mente da criança começa a desprezar distinções de sons se essas distinções não forem importantes na sua língua materna e foca-se apenas nas diferenças entre sons se estes possuírem um carácter pertinente na sua língua materna.

Ainda permanece muito por explicar?
Continuamos sem compreender como é que se constrói esse conhecimento na mente. Sabemos quais são as áreas no encéfalo responsáveis pela linguagem, quais são os feixes que interligam essas áreas, sabemos que há substâncias essenciais para o funcionamento do encéfalo e, por conseguinte, da linguagem, como a tiamina, mas não sabemos ainda como se faz essa magia de converter sinais em representações abstratas. Como se converte algo que é puramente físico, material, em algo que é abstrato? De que maneira a física e a química funcionam para termos linguagem, para produzirmos significados, para os organizarmos em unidades materiais extensas? No fundo, continuamos com o abismo clássico entre a mente e o corpo. Mesmo que concebamos que tudo é física e química, que a mente é um produto físico-químico, não sabemos como se faz essa conversão. Por isso, não concordo nada quando se diz que a ciência destrói a beleza, a magia ou a poesia das coisas. Pelo contrário, acrescenta mais magia e mais beleza, porque a ciência permite-nos abrir mais perguntas sobre mais coisas e em mais níveis que ignoraríamos se não houvesse ciência.

Também dedica muitas páginas ao momento em que a linguagem “avaria”. O que é que casos como as afasias ou a perda da linguagem nos ensinam acerca do modo como ela está organizada no cérebro?
As afasias foram essenciais para a descoberta de quais são as áreas do encéfalo que estão envolvidas na linguagem. É por isso que apresento os diferentes tipos de afasia e dou exemplos de referências a essas perturbações muito antes de a ciência as compreender. Gosto especialmente do caso do rei hitita Muršili, que viveu entre os séculos XIV e XIII a.C. O rei terá sofrido um acidente isquémico transitório que o terá deixado com uma perturbação da linguagem. Só em 1861 é que temos a primeira evidência científica de que há áreas específicas do encéfalo dedicadas à linguagem. Trata-se de um estudo de Paul Broca, com base na autópsia de um homem que o médico ainda observa em vida. Esse homem, chamado Leborgne, apenas produz a sílaba “tan” e é esta com que responde a qualquer conversa. A autópsia revela uma lesão na parte lateral do hemisfério esquerdo, ao nível da fissura de Sylvius, segundo palavras de Broca. Esta descoberta faz que Broca relacione esta região do cérebro com a linguagem. Outros casos se seguiram. A contraprova chegou quando Broca realiza a autópsia de uma mulher cujo encéfalo apresenta lesões na região homóloga do hemisfério direito. Apesar destas lesões, a mulher não sofrera de nenhuma perturbação da linguagem. Isto é o início de um longo percurso, ainda não terminado, de análise do encéfalo, verificação de lesões e correlação com avarias específicas da linguagem. Estes estudos permitiram compreender que a capacidade da linguagem é da responsabilidade de regiões específicas do encéfalo e, ainda, perceber que efetivamente a linguagem está no cérebro. Esta visão materialista da linguagem faz-nos pensar que, como já discutimos, definir a linguagem como mero meio de comunicação é extremamente redutor e enganador. Ao pensarmos em meio de comunicação, parece-nos que a linguagem está no ar, que é algo imaterial. Na realidade, a linguagem é uma capacidade inscrita no encéfalo. Se ocorrer uma lesão numa das áreas do encéfalo equacionadas com a linguagem, vai haver uma avaria nesta capacidade. Isto dá-nos a visão de que a linguagem é uma capacidade biológica, inerente à espécie humana, cujas características, que explico no livro, estão dependentes do modo de funcionamento do próprio encéfalo. Esta visão está muito longe daquela que resume a linguagem a um meio de comunicação.

