(c) 2023 am|dev

(A) :: Para lá de Luís Neves

Para lá de Luís Neves

O que o ministro da Administração Interna, ex-director da Polícia Judiciária, e toda a trupe que o defende dizem é que o próprio Estado reconhece não cumprir a lei. Nunca fora dito tão frontalmente.

Nuno Gonçalo Poças
text

Não era nada mau sinal se todos os contornos do caso de Luís Neves fossem apenas mais um caso de alguém que, chegando a ministro, visse mediaticamente destapadas as suas falhas de homem médio que, à semelhança de todos os portugueses, tem de viver enquanto se tenta desenlear da tenebrosa rede de legislação, burocracia e imobilismo públicos. Infelizmente, não é bem disso que se trata. Luís Neves não é só ministro da Administração Interna, o homem forte da segurança do País, tutela das polícias. É também ex-director da Polícia Judiciária. E aquilo que nos foi dado a conhecer, em primeiro lugar pela imprensa, e depois pelo próprio, na derradeira conferência de imprensa em que reconheceu as suas falhas, mas que, enfim, elas foram feitas em prol de um bem maior, é, segundo o que me é permitido concluir, o fatal desmascaramento de como o próprio Estado faz as coisas: informalmente, ilegalmente, despudoradamente. A consequência evidente e final de tudo isto não pode ser outra: o ministro da Administração Interna, ex-director da Polícia Judiciária, e toda a trupe que o defendeu e defende neste caso que o envolve, o que estão a dizer ao País é isto: o Estado deixou de ter legitimidade moral para exigir o cumprimento da lei aos seus cidadãos, na medida em que é o próprio Estado que reconhece não cumprir a lei. Não é que isto não fosse sabido. É que nunca tinha sido tão frontalmente assumido como agora.

O problema não é Luís Neves, ainda assim. O desastre ultrapassa-o de sobremaneira. O problema é que Luís Neves nos fez olhar para o sistema de janelas e portas quase escancaradas, e pode ajudar a compreender as razões que têm levado tantos portugueses a traduzir em votos a sua raiva contra esse mesmo sistema que parece cada vez mais de uns e não de todos. Sejamos francos, não existe em Portugal um sentimento colectivo de cumprimento da lei, e ele existirá menos ainda quanto maior for a confusão legislativa em que vivemos. O que nos assusta não é a corrupção, mesmo que tantos vociferem contra ela. É, antes, o facto de o sistema se ter democratizado – no sentido em que vive dos seus concursos públicos, da sua transparência, do seu escrutínio judicial, da igualdade das condições de acesso a isto ou àquilo – mas apenas para os de baixo, e de se ter mantido opaco, feito de cunhas e favores mútuos, para os de cima.

O Estado Novo sobreviveu décadas sem sobressaltos de maior graças a mecanismos de favores que chegavam a toda a gente. Um analfabeto filho de alguém que tinha um primo que se tinha feito chefe de finanças, podia facilmente tornar-se funcionário público de um dia para o outro. Esse mundo só terminou para as classes com menos acesso aos patamares mais cimeiros da Administração Pública ou dos centros de poder do Estado – que são, na verdade, os grandes centros de poder do País.

Os partidos colonizaram boa parte dessa camada intermédia do poder. E quando não a conseguem colonizar, elas não deixam de estar ocupadas e fechadas em círculo, imunes às decisões dos Governos, às vontades dos ministros. Os mecanismos de intermediação elitizaram-se, no fundo. E esta oligarquia burocrática não serve o poder político democraticamente legitimado: condiciona-o, com o beneplácito da comunicação social, que influencia as percepções públicas e as, como se diz agora, narrativas. A burocracia já não é um mero instrumento da democracia; tornou-se um centro autónomo de poder que vive praeter legem, sem controlo, sem escrutínio, sem fiscalização, como num sub-mundo de onde se destroem ministros e onde se sobrevive na inércia frentista de um País inteiro. Isto seria literário, se não fosse dramático. Mediaticamente, vivemos obcecados com quem ganha as eleições, quem forma Governo e com quem, discutimos sondagens, comentamos debates, como se o destino do País dependesse disso para alguma coisa. É uma ilusão confortável a nossa, quando os poderes reais não vão a votos e nós não os discutimos. Se isto não é um regime apodrecido, não sei o que será – e não serve de consolo o facto de não ser um problema exclusivamente português, mas europeu.

Algumas almas poderão acenar com a ideia de que alimentar a polémica é destruir a democracia. Não creio que a democracia, neste momento, careça de ajudas à sua erosão. A menos que acreditem mesmo que a democracia é isto, um sistema entre sub-mundos de opacidades e gente mediana. Terei de discordar também. A democracia existe para impedir a tirania, não para consagrar a mediocridade. Mas neste tempo, em que a democracia vai sendo cada vez menos capaz de ser ela mesmo não tirânica, tudo parece susceptível de ser posto em causa. E é por isso que o caso de Luís Neves nos podia levar a uma outra conversa que, eventualmente, ninguém quererá ter. É que, em democracia, o titular da soberania ainda é o povo. Mas talvez tenhamos chegado a um novo tempo em que se deve voltar a perguntar que qualidades devem ter aqueles que exercem o poder. Talvez o século XXI tenha de redescobrir uma palavra amaldiçoada e injustamente condenada: a aristocracia. Não do sangue, dos títulos ou da riqueza, não como uma elite fechada, mas permanentemente aberta, onde qualquer cidadão possa entrar e de onde qualquer um possa sair quando tal se justificar. Entre a implosão do Estado, que é necessária, e a reconfiguração do sistema e do regime políticos em que vivemos, não me parece má ideia abrir a discussão sem preconceitos.