1 O norte americano James A. Robinson agraciado com o prémio Nobel da economia publicou um estudo sobre o Estado português e a sua relação com os cidadãos. Concluiu que isto é tudo uma bandalheira, que no Estado (em sentido amplo) só há compadrios e que quem fica a perder é o cidadão contribuinte. Estamos no reino da cunha. Vai mais longe e diz-nos que o compadrio impede a produtividade e a modernização e que enquanto as coisas assim forem o nosso país divergirá da Europa e vai empobrecer ainda mais, sendo certo que já é o mais pobre dos países europeus. Acresce a vergonhosa lentidão da justiça (contra a qual já se manifestaram onze milhões de portugueses: há acções que interpostas em 1ª instância num tribunal administrativo de província só tiveram sentença passados doze anos, até já depois de os autores terem falecido, para não falar de outras que devem estar para lá sepultadas), e um ensino facilitista e intrujão promovido por sucessivos ministros da educação, cada vez menos exigente e que nada vale em termos de mercado, a ponto de quem tem hoje qualificações académicas ser preterido porque o ordenado é maior e não justifica. É tudo uma miséria.
Claro está que a imprensa socialista portuguesa tem todo o cuidado em esconder do público aquele estudo e suas conclusões. PS e PSd não querem que se saiba. Obviamente.
2 Há apenas um pormenor que aquele estudo ignora. É que o que ele denuncia não é novidade. Já assim era a seguir à guerra civil que terminou com a vitória liberal em 1834, foi assim no subsequente período do devorismo, continuou a ser durante o cabralismo e a regeneração e na fase final da monarquia, prosseguiu com a primeira república e com o estado novo e desde o 25 de abril até hoje nada se modificou. O compadrio é uma velha instituição nacional. O estado serve apenas para arranjar prebendas, alargar influências e preparar uma velhice descansada com a garantia de futuras e amigáveis colocações para filhos e amigos. O ps e o psd apostam nisso.
Já o grande Rodrigo da Fonseca Magalhães há cento e setenta anos se queixava disso. E o mesmo dizia o magnífico Bordalo Pinheiro. Não se lembram? O cidadão não está minimamente nas preocupações de quem ocupa o poder. A única preocupação é sobrecarregá-lo com impostos e todo o tipo de taxas. Daí a feroz animosidade contra quem ousa mostrar a realidade.
3 Quem ocupa hoje o poder, salvo talvez uma ou duas excepções no actual governo, é apenas quem nunca triunfaria na actividade profissional privada. E o mesmo se verificava no governo anterior e nos que o antecederam. A política é hoje a carreira dos ineptos, dos néscios e dos incapazes. O mesmo se passa no sector empresarial do estado. Os gestores públicos não estão lá para gerir nada. Apenas lá estão, com a excepção da CGD, para prolongar as respectivas carreiras, garantir a reforma, boicotar a privatização e arredar potenciais concorrentes.
4 Aristóteles ao elencar os diversos regimes políticos não se esqueceu, realista como era, de apontar as degenerescências a que podiam estar sujeitos. Identificou a tirania, a oligarquia e a demagogia. Mas esqueceu-se de referir a característica do regime português actual: a ineptocracia.
A cunha é o refúgio dos ineptos. Dela não se pode dizer que seja nas próprias palavras de Eça, «a correcção privada do disparate oficial» num cenário de desgoverno e de irracionalidade. Hoje é muito pior e a cunha tem outra dimensão. Vejamos: os ineptos entram hoje para a vida política em bando desde jovens. Conhecem-se todos uns aos outros e sabem que dependem uns dos outros. Estabelecem relações duradouras e avançam em alcateia, trabalhando sempre em equipa. Disso depende a respectiva carreira. Atacam a presa que é o povo português, afastam violentamente concorrentes potenciais, perseguem os indesejáveis competentes que os ofuscariam e assim demarcam o seu território. Nele bem instalados é só esperar que as coisas aconteçam. Em vez de uivarem para reunir a alcateia metem recíprocas cunhas: o resultado é o mesmo.
5 Outra das melhores características do regime político português actual é a desfaçatez dos membros do governo e de outras entidades públicas. São capazes de coisas inauditas, Ninguém tem vergonha do que faz ou fez. É tudo normal e aparecem na televisão uns com um sorriso outros com ar ofendido a negar evidências de falcatruas. Dizem sempre que estão de consciência tranquila e que contam com o apoio das mais altas esferas. Pudera. Pois se são farinha do mesmo saco, que haviam de dizer? A falta de vergonha é um código de conduta e a garantia de continuidade na política porque tem a tivesse saía de lá. Quem denuncia esta realidade é obviamente provocador, quiçá «fascista». A incultura e a má-fé dos actuais políticos nacionais é proverbial.
A actual vida política portuguesa é hoje uma cloaca. Só as ratazanas sobrevivem. Há excepções? Claro que sim e não são tão poucas como isso. Mas hoje os políticos capazes e sérios limitam-se a fazer o seu trabalho e pouco aparecem. São obviamente odiados pelos outros que tudo fazem para os prejudicar porque não são da mesma igualha. A imprensa também não lhes perdoa e ignora-os ou então, quando já os não pode ignorar, faz-lhes a vida negra logo dizendo que são «incompetentes» ou que não têm «perfil» para o cargo. Só lhes resta pedir a demissão e sair com a tranquilidade que puderem.
6 Sugiro, com a devida vénia, a leitura de um formidável artigo que circula nas redes sociais da autoria do professor Pedro Santa Clara onde ficciona a vida de um político português desde que, ainda jovem, percebeu que não lhe apetecia trabalhar e tudo fez por isso e com o maior sucesso nos cargos que ocupou. Vai terminar a sua bem aventurada vida política feita na aldrabice e na displicência, à espera da condecoração, com a publicação de umas memórias intituladas «Servir Portugal» que irão aparecer em breve nos escaparates. É um retrato fantástico do que é o actual político nacional e ainda por cima escrito em português, coisa rara nos dias que correm, neste país onde qualquer dactilógrafa esquerdista sem quaisquer recursos literários logo é arvorada a «escritora» e onde qualquer jornalista activista de cultura menos que média é considerado/a «intelectual».
Estamos bem entregues. A solução é ignorar. É uma questão de higiene mental. E quem tiver de andar nas franjas da política, o melhor é arregaçar as calças.