Nesse capítulo cita, inclusivamente, o relato de uma neurocientista que viveu essa perda na primeira pessoa. No caso da Alexandra, também enfrentou dificuldades na fala após contrair Covid-19. De que forma essa experiência alterou ou confirmou aquilo que sabia, enquanto investigadora, sobre a extraordinária complexidade e fragilidade da linguagem?
No livro menciono o caso de Jill Taylor, que aos 37 anos sofre um AVC gravíssimo que lhe provoca afasia, entre outros problemas. Estou afónica há 22 meses na sequência de uma segunda infeção por Covid-19. Dois anos antes tinha tido uma primeira infeção que também me provocou episódios de afonia. Mas é com a segunda infeção que a afonia está a ser permanente. Tinha três doses da vacina antes das infeções. O problema da afonia é um problema da voz e não da linguagem. Faço a distinção entre linguagem, fala e voz no livro. A afonia é a ausência de voz devido à não-vibração das cordas vocais. No meu caso, como em mais de 50 000 indivíduos só em Portugal, o vírus deixou-me uma patologia multissistémica que afeta todo o organismo a nível energético. Trata-se da encefalomielite miálgica. Além de outros órgãos, todos os músculos são afetados. As cordas vocais, para funcionarem, precisam de uma atividade adequada ao nível muscular e neural. No meu caso, também os músculos que promovem a ação das cordas vocais não funcionam adequadamente. O que é interessante é que há sons do português, como em qualquer língua, que são produzidos com vibração das cordas vocais e outros sem essa vibração. Mais longe do que isso: há pares de sons que só se distinguem por essa característica. Por exemplo, [f] e [v] são produzidos de modo igual e com as mesmas regiões do aparelho fonador, mas [f] é produzido sem vibração das cordas vocais e [v] é produzido com vibração. Há dias em que estou melhor e consigo sussurrar por alguns instantes, ainda que as cordas não vibrem. Se eu quiser dizer a palavra “vaca”, o que vai sair é “faca”, porque as cordas vocais não vibram nunca. Noutros dias, nem sussurrar consigo. Já houve momentos em que a falta de energia me levou a ter dificuldade em construir o texto na minha mente. Tinha consciência das ideias, da relação entre elas, mas era demasiado cansativo organizar um texto mentalmente – e esse texto era, por exemplo, a simples frase “é preciso desparasitar os gatos”. E ainda mais cansativo era tentar articular, mesmo que fosse sussurrando, os sons dessa frase. Aí tive nítida consciência da separação entre a semântica e a sintaxe e a fonologia dentro da mente. Tudo isto nos faz pensar na linguagem como algo material, dependente de fatores biológicos, físico-químicos, como mencionei anteriormente. Se estes falharem, lá se vai a linguagem ou parte dela.

Ao longo do livro defende que a linguagem é uma faculdade biológica inata, uma ideia profundamente associada a Noam Chomsky. Essa perspetiva continua hoje a reunir consenso? Em que medida as descobertas das últimas décadas, da genética à paleoantropologia, reforçaram ou obrigaram a rever essa hipótese?
A hipótese de Chomsky leva o inatismo a um extremo. Chomsky não é o primeiro a propor o inatismo da linguagem. É o primeiro a propor que existe uma Gramática Universal inata. Essa Gramática Universal consiste num conjunto finito de princípios que permitem organizar, por exemplo, palavras em frases. Nesta proposta, não é apenas a capacidade da linguagem que é inata, mas os próprios princípios que a nossa mente usa para produzir frases. Esta ideia não é original de Chomsky. Ele baseia-se principalmente nos filósofos racionalistas do século XVII. Mas bem antes destes, já Roger Bacon, no século XIII, afirmava que “a gramática é uma e a mesma em todas as línguas substancialmente, ainda que varie acidentalmente em cada uma”. Chomsky constrói um modelo teórico fundamentando-se em abstrações. A mim agrada-me bem mais a abordagem de Eric Lenneberg, contemporâneo de Noam Chomsky. Enquanto Chomsky apresenta um modelo teórico baseado no falante ideal, Lenneberg fundamenta a hipótese do inatismo através de dados empíricos, como casos de surdos, afasias, etc. Lenneberg oferece a visão da linguagem como faculdade biológica de modo bem explícito e empírico, uma vez que tem uma abordagem neurológica e fisiológica. Actualmente, os trabalhos de Lenneberg, da década de 60 do século XX, estão a ser revividos. Ficaram esquecidos e agora os biolinguistas estão a enfatizar a sua importância. Hoje há mais consenso acerca do inatismo da linguagem do que na década de 60 do século anterior. Não temos dados da paleoantropologia que provem que a linguagem já existia em espécies contíguas ao Homo sapiens. Também não se descobriu ainda a genética da linguagem. Na década de 90 do século passado, houve grande alarido em torno de um gene, o FOXP2. Mas demonstrou-se que este está relacionado com a articulação de sons e não com a linguagem. Até existe nos ratinhos. São principalmente os estudos neurológicos e a psicolinguística que continuam a fundamentar o inatismo da linguagem.

O livro termina com uma questão muito atual: a Inteligência Artificial tem linguagem? Quando interagimos com um modelo como o ChatGPT, que produz texto fluentemente, estamos perante linguagem autêntica ou apenas perante um processamento estatístico extremamente sofisticado?
Não tinha previsto inicialmente esse capítulo. Quando cheguei ao fim, achei que, com os ares do tempo, seria melhor incluir uma breve reflexão sobre os large language models, como o chatGPT. Estes modelos são treinados pelo homem com quantidades exuberantes de textos. Operam analisando estatisticamente a coocorrência de palavras. A máquina não tem consciência do significado das formas que combina. Por isso, muitas vezes produz as designadas alucinações. A linguagem, no ser humano, é uma arquitetura de três estruturas: a conceptual e intencional (semântica), a da organização formal (sintaxe) e a da materialização (fonologia). O indivíduo humano não sabe como constrói textos, como fala, mas sabe o que quer dizer, como quer dizer, a quem quer dizer. Sabe relacionar as formas que constrói com sentidos e com factos e usa mecanismos cognitivos para avaliar se as formas que produz estão de acordo com o seu universo de conhecimentos. A máquina não dispõe de um universo de conhecimentos, mas de um universo de regras estatísticas. A máquina é explicitamente treinada, ou seja, o programador explicita formalmente as regras de operação. O ser humano não recebe explicitamente os princípios de operação da linguagem; a sua mente constrói esses princípios, nem sequer se limita a deduzi-los pela observação. Esta aprendizagem é espontânea e natural. A capacidade da linguagem não consiste apenas em produzir texto, mas também em compreendê-lo. Ora, a máquina não compreende. A máquina é produtiva, mas não é criativa.

"Gostaria que ficasse claro que linguagem não é comunicação nem é pensamento e que só existe no Homo sapiens. Também gostaria que o leitor esquecesse o preconceito de que estudar línguas se baseia somente em fixar o bom e o mau uso."

No prefácio, Maria da Graça Lisboa Castro Pinto escreve que este livro combina “arte, ciência e sabedoria”. Depois de tantos anos a estudar a linguagem, houve alguma ideia que este livro a obrigou a abandonar ou a rever?
Este livro foi escrito em dois anos, mas tem por trás mais de trinta anos de estudo sobre a linguagem. A minha área de especialização é a morfologia. Mas nunca me fechei nessa área. O prazer de estudar, a curiosidade em compreender a natureza — e a linguagem é natureza, porque é biológica — sempre me fizeram estar a par de outras áreas. Sabermos o que há de especial no encéfalo que nos permite criar línguas, aprender línguas, produzir infinitos textos e compreendê-los é de uma beleza muito prazerosa. Não houve nenhuma ideia que tivesse abandonado, porque fui sempre estando a par das novidades e fui sempre refletindo sobre as diferentes hipóteses acerca da linguagem ao longo da vida. Com a escrita deste livro tive a possibilidade de parar sossegadamente e de refletir com o leitor hipotético, como numa aula, sobre a natureza da linguagem. Também tive a oportunidade de regressar às fontes, que convoco no livro. Não ficava satisfeita em limitar-me a escrever, por exemplo, sobre a descoberta de Paul Broca sobre a relação entre o hemisfério esquerdo e a linguagem. Queria sentir a beleza de redescobrir os próprios textos de Broca. Penso que o confronto com o autor das descobertas torna mais real esse autor. E torna mais emotiva a própria escrita e a leitura.

O que gostaria que um leitor sem formação em linguística passasse a notar quando pensa em linguagem depois da leitura deste livro?
Gostava que o leitor deixasse de pensar na linguagem como meio de comunicação e passasse a entendê-la como capacidade biológica inata, inscrita no encéfalo humano e só neste. Gostaria que ficasse claro que linguagem não é comunicação nem é pensamento e que só existe no Homo sapiens. Também gostaria que o leitor esquecesse o preconceito de que estudar línguas se baseia somente em fixar o bom e o mau uso.